Ele aproximou-se e colocou as mãos sobre os seus ombros. Um violento tremor, apoderou-se do corpo dela, como se tivesse sido vítima de um choque elétrico. Ele sentiu-o, como sentiu a reação do seu próprio corpo. Levantou-lhe o queixo, e os olhos quase negros mergulharam nos dela. Daniela sentiu que ele a ia beijar, e mentalmente amaldiçoou-se, por não sentir forças para o repelir. Teve vontade de cerrar os olhos, para esperar o inevitável, mas aguentou firme o olhar intenso, dele.
Durante um longo minuto, que lhe pareceram horas, mantiveram-se
assim. Depois subitamente largou-a, meteu as mãos nos bolsos, das calças e
saiu.
Ela deixou-se cair na cadeira mais próxima, consciente de
que não tinha forças nas pernas para se manter de pé.
Passou a mão tremente pela testa. Tinha consciência de
que desejara que ele a beijasse. Mais, desejara até muito mais que um beijo. E
era apenas a segunda vez que se viam. A culpa era da abstinência, a que se
sujeitara desde que se divorciara três anos atrás. Raios, porque havia o irmão
de tê-la metido em tal situação?
Não podia ter arranjado um sócio medíocre e
insignificante? Tinha que ser logo a reincarnação do próprio Apolo? Como é que podiam
continuar uma relação profissional dali para a frente?
O som do telemóvel afastou-a dos seus pensamentos. Era
Sandra a sua melhor amiga. Tentando recompor-se atendeu.
- Dani? Não esqueceste o nosso jantar hoje, pois não?
- Não, claro que não. Vou já sair. Encontramo-nos no restaurante
às oito?
-Foi o que combinamos. A Teresa telefonou a avisar que
não pode vir. A filha está com febre. De resto, excetuando o Luís, que está em
Londres, estão todos.
-Até logo então. Preciso de ir.
-Até logo.
Saiu quase a correr. Tinha esquecido o jantar de convívio
que os antigos colegas da faculdade tinham organizado para aquela noite. E faltavam
menos de duas horas. Conduziu tão rápido quanto o trânsito lhe permitiu até
casa. Tomou um duche, escolheu um vestido preto, subido à frente, com uma espécie
de gola em pedraria, que dispensava o uso de qualquer joia, mas que lhe deixava as costas completamente nuas, acentuou o
verde dos seus olhos com uma ligeira maquilhagem e deixou livres e soltos os
belos cabelos castanho escuros.
Olhou-se ao espelho e sorriu para a imagem que ele lhe
devolvia.
Não se parecia nem um pouco com a empresária de horas
atrás.
Era uma mulher muito bonita, na plenitude da vida, e
embora tivesse decidido que nunca mais confiaria em homem algum, isso não era
motivo para não gostar de se arranjar.
Dez minutos antes das oito, estacionava no parque do
restaurante e encontrava-se com alguns dos colegas que já aí esperavam pelos
restantes.
Foram abraços e beijos distribuídos com alegria entre os
que estavam, e os que iam chegando, num ambiente de sã camaradagem.
