Seguidores

Mostrar mensagens com a etiqueta revolução. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta revolução. Mostrar todas as mensagens

24.7.24

PIEDADE - UMA MULHER DE OUTROS TEMPOS

REEDIÇÃO


                                                        

Quando Piedade soube que estava de novo grávida, pensou que o mundo lhe caía em cima. Corria o mês de Setembro de 1917, e o mundo agonizava entre uma guerra que durava já há três anos, e a gestação de uma revolução prestes a nascer na União Soviética. Nessa altura os Alemães tinham-se apossado de Riga, e a Itália fazia frente ao império austro-húngaro perto de Piave, onde se refugiaram no mês seguinte, e de onde conseguiram por fim rechaçar as tropas inimigas. 

O reino Unido lutava comandado por esse extraordinário coronel que foi T. E. Lawrence, na Palestina, e com o auxílio dos Árabes, aproximava-se de Jerusalém. Os Americanos tinham entrado na guerra e o Brasil preparava-se para declarar guerra à Alemanha e entrar no conflito ao lado dos Aliados.
 
O Corpo Expedicionário Português, combatia na Flandres ao lado dos Aliados e os jovens portugueses embarcavam para as colónias portuguesas tentando defendê-las de algum possível ataque  do inimigo.

 Em Portugal, acontecia a quinta  aparição em Fátima, envolta pelo controvérsia, entre os que acreditavam nos videntes e se deslocavam religiosamente à Cova de Iria, e aqueles que juravam que as aparições, mais não eram do que uma manobra do governo, para desviar a atenção dos Portugueses, que mal preparados para a guerra sofriam pesadas baixas, e ainda dos constantes embarques de jovens para as colónias portuguesas, duas situações que sangravam a Pátria da sua juventude masculina. 

Mas tudo isto passava ao lado de Piedade, uma ignorante mulher, do povo, a viver numa aldeia do interior norte de Portugal,  que nada  sabia, nem sonhava, do que se passava por esse mundo de Cristo. Ela nada conhecia para além da sua pequena casa, numa aldeia encravada entre montes, onde habitava com os filhos, tendo por companhia constante a fome e a miséria. O companheiro partira para o Brasil em busca de uma vida melhor e nunca mais dera notícias. Ela nem sabia se era vivo ou morto. Com ela ficaram os dois filhos, uma menina de dois anos e um rapazito, recém-nascido e muito enfezado, a quem ninguém profetizava uma vida 
longa.
 
Sem emprego, Piedade, percorria as poucas casas da aldeia e de outras aldeias vizinhas, oferecendo-se para trabalhar, na lida da casa, ou no campo, cujos trabalhos não tinham para ela segredos. Meses antes, ela conhecera um homem de uma aldeia vizinha, viúvo, com alguns campos, e que lhe prometera, ajuda para criar os dois filhos em troca de “certos favores”. 
Piedade não sabia nada de métodos anticoncecionais.
 
A falar verdade ela se juntara com o pai dos filhos com apenas dezasseis anos quando a mãe morrera. O pai nunca o conhecera. A mãe nunca lhe falara sobre as coisas da vida. Quando Piedade se juntou com o Joaquim, não foi por amor. Amor era um luxo a que os pobres não chegavam.

 Foi uma espécie de troca. Ele ajudou-a a pagar o funeral da mãe, e ela pagou-lhe com a sua virgindade. Depois, foi ficando por lá, punha comida na mesa, pagava a renda da casa, e ela satisfazia-lhe os apetites sexuais. Que a falar verdade, duravam o tempo necessário para ele se satisfazer. Piedade “embuchou” uma vez e as despesas cresceram. Quando “embuchou” a segunda vez, Joaquim disse que o primo que estava no Brasil lhe mandara uma carta de chamada, que ia embarcar e quando pudesse a mandava buscar e aos filhos.

 Joaquim terá ido mesmo para o Brasil? Quem sabe, se partiu ou se apenas se quis livrar de responsabilidades e despesas. A verdade é que estivesse onde estivesse, nunca mais lhe deu notícias.

 Com duas crianças pequenas, Piedade arregaçou as mangas e foi à luta. Mas a vida era muito difícil, o trabalho no campo bem duro, e mal pago. Ninguém da atual geração, terá uma noção exata do que era a vida em Portugal na primeira metade do século vinte. Um dia inteiro, não chegaria para contar as vezes que ficava sem comer, para dar de comer aos filhos.
 
Por isso aceitou a ajuda do lavrador, para quem trabalhava. Era  viúvo e esse facto dava mais coragem a Piedade. Ela não seria capaz de estragar o casamento de ninguém, E Alberto parecia sincero e bom homem. Por algum tempo ela pode dar aos filhos uma alimentação aos filhos como eles nunca conheceram na sua curta vida, porém quando Alberto soube que ela estava grávida, simplesmente a pôs na rua com os dois filhos e com a indicação de que nunca mais lhe aparecesse na frente. Ela chorou tudo o que tinha a chorar e depois recomeçou a jornada de porta em porta, procurando trabalho. O seu ar franzino não mostrava a força de que aquela mulher era dotada.

 Em Abril de 1918, poucos dias depois do desaire português, na Batalha de La Lys, nasceu o terceiro filho de Piedade. Era um rapazinho pequeno e franzino,  mas saudável. 

Para criar os três filhos, Piedade trabalhou no campo, até deixar de sentir as costas, de tanta dor, lavou roupa no rio até as mãos sangrarem, deitou com a fome, levantou com a miséria, mas não chorou que as lágrimas tinham acabado há muito tempo. 
Um dia, depois que os filhos emigraram em busca de uma vida melhor, deixou-se dormir, e nunca mais acordou.



Fim

13.10.18

PIEDADE - UMA MULHER DE OUTROS TEMPOS



                                                        

Quando Piedade soube que estava de novo grávida, pensou que o mundo lhe caía em cima. Corria o mês de Setembro de 1917, e o mundo agonizava entre uma guerra que durava já há três anos, e a gestação de uma revolução prestes a nascer na União Soviética. Nessa altura os Alemães tinham-se apossado de Riga, e a Itália fazia frente ao império austro-húngaro perto de Piave, onde se refugiaram no mês seguinte, e de onde conseguiram por fim rechaçar as tropas inimigas. O reino Unido lutava comandado por esse extraordinário coronel que foi T. E. Lawrence, na Palestina, e com o auxílio dos Árabes, aproximava-se de Jerusalém. Os Americanos tinham entrado na guerra e o Brasil preparava-se para declarar guerra à Alemanha e entrar no conflito ao lado dos Aliados. O Corpo Expedicionário Português, combatia na Flandres ao lado dos Aliados e os jovens portugueses embarcavam para as colónias portuguesas tentando defendê-las de algum possível ataque  do inimigo. Em Portugal, acontecia a quinta  aparição em Fátima, envolta pelo controvérsia, entre os que acreditavam nos videntes e se deslocavam religiosamente à Cova de Iria, e aqueles que juravam que as aparições, mais não eram do que uma manobra do governo, para desviar a atenção dos Portugueses, que mal preparados para a guerra sofriam pesadas baixas, e ainda dos constantes embarques de jovens para as colónias portuguesas, duas situações que sangravam a Pátria da sua juventude masculina. 
Mas tudo isto passava ao lado de Piedade, uma ignorante mulher, duma aldeia do interior norte de Portugal,  que nada sabia do que se passava por esse mundo de Cristo. Ela nada conhecia para além da sua pequena casa, numa aldeia encravada entre montes, onde habitava com os filhos, tendo por companhia constante a fome e a miséria.O companheiro partira para o Brasil em busca de uma vida melhor e nunca mais dera notícias. Ela nem sabia se era vivo ou morto. Com ela ficaram os dois filhos, uma menina de dois anos e um rapazito, recém-nascido e muito enfezado, a quem ninguém profetizava uma vida longa. Sem emprego, Piedade, percorria as poucas casas da aldeia e de outras aldeias vizinhas, oferecendo-se para trabalhar, na lida da casa, ou no campo, cujos trabalhos não tinham para ela segredos. Meses antes, ela conhecera um homem de uma aldeia vizinha, solteiro, com alguns campos, e que lhe prometera, ajuda para criar os dois filhos em troca de “certos favores”. Piedade não sabia nada de métodos anticoncecionais.
 A falar verdade ela se juntara com o pai dos filhos com apenas dezasseis anos quando a mãe morrera. O pai nunca o conhecera. A mãe nunca lhe falara sobre as coisas da vida. Quando Piedade se juntou com o Joaquim, não foi por amor. Amor era um luxo a que os pobres não chegavam. Foi uma espécie de troca. Ele ajudou-a a pagar o funeral da mãe, e ela pagou-lhe com a sua virgindade. Depois, foi ficando por lá, punha comida na mesa, pagava a renda da casa, e ela satisfazia-lhe os apetites sexuais. Que a falar verdade, duravam o tempo necessário para ele se satisfazer. Piedade “embuchou” uma vez e as despesas cresceram. Quando “embuchou” a segunda vez, Joaquim disse que o primo que estava no Brasil lhe mandara uma carta de chamada, que ia embarcar e quando pudesse a mandava buscar e aos filhos. Joaquim terá ido mesmo para o Brasil? Quem sabe, se partiu ou se apenas se quis livrar de responsabilidades e despesas. A verdade é que estivesse onde estivesse, nunca mais lhe deu notícias.
 Com duas crianças pequenas, Piedade arregaçou as mangas e foi à luta. Mas a vida era muito difícil, o trabalho no campo bem duro, e mal pago. Ninguém da atual geração, terá uma noção exata do que era a vida em Portugal na primeira metade do século vinte. Um dia inteiro, não chegaria para contar as vezes que ficava sem comer, para dar de comer aos filhos.
 Por isso aceitou a ajuda do lavrador, para quem trabalhava. Era  viúvo. Esse facto dava mais coragem a Piedade. Ela não seria capaz de estragar o casamento de ninguém, E Alberto parecia sincero e bom homem. “As aparências iludem” diz o povo e com razão. Quando o homem soube que ela estava grávida, simplesmente a pôs na rua com os dois filhos e com a indicação de que nunca mais lhe aparecesse na frente. Ela chorou tudo o que tinha a chorar e depois recomeçou a jornada de porta em porta, procurando trabalho. O seu ar franzino não mostrava a força de que aquela mulher era dotada. Em Abril de 1918, poucos dias depois do desaire português, na Batalha de La Lys, nasceu o terceiro filho de Piedade. Era um rapazinho pequeno e franzino,  mas saudável. 
Para criar os três filhos, Piedade trabalhou no campo, até deixar de sentir as costas, de tanta dor, lavou roupa no rio até as mãos sangrarem, deitou com a fome, levantou com a miséria, mas não chorou que as lágrimas tinham acabado há muito tempo. 
Um dia, depois que os filhos emigraram em busca de uma vida melhor, deixou-se dormir, e nunca mais acordou.



Fim

 Maria Elvira Carvalho




11.7.17

ROSA - PARTE XV




Naquela manhã do dia 25 de Abril de 74, Rosa olhava-se no espelho e não se reconhecia. Apesar de não ter ainda cinquenta anos, Rosa estava cada dia mais velha, a face enrugada, os cabelos embranquecidos, o corpo magro e alquebrado, resultado de ser toda a vida, saco de pancada da própria vida. Pensava que já não tinha forças para se aguentar muito mais tempo. A sua família tinha-se desagregado.
Do marido, não sabia há muito, talvez estivesse preso, ou, quem sabe, tivesse morrido em qualquer prisão. As filhas casaram e embora não vivessem longe, estavam cada dia mais desligadas da casa materna, divididas entre o trabalho, o cuidarem da casa e dos filhos.
Dos dois rapazes mais novos, um conseguiu realizar o sonho de ser fuzileiro e encontrava-se num destacamento no Lungué-Bungo, no leste de Angola, enchendo de saudade e preocupação o seu coração de mãe. O outro, que era contra a guerra, fugira de salto para a França. Restava-lhe em casa um filho, cada dia mais doente, e uma filha adolescente.
Sacudiu a cabeça, como se quisesse abandonar todos os seus pesares, e dirigiu-se a casa do Sr. Doutor, onde ultimamente trabalhava a dias, sem sequer sonhar que no seu País estalara uma revolução que ia mudar toda a sua vida. Ela não sabia, mas a sua família não era muito diferente da maioria das famílias portuguesas pois, nessa altura, o País via-se sangrado da sua juventude. Uns partiam para a guerra do Ultramar, sem  nunca saber se voltavam, ou ficavam por lá, vítimas de uma mina ou de alguma bala emboscada. Outros fugiam para não serem obrigados a partir para uma guerra que não queriam nem entendiam.
Foi com surpresa e medo que Rosa ouviu da boca da patroa, a notícia da Revolução. Medo porque a "doutora"- era assim que ela gostava de ser tratada, embora o médico fosse o marido - lhe deu a entender que a revolução era muito má para o País e para eles, patrões, que talvez não pudessem continuar a dar-lhe trabalho. Rosa ficou muito preocupada. Se ficasse sem trabalho, como ia pôr comida na mesa? Mas quando chegou a casa, o filho explicou-lhe o que significava a revolução de uma maneira diferente. Falou-lhe do fim da guerra colonial, da abertura das prisões, do fim da PIDE, e do sonho dum País mais igualitário. E o seu coração sofrido encheu-se de esperança.
Dois dias mais tarde, quando Rosa chegou a casa, no fim de mais um dia de trabalho, teve uma grande surpresa ao encontrar o seu João. Muito magro, o cabelo todo branco e o ar macilento, em nada se parecia com o homem com quem casara. Apenas o brilho nos olhos encovados, lhe lembrava o João de antigamente. Apesar da alegria do reencontro, Rosa estava preocupada com a saúde do marido. E tinha razão, porque se ele recuperava aos poucos das mazelas físicas,  as psicológicas continuariam a persegui-lo durante muitos anos.
Dias depois, Rosa e João comemoravam pela primeira vez na sua vida o 1º de Maio em liberdade. E dois meses depois, podiam abraçar o filho António, que regressara da França, ao saber que o novo governo estava a negociar a independência das colónias e que, por isso, não teria que ir para a guerra.


Continua

23.5.16

MANEL DA LENHA - PARTE LXXV

                                   A rendição da PIDE-DGS. Foto de Alfredo Cunha

 Finalmente a Junta de Salvação Nacional foi aprovada, tendo como Presidente da República, o General Spínola. Esta decisão ia contra o que o MFA, tinha decidido anteriormente, pois quando delinearam o golpe, escolheram para Presidente o General Costa Gomes.
Perto da meia-noite, são aprovados, os primeiros decretos lei, embora só no dia seguinte perto das nove e meia, a Marinha, apoiada por uma força do Regimento de Cavalaria 3, tenha obtido a rendição de Silva Pais, o dirigente da PIDE-DGS.
Talvez tenha sido o dia mais longo, da história de Portugal, mas fora apesar disso um dia de extrema felicidade para o povo, pois a revolução tinha vencido o regime totalitário e repressivo que vigorava há quase 50 anos, sem deixar que os opositores se organizassem, e dividissem o país dando origem a uma guerra civil.   
Apesar dos quatro mortos na noite anterior pela sinistra polícia política, o povo estava em festa por todo o país. Exigia-se o fim das guerras nas colónias, embora ninguém soubesse muito bem como iria acabar.
Para o Movimento das Forças Armadas e Junta de Salvação Nacional ia começar agora um novo trabalho, por ventura mais árduo do que a preparação da revolução.
No dia seguinte Sexta-feira, Manuel foi chamado ao escritório, e foi-lhe comunicado que a filha ia telefonar dentro de minutos, por isso era para ele aguardar ali pelo telefonema. O pobre do Manuel ficou a tremer. Que se passaria para a filha telefonar de Luanda? Teria acontecido alguma coisa com o marido? Não teve muito tempo para conjecturas, pois logo de seguida a filha telefonou.
Disse que estavam bem, não podia estar muito tempo ao telefone, as chamadas eram muito caras, queria saber se estavam todos bem, e se a revolução era séria, se o regime tinha mesmo caído.
Ele confirmou e logo de seguida a filha despediu-se mandando um abraço para a família e desligou.
Quando ele saiu do escritório, já a mulher estava a chegar, esbaforida com medo de alguma má notícia. É que na Seca, sempre se utilizou o sistema de chamar o trabalhador ao escritório, por um altifalante. Faziam-no uma vez e repetiam-no mais duas vezes. De modo que todos os trabalhadores ouviam, e quase sempre quando tal acontecia, as notícias não eram boas.
O Manuel contou à mulher o que se passava, e ambos retomaram o seu trabalho.

12.5.16

MANEL DA LENHA - PARTE LXVIII

                             Foto de Alfredo Cunha

Ele nem se atreve a ler à mulher a última parte da carta, e pede ao filhos que nada lhe digam por enquanto.
Nesse mesmo dia, Tomás e Caetano almoçam em Belém com os presidentes da Assembleia Nacional, do Supremo Tribunal de Justiça, e outras individualidades do regime.
Três dias depois, realiza-se o último Conselho de Ministros de Caetano. Enquanto isso no regimento de engenharia da Pontinha,  Otelo, Jaime Neves e Garcia dos Santos, ultimam os preparativos, para a instalação do posto de comando do golpe de estado.
No dia 24 às 22 horas, Tomás inicia aquela que seria a sua última visita oficial à Feira das Indústrias. À mesma hora, Otelo chegava ao regimento de Engenharia 1 na Pontinha, e verifica os últimos pormenores. Faltavam 5 minutos para as 23 horas, quando os Emissores Associados de Lisboa transmitem a senha para o desencadear do golpe. E depois do adeus, de Paulo de Carvalho.
O relógio despertou um pouco antes das seis e meia, como todos os dias em casa do Manuel. A mulher saltou da cama e dirigiu-se à cozinha para acender o esquentador. foi à casa de banho e procedeu à sua higiene, saindo de seguida para dar lugar à filha que entrou acompanhada do seu pequeno transistor, que ligava mal se levantava. Enquanto a filha tomava o seu banho, Gravelina começou a preparar os pequenos almoços, o marido e o filho não tardariam a levantar-se. Quando a filha já despachada entrou na cozinha , estava a dar no rádio o sinal horário das sete. E em vez das notícias, ouviu-se apenas um comunicado, pedindo à população para se manter em casa e aguardar serenamente novas notícias.  A filha comentou com a mãe, que alguma coisa se passaria em Lisboa, já que desde que se levantara apenas ouvia música revolucionária e marchas militares. E depois daquele comunicado, ela não iria trabalhar nesse dia.
Pouco depois, a família reunida à mesa, todos especulavam sobre o que se estaria a passar.
Eles não sabiam que durante a noite, os militares saíram para a rua, e que aquela hora decorria um golpe de estado que visava derrubar o governo




Nota  
Há 8 dias que estou com grandes dificuldades  no Sexta. Umas vezes não consigo entrar nos vossos blogues,  Outras consigo entrar e não consigo comentar, chego a levar 2 minutos à espera de abrir uma página. Neste momento estou com dificuldades até para aceder às mensagens que pretendo publicar. Não sei que se passa. Peço a vossa compreensão, visitar-vos-ei e comentarei sempre que possível. 

9.5.16

MANEL DA LENHA - PARTE LXVI




A 9 de Março, é decretado estado de prevenção rigorosa em Lisboa, que se estende por três dias. Enquanto isso as forças militares e políticas movimentam-se em sentido contrário, às decisões governamentais.
Dias depois reúne-se em S. Bento a "brigada do reumático". À cerimónia, faltam os chefes militares mais influentes, entre eles, Costa Gomes, Spínola e Silvério Marques. Em consequência, Marcelo demite Costa Gomes e Spínola, e faz mais uma remodelação do governo.
A 16 desse mesmo mês, dá-se o golpe das Caldas. O Regimento de Infantaria 5 subleva-se e sai para a rua, numa tentativa de fazer a revolução. Esperava que outros quartéis em todo o país o seguissem, mas isso não aconteceu. Sem hipótese acabam por se render ao brigadeiro Serrano, segundo comandante da região militar de Tomar. Duzentos militares foram presos, mas a revolução não fora debelada. Fora apenas adiada. Com o tradicional humor português, contava-se por todo o país,  dias depois.
"Lisboa ainda é virgem. O das Caldas não conseguiu entrar"
No final do mês, Marcelo vai ao estádio José Alvalade, assistir ao Sporting - Benfica, e numa impressionante orquestração é intensamente ovacionado. E nesse mesmo dia,  após os incidente no Instituto Superior de Economia, a escola é encerrada.
Na Seca, a safra já terminara. Apesar de haver cerca de metade do pessoal de outrora, ela acabara mais cedo. E isso devia-se a dois factos. O Inverno não fora tão rigoroso como em outros anos, e as máquinas introduzidas.  Na Seca estão agora além do Manel, o pessoal residente na Seca. O armazém está encerrado a maior parte do tempo, e o Manuel junta-se ao restante pessoal, na limpeza e pintura dos grandes armazéns, no roçar das ervas daninhas sob as mesas de arame, onde o bacalhau é estendido, na reparação dos arames partidos, e em tudo o que é necessário para que tudo esteja em ordem quando os navios voltarem. A pouca lenha que sobrou, já está toda transformada em cavacos, e Manuel vai ao armazém uma vez por semana carregar o carro de mão e abastecer as residências. Em Agosto virão as camionetas cheias de grossos troncos de árvores, cortados com aproximadamente um metro de comprimento, que ele terá de empilhar no armazém, para depois transformar em cavacos que alimentarão a seca durante a safra. Para esse trabalho, terá a ajuda da mulher, bem como das outras mulheres residentes na Seca. É uma autentica obra colocar toda a lenha em pilhas até ao tecto, que terão que ficar bem seguras, para não correr o risco de desabarem e ficar soterrado sob elas. Porque alguns dos troncos são bem retorcidos e de difícil encaixe, mas ele não consentia que mais ninguém os empilhasse, porque só confiava no seu trabalho. Assim ele fica no armazém, enquanto as mulheres transportam para dentro os troncos que ele empilha. Quando a pilha, atingia a sua altura, pouco mais de um metro e sessenta, começava outra. Quando a terceira atingia cerca de um metro, uma das mulheres ia para essa pilha, ele para a segunda, e começava a subir  a primeira da seguinte forma. As  mulheres que traziam os troncos para dentro,iam colocando-os na terceira pilha. A mulher que lá estava, ia apanhando-os e passando-os para a segunda pilha, onde o Manuel se encontrava. Este por sua vez, apanhava-os e colocava-os na primeira. Quando subia um bocado, mandava que fosse feita outra pilha, de modo a que os troncos fossem empilhados em escada, e que uma pilha nunca subisse muito sem o apoio da seguinte. 
Era trabalho moroso, e pesado, mas ele tinha que sentir segurança. E nunca teve qualquer acidente nos 44 anos que foi lenhador.

5.2.16

MANEL DA LENHA - PARTE I

Quando Piedade soube que estava de novo grávida, pensou que o mundo lhe caía em cima. Corria o mês de Setembro de 1917, e o mundo agonizava entre uma guerra mundial, que durava já há três anos, e uma revolução russa. Mas Piedade, uma ignorante mulher duma aldeia do interior, nada sabia o que se passava por esse mundo de Cristo.
O companheiro partira, há anos, para o Brasil em busca de uma vida melhor e nunca mais dera notícias. Ela nem sabia se era morto ou vivo. Quando ele partiu, já Piedade tinha dois filhos. Uma menina de dois anos e um rapazito, recém-nascido e muito enfezadinho, a quem ninguém profetizava uma vida longa.
Sem notícias do seu homem e sem trabalho, Piedade, percorria as poucas casas da aldeia e de outras aldeias vizinhas, oferecendo-se para trabalhar, na lida da casa, ou no campo, cujos trabalhos não tinham para ela segredos. Levar para casa ao fim do dia, comer para os filhos, era a sua única preocupação nos últimos cinco anos. Meses antes, ela conhecera um homem de uma aldeia vizinha, solteiro, com alguns campos, e que lhe prometera, ajuda para criar os filhos em troca de “certos favores”. Sem esperança de notícias do marido, e sentindo-se demasiado cansada, da luta diária para sustentar os dois filhos, Piedade pensou que aquela ajuda caía do céu.
Alberto parecia ser sincero e bom homem, e apesar de todos os desenganos da vida, Piedade, continuava a acreditar no ser humano. Mas quem vê caras, não vê corações, já lá diz o povo, e o povo tem a sabedoria que se aprende, com os muitos tombos da vida.
Durou pouco a melhoria da vida da pobre Piedade. Ela, nada sabia de métodos anticoncepcionais. E ficou grávida de novo. Quando o homem soube que ela estava grávida, simplesmente a pôs na rua com os filhos e com a indicação de que nunca mais lhe aparecesse na frente. Ela chorou tudo o que tinha a chorar e depois recomeçou a jornada de porta em porta, procurando trabalho. O seu ar franzino não mostrava a força de que aquela mulher era dotada. Em Abril de 1918, nasceu o terceiro filho de Piedade. Era um rapazinho pequeno e franzino, a lembrar João, o irmão, porém ao contrário deste era um menino saudável.


20.11.14

ROSA PARTE XV




Naquela manhã do dia 25 de Abril de 74, Rosa olhava-se no espelho e não se reconhecia. Apesar de não ter ainda 50 anos, Rosa estava cada dia mais velha, a face enrugada, os cabelos embranquecidos, o corpo magro e alquebrado, resultado de ser toda a vida, saco de pancada da própria vida. Pensava que já não tinha forças para se aguentar muito mais tempo. A sua família tinha-se desagregado.
Do marido, não sabia há muito, talvez estivesse preso, ou, quem sabe, tivesse morrido em qualquer prisão. As filhas casaram e embora não vivessem longe, estavam cada dia mais desligadas da casa materna, divididas entre o trabalho, o cuidarem da casa e dos filhos.
Dos dois rapazes mais novos, um conseguiu realizar o sonho de ser fuzileiro e encontrava-se num destacamento no Lungué-Bungo, no leste de Angola, enchendo de saudade e preocupação o seu coração de mãe. O outro, que era contra a guerra, fugira de salto para a França. Restava-lhe em casa um filho, cada dia mais doente, e uma filha adolescente.
Sacudiu a cabeça, como se quisesse abandonar todos os seus pesares, e dirigiu-se a casa do Sr. Doutor, onde ultimamente trabalhava a dias, sem sequer sonhar que no seu País estalara uma revolução que ia mudar toda a sua vida. Ela não sabia, mas a sua família não era muito diferente da maioria das famílias portuguesas pois, nessa altura, o País via-se sangrado da sua juventude. Uns partiam para a guerra do Ultramar, sem  nunca saber se voltavam, ou ficavam por lá, vítimas de uma mina ou de alguma bala emboscada. Outros fugiam para não serem obrigados a partir para uma guerra que não queriam nem entendiam.
Foi com surpresa e medo que Rosa ouviu da boca da patroa, a notícia da Revolução. Medo porque a "doutora"- era assim que ela gostava de ser tratada, embora o médico fosse o marido - lhe deu a entender que a revolução era muito má para o País e para eles, patrões, que talvez não pudessem continuar a dar-lhe trabalho. Rosa ficou muito preocupada. Se ficasse sem trabalho, como ia pôr comida na mesa? Mas quando chegou a casa, o filho explicou-lhe o que significava a revolução de uma maneira diferente. Falou-lhe do fim da guerra colonial, da abertura das prisões, do fim da P.I.D.E. e do sonho dum País mais igualitário. E o seu coração sofrido encheu-se de esperança.
Dois dias mais tarde, quando Rosa chegou a casa, no fim de mais um dia de trabalho, teve uma grande surpresa ao encontrar o seu João. Muito magro, o cabelo todo branco e o ar macilento, em nada se parecia com o homem com quem casara. Apenas o brilho nos olhos encovados, lhe lembrava o João de antigamente. Apesar da alegria do reencontro, Rosa estava preocupada com a saúde do marido. E tinha razão, porque se ele recuperava aos poucos as mazelas físicas,  as psicológicas continuariam a persegui-lo durante muitos anos.
Dias depois, Rosa e João comemoravam pela primeira vez na sua vida o 1º de Maio em liberdade. E dois meses depois, podiam abraçar o filho António, que regressara da França, ao saber que o novo governo estava a negociar a independência das colonias e que, por isso, não teria que ir para a guerra.


Continua




Para os amigos que já leram o conto, inicialmente ele terminava aqui. Como porém o final não me agradava muito, pois aparecia demasiado repentino, agora ele tem mais um capitulo. O próximo será o final

24.4.13

25 DE ABRIL 1974 VERSOS 25 DE ABRIL 2013




 VENHO CONTAR-TE ESTRANGEIRO


Venho contar-te estrangeiro
do meu país
Portugal
Aos teus olhos tão estranhos vou mostrar-te
as aldeias esquecidas de Trás-os-Montes
onde os campos raquíticos não dão pão
Terras, só terras, sem água, sem luz
sem escolas
sem homens
que já se cansaram da fome
herdada
desde longínquas gerações.

Venho contar-te estrangeiro
do meu país
Portugal.
Aos teus olhos velados da cegueira
das campanhas turísticas.
Aos teus olhos que erram pelas praias
banhadas de sol.
Venho contar-te estrangeiro
As horas de incerteza e de angústia
vividas pelo meu povo
que pela fome, o mar tornou seu escravo.
E...venho contar-te mais
desta terra onde nasci...
Onde os homens nascem
vivem
e morrem
sem consciência de terem vivido.
Terra de homens-escravos
do tempo
das máquinas
do dinheiro
da própria Vida.

Venho contar-te estrangeiro
do meu país
Portugal.
Deste país que já não é  só de poetas
porque um dia
um punhado de homens acordou
quebrou as amarras do medo e lutou.
Era Primavera e os cravos floriram.
Na terra dos homens-escravos,
a Revolução nasceu.
               
Hoje festejamos a data!  

E por isso hoje  
Venho falar-te estrangeiro
no desalento  que mata a esperança
no desemprego enraízado no meu país
onde o povo envelhece desiludido
olhando as pétalas secas dos cravos.

Hoje venho contar-te estrangeiro
Que há velhos abandonados
Em aldeias esquecidas
entregues à solidão
e às  “aves de rapina”.
E acaso sabes que há crianças
que vão para a escola mastigando a fome?
E  que pela fome e pelo desemprego
os homens do meu País
voltaram a ser homens-escravos
e a encontrar na emigração
A fuga para a sobrevivência.

Por isso hoje,
venho falar-te estrangeiro
da revolta
Que me rasga o peito  
E me obriga a gritar.

EU QUERO UM PORTUGAL MELHOR
PARA TODOS OS PORTUGUESES.

 Elvira Carvalho


ESTE POEMA (SE ISTO É UM POEMA) É ASSIM UMA ESPÉCIE DE 2 EM 1. A PRIMEIRA PARTE FOI ESCRITA POUCO DEPOIS DO 25 DE ABRIL DE 74, E PUBLICADO A PRIMEIRA VEZ NUMA REVISTA EM 76. A SEGUNDA FOI ESCRITA AGORA. PORQUE ME APETECIA ESCREVER ALGO RELATIVO AO MOMENTO, MAS POR OUTRO LADO TIVE PENA DE DESTRUIR O QUE ANTES TINHA ESCRITO. POR ISSO FICOU ASSIM.


BOM FERIADO