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21.1.22

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE III





Nuno, subiu ao terceiro piso, e encontrou o colega, João Santos observando as fichas das crianças que tinham estado a ser operadas nesse dia, e que vinham chegando depois de passarem pelo recobro.  Cumprimentaram-se, trocaram impressões sobre os casos mais graves e despediu-se. 

Retirou a bata que guardou no seu armário, e saiu, no momento em que o último menino, que tinha deixado no recobro, dava entrada na enfermaria. Reparou numa mulher que a meio do corredor, falava com a enfermeira, e pensou que talvez fosse a mãe do garoto. 

Ouviu que a enfermeira lhe dizia que tinha de sair, a hora das visitas já terminara há dez minutos. Dirigiu-se ao elevador, e premiu o botão de chamada, no momento em que a mulher se  despedia da enfermeira e se  aproximava. Havia qualquer coisa de familiar naquela mulher que o sobressaltou. As pesadas portas do elevador abriram-se. Nuno deu passagem à mulher, e entrou de seguida. 

Sentiu que ela o fitava com surpresa, e devolveu o olhar. Um calafrio percorreu-lhe o corpo, ao fitar os maravilhosos olhos azuis, os mesmos que o perseguiam há muitos  anos.  Ela levantou a mão para afastar do rosto uma madeixa rebelde que lhe caía para os olhos, e aquele movimento desencadeou  nele uma verdadeira revolução 
- Luísa Guerreiro? – perguntou
-Nuno Albuquerque! Tinha a certeza que eras tu.
Não se cumprimentaram como é habitual entre duas pessoas conhecidas que se reencontram.
O elevador parou no rés do chão e os dois apressaram-se a sair. O médico perguntou então:

-Que fazes aqui? Tens alguém hospitalizado?
- Vários alunos. E uma colega.
- Então, eras uma das professoras que seguiam no autocarro que sofreu o acidente?
-Sim. E tu és um dos médicos deste hospital? Julgava-te em África. Ou na Ásia. A última vez que soube de ti, estavas no Bangladesh .
- Isso foi há mais de dez anos. Depois disso fui para África, onde em dez anos trabalhei em alguns dos países mais pobres do mundo. E agora aqui estou.

- De passagem? – perguntou Luísa enquanto saiam do hospital.
- Não. Estou de volta. – respondeu ele com uma certa rudeza
- Desculpa, está ali um táxi, e o meu carro está no parque da escola. Despeço-me aqui.
Estendeu-lhe a mão tremente. Ele apertou-a com a mesma cordialidade que teria apertado a mão de alguém que acabasse de conhecer. Aparentemente a presença da mulher, não lhe causou qualquer emoção. A ela pelo contrário, apesar dos dezasseis anos que se tinham passado desde a última vez que se despediram,  a emoção apertava-lhe o peito e punha-lhe as pernas bambas.


25.10.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE XL





Tinham chegado ao hospital por volta das sete, e segundo lhes informaram, Tiago já estaria na sala de cirurgia. Já passava da meia-noite e ainda não sabiam de nada. Ricardo já por duas vezes tinha ido perguntar se havia notícias.
Nenhuma. Quando houvesse eles seriam informados.
Pouco depois das nove, Alfredo tinha ido ao hospital. Antónia tinha preparado umas sandes, e um termo com chá. Ricardo tentara que a jovem comesse mas ela recusara-se. Não conseguiria comer enquanto não soubesse que o irmão estava fora de perigo. Mas aceitara um pouco de chá.
 Chorara silenciosamente, durante horas. E a ele doía-lhe o peito de a ver chorar. Não sabia fazer mais nada do que abraçá-la e murmurar que estava tudo bem, mesmo que, a cada hora que passava, a sua fé fosse esmorecendo e a dúvida se começasse a instalar no seu coração. Por fim ela deixara de chorar. Tinha apoiado a cabeça no peito dele e fechara os olhos. Inicialmente  ele pensara que tinha adormecido, mas ao mais leve ruído, abria os olhos e vagueava o olhar pelo espaço.
Eram duas e vinte e cinco, quando um médico assomou à porta da sala de espera. Eles levantaram-se e quase correram para ele.
-Boa-noite, doutor. Somos os familiares de Tiago Mendes de Sá. Pode dar-nos alguma informação?
- Por favor, acalmem-se. Apesar dos percalços, a cirurgia foi um sucesso e o doente vai ser levado para a UTI onde será monitorizado nas próximas vinte e quatro horas.
Sem forças, Clara deixou-se cair numa cadeira enquanto Ricardo interrogava o médico.
- O que aconteceu doutor? Porque vai para a UTI e não para o recobro e quarto?.Ele vai salvar-se não vai?
- O paciente sofreu uma paragem cardíaca durante a cirurgia, e está em coma. A cirurgia em si, correu bem e estamos confiantes de que o paciente vai recuperar. A sua juventude e  a ausência de doenças cronicas, são primordiais para uma boa evolução do quadro clínico. 
- Obrigado, doutor. A minha esposa não poderia vê-lo, nem que fosse só por uns segundos? Ela está arrasada.
-Há procedimentos a tratar, na sua instalação. Podem vir comigo, vou ver se já pode vê-lo. Mas só um minuto e não pode tocá-lo. O senhor terá que esperar cá fora.
-Obrigado doutor.
Acompanharam-no pelo corredor até que ele disse:
-Esperem aqui.
Entrou e pouco depois saiu acompanhado de uma enfermeira.
-Pode entrar, mas lembre-se do que lhe disse. O senhor espera aqui.
Afastou-se rapidamente. Ricardo pensou que ele também devia estar cansado e desejoso de poder descansar.
Pouco depois, Clara estava de volta. As lágrimas corriam silenciosas pelo rosto lívido. Ele abraçou-a e apressou-se a retirá-la dali.
- Tão doloroso vê-lo ali, com todos aqueles tubos.
- Eu sei, querida,mas o pior já passou. E ele é jovem e forte, vai correr tudo bem, vais ver. 
Encaminhavam-se para o carro. Ele abriu a porta do veículo, ajudou-a a sentar-se e pôs-lhe o cinto. Depois deu a volta e sentando-se ao volante, pôs o carro em marcha. Estava desolado, e não só por Tiago, mas pelo sofrimento de Clara e por se sentir impotente para evitá-lo.
Chegaram a casa às três da manhã. Mal abriram a porta, Antónia e o marido saíram da sala. Estavam tão preocupados que não se tinham deitado.
Ricardo disse-lhes o que se passara no hospital e acrescentou que podiam ir dormir.
Depois, ajudou Clara a chegar ao quarto.
- Precisas de ajuda,- perguntou quando entraram no quarto. Ela abanou a cabeça em sinal negativo. – Então deixo-te só. Vou buscar um copo de leite morno. Não comes nada há muitas horas.
Virou as costas e saiu. Foi ao seu quarto despiu-se. Enfiou um pijama, e um roupão. Depois desceu a escada, aqueceu dois copos de leite que pôs numa bandeja e subiu ao quarto da jovem. Bateu levemente na porta e entrou. Pousou a bandeja na mesa-de-cabeceira.
-Vamos tomar um copo de leite. E não me digas que não queres, eu também vou tomar, vês, - disse apontando a bandeja.
Ela sentou-se na cama, e aceitou o copo de leite, que bebeu lentamente. Estendeu-lhe o copo vazio e deitou-se. Ele pegou na bandeja e encaminhava-se para a porta quando ela disse:
-Espera, não vás. Fica comigo!



Acabei de chegar. Gente venho cansada e encantada. Dentro de dias mostro-vos no blog imagens, parte do que vi e aprendi