Aconteceu três dias antes do aniversário de Tiago. Era
segunda-feira, dia cinco de Maio, quase seis horas da tarde. Clara e Antónia conversavam na cozinha, sobre
uma nova receita de cabrito, que a primeira queria fazer para o jantar de anos
do irmão. As crianças viam desenhos animados na sala e Ricardo, que tinha
subido ao quarto para trocar a camisa, que o filho sujara com um marcador,
descia as escadas, quando alguém bateu à porta. Pensando que Tiago se tinha
esquecido da chave, abriu a porta e franziu o sobrolho quando viu um polícia.
-Boa tarde.
-Boa tarde, senhor agente, - respondeu inquieto.
-É aqui que mora a senhora Clara Mendes de Sá?-
Perguntou o polícia
-É a minha esposa. Vou chamá-la.
- Espere, é melhor ser o senhor a dar-lhe a notícia.
Trata-se do irmão dela.
-Que aconteceu com o meu cunhado?- Perguntou sentindo um
aperto no peito.
- Houve um acidente. Um automobilista perdeu o
controlo do carro, despistou-se e foi colher as oito pessoas que estavam na
paragem do autocarro, provocando uma tragédia.
- Morreu? – Perguntou num fio de voz.
- Ele não, mas está ferido. Foi levado para o Hospital de
S. Francisco Xavier.
- Meu Deus! Muitíssimo obrigado.
Fechou a porta, e encostou-se nela tentando acalmar-se
e ganhar forças para contar a Clara o que tinha acontecido. Depois dirigiu-se à
cozinha.
- Clara preciso falar contigo, é urgente. Vem comigo, por favor.
A sua cara devia mostrar a sua preocupação, porque ela
o seguiu sem se atrever a contestar. Assim que entrou na biblioteca, ele fechou
a porta e disse, olhando-a:
- Há momentos veio aqui um agente da polícia. Vinha falar contigo mas fui eu que abri a porta. Deus sabe que não queria dar-te
esta notícia, mas…
- Meu Deus, o Tiago, ainda não chegou. Foi ele, não
foi Ricardo? O que aconteceu com o meu irmão? - Perguntou a chorar, agarrando-lhe
os braços, e abanando-o.
- Acalma-te querida. O Tiago, foi vítima de um acidente,
mas graças a Deus está vivo, foi levado para o hospital - disse abraçando-a.
Deixou-a chorar durante alguns minutos enquanto lhe
acariciava a cabeça em silêncio. Depois afastou-a dizendo.
-Pronto já chega, Vai lavar o rosto, enquanto eu falo
com a Antónia e lhe peço para dar o jantar às crianças e as deitar. Nós vamos
para o hospital, e podemos demorar.
Acompanhou-a à escada e depois foi falar com Antónia,
que embora consternada pela notícia lhe garantiu que podiam ir descansados. Ela e o
marido ficariam a noite inteira com as crianças se fosse preciso.
Meia hora mais tarde estavam no hospital. Ali os
informaram de que Tiago era um dos cinco sobreviventes, mas tinha sido gravemente ferido. Tinha sofrido contusões
várias, várias costelas fraturadas, com perfuração de pulmão, pelo que já estava no bloco operatório. Clara estava de rastos. Não fora o braço
forte do marido, segurando a sua cintura, e já teria caído, tal o tremor das suas
pernas.
- Por favor, poderíamos falar com o médico quando
terminar a cirurgia? Vamos aguardar aqui.
- Vou comunicar o vosso pedido, quando a cirurgia terminar.
Sentaram-se num canto da sala de espera. Clara não
parava de chorar, Ricardo tentava consola-la, embora ele próprio estivesse muito apreensivo. Gostava sinceramente do cunhado, e mentalmente pedia a Deus a
salvação do jovem.
- Não fiques assim, querida. O Tiago é jovem, vai
aguentar este mau momento.
- O Tiago é muito mais que um irmão. É como se fosse
meu filho.
-Eu sei disso. Mas quando ele recuperar, não vai gostar de te ver assim. Estás arrasada. Fecha os olhos e
tenta descansar um pouquinho. Eu estou aqui, não te esqueças.
Quando Ricardo estava em missões no estrangeiro,
especialmente em locais onde as condições de vida eram mais difíceis, sempre
pensava que nesses locais, os dias são mais longos e as horas têm muito mais
que sessenta minutos. Mas agora ali, esperando notícias do cunhado, chegava à
conclusão que não há lugar no mundo, por mais inóspito que esse local seja,
onde o tempo passe tão vagarosamente, como numa sala de espera do hospital, quando temos
alguém que amamos num bloco operatório e não sabemos o que está a acontecer.
Fiquem bem

