Deu a notícia nessa noite, no fim do jantar, explicando aos filhos, que deixando a vida militar, não mais se ausentaria de casa. A primeira reação delas, foi gritar e bater as palmas de alegria. Depois abraçaram-no e Ricardo sentiu um nó na garganta e os olhos húmidos. “Ultimamente estou muito emotivo”- pensou.
Também o cunhado o abraçou manifestando alegria.
Apenas Clara não se manifestou. Será que não tinha ficado feliz? Mas se fora
ela quem lho pedira quando um mês atrás ele estivera para desistir. Procurou os
seus olhos tentando entender, mas ela mantinha-os obstinadamente fixos na
carpete, como se nunca a tivesse visto antes.
Mais tarde seguiram a rotina de todos os dias ao
deitar as crianças e quando elas adormeceram, Clara fez menção de se recolher,
mas Ricardo segurou-lhe no braço dizendo:
-Ainda é cedo. Desce comigo. Tenho uma proposta séria
para te fazer.
Ela não respondeu. Limitou-se a descer as escadas e a
segui-lo à biblioteca. Aí chegados sentou-se no sofá, colocou as mãos no regaço
e aguardou.
- Parece que não ficaste feliz, com a minha saída do
exército. Incomodou-te?
- Como podes pensar assim? Acaso não te incentivei a
fazê-lo? Claro que fiquei feliz, por ti, pelas crianças e até por mim. Simplesmente já sou grandinha para pular de alegria. Aliás se era essa a conversa
séria que íamos ter, não estou interessada.
- Não precisas ser irónica. E não, não era sobre
isso que queria falar contigo, mas sobre a adoção das crianças.
- Adoção? – Perguntou surpreendida.
- Bom, penso que já falámos sobre a minha condição
financeira. Ainda que talvez não tenhas uma verdadeira noção dos meus bens, e
penses que tenho esta quinta e algum dinheiro. Não é assim. Grande parte da
minha fortuna já vem de um tataravô do ramo materno. Parece que esse meu antepassado foi um dos coronéis fazendeiros que fez fortuna com o cacau e o café no Brasil. As gerações seguintes, não fizeram mais do que gerir e aumentar o património. Eu mesmo fiquei abismado, quando aos trinta anos tomei posse dessa herança, pois foi essa a vontade expressa do meu avô. Parece que ele não confiava muito no meu pai, e como a filha morreu muito nova, os seus bens passariam para mim, mas apenas e só quando completasse trinta anos.
Até lá, ela era gerida por um grupo de gestores que por sua vez estariam a ser assessorados por uma firma de advogados, de sua inteira confiança. Esta quinta, eu já tinha herdado quando a minha avó morreu. O Francisco gere os meus bens, herdados do meu pai e da minha avó, tudo o resto, continua a ser gerido da mesma maneira, por aqueles em quem o meu avô confiava, e estende-se por participações em muitas empresas, na hotelaria, restauração, e indústria automóvel, e imobiliária.
Até lá, ela era gerida por um grupo de gestores que por sua vez estariam a ser assessorados por uma firma de advogados, de sua inteira confiança. Esta quinta, eu já tinha herdado quando a minha avó morreu. O Francisco gere os meus bens, herdados do meu pai e da minha avó, tudo o resto, continua a ser gerido da mesma maneira, por aqueles em quem o meu avô confiava, e estende-se por participações em muitas empresas, na hotelaria, restauração, e indústria automóvel, e imobiliária.
Não estou a dizer isto para te deslumbrar, nada disso,
o dinheiro para mim só é importante na medida em que me permita viver com um
certo desafogo, dar um bom futuro aos meus filhos, e ajudar algumas instituições. Tanto assim que resolvo deixar essa herança para os meus futuros herdeiros e não retirei dela um centimo.
Porém esse
mesmo património, que um dia será dos meus filhos, pode tornar as crianças
vítimas de gente ambiciosa e sem escrúpulos, pois se me acontecer alguma coisa, quem ficar com a sua guarda, ficará com acesso aos seus
bens até à maioridade, e nem mesmo tu com todo o teu amor poderias fazer nada. Perante
a lei, uma madrasta, não tem força, se em disputa com outros familiares de
sangue, mais ou menos chegados. Os meus receios prendem-se principalmente com
Bernardo, pois a família de Marisa não é flor que se cheire, e embora os seus pais já tenham morrido, ela ainda tem dois irmãos e sobrinhos, e há gente que por
dinheiro é capaz de tudo.
Se os adotares, passarás a ser legalmente a mãe deles com todos os direitos e deveres que isso acarreta. Entendes?
- Sim. E é evidente que quero adotá-los. No meu coração
eles já são meus filhos. Porém gostaria de te alertar para uma coisa. Supõe de
dentro de dois, três, cinco anos, sei lá, encontras alguém com quem te
entusiasmas e quebras o contrato, para resolveres o teu futuro com essa pessoa. Sabes que uma adoção não se pode anular?
- Isso nunca acontecerá. Os nossos destinos foram
ligados naquela igreja. Ainda que tu queiras sair no final do contrato, eles
serão para sempre os nossos filhos. Posso então dizer ao Francisco para avançar
com o processo de adoção?
-É claro que sim.
-Obrigado. Mas ainda tenho uma outra proposta para te
fazer. Já deu para perceber que gosto muito do teu irmão. E gostaria de
adotá-lo, de modo a torna-lo igualmente meu herdeiro. Ele seria oficialmente o irmão mais velho das crianças, uma mais-valia para eles, e uma ajuda para ti, no caso de me acontecer qualquer
coisa. Não que esteja a pensar morrer amanhã, mas é sempre bom acautelar o
futuro. Como vai fazer dezassete anos, é ele quem tem que aceitar ou não a
adoção, mas sei que ele te pedirá conselho e só fará o que decidires. O que
achas da minha proposta?
- Que é de uma enorme generosidade, e que deves pensar
bem nisso. Se o queres fazer que seja porque o coração to pede, e não por
interesses obscuros.
- Não me ofendas Clara! Que diabo de homem, pensas que
eu sou? Achas que era capaz de usar um truque tão baixo para te levar para a
cama?
Clara nunca o tinha visto tão zangado
-Desculpa. De modo algum quis ofender-te.
Agarrou-lhe no braço mas com um safanão, ele soltou-se
e saiu da sala, deixando-a sozinha.
O que vos parece?

