2.6.16

MANEL DA LENHA - PARTE LXXXI


O Argus, em Lisboa, numa cerimónia  da  bênção,  que ocorria sempre antes da partida para a campanha


Manuel tem 60 anos e passa mais tempo, trabalhando na manutenção das instalações,  ou trabalhando no jardim do gerente, do que no armazém da lenha, pois apenas um dos grandes fogões das maltas está em actividade, e durante pouco tempo por ano.
Resta-lhe a recordação de outras épocas, e a memória de outros dias de trabalho na manutenção de navios como o Argus, que a precisar de grande modernização, quando já se adivinhava o fim da pesca à linha, não voltou à campanha em 1970, tendo sido vendido quatro anos mais tarde, a uma empresa canadiana, que o revendeu à norte-americana Windjammer com sede em Miami.
Agora em 1978, ancorado ali no rio, resta o Creoula, onde o Manuel e outros camaradas trabalhavam em pequenas reparações. Diz-se que vai ser vendido para o estado. A Secretaria de Estado das Pescas, apoiada pela Secretaria de Estado da Cultura, estão em negociações com o armador, para a sua compra, para transformá-lo em museu. Se for vendido logo partirá para o estaleiro onde se fará a transformação, e a visão dos quatro lugres fundeados no rio Coina, entre a Siderurgia e a Seca, será apenas uma recordação, guardada na memória de quem se habituou a vê-los ali durante décadas.
E a venda acontece efectivamente, dois anos depois em 1980. Porém ao ver o bom estado de conservação do navio, e analisar o espaço do mesmo, conclui que recuperado e modificado, será um óptimo navio para treino de mar. A meio desse mesmo ano, um dia à noite, a filha mais velha e o 
marido aparecem-lhe em casa com um bebé nos braços. 
Ele sabia que o casal se tinha inscrito para adoptar uma criança. Mas isso fora já alguns anos, e ele quase se tinha esquecido disso. Dizia-se que era muito difícil, e que era preciso esperar muito tempo. E agora ali estava o casal radiante com um bebé nos braços. Manuel ficou encantado, era um novo neto e este estava ali ao pé da porta. Não fazia esquecer a neta, mas preenchia um pouco a lacuna que ela  deixara quando fora viver para Lisboa.
Depois, quando souberam que o bebé poderia não ficar com eles, pois durante o ano de adaptação, o pai, poderia reorganizar a sua vida, e voltar a buscá-lo, ficaram temerosos. Era um medo que aumentava com o passar do tempo, à medida que se iam apaixonando cada vez mais pelo bebé.

10 comentários:

Edumanes disse...

Mais um bom capítulo, desse interessante conto do Manuel da Lenha, e do seu trabalho exercido na seca do bacalhau. Do qual faziam parte essas maravilhosas embarcações, as quais devido à evolução das modernas tecnologias já não navegam nas ondas do mar. Das que não foram destruídas algumas poderão ser visitadas nos museus, certamente!

Tenha uma boa noite amiga Elvira, um abraço,
Eduardo.

Rogerio G. V. Pereira disse...

A asneira do fim da frota pesqueira
e a introdução dos problemas da adopção
de uma só penada
é obra!

Que não se lhe tolha a mão!

Pedro Coimbra disse...

É um dos grandes dramas da minha vida - as minhas filhas estarem a crescer tão longe dos avós.
É a vida...

Francisco Manuel Carrajola Oliveira disse...

Ainda à poucos dias o Creoula esteve ancorado aqui em Sines.
Continuação de uma boa semana.

✿ chica disse...

Esse bebê poderia aplacar as saudades da filha.Torço pra que fiquem com ele! bjs, chica

Rosemildo Sales Furtado disse...

Amiga Elvira! Para mim a adoção tem que ser definitiva. Adotar e ficar na expectativa de perder acriança depois de um ano, eu não faria.

Infelizmente não estou tendo tempo para acompanhar (como antes) esta bela história do Manel da Lenha, pois estou dando uma geral na saúde, e, como sabes, o corre-corre é muito grande, mas assim que as coisas se normalizarem, atualizarei a leitura.

Obrigado pelas visitas e gentis comentários deixados nos nossos humildes espaços.

Abraços,

Furtado.

Crocheteando...momentos! disse...

Dramas de vida...vividos com intensidade e emoção!!!
Bj amigo

A Nossa Travessa disse...

Elisamiga

Foi o Ruiamigo da Fonte, esse "malandro" que me disse para vir aqui. Vim, vi e gostei (que o Júlio me desculpe o quase plágio...)



Olá!

Depois de enormes confusões, de muitas decepções de várias ocasiões de desespero e na alternativa de me suicidar, que não me pareceu muito saudável, decidi continuar – e por isso aqui estou.

Pensei tomar 25 gramas de raticida diluído em ácido sulfúrico, com umas pitadas de arsénico; simultaneamente cortaria os pulsos e atirava-me da ponte 25 de Abril e durante a viagem até chegar ao Tejo daria um tiro na mioleira; como complemento e para ficar seguro de que não o meu cadáver ficaria absolutamente falecido, e na mesma altura enforcava-me. Sair-me-ia caríssimo. Desisti.

Por isso repito o que venho dizendo muito empenhado (já nem tenho cotão nos bolsos): A Nossa Travessa está à disposição total, inultrapassável e inadiável. É http:///anossatravessa.blogspot.pt onde fico à espero de muitas visitas e muitos comentários. Obrigado

Qjs (queijinhos) = (beijinhos)

Leãozão

José Lopes disse...

Sempre que algo de novo e feliz aparece, logo surgem as dificuldades para atrapalhar...
Cumps

Dorli Ramos disse...

Eu também adotei, foi uma adoção plena. O garoto estava desnutrido e quando ele tinha 3 anoa ela foi em Santo André conversar com o juiz que queria seu filho de volta. Sabe o que o juiz disse: você já perdeu sua criança. Mudei para bem longe.
Beijos
Minicontista2