24.6.16

ESTAMOS EM JUNHO



Estamos em Junho, o mês dos dias enormes, do começo do Verão, dos Santos Populares. A partir de agora também o mês que pode dar uma grande volta à Europa, e colocá-la no seu verdadeiro rumo de união, e igualdade e fraternidade  entre os mais ricos e os mais pobres, ou deixá-la como está e esperar quanto tempo leva até à saída do próximo, numa debandada geral, até ao fim. Mas isso é outra conversa, e nem eu tenho competência para falar sobre isso. 
Assim sendo, vamos lá falar do S. João que hoje se comemora um pouco por todo o país, com maior intensidade no Porto e em Braga, que o têm por padroeiro.
 A verdade é que os maiores festejos - excepto os religiosos - ocorrem na véspera do dia do Santo. Há uns sessenta anos atrás, não existia TV, embora ela chegasse a Portugal, no ano seguinte, mais de dez anos depois ainda a grande maioria da população portuguesa, não tinha a caixinha mágica, que iria alterar costumes e tradições. Nas noites quentes de Verão, o povo sentava-se à porta de casa, olhando as estrelas, sonhando com um futuro melhor para os catraios que brincavam na rua, saltando ao eixo, jogando à macaca, ou correndo atrás de uma bola feita de trapos, ou de bexiga de porco.
Pelos santos populares, na seca da Azinheira, o pessoal residente, juntava-se no início da rua das "casas novas". Era assim que nós chamávamos ao grupo de casas que existiam na seca e onde habitavam os empregados de escritório, os encarregados, os electricistas e os ferreiros. Nós vivíamos a uns quinhentos metros, num barracão de madeira isolado, mas um dos electricistas era irmão do meu pai, e tinha dois filhos um pouco mais velhos que eu,
daí que no Verão, quando o pai não aproveitava a noite para cavar ou regar o quintal, íamos para as "casas novas" brincar com os primos e as outras crianças aí residentes, enquanto os pais se entretinham em conversas sobre a vida e os seus problemas. 
No S. João, o meu pai fazia todos os anos um enorme balão de papel colorido.  
Lembro-me que levavam umas tochas feitas com desperdícios, embebidas em petróleo, que enquanto ardiam mantinham os balões no ar. Quando se apagavam o balão começava a perder o ar quente que o mantinha lá em cima e acabava por cair atraído pela gravidade.
 Os mais velhos faziam uma fogueira no meio da rua, e sentados junto aos muros  do, quintal da casa mais próxima, contavam histórias, enquanto davam um olhinho pelos mais novos. As crianças corriam atrás dos grandes besouros que sempre apareciam nesta altura do ano. Faziam rodas à volta da fogueira e quando ela ficava mais fraca, obtinham permissão dos pais para a saltar. Conviviam. 
Todos se conheciam, todos se ajudavam. No dia seguinte cumprimentavam-se, comentavam a noite anterior, e acabavam com um "Para  a semana lá estamos". .Eu tenho saudades desse tempo. Hoje as pessoas juntam-se ás centenas, ás vezes milhares, todas no mesmo espaço, brincam saltam, mas não se conhecem, e quando a festa acaba, são de novo desconhecidas. Estão juntas e simultaneamente estão sozinhas. Não há convívio. É como se as pessoas se tivessem transformados em ilhas. Podem estar longe ou mesmo ao lado, mas não se tocam. Vivem em prédios de vários andares e não conhecem às vezes nem o vizinho do lado. É urgente que a humanidade pense em ser ponte.  Em união.
Bom S. João, e bom fim de semana.

19 comentários:

Isa Sá disse...

Parece que hoje em dias as pessoas vivem no meio de muita gente, mas cada vez mais sós...


Isabel Sá
Brilhos da Moda

Francisco Manuel Carrajola Oliveira disse...

Era uma altura em que as pessoas conviviam e se conheciam umas ás outras, hoje em dia, e tem toda a razão, são ás centenas mas não se conhecem nem convivem.
Só faltou dizer que é o mês das sardinhas assadas na brasa.
Um abraço e bom fim de semana.
Andarilhar

✿ chica disse...

Lindas tuas r3ecordações,Elvira! Nosso S.João era bem lindo, muita festa, vizinhos, amigos, cada um levava um prato,. era uma festa só! Hoje, nada mais se vê. Apenas nos colégios e sem graça alguma! Pena..Tudo muda! bjs, lindo dia! chica

Anete disse...

Pois é, Elvira, você tá trazendo uma boa reflexão sobre tempos idos... Às vezes, ainda encontramos animações de antigamente... Amanhã mesmo, irei a uma festinha assim, levarei o meu prato típico e creio que encontrarei uma boa alegria, comemoração por lá ...

Bom final de semana. Bjs

Edumanes disse...

Aqui em Portugaç, mês de Junho,
alegria, mês dos Santos populares
no passado, lá na zona do Rio Lunho
havia estilhaços de minas pela ares;

A união que nunca foi união,
com a saído Reino Unido
vai de certeza dar um trambolhão
dizer não à exploração é preciso!

Essa tal de união,
é mais do que chularia
aos pobres tira o pão
para dar à burguesia!

Tenha uma boa tarde amiga Elvira, um abraço,
Eduardo.

Bell disse...

O mês que eu mais gosto, pena que já ta acabando né?


bjokas =)

Ana S. disse...

Pois é Elvira. Acho que estas festas dos santos populares são vividas mais intensamente nos meios rurais.
Aqui não temos essa tradição mas bom S. João!
Abraço

Blog da Gigi disse...

Ótimo final de semana!!!!!!!!! Beijos

Lu Nogfer disse...

É verdade Elvira. A confraternização está mesmo precária por todos os lados.

Abraços.

Majo Dutra disse...

~~~
É bom saber que nem tudo era sofrido na seca...
Um relato muito interessante, Elvira. Já ninguém se diverte como antigamente.
Por aqui os santos só são homenageados nas escolas...
Não se ouve um foguete! Bom final de S João.
Abraço.
~~~

lis disse...

Oi Elvira
Um texto maravilhoso!
Isso mesmo_ um mês cheio de cores de musicas de alegria.
Pra nós do lado de cá_ é inverno mas nada atrapalha entende? os santos continuam sendo festejados a musica tocando a dança nas ruas e o friozinho que quando vem é sempre bem vindo com a ajuda das fogueiras para aquecer.
É bonito de ver!
_ e realmente os festejos no interior são acompanhados de muita prosa.Nas cidades já se perdeu a prática de envolvimento e do convívio tão saudáveis.
Obrigada pelo texto e um bom fim de semana Elvira

Zilani Célia disse...

OI ELVIRA!
ME DEU SAUDADES DE MINHA INFÂNCIA A FOGUEIRA ARDENDO A CRIANÇADA BRINCANDO A SUA VOLTA, SÓ QUE O FRIO ERA GRANDE, A FESTA DE SÃO JOÃO AQUI PEGA O INVERNO, MAS ERA MUITO GOSTOSO E TAMBÉM TENHO SAUDADES DAQUELE CONVÍVIO ENTRE VIZINHOS COISA QUE HOJE NÃO SE PODE TER MAIS O QUE É UMA PENA.
ABRÇS
http://zilanicelia.blogspot.com.br/

Elisa Bernardo disse...

devia ser tão bonito nessa altura...a essência perdeu-se!! É uma festa que adoro mas pelo junção familiar e amigos...e sobretudo os cheiros...é uma festa de "cheiros" tão intensos!!!
Um beijinho e espero que tenha tido um bom são joão:)
elisaumarapariganormal.blogspot.pt

Evanir disse...

A algum tempo tenho estado ausente
mais não tirei um segundo de férias.
Como o ser humano é uma maquinha
por sinal com período até bom
de validade...
Por vezes me descuidei daquilo ,
que temos de mais precioso (minha saúde)
Mas , nada de coisas ruim gosto
de contar coisas , que alegra o coração.
Um exemplo é meu netinho com
um mês de sua chegada teve até bolinho
surpresa.
Deus abençoe seu final de semana.
beijos carinhos e minha saudades.
Evanir.

Ana Freire disse...

Infelizmente é mesmo, como diz, Elvira!...
As pessoas tornaram-se ilhas... sem laços, entre elas...
Um texto maravilhoso, e que de uma forma transversal, abordou uma enorme diversidade de temáticas...
Adorei! Este também é o meu mês preferido do ano!... Existe uma alegria natural no ar... e nas pessoas... uma maior predisposição... para pensarem em se tornar mais pontes, do que ilhas... gosto eu de pensar...
Beijinhos, Elvira!
Bom fim de semana!
Ana

aluap Al disse...

De facto os balões compõem o cenário das comemorações do S. João, mas na minha terra, a característica mais tradicional eram as fogueiras feitas na rua pelos moradores, nas vésperas do Dia de Santo António, São João e São Pedro, onde se misturava o rosmaninho, o salpor e S. João (este apenas no Dia de São João) e o divertimento começava à tarde, a cortar e carregar braçados de rosmaninhos e salpor (sem estas duas plantas não havia fogueira) e, à noite, então, saltava-se por cima da fogueira. Hoje em dia há quem faça uma para recordar esses tempos, mas já não há juventude para conviver como antigamente.
Tenho saudades desse tempo também, um tempo em que era muito usuais as seguintes saudações, por exemplo, aos que passavam para os que estavam a trabalhar: "Nosso Senhor os ajude", ao que estes respondiam: "Venham ou venha com Deus". Hoje a viver lado a lado, sequer dizem "bom dia"!
Um dos grandes males desta nossa sociedade é o individualismo cada vez mais acentuado!

Passe um bom fim de semana Elvira.

cesar farias disse...

De fato, percebo que as pessoas estão mais preocupadas com seus celulares ultra modernos e esquecem da conversa olho no olho, que tanto bem faz.
Também tenho boas lembranças de minhas festas juninas de outrora.

Abraço.

LopesCa Blog disse...

Espero que tenha sido bom o S. João :)

Portuguesinha disse...

Um reflexão inesperada, num relato que deixou de ser sobre a história do Manel para se tornar mais abrangente. Tem toda a razão. É um flagelo social. As pessoas são ilhas, já não há nada a fazer. Alteraram-se os hábitos dos relacionamentos sociais.

Eu era menina mas ainda saltei uma fogueira, uma vez. Foi um autêntico milagre minha mãe ter permitido. Deve ter tido a sua vontade ultrapassada pela maioria masculina. Só deixou porque fui com um tio, que também era miúdo e estava sobre a vigilância da família inteira, numa localidade onde todos se conheciam. Eu nunca conheci quem era quem no bairro mas não importava, as pessoas conheciam quem eu era. E bastava-lhes que aquela fosse "a filha de" ou a "neta de". É enternecedor essa familiaridade respeitosa, essa curiosidade cusca, semi-intrometida, essa nostalgia com que me abordavam. Tinham uma forma de me confundirem com a minha mãe, de me olharem como se fosse ela a estar ali, novamente rapariga. Por vezes até me chamavam pelo nome dela, incrédulos por nao poder ser ela, como se a idade não tivesse passado e eles ainda estivessem noutros tempos.

Uma familiaridade diferente, que tem bases assentes num tipo de vida que forçava uma união e entreajuda e por isso facultou outro género de educação cívica. Hoje, só com esforço individual e sorte, é que uma pessoa consegue reproduzir um pouco desse ambiente.

Felicidades