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21.11.15

FOLHA EM BRANCO - PARTE XL



                                                foto do google



Entretanto no  estúdio, Miguel acendeu um cigarro. Estava nervoso. Não conseguia deixar de pensar que em breve, Mariana ia embora, da sua casa.E na mudança que isso ia trazer à sua vida. Ele podia voltar à sua vida de  boémio, mas sentia-se cansado e começava a questionar-se sobre a finalidade dessa vida.
Ultimamente já nem as saídas à noite lhe interessavam. A busca do prazer, pelo prazer, já o cansava. "Estou a ficar velho" ,- pensava.
A estadia da jovem lá em casa, tinha sido uma lufada de ar fresco na sua vida. Por causa dela, contratara Luísa, e passara a fazer as refeições em casa, coisa que não fazia, desde que os pais morreram. Ela enchia a casa, com seu jeito suave, os seus silêncios, os seus sorrisos. Aquecia-a com a sua presença. Agora a casa ia ficar vazia. E fria.
Começava a pesar-lhe a solidão. Tinha-se afeiçoado à jovem, gostava dela como se fosse seu pai. Mas não era, e portanto era natural que a jovem quisesse voltar à sua casa, e viver a sua vida longe dele. Mas doía. E como doía.
Como seria a vida dela, quando se fosse embora? Teria o pai, deixado à jovem, meios suficientes para a sua sobrevivência?  E se assim não fosse? Do que ia  ela viver, se não tinha mais ninguém no mundo? Talvez tivesse 
 que abandonar os estudos e ir trabalhar. Mas em quê, se não tinha experiência de coisa nenhuma? E depois cada vez havia menos empregos e mais desempregados. Por outro lado, não lhe agradava que abandonasse os estudos. Ele  podia pagar-lhos. Mas, ela aceitaria? Uma coisa era a jovem desmemoriada, carente  e totalmente dependente dele. Outra bem diferente a jovem que ele tivera hoje na sua frente. A segurança com que ela dissera. “Deixemos isso para depois das festas” quando ele sugerira que teriam de ir ao Algarve, era prova evidente que a jovem se libertara e  já não precisava dele.
Estava irritado, inquieto.
Não sabia o que se passava com ele, mas ficava sempre assim, quando pensava que um dia a jovem ia recuperar a memória e partir.  
Ouviu as jovens conversarem em baixo, sinal de que já tinham regressado. Relaxou. Ficava mais calmo, quando a sabia por perto.
Na tela, exposta no cavalete, a jovem, deitada na relva, parecia querer perguntar-lhe alguma coisa.

30.10.15

FOLHA EM BRANCO - PARTE IX


                                                 Foto da net

 Pouco depois, aprestava-se Miguel para sair, quando a jovem disse:
- Queria lavar a minha roupa. Mas não encontro detergente. Não há?
-Sinceramente não sei. Quando cá estou, é a D. Adélia, uma senhora que já trabalhava para a minha avó, quem vem duas vezes por semana, fazer limpeza e tratar das roupas.
- Preferia ser eu mesma a cuidar das minhas.
-Quer que lhe traga um detergente?
-Se fizesse o favor…
- Bom. Mas vou demorar. Ah, e já agora, tinha pensado encomendar uma pizza para o jantar. Gosta?
- Penso que sim, - respondeu a jovem a medo.
- Então até logo. Lamento não ter televisão, mas a única coisa que me interessa para além da pintura, é a leitura. Já lhe disse que pode ler o que quiser?
Ela assentiu com a cabeça e Miguel saiu fechando a porta com suavidade. A jovem foi até à estante e retirou um livro ao acaso.
Sentou-se no sofá e tentou embrenhar-se na leitura.
Enquanto isso, Miguel dirigiu-se à cidade e procurou uma tabacaria, onde comprou dois dos mais importantes jornais diários. Depois procurou um recanto mais sossegado num café e começou a folhear os jornais. Procurava alguma notícia sobre a jovem, mas não encontrou nada. Pensando que talvez já tivesse saído, dias atrás, voltou  à tabacaria, e  perguntou se tinha os jornais dos últimos dias.
-Não. Os que não se vendem num dia, são devolvidos no dia seguinte. Se quiser consultar outros, só na biblioteca.
Miguel agradeceu e dirigiu-se à biblioteca onde durante mais de uma hora folheou os jornais da última semana, sem que tivesse visto alguma notícia que se pudesse relacionar com a jovem.
Desiludido, saiu e foi ao supermercado, onde fez algumas compras. Depois dirigiu-se à loja, onde já estiver de manhã, e pediu à empregada roupa de dormir, para uma jovem.
Torceu o nariz para as peças demasiado reduzidas e sensuais que a empregada, lhe apresentou e pediu algo mais simples, justificando que se tratava de uma prenda para a filha.
A empregada, sorriu, e foi buscar umas caixas onde repousavam uns juvenis pijamas, compostos por top e calções, e umas camisas de dormir, que mais pareciam umas t-shirt, compridas. Comprou também um roupão de algodão acetinado, branco. Efectuadas as compras que achou necessárias, colocou tudo no carro e dirigiu-se para casa, não sem antes passar pela pizzaria.


21.4.15

MARIA PAULA - PARTE XIX


foto da net

Durante uns dias, Diogo, andou pela aldeia. Foi visitar o padrinho, encontrou-se com os pais de alguns amigos, que o saudaram com a cordialidade com que todos se tratam nas aldeias. Encontrou a ti’Carlota, talvez a mais velha mulher da aldeia. Diogo não sabia quantos anos teria a mulher, mas decerto era exemplo de longevidade. Desde que tinha memória, sempre se lembrava dela, toda vestida de preto, - era viúva - e já bem entrada nos anos. Encontrou-se também com algumas crianças, quase adolescentes que deviam vir da escola. Naquela manhã, cruzou-se com o ti’António do Moinho. O homem abraçou-o com grande emoção.
- Já me tinham dito que havias regressado. Agradece a Deus por estares vivo rapaz. O meu Carlos ficou lá em Moçambique. Morreu em Omar, há seis meses, a menos de um mês de acabar a comissão. Maldita guerra.
Diogo sentiu como se lhe tivessem dado um murro no estômago. Apesar de Carlos, não ter sido um companheiro de brincadeiras, - o jovem, era sete anos mais novo do que ele, -  conhecia-o desde que nascera. Era irmão do Luís, o seu grande amigo de infância. Emocionado, sem palavras que pudessem confortar o coração ferido daquele pai, apertou-o num longo e comovido abraço. Depois perguntou:
- E o Luís?
- Fugiu para França, pouco antes de ser alistado, tem um bom salário e até já está a pensar em casar. Se o irmão tivesse feito o mesmo, hoje estaria vivo. Mas ele nunca quis, apesar dos conselhos do irmão. É como dizem, cada um já nasce com o destino marcado.
- Talvez Sr. António, - respondeu Diogo que não acreditava, nessa coisa de que tudo o que nos acontece é por culpa do destino.
- Quando escrever ao Luís, diga-lhe que gostaria de o ver, quando vier a Portugal.
Fica descansado, rapaz – respondeu o outro, apertando-lhe o ombro em jeito de despedida.
Diogo, virou a esquina da única rua, verdadeiramente digna desse nome, na aldeia e dirigiu-se à margem do rio, atravessando o extenso milheiral, pertença do seu padrinho, o homem mais abastado da aldeia. Quantas vezes em criança, ia para ali no Verão, com os outros miúdos da aldeia. Uma constante preocupação para os mais velhos, sempre com medo que algum deles, por lá se afogasse. 




20.11.14

ROSA PARTE XV




Naquela manhã do dia 25 de Abril de 74, Rosa olhava-se no espelho e não se reconhecia. Apesar de não ter ainda 50 anos, Rosa estava cada dia mais velha, a face enrugada, os cabelos embranquecidos, o corpo magro e alquebrado, resultado de ser toda a vida, saco de pancada da própria vida. Pensava que já não tinha forças para se aguentar muito mais tempo. A sua família tinha-se desagregado.
Do marido, não sabia há muito, talvez estivesse preso, ou, quem sabe, tivesse morrido em qualquer prisão. As filhas casaram e embora não vivessem longe, estavam cada dia mais desligadas da casa materna, divididas entre o trabalho, o cuidarem da casa e dos filhos.
Dos dois rapazes mais novos, um conseguiu realizar o sonho de ser fuzileiro e encontrava-se num destacamento no Lungué-Bungo, no leste de Angola, enchendo de saudade e preocupação o seu coração de mãe. O outro, que era contra a guerra, fugira de salto para a França. Restava-lhe em casa um filho, cada dia mais doente, e uma filha adolescente.
Sacudiu a cabeça, como se quisesse abandonar todos os seus pesares, e dirigiu-se a casa do Sr. Doutor, onde ultimamente trabalhava a dias, sem sequer sonhar que no seu País estalara uma revolução que ia mudar toda a sua vida. Ela não sabia, mas a sua família não era muito diferente da maioria das famílias portuguesas pois, nessa altura, o País via-se sangrado da sua juventude. Uns partiam para a guerra do Ultramar, sem  nunca saber se voltavam, ou ficavam por lá, vítimas de uma mina ou de alguma bala emboscada. Outros fugiam para não serem obrigados a partir para uma guerra que não queriam nem entendiam.
Foi com surpresa e medo que Rosa ouviu da boca da patroa, a notícia da Revolução. Medo porque a "doutora"- era assim que ela gostava de ser tratada, embora o médico fosse o marido - lhe deu a entender que a revolução era muito má para o País e para eles, patrões, que talvez não pudessem continuar a dar-lhe trabalho. Rosa ficou muito preocupada. Se ficasse sem trabalho, como ia pôr comida na mesa? Mas quando chegou a casa, o filho explicou-lhe o que significava a revolução de uma maneira diferente. Falou-lhe do fim da guerra colonial, da abertura das prisões, do fim da P.I.D.E. e do sonho dum País mais igualitário. E o seu coração sofrido encheu-se de esperança.
Dois dias mais tarde, quando Rosa chegou a casa, no fim de mais um dia de trabalho, teve uma grande surpresa ao encontrar o seu João. Muito magro, o cabelo todo branco e o ar macilento, em nada se parecia com o homem com quem casara. Apenas o brilho nos olhos encovados, lhe lembrava o João de antigamente. Apesar da alegria do reencontro, Rosa estava preocupada com a saúde do marido. E tinha razão, porque se ele recuperava aos poucos as mazelas físicas,  as psicológicas continuariam a persegui-lo durante muitos anos.
Dias depois, Rosa e João comemoravam pela primeira vez na sua vida o 1º de Maio em liberdade. E dois meses depois, podiam abraçar o filho António, que regressara da França, ao saber que o novo governo estava a negociar a independência das colonias e que, por isso, não teria que ir para a guerra.


Continua




Para os amigos que já leram o conto, inicialmente ele terminava aqui. Como porém o final não me agradava muito, pois aparecia demasiado repentino, agora ele tem mais um capitulo. O próximo será o final

3.4.14

MARIA - XI - MEDO DO FUTURO






 Medo do futuro


Um silêncio pesado incomodativo instalou-se entre nós. Maria parecia perdida sabe-se lá em que labirintos do seu passado. E eu não me atrevia a dizer nada. A história que acabava de ouvir era difícil de escutar, quanto mais de viver. Levantei-me e preparei um café para as duas.
-Obrigada – disse pegando na chávena. Depois continuou. Levei nesta vida pouco mais de um ano. Entretanto continuava as consultas de psiquiatria, começava a fazer o desmame de alguns medicamentos e tinha perdido peso. Encontrava-me muito melhor, a minha roupa de antigamente já me servia, começava de novo a ganhar gosto pela vida. Um dia telefonei à “Nani” e perguntei-lhe quem tinha as chaves da casa da minha mãe. Era tempo de ir ao encontro do passado. Era uma gaveta que continuava desarrumada na memória e precisava arrumá-la antes de dar novo rumo à minha vida. Ela disse que as chaves estavam com o tio Carlos e eu fui buscá-las.
Não sabe como sofri quando entrei lá em casa. Fui sozinha. Percorri cada canto com lágrimas nos olhos e um aperto no coração. Senti pena por “ela” e por mim. Tudo podia ter sido tão diferente. Depois tomei uma resolução. Vendi a casa e comprei um pequeno apartamento para mim. Queria recomeçar a minha vida num lugar que não me trouxesse lembranças. Comprei poucos móveis, só o indispensável e comprei um computador. Há tempos que não mexia num, que não ia à internet. E era uma companhia. Como tinha algum dinheiro, resolvi procurar um novo emprego, qualquer coisa onde me sentisse mais realizada.
Comecei a passar horas no “PC” em chats de conversação fazendo amizades virtuais. Não sei se sabe mas a “Net” é um mundo que nos vicia tanto ou mais que qualquer droga. Mas é um mundo ilusório. Em breve tinha dezenas de amigos e alguns deles começaram a insistir para nos conhecermos. O desejo de sair da solidão em que me metera após o último internamento fez com que fosse  cedendo a vários encontros. Encontrei gente muito boa e verdadeiros trastes. Nada que a vida real não tenha. Mas quando olhamos o nosso interlocutor no olho, é mais difícil enganarem-nos. Encontrei “amigos”que só queriam favores sexuais, outros que só queriam vigarizar-me. Mas também encontrei bons amigos e amigas, dispostos a ajudar sem nada pedir em troca.
Um desses arranjou-me emprego numa imobiliária, outro conseguiu numa oficina de um amigo um carrinho em segunda mão em óptimo estado.
Agora estou bem. Tenho alguém que jura que me ama e quer casar comigo. O Américo tem 48 anos, é viúvo e não tem filhos. Parece ser um bom homem, é trabalhador, e não sabe mais o que fazer para me agradar, mas apesar de gostar da sua companhia, eu não sinto aquela emoção, aquele tremelicar de pernas que sentimos quando a pessoa que amamos se aproxima. Por isso tirei uns dias de férias e vim em busca do meu passado. Para pôr a cabeça em ordem e deixar o coração vir à superfície.  A solidão pesa-me. Mas e se aceito casar e depois continuo “sozinha”? Se não consigo corresponder ao seu amor? Não me sinto capaz de suportar um casamento assim. Não depois de ter experimentado uma história de amor como a que vivi com o Artur. E não pense que eu gostaria de voltar para o Artur. Actualmente somos amigos, ele já me perdoou, encontrou outra pessoa e está feliz. Aliás hoje quando o vejo, já não sinto nada daquela emoção que me abrasava quando casámos.   O que acha que devo fazer?

Continua


(direitos reservados)

21.3.14

MARIA - VI - A REVIRAVOLTA





A reviravolta

Cedo Maria percebeu que o marido não era o homem que ela imaginara antes do casamento. Depois de uma semana de lua-de-mel em Braga, regressaram para um quarto na casa dos sogros. Tudo bem que eles se esforçaram e durante essa semana transformaram o quarto de solteiro do filho num bonito e confortável quarto de casal. Mas não era a sua casa. Paulo tinha-lhe prometido que assim que chegassem ia começar a procurar casa para eles, mas agora parecia não estar muito interessado nisso.
-Quando o bebé nascer, juro que trato de alugar casa. Agora é melhor ficarmos aqui, a minha mãe está atenta a qualquer coisa e eu vou trabalhar mais descansado – dizia ele quando Maria o pressionava.
Ela calava-se  mas não era feliz. A sogra era simpática, mas sempre dava um jeito de lhe fazer ver que a casa era dela.
Em Junho, na véspera de S. João, Maria sofreu um aborto espontâneo e perdeu o bebé.
Foi um grande desgosto. Que se tornou numa dor sem tamanho quando a mãe a visitou e lhe disse:
-Foi melhor agora que mais tarde. Tinha-te avisado. Não vais poder ter filhos. E por teimosia estragaste o teu futuro.
Nesse momento Maria sentiu um ódio intenso pela mãe. E não se conteve.
- Pois eu te juro que vou ter os filhos que quiser. Porque é que tu foste mãe e eu não posso ser? Quem julgas tu que és? Um ser superior? Odeio-te. Põe-te na rua e esquece que me conheces. Nunca mais te quero ver.
Elisa saiu acabrunhada. Ela era assim parecia uma mulher seca, nunca a ensinaram a ser de outro jeito. Talvez se o marido tivesse vivido mais uns anos, quem sabe até mais uns meses ela seria hoje uma mulher diferente. Mas Alberto inicialmente só se preocupou com o ser ar de aldeã. E depois a sua morte prematura, e a necessidade de sobreviver sem ele tornou-a ainda mais seca. Porém ela amava a filha e o que queria era vê-la feliz. Talvez os métodos estivessem errados, mas Elisa não se dava conta disso.
Longe da mãe, e depois do desgosto inicial, Maria decide retomar os estudos. Mas o marido não deixa. Isso, e o facto de continuar a viver com os sogros, que apoiavam o filho e achavam que lugar de mulher casada era em casa, fez com que a jovem "abrisse os olhos" e começasse a pensar que se tinha visto livre da "tirania" da mãe para cair num lugar onde não tinha liberdade, nem intimidade. Sentia-se enjaulada. E o sonho que tinha alimentado de um casamento feliz foi desaparecendo aos poucos até que o casamento não era mais do que uma enorme desilusão, à qual ela deu fim com o divórcio logo que fez 18 anos.
Sozinha, Maria resolveu dar um novo rumo à vida. Não queria ir para casa da mãe. Nem ficar a viver na zona para não se encontrarem. Não lhe perdoava o não ter tido uma palavra de consolo quando ela perdeu o bebé.
Empregou-se em Lisboa, alugou um pequeno apartamento com mais duas jovens, voltou a estudar à noite e sentiu-se enfim uma mulher livre e feliz.
Um ano depois essa felicidade já não era tanta assim. Maria tinha muitas saudades da mãe. Disse-me um dia em que me procurou para saber dela, que sem a mãe se sentia incompleta. Como se lhe tivessem amputado uma parte do corpo.
"Não sei explicar que diabo de sentimento é este. Sinto raiva, amor, saudade. E sinto ódio. Por ela, pelo carinho que nunca lhe senti, e por mim, que nunca fui capaz de lhe cobrar esse carinho, que sempre vi nela a mulher sem erros, e sempre me senti inferior"


Continua


(direitos reservados)

Bom amigos, relativamente à minha saúde já retomei a minha vida normal, embora ainda tenha um pouco da tosse alérgica.  Mas enfim outros males não apareçam que este mais dia menos dia também acaba.
Obrigada a todos pelo vosso carinho e cuidado. Que Deus vos abençôe.

15.3.14

MARIA - IV - A MÃE DA MARIA




 A mãe da Maria

Naquela noite custei a adormecer. O reencontro com Maria trouxe à tona sentimentos que na azáfama diária a gente até esquece. Em tempos houve entre nós uma grande amizade e uma certa cumplicidade. Eu via em Maria a filha que o destino não me quisera dar. Ela via em mim… bom, sei lá o que na verdade ela via em mim. Talvez uma irmã mais velha, talvez a mãe que ela gostaria de ter, talvez tão só uma amiga muito especial a quem se confiam segredos que são só nossos.
Elisa, a mãe de Maria era a única rapariga dos sete filhos que seus pais tiveram. A última quando a sua mãe já desesperava com tanto rapaz. Nascera por um “descuido” do pai, porque a verdade é que na aldeia se dizia que sete filhos rapazes, o mais velho ou o mais novo seria lobisomem, e a pobre da avó de Maria, levou os nove meses até ao parto a pedir a Deus que fosse uma menina. Fez até uma promessa de ir a Fátima a pé se obtivesse essa graça. Por isso quando Elisa nasceu foi uma alegria e um alívio sem tamanho.
A menina cresceu sempre cercada dos cuidados dos irmãos que a tratavam como se ela fosse uma joia preciosa e a protegiam de tudo e todos como se o simples aproximar de alguém lhe pudesse roubar o brilho. Nunca foi brincar com outras crianças a não ser no pátio da escola e sempre debaixo do olhar protector de um dos irmãos. Já adolescente, não saía de casa, onde a mãe a ensinava a costurar, e a fazer lindos panos de renda que haviam de ser para o seu enxoval. Aos poucos os irmãos foram deixando a aldeia rumo à capital em busca de uma vida diferente. Elisa também sonhava com esse dia, mas como deixar a aldeia? Os pais não deixavam, era o que faltava uma mulher solta no mundo. Só se fosse casada. Porém os rapazes escasseavam na aldeia. Não foram apenas os seus irmãos que foram em busca de nova vida. Quase todos os rapazes jovens o fizeram. Alguns foram até para o Brasil. De modo que Elisa foi ficando em casa dos pais e as esperanças de uma vida diferente iam-se desvanecendo com o passar dos anos.
Um dia, o pai de Elisa sofreu uma trombose e em poucas horas morreu. A mulher enlouqueceu. Os vizinhos diziam que fora do desgosto, os filhos também acreditavam nisso, mas a filha sabia bem que há largos meses vinha notando atitudes na mãe que denotavam a caminhada rumo à demência. A morte do marido fez com que a caminhada fosse mais rápida, e aquilo que até aí só a filha notara, passou a ser visto por toda a aldeia.
Elisa cuidou da mãe até ao último momento. Se antes da morte do pai ela não podia sair nem ter amizades porque lhe era proibido, depois ainda que o quisesse, também não o conseguiria. As pessoas olhavam-na com desconfiança e murmuravam entre dentes.
“Coitada, vai acabar louca também”
Depois do funeral da mãe, Elisa arrumou as suas poucas roupas numa maleta e veio com os irmãos para Lisboa. Tinha 29 anos de uma vida de repressão e clausura e nenhuma experiência de vida.
Quando dois meses depois o irmão lhe disse que um amigo queria casar com ela e que ela devia aproveitar, pois em breve envelheceria e já não teria oportunidade de arranjar marido, Elisa aceitou correndo, ansiosa por conhecer uma vida diferente por ter a sua casa, a sua vida.
Alberto, era um homem bom, trabalhador, que a amou e lhe deu uma vida como ela nunca teve.
Ensinou-lhe a tirar partido da sua beleza, ensinando-lhe como se vestir para realçar o seu corpo delgado mas bem proporcionado. Levou-a a um salão, onde lhe cortaram a trança, fazendo-lhe um corte que a rejuvenesceu e lhe tirou aquele ar provinciano que ostentava quando casou. Também lhe ensinaram como usar um batom e uma sombra para realçar a boca e os olhos que já de si eram muito bonitos.
Em pouco tempo nada restava da Elisa que a aldeia conhecera. Pelo menos na aparência.
Alberto gostava de sair com a mulher que exibia aos amigos com orgulho, e a quem fazia todas as vontades, especialmente quando Elisa lhe disse que ia ser mãe.
Porém Alberto não chegou a ver esse bebé nascer. Morreu uma tarde de Julho quando regressava do trabalho, colhido por um comboio na passagem de nível sem guarda.
Elisa julgou enlouquecer de dor e raiva. Dor porque aprendera a amar o marido, e raiva contra o destino que parecia não querer que ela fosse feliz.



Continua


(direitos reservados)


À margem.  Como este conto já está escrito na totalidade, as postagens sairão de 3 em 3 dias.  Entretanto eu continuo com altos e baixos, com dias que parece que já estou boa e outros em que parece que voltei ao início. Vamos a ver no que isto acaba 

21.2.14

A ESPERANÇA DOS OLHOS VERDES - FINAL




 Foto DAQUI


 - Sente-se mal, senhor?
Era a mulher jovem que vira ao entrar. A outra também se aproximou. Olhou para ele, olhou para a morta e soltou uma exclamação abafada.
- Santo Deus!
Havia tal espanto na sua voz que a jovem olhou. O homem também o fez. E o que viu encheu a sua alma de espanto. Os olhos da Esperança, tinham voltado a ser castanhos, tal como ele os recordava. Um castanho quente e doce, a que nem a frieza da morte retirava encanto. Assustado, fugiu dali como se fosse perseguido, enquanto a jovem cerrava suavemente os olhos da defunta, dizendo:
- O Chico! Só podia ser o Chico! Meu Deus por que não me ocorreu logo?


                                                    ***********




- Ciiiincoooo caaartassss, deeezzzzz toooostõeeees!       

Quedei-me surpreendida ao ouvir aquele pregão numa voz masculina. Procurei, com o olhar, o dono da voz e deparei com o Chico que, de cartas na mão, andava de um lado para o outro apregoando:
- Ciiiiincoooo caaartassss, deeezzzzz toooostõeees!       

Durante os dias que se seguiram ao funeral da "Esperança dos olhos verdes”, e aproveitando o resto das minhas férias, tinha conseguido saber que o Chico tinha voltado do Brasil, viúvo e muito rico. Vinha com a intenção de se fazer perdoar e viver enfim um amor que tinha ficado perdido no passado. Devo acrescentar que me foi fácil descobrir isto. Bastou seguir o Chico no próprio dia do funeral e apresentar-me como amiga da Esperança. Como tinha sido vista por ele, em casa dela, não foram difíceis as confidências.
Mas então que história era aquela? Porque estava ali a vender cartas no Terreiro do Paço, junto à gare fluvial da travessia Lisboa /Barreiro? E que roupas eram aquelas tão simples e semelhantes aos outros vendedores?
Correndo o risco de chegar atrasada ao emprego, interroguei-o. Ele então contou-me, que os remorsos não o deixavam em paz, depois de saber da sofrida espera da amada.
Assim resolvera doar em nome da falecida a sua fortuna para instituições de caridade.
E, agora ,ali estava no sítio onde ela vivera e fazendo o que ela fizera. Procedendo assim,sentia-se mais perto da mulher a quem tanto amara e que desgraçara por ambição.
- Talvez, quem sabe, seja mais fácil obter o seu perdão e viver este amor numa outra dimensão.
Apertei-lhe o braço, tentando dar-lhe algum consolo e afastei-me, acompanhada pelo pregão tão conhecido:
- Ciiiincoooo caaartassss, deeezzzzz toooostõeees!       

Fim

Maria Elvira Carvalho