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4.12.14

CANSAÇO



                        Aldeia semi abandonada  de Anta. 




  CANSAÇO



Estou cansada
dos homens que adormecem ao sol
como lagartos.
Estou cansada dos ideais esquecidos
condenados sem nenhum recurso
nas mentes abarrotadas de ambição
dos líderes políticos.

Estou cansada
das aldeias semi abandonadas
regadas
pelas lágrimas ardentes
de idosos que vivem e morrem

em completa solidão.
Estou cansada de crianças sem pai
que não sabem rir
porque ainda não têm pão.

Estou cansada
das filas de desempregados
que tornam caricato o pensamento
dum sol que nasce igual para todos.
Estou cansada
das mulheres que não têm noites de amor
desaparecidos os seus homens
no mar da emigração.

Estou cansada
dos operários submergidos no desespero
dos salários em atraso
que nem sabem se chegarão
Estou cansada
dos idosos que sobrevivem à fome
de reformas vergonhosas
que nem chegam a meio do mês.

Estou cansada
das promessas das campanhas eleitorais
e das promessas a longo prazo, dos governos eleitos.
(Tão a longo prazo que morrem antes de nascer)
Estou cansada desta hipocrisia
que corre em linhas de incerteza
nos lábios dos homens sem tempo
nem idade.



Maria Elvira Carvalho.


UM BOM FIM DE SEMANA

9.2.14

ESPERANÇA DOS OLHOS VERDES - PARTE V




 foto daqui

Esperança, a doce namorada, estava muito longe de si, e da sua nova situação de homem rico. E casando com Laura podia juntar à sua a imensa fortuna do sogro.
Além disso, Esperança era uma moça simples que talvez nem soubesse mover-se no mundo em que ele agora se movimentava. Laura era uma mulher elegante, habituada a frequentar qualquer lugar por muito chique que fosse. Movia-se na sociedade como peixe dentro de água.
A ambição de Chico era maior do que ele, e a pouco e pouco foi encurtando as cartas para Portugal. No dia em que retirou do pescoço a medalhinha de ouro e a guardou numa caixinha, sentiu-se um canalha e por momentos teve vergonha de si próprio, mas logo calou os ultimos resquícios de honra, escondendo a caixinha no fundo de uma gaveta no seu escritório. E casou com Laura. Graças à influência do sogro, o prestígio do Chico cresceu tanto como os seus negócios.
Curioso foi que crescera também um sabor amargo, uma desilusão que não o deixava ser feliz.
Tarde demais, dera conta de duas coisas. A primeira era que se vendera miseravelmente por dinheiro, a segunda, era que Laura era egoísta, caprichosa e prepotente. Muito diferente da meiga Esperança. Enquanto o pai era vivo, ainda se fora comportando. Porém com a sua morte, foi como se se rompessem todas as cadeias que ainda a prendiam á decência. Saía de casa a qualquer hora sem dar satisfações ao marido e quando este lhe chamava a atenção para o facto de que não era correcto uma mulher casada sair com outro homem que não o marido, ela ria-se dele dizendo que era apologista do amor livre.
Pensou divorciar-se mas, naquela época, não era permitido o divórcio no Brasil. E assim, naquele inferno, viveu dezoito anos.
Quantas vezes ao longo desses anos pensou em Esperança. E quantas vezes pensou que estava a pagar o pecado de ter desprezado a mulher que tudo lhe dera, física e moralmente.
Uma manhã, a polícia telefonou-lhe para o escritório a anunciar a morte de Laura. Tivera um desastre quando conduzia a grande velocidade. Ela e o companheiro tiveram morte imediata.
Não sentiu pena. Que Deus lhe perdoasse mas até sentiu um certo alívio. E passaram-se mais três anos. Três anos em que travou árdua luta entre o desejo de voltar a Lisboa, e procurar a "sua" doce Esperança, e o pensamento de que ela estaria casada e feliz sem ele. Por fim, venceu a vontade de voltar a Portugal. Vendeu tudo, transferiu o dinheiro – uma fabulosa fortuna – para um banco português e comprou a viagem de regresso.
Não quisera vir de avião. A viagem seria demasiado rápida e ele precisava de tempo para pensar. E agora, a poucos minutos do desembarque, só pensava numa coisa. Rever Esperança, saber como estava, o que fazia.
Assim que desembarcou, apanhou um táxi e dirigiu-se a casa dela. Pelo caminho foi olhando tudo. Quase não reconhecia Lisboa, tão diferente estava de quando ele a deixou.
E pensava. Por certo Esperança teria casado, talvez tivesse filhos. Era o mais lógico. Quem sabe nem mais lembraria dele. Ainda assim, ele queria pedir-lhe perdão.
A primeira decepção, apanhou-a quando ao chegar ao lugar onde outrora fora a casa da jovem, encontrou um moderno edifício. Ali ninguém sabia quem ela era nem onde vivia.
-Foi melhor assim! – pensou. Que poderia eu dar-lhe agora? Dinheiro? E pode com dinheiro comprar -se o perdão, e a paz de consciência?
Logo, porém, afastou os seus pensamentos e murmurou:
- Tenho de encontrá-la…


Á margem:
Aos amigos que por aqui passam, as minhas desculpas pela minha ausência nos vossos cantinhos, na última semana. Mas uma semana que começou alegre com o aniversário da netinha que fez 5 anos terminou com o funeral da penúltima irmã de minha mãe, que faleceu dia 6, precisamente um dia depois do aniversário da morte de minha mãe.