22.11.14

NÃO À VIOLÊNCIA

                                

Celeste


Mal o despertador tocou, Celeste saltou da cama. Lavou-se a correr e foi para a cozinha. Com gestos completamente automatizados, pegou no isqueiro e acendeu o fogão. Era noite ainda, mas Celeste trabalhava longe. Começou a fazer o almoço, para ela e para o marido. Uma lágrima soltou-se e veio cair no alguidar onde tinha as batatas para descascar. Estava cansada. Cansada daquela vida de miséria física e moral em que se encontrava. Onde tinham ficado os sonhos de menina? -Interrogou-se enquanto acabava de descascar as batatas. Onde a ilusão de um homem bonito, que se apaixonasse por ela e lhe desse uma vida de amor e felicidade?
Juntou duas postas de bacalhau ás batatas  e  o sal , quase sem dar por isso absorta nas suas recordações.
Celeste era uma mulher bonita, sem ser nenhuma beleza estonteante. Era pequena, de pele trigueira, com aquela cor das pessoas que vivem á beira-mar. Tinha o cabelo preto e uns olhos castanhos, que muitas vezes se enchiam de lágrimas. Era uma menina ainda, com toda a inocência dos seus quinze anos quando conheceu aquele que era o seu marido.
Afonso era um homem bonito. Mais velho e mais vivido, não foi difícil apoderar-se do coraçãozinho de menina que batia no peito da Celeste.
Casaram um ano depois. Celeste já carregava no ventre um filho. Ainda menina, teve que aprender a ser mãe, e a cuidar daquele pequeno ser, que Deus lhe quisera enviar.
Depressa se apercebeu que o marido não era o príncipe com quem sonhara. Um dia, tinha o filho três meses, Afonso saiu depois do jantar, deixando-a em casa com o filho, e só regressou depois da meia-noite completamente bêbado.
Como se fora um autómato, Celeste apagou o fogão, escorreu a água ás batatas e dividiu a comida pelos dois termos. Pegou as duas lancheiras, que estavam em cima do aparador, colocou um termo em cada uma, juntou uma carcaça do dia anterior, uma pera e um garfo. Encheu uma garrafa de meio litro de tinto e colocou numa das lancheiras. Foi ao quarto e acordou o marido. Na volta pôs um pano de cozinha em cada lancheira e fechou-as.
Tirou as chaves que estavam na porta, pegou na carteira, e na lancheira, e atirou um seco até logo, saindo de seguida. Não foi ao quarto despedir-se do marido. Há muito que não trocavam um beijo carinhoso.
Enquanto se dirigia à paragem do autocarro, na cabeça fervilhavam as recordações, dos olhos soltavam-se as lágrimas.
O filho crescera e saíra de casa. Nunca se sentira lá muito bem, nem tivera uma relação de amor com o pai. E assim que se empregou, arranjou uma casita e foi morar sozinho. A sua vida ficara então mais triste, sem a presença do filho.
Já lhe ocorrera pedir o divórcio. Porém o medo e a vergonha sempre a faziam desistir da ideia.
Recordou a primeira vez que o marido lhe batera. E a desculpa , com que teve que encobrir, perante a família,  a vergonha e a dor que sentia. E os dias sem lhe falar. Dias em que ela lhe gritava o nome de manhã antes de sair de casa, e não se falavam mais.
Como agora que não se falavam desde que há oito dias ele lhe tinha voltado a bater. E tudo por causa do álcool. Mordeu os lábios para abafar um soluço ao lembrar - se daquela noite. Ela já dormia, quando Afonso chegou. E estava tão cansada que nem deu por ele se deitar. Acordou com o peso do marido em cima dela. E aquele bafo nauseabundo de bêbado. Quis empurrá-lo, fugir da cama. Mas não conseguiu. Ele era muito mais forte e puxara-lhe os cabelos com violência. Virou o rosto e isso enfureceu mais " a besta". Porque Celeste não reconhecia mais o marido naquele selvagem. Quando consumados os seus intentos se virou para o lado e adormeceu, ela levantou-se e meteu-se debaixo do chuveiro. Esfregou o corpo com raiva, enquanto as lágrimas se misturavam á agua. Voltou para a cama, e acomodou-se tentando não tocar no marido. Não dormiu mais. E agora enquanto esperava pelo autocarro, pensava que rumo dar à sua vida. O amor que sentira um dia por aquele homem, já sofrera muitas alterações. Foi raiva, medo, ódio, desprezo e agora era também nojo.
De repente saído do nada, veio-lhe à memória, o poema.
Anda Luísa,
Luísa sobe...
sobe que sobe,
sobe a calçada...
Sacudiu a cabeça, ao mesmo tempo que pensava, se o poeta saberia da sua existência.
É que aquela Luísa era ela...








Maria Elvira Carvalho.

Acabei de saber que mais uma mulher foi assassinada pelo marido. Quando era menina, era frequente  ver os homens baterem nas mulheres. Alguns faziam até gala disso, perante os companheiros de trabalho, como se fosse uma honra.
Nunca pensei que chegaria a velha e continuaria a ver as mulheres serem espancadas e mortas pelos companheiros. Penso muitas vezes se não somos nós as verdadeiras culpadas desta situação. Não somos nós, mães e professoras capazes de os educar no respeito por nós próprias?






27 comentários:

Mariangela do Lago Vieira disse...

Que tristeza Elvira! Muito bem retratada neste ótimo conto, o sofrimento de tantas que passam por isso. E muitas vezes impedidas de tomarem outro rumo, devido a sérias ameaças.Infelizmente isso acontece muito ao nosso redor.
Abraços e um ótimo final de semana!
Mariangela

luís rodrigues coelho Coelho disse...

E foram tantas estas Marias que sofreram e tantas que morreram vitimas de homens sem vergonha nem respeito por elas.
Desde menino que na nossa aldeia esses casos eram frequentes. Depois disseram-nos que havia casos por todas as aldeias deste país.
Felizmente que na nossa família se falou sempre com respeito e com amor.
A mãe ensinou-nos a arte de amar e respeitar sempre todas as pessoas independentemente de serem ricas ou pobres.

✿ chica disse...

Muito triste tudo isso ,Elvira e nunca haveremos de nos conformar com essa situação! Um fim pra isso deve acontecer. Ficamos ainda chocadas! bjs, chica

Graça Sampaio disse...

Mau de mais!!! Este ano tem sido quase uma mulher por semana. Que sufoco! E que vergonha!

Laura Santos disse...

Toda a mãe que continua a educar uma filha de forma diferente da que educa um filho estará sempre a contribuir desde a infância para uma desigualdade de género. Existe algo que está tão sedimentado nas famílias que se torna difícil acabar com tudo isto.
E as mulheres, cada uma por si, por considerarem que se um homem é "ciumento" é porque gosta delas... Nada de mais errado.
Este é um assunto que me diz muito, e já fiz um post sobre isto
aqui:
http://escritacommusica.blogspot.pt/2013/10/teias-de-aranha.html

Precisamos cada vez mais abordar este tema da violência doméstica, algo que se manifesta por vezes de forma subtil, outras vezes de forma radical, como é o caso de todas as mortes que têm vindo a ocorrer em Portugal.
O álcool não explica tudo, jovens estão a matar as namoradas, companheiras ou ex-companheiras, e alguns não bebem. É uma questão de mentalidade, e a mentalidade só se muda , muito lentamente, através da educação desde o berço.
Desculpe, Elvira. Por falar demais.
xx

manuela barroso disse...

É profundamente triste, uma aginia lenta esta situação que se vai arrastando e agora mais vulgarizado.
Até quando? Até quando as mulheres se deixam abater por cobardes que só matam por sentirem prazer em mostrar a força
física?
Sem palavras....
Beijinho Elvira

Bela Narrativa, como sempre

Edumanes disse...

Coitada da Celeste, caiam-lhe lágrimas dos olhos dentro do alguidar a descascar batatas e não cebolas. As cebolas é que fazem deitar lágrimas dos olhos de quem as descasca. Todavia as lágrimas caídas dos olhos da Celeste, eram lágrimas de dor, cujo o divórcio seria o melhor caminho a seguir, para pôr fim a esse sofrimento, causado pela violência do marido, da qual era vítima. A violência doméstica é um flagelo que tem pernas para andar e não se cansam?
Quando eu era moço, lá na aldeia, conheci um vizinho, todas as noites chegava a casa, por volta da meia noite, porque depois de sair do trabalho passava pela taberna e só de lá saia depois de ela fechar, que era às onze horas da noite. Já com um grão na asa, chegava a casa não havia comida. A mulher e os filhos saiam para a rua pelo próprio pé, as panelas voavam para o meio da rua, pela porta ou pelo postigo, era um estartalhaço até às tantas da matina.

Boa noite e bom fim de semana, um abraço amiga Elvira.
Eduardo.

Edumanes disse...

Corrijo a palavra estartalhaço. PARA estardalhaço!

Rogerio G. V. Pereira disse...

Por vezes
o poema é o único refúgio

... e se lhe disser que a "casa dos segredos" é o programa mais visto?... e que o vinho é o liquido mais bebido?... e que o desemprego não é mero enredo?... e que o analfabetismo é mesmo um martírio?

António Querido disse...

Devo começar por dizer neste meu comentário que a minha companheira, esposa e mãe dos meus filhos se chama Celeste, mas aquela mão não é a minha, nunca precisei (felizmente) de lhe dizer até logo, foi sempre um até já, porque tive a sorte de trabalhar lado-a-lado a vida inteira com ela, tivemos zangas que acabavam sempre com um beijinho e pedido de desculpas, estou completamente de acordo com a amiga Laura, quando diz que tudo começa com uma questão de educação e respeito, o meu pai e a minha mãe faleceram com 85 anos, com o intervalo de seis meses, nunca vi o meu pai levantar a mão, nem sequer como ameaça, eu sim levei algumas, mas reconhecidamente justas aos meus 12 anos! Este fenómeno recente de assassinatos assusta-me, só porque não aceitam uma separação, que no fundo é a ideia ideal para um casal que não se entende, isto faz-me muita confusão!
Cá vai mais um fraterno abraço Elvira, continuação de boa saúde e inspiração para os seus contos.

RENATA MARIA PARREIRA CORDEIRO disse...

Fiquei muito triste, muito triste mesmo. Partilho do que dizes na coda, o mesmo que disseste ao comentar um poema meu.
Beijo e bom domingo,
Renata

lagartinha disse...

Sinceramente, tenho medo de que tanto se falar em violência doméstica a mesma acabe por de banalizar. Tenho medo que as pessoas acabem a achar "o Manel bateu na mulher? ó pá, qual é a novidade?"

Infelizmente estas situações continuam a acontecer e não vão acabar tão cedo, pelo menos enquanto existirem mãezinhas que deixam os filhos crescerem a acreditar que têm de "arranjar" uma mulher que lhes trate da casa, das refeições e principalmente do ego...

Nilson Barcelli disse...

A violência doméstica é uma calamidade social de grande dimensão que, por isso, vale sempre a pena denunciar.
Gostei dos "ingredientes" do 1.º capítulo.
Acabei de ler agora o último capítulo da história da Rosa. Gostei muito do princípio ao fim.
Tem uma boa semana, querida amiga Elvira.
Beijo.

Zilani Célia disse...

OI ELVIRA!
UMA DENÚNCIA DE UMA SITUAÇÃO QUE OCORRE EM TODAS AS CLASSES SOCIAIS E DESDE QUE O MUNDO É MUNDO.
REALMENTE, SE HOMENS SÃO CRIADOS POR MULHERES COMO NÃO LHES É ARRAIGADO O DEVIDO RESPEITO A ESSAS QUE OS GERARAM?
É ALGO A SE PENSAR.
FALANDO DE TEU CONTO, MUITO BOM E TRISTE TAMBÉM.
ABRÇS


http://zilanicelia.blogspot.com.br/

Pedro Coimbra disse...

E por aqui continuam a discutir se a violência doméstica dever ser crime público
Não devem TEM QUE!!!
Boa semana!

Pedro Coimbra disse...

deve, e não devem

Marina Fligueira disse...

¡Hola Elvira!!!

La violencia de género es un cáncer, una fatal lacra difícil de exterminar.
La mujer nunca será capaz de reeducar una bestia que trae la violencia en su entraña.

Seguramente heredada, contemplada de su progenitor ya desde la infancia.

Esto debería ser la asignatura principal en los colegios, desde la primera etapa de la niñez.

Te dejo mi felicitación y mi estima por tu buen hacer y tu cercanía.

Es un texto 10. Gracias.
Un abrazo y que tengas una placentera semana, que brille el sol en tu vida: como para mí lo deseo.
Chauuuuuu

Luma Rosa disse...

Oi, Elvira!
Um ultraje para a humanidade ver que os homens batem em mulheres. Isso é falta de caráter e a bebida ajuda a aflorar essa má índole. Um homem deveria provar dessa covardia para sentir na pele o que é a dor física, mas além disso, a dor moral que gera muitas mágoas e destróem casamentos. As palavras também machucam e vem da falta de respeito por eles mesmos. Enfim, dizem que é cultural, mas custo a entender isso. As mulheres precisam ser mais amigas delas mesmas e pensar bem antes de falar qualquer coisa para uma criança ainda em formação. Seria preciso que homens de moral condenassem essa conduta publicamente, não achas?
Um texto para pensar, ter compaixão e se solidarizar!
Boa semana!!
Beijus,

Existe Sempre Um Lugar disse...

Boa tarde, a violência domestica continua a aumentar e aumentar vai continuar, não são os professores que tem que educar, são pais que devem educar e dar bons exemplos aos filhos, acontece infelizmente ao contrario, os filhos acabam por achar que a violência domestica é normal e correto, a prova é, que a violência começa no namoro.
AG

MARILENE disse...

Já estou cansada de ler notícias da natureza. Esses assassinatos se tornaram comuns. E não adianta a mulher fugir, se separar, porque o homem a encontra e mata. Quase todos os dias um crime da espécie é manchete dos jornais. Mulheres, mães, têm que educar seus filhos de maneira diferente, pois creio que essa sensação de posse está no perfil daqueles que entendem tudo poder. E as meninas há que serem formadas para uma vida independente, de forma que, vivendo um mal casamento, não tenham receio de se libertar. Bjs.

Fernando Santos (Chana) disse...

É lamentável é uma situação que tem que ser invertida com urgência....
Cumprimentos

Vitor Chuva disse...

Olá, Elvira!

Sem independência económica nunca haverá verdadeiramente liberdade para a mulher - ou homem.Não havia antes e não há agora, e a relação entre mais forte e mais fraco nunca mudará.E pior ainda quando as coisa dão para o torto como agora, com a vida difícil que bateu à porta de tanta gente.E ao contrário do que diz o ditado,nem sempre quem cala consente...

Um abraço e boa semana.
Vitor

Zé Povinho disse...

Quantas vezes são o medo e a vergonha que contribuem para que muitos ainda se julguem inpunes neste crime...
Abraço do Zé

© Piedade Araújo Sol disse...

muitas mulheres existem como a Celeste do teu conto.
incomoda-me muito a violência doméstica e por vezes nem entendo como há pessoas capazes de tais actos.
beijo
:(

Lari Moreira disse...

Muito chocante a história. Triste saber que existem esse tipo de coisas acontecendo por ai :/
http://maybe-i-smiled.blogspot.com.br/

Silenciosamente ouvindo... disse...

Amiga, gostei, mais uma vez deste
seu texto. A violência doméstica
é atroz!!! E cada vez há mais
por todo o mundo...
Bj.
Irene Alves e desejo que esteja bem.

lis disse...

Oi Elvira
A violência doméstica ganha as páginas dos jornais também por aqui com frequência assustadora.
Uma ótima visão dessa realidade no seu conto. alías nenhuma surpresa já que é uma excelente contista;
um abraço