O posto médico da Seca do Bacalhau
A foto é minha.
De Setembro a Março, Rosa trabalhava na Seca do bacalhau. Trabalho duro e não muito certo pois, quando o Inverno era rigoroso e não se podia pôr o bacalhau na rua para secar, não havia trabalho. Às vezes, ficava-se uma semana inteira sem ganhar um tostão. Mas, ainda assim, vivia-se melhor que no Verão, pois sempre eram dois a ganhar. E depois era a oportunidade dela ver gente da sua aldeia e de outras aldeias vizinhas, de rir, cantar e esquecer um pouco a miséria que tinha em casa. Ali, naquele mundo maioritariamente feminino, não havia segredos. Todas sabiam quando alguma levava “porrada” do marido, quando não tinham que comer ou quando punham “um filho a estudar”.a) Muitas vezes, sem dinheiro para procurarem uma parteira, faziam – no elas próprias sem quaisquer condições. Por causa disso, não raras vezes, alguma morria com uma infecção. Algumas, trabalhavam na seca com os maridos, outras, os maridos trabalhavam nas fábricas de cortiça, ou na C.U.F. mas todas viviam irmanadas na mesma vida difícil e contudo aparentavam uma alegria difícil de explicar, pois passavam muitas horas de trabalho sempre cantando, ou contando anedotas como se o trabalho fosse leve e a vida lhes sorrisse lá fora. Então quando tocava a lavar o bacalhau nas grandes tinas de água, que levavam seis mulheres de cada lado, era ouvi-las cantar o tempo todo, ora como um só coro de muitas vozes, ora desafiando-se umas às outras em quadras repentistas que pareciam não acabar nunca. Algumas faziam graça com a própria fome, como a Rosalina, que enfiava um dedo no meio do pão e comia à roda do dedo, dizendo que comia pão com chouriço, ou a Virgínia que dizia estar a almoçar um cozido à portuguesa, enquanto emborcava uma sopa deslavada.
Por esses dias, a Ti Urbana
perguntou-lhe:
-Ó Rosa, tu já estás prenha outra
vez, mulher?
- Não! - A resposta foi quase um
grito. Pela sua saúde, não me diga isso, que me desgraça.
- Eu não te digo mas que estás é
verdade. Basta olhar as tuas pernas. Ó mulher mas tu não tens juízo?
- Ai Ti ‘Urbana, se for verdade,
tenho que dar um jeito. Não quero ter mais filhos. O meu Alberto ainda não fez
os sete meses.
- Vai ao posto médico. Mas olha que
eu nestas coisas nunca me engano.
Na Seca, havia um posto médico, com
um enfermeiro, e às quintas-feiras ia lá um médico.
Nessa semana, Rosa foi ao médico
que confirmou as palavras da Ti' Urbana . Mais uma vez estava grávida!
Pediu ajuda a algumas mulheres mais
velhas. Nunca fizera um aborto mas, desta vez, tinha que ser. Estava decidida a
não ter mais filhos. Mas não tinha dinheiro para ir à parteira. A Adélia
ensinou-lhe a fazer escalda-pés com grãos de mostarda. Fez durante 3 dias mas
não resultou. Depois foi fazendo tudo o que as outras lhe diziam já ter feito
até terminar por picar o útero com um talo de aipo até sangrar. "Resulta
sempre", tinham-lhe dito. E resultou. Numa grande hemorragia, seguida de
infecção, que a ia matando. Acabou numa sala de cirurgia, no hospital de Almada, onde sofreu uma histerectomia total. "Caparam-na" como ela costumava dizer. E nunca mais engravidou.
Continua
a) pôr um filho a estudar, era na linguagem das mulheres da seca, a designação para aborto, que nessa época em Portugal, era ilegal e podia até dar cadeia.
Continua
a) pôr um filho a estudar, era na linguagem das mulheres da seca, a designação para aborto, que nessa época em Portugal, era ilegal e podia até dar cadeia.
