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27.11.14
OUTONO
Quem por aqui anda há muito, sabe que eu só tenho a 4 classe ,feita em 54 e que apesar de sempre ter desejado estudar nunca o pude fazer.
Também sabe que o ano passado entrei para a UTIB (Universidade da Terceira Idade do Barreiro.)
Ora bem, o prof de fotografia pediu seis fotos subordinadas ao tema OUTONO.
Estas foram as minhas...
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22.11.14
NÃO À VIOLÊNCIA
Mal o despertador tocou, Celeste saltou da cama. Lavou-se a correr e foi para a cozinha. Com gestos completamente automatizados, pegou no isqueiro e acendeu o fogão. Era noite ainda, mas Celeste trabalhava longe. Começou a fazer o almoço, para ela e para o marido. Uma lágrima soltou-se e veio cair no alguidar onde tinha as batatas para descascar. Estava cansada. Cansada daquela vida de miséria física e moral em que se encontrava. Onde tinham ficado os sonhos de menina? -Interrogou-se enquanto acabava de descascar as batatas. Onde a ilusão de um homem bonito, que se apaixonasse por ela e lhe desse uma vida de amor e felicidade?
Juntou duas postas de bacalhau ás batatas e o sal , quase sem dar por isso absorta nas suas recordações.
Celeste era uma mulher bonita, sem ser nenhuma beleza estonteante. Era pequena, de pele trigueira, com aquela cor das pessoas que vivem á beira-mar. Tinha o cabelo preto e uns olhos castanhos, que muitas vezes se enchiam de lágrimas. Era uma menina ainda, com toda a inocência dos seus quinze anos quando conheceu aquele que era o seu marido.
Afonso era um homem bonito. Mais velho e mais vivido, não foi difícil apoderar-se do coraçãozinho de menina que batia no peito da Celeste.
Casaram um ano depois. Celeste já carregava no ventre um filho. Ainda menina, teve que aprender a ser mãe, e a cuidar daquele pequeno ser, que Deus lhe quisera enviar.
Depressa se apercebeu que o marido não era o príncipe com quem sonhara. Um dia, tinha o filho três meses, Afonso saiu depois do jantar, deixando-a em casa com o filho, e só regressou depois da meia-noite completamente bêbado.
Como se fora um autómato, Celeste apagou o fogão, escorreu a água ás batatas e dividiu a comida pelos dois termos. Pegou as duas lancheiras, que estavam em cima do aparador, colocou um termo em cada uma, juntou uma carcaça do dia anterior, uma pera e um garfo. Encheu uma garrafa de meio litro de tinto e colocou numa das lancheiras. Foi ao quarto e acordou o marido. Na volta pôs um pano de cozinha em cada lancheira e fechou-as.
Tirou as chaves que estavam na porta, pegou na carteira, e na lancheira, e atirou um seco até logo, saindo de seguida. Não foi ao quarto despedir-se do marido. Há muito que não trocavam um beijo carinhoso.
Enquanto se dirigia à paragem do autocarro, na cabeça fervilhavam as recordações, dos olhos soltavam-se as lágrimas.
O filho crescera e saíra de casa. Nunca se sentira lá muito bem, nem tivera uma relação de amor com o pai. E assim que se empregou, arranjou uma casita e foi morar sozinho. A sua vida ficara então mais triste, sem a presença do filho.
Já lhe ocorrera pedir o divórcio. Porém o medo e a vergonha sempre a faziam desistir da ideia.
Recordou a primeira vez que o marido lhe batera. E a desculpa , com que teve que encobrir, perante a família, a vergonha e a dor que sentia. E os dias sem lhe falar. Dias em que ela lhe gritava o nome de manhã antes de sair de casa, e não se falavam mais.
Como agora que não se falavam desde que há oito dias ele lhe tinha voltado a bater. E tudo por causa do álcool. Mordeu os lábios para abafar um soluço ao lembrar - se daquela noite. Ela já dormia, quando Afonso chegou. E estava tão cansada que nem deu por ele se deitar. Acordou com o peso do marido em cima dela. E aquele bafo nauseabundo de bêbado. Quis empurrá-lo, fugir da cama. Mas não conseguiu. Ele era muito mais forte e puxara-lhe os cabelos com violência. Virou o rosto e isso enfureceu mais " a besta". Porque Celeste não reconhecia mais o marido naquele selvagem. Quando consumados os seus intentos se virou para o lado e adormeceu, ela levantou-se e meteu-se debaixo do chuveiro. Esfregou o corpo com raiva, enquanto as lágrimas se misturavam á agua. Voltou para a cama, e acomodou-se tentando não tocar no marido. Não dormiu mais. E agora enquanto esperava pelo autocarro, pensava que rumo dar à sua vida. O amor que sentira um dia por aquele homem, já sofrera muitas alterações. Foi raiva, medo, ódio, desprezo e agora era também nojo.
De repente saído do nada, veio-lhe à memória, o poema.
Anda Luísa,
Luísa sobe...
sobe que sobe,
sobe a calçada...
Sacudiu a cabeça, ao mesmo tempo que pensava, se o poeta saberia da sua existência.
É que aquela Luísa era ela...
Maria Elvira Carvalho.
Acabei de saber que mais uma mulher foi assassinada pelo marido. Quando era menina, era frequente ver os homens baterem nas mulheres. Alguns faziam até gala disso, perante os companheiros de trabalho, como se fosse uma honra.
Nunca pensei que chegaria a velha e continuaria a ver as mulheres serem espancadas e mortas pelos companheiros. Penso muitas vezes se não somos nós as verdadeiras culpadas desta situação. Não somos nós, mães e professoras capazes de os educar no respeito por nós próprias?
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20.11.14
ROSA ------------- FINAL
Foto de um grupo de retornados. Em 74, em poucos meses, meio milhão de portugueses regressaram das colonias. Chegavam de barco ou de avião, na sua maioria de "mãos vazias". Fugiam da guerra deixando para trás tudo o que tinham. Esta foto não é minha, (até porque nessa altura eu estava em Luanda) Foi retirada da net
XVI
Para Rosa tudo era novo e diferente, ela não entendia muito bem o que se passava no País mas o que ela notava é que o povo estava mais alegre, mais feliz
XVI
Para Rosa tudo era novo e diferente, ela não entendia muito bem o que se passava no País mas o que ela notava é que o povo estava mais alegre, mais feliz
Por outro
lado, João recuperara o emprego, o filho conseguira trabalho na Siderurgia
Nacional, a filha mais nova fora trabalhar para a Timex, até o filho doente, estava melhor agora, graças a uma bomba que o médico já tinha receitado à muito, mas que ela nunca conseguira dinheiro para comprar. A sua vida estava
muito melhor, ela podia enfim descansar um pouco, deixando o trabalho a dias e
ficando em casa a cuidar do marido e dos filhos solteiros. Podia também cuidar
dos netos, deixando as filhas mais descansadas e mais libertas de
despesas. Porém, sobre ela pairava, como uma sombra, o medo pelo filho ainda lá
longe. Principalmente porque não havendo a P.I.D.E, nem censura, tudo o que se
passava em África chegava a Portugal. Rosa sabia que o governo, estava a negociar
a independência, mas todos os dias chegavam a Portugal “os retornados” que
falavam do medo que sentiam, da guerrilha entre os movimentos de independência,
e alguns residentes pró colonialistas. falava-se de mortes, do
recolher obrigatório, da incapacidade dos militares impedirem os indígenas que
os saqueavam. E o seu filho continuava lá em Angola. Por outro lado, os
políticos pareciam não se entender, os governos provisórios sucediam-se, e Rosa
tinha muito medo que tudo voltasse ao mesmo, ou como diziam alguns, que a
seguir à ditadura fascista, se seguiria uma ditadura comunista. O marido
dizia-lhe, que isso sim seria um sonho, mas Rosa, que era uma mulher sem
instrução, e tudo o que aprendera na vida, ficara-lhe gravado na memória pelo sofrimento, achava
que ditadura nunca seria coisa boa, fosse ela fascista ou comunista. E lembrava-se do
que a avó sempre dizia quando ela era pequena e nem bem sabia o sentido das
palavras. “Atrás de mim virá, quem bom me fará” Tinha medo. Muito medo de ainda
vir a achar que os anos para trás, é que tinham sido bons. Naquele verão, mais de um ano após a revolução, o país parecia caminhar para uma guerra civil, e ela tinha medo do que o futuro lhe podia ainda reservar. Medo que só perdeu, quando em Novembro de 75,
pode enfim abraçar o filho que regressara são e salvo, após a Independência de
Angola. E quase no final desse mesmo mês, a viragem histórica do país, que afastou o espectro da guerra civil.
Agora sim, Rosa era uma mulher feliz.
Fim
Maria Elvira Carvalho
Bom, agora o pedido do costume, aos que acompanharam a história da Rosa. Gostaram da história? Não gostaram? Não se acanhem. É com as vossas criticas que posso melhorar para o próximo.
Maria Elvira Carvalho
Bom, agora o pedido do costume, aos que acompanharam a história da Rosa. Gostaram da história? Não gostaram? Não se acanhem. É com as vossas criticas que posso melhorar para o próximo.
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ROSA PARTE XV
Naquela manhã do dia 25 de Abril de 74, Rosa olhava-se no espelho e não se reconhecia. Apesar de não ter ainda 50 anos, Rosa estava cada dia mais velha, a face enrugada, os cabelos embranquecidos, o corpo magro e alquebrado, resultado de ser toda a vida, saco de pancada da própria vida. Pensava que já não tinha forças para se aguentar muito mais tempo. A sua família tinha-se desagregado.
Do marido, não sabia há muito,
talvez estivesse preso, ou, quem sabe, tivesse morrido em qualquer prisão. As
filhas casaram e embora não vivessem longe, estavam cada dia mais desligadas da
casa materna, divididas entre o trabalho, o cuidarem da casa e dos filhos.
Dos dois rapazes mais novos, um
conseguiu realizar o sonho de ser fuzileiro e encontrava-se num destacamento no
Lungué-Bungo, no leste de Angola, enchendo de saudade e preocupação o seu
coração de mãe. O outro, que era contra a guerra, fugira de salto para a
França. Restava-lhe em casa um filho, cada dia mais doente, e uma filha
adolescente.
Sacudiu a cabeça, como se quisesse
abandonar todos os seus pesares, e dirigiu-se a casa do Sr. Doutor, onde
ultimamente trabalhava a dias, sem sequer sonhar que no seu País estalara uma
revolução que ia mudar toda a sua vida. Ela não sabia, mas a sua família não era
muito diferente da maioria das famílias portuguesas pois, nessa altura, o País
via-se sangrado da sua juventude. Uns partiam para a guerra do Ultramar, sem nunca saber se voltavam, ou ficavam por lá, vítimas de uma mina ou de alguma bala emboscada.
Outros fugiam para não serem obrigados a partir para uma guerra que não queriam nem entendiam.
Foi com surpresa e medo que Rosa
ouviu da boca da patroa, a notícia da Revolução. Medo porque a
"doutora"- era assim que ela gostava de ser tratada, embora o médico
fosse o marido - lhe deu a entender que a revolução era muito má para o País e
para eles, patrões, que talvez não pudessem continuar a dar-lhe trabalho. Rosa
ficou muito preocupada. Se ficasse sem trabalho, como ia pôr comida na mesa?
Mas quando chegou a casa, o filho explicou-lhe o que significava a revolução de
uma maneira diferente. Falou-lhe do fim da guerra colonial, da abertura das
prisões, do fim da P.I.D.E. e do sonho dum País mais igualitário. E o seu coração sofrido encheu-se de esperança.
Dois dias mais tarde, quando
Rosa chegou a casa, no fim de mais um dia de trabalho, teve uma grande surpresa ao encontrar o seu João. Muito magro,
o cabelo todo branco e o ar macilento, em nada se parecia com o homem com quem
casara. Apenas o brilho nos olhos encovados, lhe lembrava o João de antigamente. Apesar da
alegria do reencontro, Rosa estava preocupada com a saúde do marido. E tinha razão, porque se ele recuperava aos poucos as mazelas físicas, as psicológicas continuariam a
persegui-lo durante muitos anos.
Dias depois, Rosa e João
comemoravam pela primeira vez na sua vida o 1º de Maio em liberdade. E dois meses depois,
podiam abraçar o filho António, que regressara da França, ao saber que o novo
governo estava a negociar a independência das colonias e que, por isso, não
teria que ir para a guerra.
Continua
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14.11.14
ROSA -------- PARTE XIV
Mergulhado nos ideais comunistas, João
fora-se embrenhando na política e tornando-se um membro muito ativo no partido. A política
é uma amante muito ciosa dos seus afetos e não tem contemplações com outros
amores, especialmente em regimes fascistas e repressivos. Assim, aos poucos
foi-se afastando cada vez mais da família. No começo, ele conseguia conjugar o
seu trabalho, a vida familiar e as obrigações do partido sem levantar grandes
suspeitas. Mas à medida que se foi tornando mais influente dentro do partido,
isso tornou-se praticamente impossível. E quando, após uma denúncia, a maior
parte dos seus camaradas foram surpreendidos e presos, João, que só não fora à
reunião porque nesse dia entrara às 16 horas no trabalho e só saiu à
meia-noite, pensou que a sua prisão estaria por horas. Em parte por causa da
família, e em parte porque achava que seria mais útil ao partido cá fora do que
preso, fugiu nessa mesma noite. Mais uma vez, Rosa ficava numa situação
precária, com 3 crianças e um adolescente frágil e doente para cuidar e alimentar.
Valeram-lhe as duas filhas mais velhas e algumas vizinhas. Estas ajudavam não
só com alguma comida como também arranjando-lhe mais horas de trabalho. De vez em quando, chegava uma carta com dinheiro. Não muito, mas era uma ajuda. Embora as cartas não trouxessem
remetente, Rosa sabia que eram do marido. A primeira carta chegou com carimbo
de Beja, a segunda de Lisboa, a terceira de Faro. Cada uma de um sítio
diferente. Ela não podia saber que a carta que recebia viajava sempre com algum
camarada para uma terra distante e só lá era metida no correio. Mas este era um
estratagema que eles usavam para despistar a P.I.D.E. Agora, a filha mais velha ia
casar. Rafael era um excelente rapaz, muito trabalhador. Filho único, de mãe
viúva, conseguiu livrar-se da ida para o Ultramar, por ser dado como amparo de
mãe.
Rosa sentia uma grande tristeza por
não ser o marido a levar a filha ao altar; e não tê-lo a seu lado naquele dia
tão importante das suas vidas. Afinal, a noiva era a sua menina. Tinha medo que
ele estivesse preso. Há vários meses que, não recebia nenhuma carta. Falava-se
em sussurros que nas últimas semanas tinham sido efetuadas muitas prisões. De
vez em quando, desaparecia um vizinho. No Barreiro, havia muitas mulheres como
ela. Viúvas da política. Algumas eram viúvas de facto pois os seus maridos
foram torturados até à morte. Outras eram viúvas de maridos vivos, pois que
estes estavam presos e muitas vezes nem a família sabia onde, ou ainda, andavam
fugidos por terras estranhas.
Continua
Continua
Quase meio milhar de homens foi preso, sem cometer outro crime, que não fosse reclamar da vida de miséria que tinha. Claro que entre eles havia membros do partido comunista que lutava na sombra contra a politica fascista do regime. Mas a grande maioria, apenas queria uma vida melhor e nem sabiam o que era comunismo, quanto mais pertencer ao partido. Muitos deles não resistiram às sessões de tortura.
13.11.14
ROSA ------ PARTE XIII
Foto DAQUI
Quando Rosa saiu do hospital, o padre que a tinha casado, arranjou-lhes um dos oito fogos, que ele próprio mandara construir para alguns dos seus paroquianos, que viviam em condições miseráveis. A casa ficava na vila, longe portanto da Seca, mas Rosa achou que lhes tinha saído a sorte grande. A casa, composta por uma boa cozinha, casa de banho e três quartos, com água, luz e chão de tacos, pareceu-lhe um palácio. A vida do casal começava a melhorar. A filha mais velha foi servir para Cascais e só vinha a casa uma vez por mês. A segunda também foi servir para casa dum Sr. Doutor, lá mesmo no Barreiro. Dos três mais velhos, ficava em casa o rapaz que era muito frágil e que tinha sempre “uma ninhada de gatos no peito”. Ali na vila, Rosa arranjou algumas senhoras que lhe davam umas horas de trabalho para limpezas, ou passar a ferro e a vida parecia então começar a equilibrar-se. Mas… foi nessa altura que João mudou. Andava macambúzio, perdera parte da sua alegria, olhava à volta com desconfiança e, de vez em quando, saía à noite. Às vezes, vinha cedo mas outras, só voltava de madrugada. Rosa começou a pensar que ele tinha arranjado uma amante.
Sentia que o chão lhe fugia debaixo
dos pés e um dia fez-lhe a pergunta direta.
João irritou-se. Que ela estava
doida, onde teria ido buscar essa ideia. Mas Rosa não ficou convencida. E numa
noite, em que o marido voltou a sair, ela foi atrás dele. E viu quando ele se
encontrou com mais dois e como andavam
em silêncio, acautelando-se nas sombras. E viu quando um quarto homem chegou com uma pasta, da qual tirou uns papéis que distribuiu em silêncio. Escondida, viu como os homens espalhavam alguns papéis, protegendo-se sempre no escuro e sem trocarem uma palavra. Assustada, voltou para casa e meteu-se na cama. A tremer, esperou a chegada do marido. Ela já tinha visto alguns papéis daqueles no chão. Tentara até apanhar um, mas a vizinha impediu-a. Disse-lhe que eram papéis contra o governo, que os comunistas espalharam, mas que se ela fosse apanhada com algum, seria considerada comunista e seria presa. O João podia ser preso? A frase martelava-lhe a cabeça e dava-lhe suores frios.
em silêncio, acautelando-se nas sombras. E viu quando um quarto homem chegou com uma pasta, da qual tirou uns papéis que distribuiu em silêncio. Escondida, viu como os homens espalhavam alguns papéis, protegendo-se sempre no escuro e sem trocarem uma palavra. Assustada, voltou para casa e meteu-se na cama. A tremer, esperou a chegada do marido. Ela já tinha visto alguns papéis daqueles no chão. Tentara até apanhar um, mas a vizinha impediu-a. Disse-lhe que eram papéis contra o governo, que os comunistas espalharam, mas que se ela fosse apanhada com algum, seria considerada comunista e seria presa. O João podia ser preso? A frase martelava-lhe a cabeça e dava-lhe suores frios.
Quando João chegou a casa, achou a
mulher estranha.
- O que tens, mulher? Aconteceu
alguma coisa?
Ela respondeu com outra pergunta:
- Tu és comunista, João?
- Cala-te, - disse perdendo a cor.
Nem em pensamento, ouviste, nem em pensamento repitas isso.
- Então é verdade, disse ela com a
voz embargada pelas lágrimas. Mas porquê? Já passamos tanta fome, tanta miséria
e agora que a nossa vida está bem melhor, é que queres desgraçar-nos.
-Tu não compreendes mulher. É nosso
dever tentar que os nossos filhos não passem o que nós passamos.
- Mas… e se eles te prendem João?
- Não te preocupes, nós temos cuidado. É
verdade que há muitos “bufos”, mas também há muita gente do nosso lado.
Mas, desde aquela noite, e durante
vários anos, Rosa nunca mais teve um minuto de sossego.
Bom, será que a vida da Rosa não tem sossego? Para os amigos portugueses, esta Rosa é vossa conhecida não é mesmo? Pois é, quantas Rosas viveram neste país no espaço temporal entre o início do estado novo e a revolução dos cravos.
12.11.14
ROSA PARTE XII
O posto médico da Seca do Bacalhau
A foto é minha.
De Setembro a Março, Rosa trabalhava na Seca do bacalhau. Trabalho duro e não muito certo pois, quando o Inverno era rigoroso e não se podia pôr o bacalhau na rua para secar, não havia trabalho. Às vezes, ficava-se uma semana inteira sem ganhar um tostão. Mas, ainda assim, vivia-se melhor que no Verão, pois sempre eram dois a ganhar. E depois era a oportunidade dela ver gente da sua aldeia e de outras aldeias vizinhas, de rir, cantar e esquecer um pouco a miséria que tinha em casa. Ali, naquele mundo maioritariamente feminino, não havia segredos. Todas sabiam quando alguma levava “porrada” do marido, quando não tinham que comer ou quando punham “um filho a estudar”.a) Muitas vezes, sem dinheiro para procurarem uma parteira, faziam – no elas próprias sem quaisquer condições. Por causa disso, não raras vezes, alguma morria com uma infecção. Algumas, trabalhavam na seca com os maridos, outras, os maridos trabalhavam nas fábricas de cortiça, ou na C.U.F. mas todas viviam irmanadas na mesma vida difícil e contudo aparentavam uma alegria difícil de explicar, pois passavam muitas horas de trabalho sempre cantando, ou contando anedotas como se o trabalho fosse leve e a vida lhes sorrisse lá fora. Então quando tocava a lavar o bacalhau nas grandes tinas de água, que levavam seis mulheres de cada lado, era ouvi-las cantar o tempo todo, ora como um só coro de muitas vozes, ora desafiando-se umas às outras em quadras repentistas que pareciam não acabar nunca. Algumas faziam graça com a própria fome, como a Rosalina, que enfiava um dedo no meio do pão e comia à roda do dedo, dizendo que comia pão com chouriço, ou a Virgínia que dizia estar a almoçar um cozido à portuguesa, enquanto emborcava uma sopa deslavada.
Por esses dias, a Ti Urbana
perguntou-lhe:
-Ó Rosa, tu já estás prenha outra
vez, mulher?
- Não! - A resposta foi quase um
grito. Pela sua saúde, não me diga isso, que me desgraça.
- Eu não te digo mas que estás é
verdade. Basta olhar as tuas pernas. Ó mulher mas tu não tens juízo?
- Ai Ti ‘Urbana, se for verdade,
tenho que dar um jeito. Não quero ter mais filhos. O meu Alberto ainda não fez
os sete meses.
- Vai ao posto médico. Mas olha que
eu nestas coisas nunca me engano.
Na Seca, havia um posto médico, com
um enfermeiro, e às quintas-feiras ia lá um médico.
Nessa semana, Rosa foi ao médico
que confirmou as palavras da Ti' Urbana . Mais uma vez estava grávida!
Pediu ajuda a algumas mulheres mais
velhas. Nunca fizera um aborto mas, desta vez, tinha que ser. Estava decidida a
não ter mais filhos. Mas não tinha dinheiro para ir à parteira. A Adélia
ensinou-lhe a fazer escalda-pés com grãos de mostarda. Fez durante 3 dias mas
não resultou. Depois foi fazendo tudo o que as outras lhe diziam já ter feito
até terminar por picar o útero com um talo de aipo até sangrar. "Resulta
sempre", tinham-lhe dito. E resultou. Numa grande hemorragia, seguida de
infecção, que a ia matando. Acabou numa sala de cirurgia, no hospital de Almada, onde sofreu uma histerectomia total. "Caparam-na" como ela costumava dizer. E nunca mais engravidou.
Continua
a) pôr um filho a estudar, era na linguagem das mulheres da seca, a designação para aborto, que nessa época em Portugal, era ilegal e podia até dar cadeia.
Continua
a) pôr um filho a estudar, era na linguagem das mulheres da seca, a designação para aborto, que nessa época em Portugal, era ilegal e podia até dar cadeia.
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9.11.14
ROSA PARTE XI
foto da net
No ano seguinte, Rosa dava à luz uma menina e no outro, mais uma menina e no outro ainda, um rapaz.
Três filhos em três anos. João
trabalhava agora na C.U.F., ganhava um pouco melhor mas, ainda assim,
pouquíssimo para as necessidades de cinco bocas. A casa também não tinha
condições. No quarto, além da cama de casal e do armário, só cabia o berço. As
duas crianças mais velhinhas dormiam no chão da cozinha, numa cama feita com duas mantas de trapos.
Quando vagou uma casa de dois
quartos no pátio, mudaram-se para lá. Mas Rosa já estava outra vez grávida.
Nessa altura não havia pílula, só as “camisinhas”. Mas João não as queria usar.
Quando os amigos, ou vizinhos comentavam da pobre Rosa que sofria de “prenhez
cronica” ele dizia a rir:
-E o que é que eu hei-de fazer? O
raio da mulher basta olhar para mim quando estou a mudar de roupa para
“embuchar” logo.
Rosa adorava o marido. Nunca lhe
batera, o que os maridos de algumas vizinhas faziam com frequência, nunca a ofendera e,
às vezes, até era carinhoso com ela. Era bom pai, muito trabalhador, não se
metia nos copos como a maioria dos homens do pátio. O pior, era não querer usar a malfadada “camisinha”.
Cada vez que ela lhe pedia, respondia sempre que "os rebuçados embrulhados
não sabem a nada". E Rosa começava a sentir-se exausta.
Felizmente para ela, o bebé não foi
além do terceiro mês, tendo sofrido um aborto espontâneo. O pior foi que pelo
Natal já estava outra vez grávida. Rosa tinha que aproveitar o trabalho na Seca
do Bacalhau para ajudar a despesa da casa. Levantava as crianças logo de
manhãzinha e lá ia ela para o trabalho, com um filho no bucho, os dois mais
pequenos sentados cada um do seu lado sobre a anca e a maiorzinha agarrada às
saias. Na Seca, estendia o xaile dentro dum carro de mão e lá metia os bebés
guardados pela pequenita enquanto ela trabalhava. Tempo depois, voltou a
abortar e deu Graças a Deus por isso.
Depois, vieram mais três em
quarenta meses. Rosa ainda não fizera 28 anos e já tivera seis filhos e dois
abortos. As duas filhas mais velhas já estavam na escola. Rosa tinha vergonha
de mandar as crianças, para a escola, com os sapatos rotos mas não podia comprar
outros. De roupa, as duas mais velhas estavam servidas. Havia na Seca uma
senhora, esposa do chefe de escritório, que tinha duas filhas, um pouco mais
velhas que as suas e dava-lhes a roupa que já não servia às meninas. Coisas
caras, de bons tecidos, que mesmo depois de deixarem de servir às filhas, ela
guardava religiosamente para a mais pequenina. Para os rapazinhos é que era
pior. Mas a necessidade aguça o engenho e Rosa ia aproveitando das suas roupas
e do marido, que já não davam para consertar, alguns bocados bons que dava para
uns calções ou um bibe para eles. De quando em vez, Amália, a cunhada, lá
arranjava maneira de lhe dar um quilo de arroz, umas batatas ou meio litro de
azeite. Não muito que também ela vivia com muitas dificuldades. O problema dos
pobres é que o que podem partilhar é sempre muito menos do que manda o seu
desejo de ajudar.
À noite, quando regressava do
trabalho, Rosa recolhia do pessoal que vivia na Seca e cuja cozinha era
composta por enormes fogões a lenha, o carvão que os ia aquecer na braseira.
Mas sentia-se muito cansada.
Sentia-se velha. A vida estava cada dia mais difícil. O ordenado do marido não
chegava para nada. O dono da mercearia fiava-lhe o avio durante a semana.
Quando no sábado o marido recebia a semanada, passava por lá para acertar
contas e vinha logo sem dinheiro para casa.
Continua
Continua
Bom fim de semana
4.11.14
ROSA PARTE X
Igreja de Santa Cruz no Barreiro. A estátua em frente é do Padre Abílio. Homenagem do povo a quem ele amou, e protegeu, construindo casas e dando comida e roupas aos mais necessitados.
Meus pais casaram nesta mesma igreja em 1946 ano em que nesta história se casou a Rosa. Na foto do casamento deles me inspirei para o vestido de noiva da Rosa. Podem ver a foto no fim do post.
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X
No Domingo, depois da missa, falaram com o padre para marcar o casamento. Naquela época, no Barreiro, era o Padre Abílio que estava na Igreja de Sta. Cruz onde eles acabaram por casar.
Este, depois de ter ouvido a
confissão dos dois, fez questão de tratar de tudo rapidamente e sem qualquer
custo. Casaram três semanas depois, o tempo necessário para os proclamas na
terra dos noivos.
João tinha alugado uma casita num
pátio perto da entrada da Seca. Era pequena, apenas um quarto e uma cozinha,
uma pequena arrecadação e um galinheiro nas traseiras. Não tinha luz elétrica,
nem água canalizada. Mas, no centro do pátio, havia um poço com uma espécie de
tripé por cima, com uma roldana, onde passava uma corda que tinha numa das
pontas um balde. Era desse modo que eles se abasteciam de água. Não tinha casa
de banho. As necessidades faziam numa espécie de pote em argila, que era
despejada todas as manhãs na “pipa”, A “pipa” era uma camioneta cisterna,
propriedade da Câmara, que todas as manhãs percorria os pátios para recolher os
detritos. Num canto do pátio, havia um pequeno cubículo onde se improvisara um
duche comunitário, já que servia para todos os moradores do mesmo, que era
composto por oito casas. O duche era a ponta de um regador, presa num tubo que
saia de um bidão que alguém instalara lá em cima. Estava sempre cheio de água.
Cada vez que alguém tomava banho, quando acabava, ia ao poço buscar água para
voltar a encher o bidão. De Verão, o bidão apanhava sol todo o dia e o banho
era quente. De Inverno, a água gelava e os moradores tomavam banho num alguidar grande de zinco, com água aquecida nos fogões a lenha ou petróleo que cada um tinha em casa. Naquelas três semanas, até ao
casamento, compraram uma cama, uma mesa e dois bancos. A madrinha de casamento,
deu-lhes dois lençóis e o padrinho, um fogão a petróleo para fazer a comida.
A cunhada deu-lhe meia dúzia de pratos e dos futuros vizinhos recebeu um tacho,
uma panela, uma sertã, um candeeiro a petróleo e uma manta de trapos.
Rosa fora trabalhar para a Seca do Bacalhau e
lá encontrou gente da sua aldeia e de certa maneira sentiu-se mais segura. Era
gente que trabalhava muito, ganhava pouco e ainda tinha que poupar para a
viagem de regresso à aldeia, quando a safra acabava, e também para os meses que
ficavam lá na aldeia, sem saber onde arranjar dinheiro para comer. Mesmo assim,
juntaram-se e compraram o vestido de noiva da Rosa. Era uma saia azul e um
casaquinho da mesma cor e uma blusa branca. A cunhada deu-lhe os sapatos. Não
eram novos, tinha sido a madrinha dela que lhos dera no casamento. Mas como
estavam apertados só os usara nesse dia. Eram pretos, com um vivo largo branco
a toda a volta.
Quando no dia do casamento, se viu
ao espelho, Rosa achou-se uma rainha. E lá foi para a igreja, na carroça do ti’
Abel com o futuro marido, porque essa história do noivo não ver a noiva antes
do casamento, não era para gente pobre. Pelo menos nessa época.
Continua
Foto de casamento de meus pais.
Continua
Foto de casamento de meus pais.
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2.11.14
ROSA PARTE IX
Esta foto mostra uma mesa da Seca de bacalhau da Azinheira. A foto não é minha , mas conheço
este sitio como a mim mesma. Ao fundo à direita é a malta dos homens, que eu já mostrei em fotos minhas. À esquerda um dos armazéns de recolha do Bacalhau. As trabalhadoras, são a Idalina (que atualmente é a porteira) e a Vitória. Com ambas trabalhei alguns anos. A foto é antiga, hoje a Seca foi desativada, está apenas aberta para visitas de estudo.
IX
No dia seguinte, quando viu Amália
lavando roupa no tanque foi até lá para ajudar. E também, porque queria
conversar com a futura cunhada, longe de interrupções.
- Vim ajudar com a roupa, Amália.
- Não carece Rosa.
- Mas eu quero ajudar. E também
queria falar consigo. Saber se é verdade que o seu irmão, quer casar comigo e
porquê.
- Saber se é verdade? Tens dúvidas?
- Foi muito estranho o que
aconteceu.
- Vai-te habituando. A vida tem
muitas coisas estranhas. Tu por exemplo, não te pareces em nada com o que tenho
ouvido falar das mulheres que levam a vida que levavas.
Sem se conter, Rosa deu livre curso
às lágrimas. Amália ficou espantada.
- Que se passa agora? Porquê esse choro?
Não disse nenhuma mentira, ou disse? Não estavas numa casa de “meninas”?
Ela assentiu com a cabeça e depois
perguntou:
- Posso confiar em si?
- Claro, mulher! Afinal vamos ser
cunhadas. Mas antes deixa de me tratar por você. Que diabo, não estou a
tratar-te por tu? Faz o mesmo.
Então, Rosa abriu o seu coração e
contou tudo desde aquela fatídica tarde no monte.
-Juro-lhe, por tudo quanto há de
mais sagrado, que digo a verdade – terminou Rosa ao perceber o ar incrédulo da
outra.
- Pois então agradece a Deus, que te
livrou de um destino que não desejavas. Às vezes ELE escreve direito por linhas
tortas.
E então falou-lhe da ida de João
para os Açores, da promessa que ele fizera e de como a família se sentia
preocupada com a mulher que ele arranjasse. Nunca lhes passou pela cabeça
dissuadi-lo. Isso não! Promessa é sagrada. O Sr. Padre, sempre lhes dissera
“Muitas graças a Deus e poucas graças com Deus” e terminou:
-Vamos rapariga lava aí essas lágrimas e
prepara-te para enfrentares a vida que te espera. Não será fácil. Somos pobres,
vivemos do trabalho quando o há e quando não. O que eu quero dizer é que aqui
se trabalha seis meses por ano e tem que se guardar para os outros seis meses.
Felizmente, o João tem trabalho todo o ano na fábrica, e já se inscreveu para a
C.U.F. Se tiver a sorte de entrar, vai ser
muito bom. Lá ganham melhor, fazem muitos turnos. Não tens nada para a tua casa
e nós não poderemos ajudar grande coisa. Talvez uma panela ou uns pratos. Se
quiseres trabalhar, segunda-feira podes ir ao escritório da Seca. O trabalho é
duro mas sempre podes comprar alguma coisa para a casa.
- É claro que vou. Trabalho, foi coisa que nunca me meteu medo. Obrigada por me acolher e me
aconselhar.
- Então, agora vamos lá fazer o
almoço que está na hora. À tardinha uma de nós vem apanhar a roupa.
Continua
Que vos parece? A história da Rosa termina com o casamento (porque gente feliz não tem história) ou ainda muita água vai correr debaixo da ponte?
Que vos parece? A história da Rosa termina com o casamento (porque gente feliz não tem história) ou ainda muita água vai correr debaixo da ponte?
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