“Senhor, vós sabeis que eu não sei orar. Nunca ninguém me
ensinou, como dirigir-me a Ti, mas sempre ouvi que Tu sabes o que vai nos nossos
corações. Acredito que assim seja, afinal somos obra Tua.
Assim sendo, sabes o que a minha mãe fez. Quero dizer-Te
que lhe perdoei, e não lhe guardo rancor. Não Sejas muito severo com ela, que já expiou na terra o seu pecado, porque como Sabes, nunca foi feliz.
Senhor, quero agradecer-Te pelo tio que me deste, e
pedir- Te que alivias a sua tristeza e a sua dor. E acreditando que Jorge
Noronha, é o meu pai, também Te quero dar graças por tê-lo encontrado e por ele
ser a pessoa integra e digna que é. Obrigado meu Deus.
Senhor; quero ainda falar-Te de um homem que conheci há
dias e que não me sai do pensamento. Nunca tinha conhecido ninguém que me
impressionasse tanto. Como decerto não vou voltar a vê-lo, Faz com que ele seja
feliz e que eu o esqueça. Obrigado, Senhor.”
Ficou ainda uns momentos em silêncio olhando a imagem do
Sagrado Coração de Jesus, como se esperasse ver algum sinal de que Deus a
escutara. Depois persignou-se e abandonou o local. Desceu a escadaria, e olhou
o largo e a rua que se seguia. Ao contrário de quando chegara, nos últimos dias
de Agosto, em que a cidade fervilhava de gente a toda a hora, agora, terminadas
as férias os emigrantes regressaram aos países onde ganhavam a vida, não se via
naquele domingo ninguém nas ruas. É verdade que Setembro ia bastante quente,
mas ainda assim uma semana antes havia muita gente pelas ruas.
Ali mesmo ao pé da Igreja, na rua do Coval, estava a Casa
da Ribeira, um Museu Etnográfico, um espaço de memórias de outros tempos,
outras gentes, outros saberes. Helena gostava muito de artesanato, não ia
deixar de ver, tanto mais que a visita era gratuita. Encantou-se com as
técnicas usadas na fiação e tecelagem do linho. Conversou com a artesã, que
estava a tecer uma manta de trapos, num enorme tear manual. Viu como a peça que ela tecia ia
crescendo, viu as fotos dos antigos barcos que traziam os romeiros para a
Igreja de Nª Srª da Conceição, de onde ela saíra minutos antes. Aprendeu toda a técnica de trabalhar a lã desde
a tosquia, até à fiação, passando pela lavagem, secagem, e cardação. Viu as
almofadas com o pique e os bilros onde as rendeiras faziam a bonita e delicada renda, como demonstravam as fotos na parede, e também sobre uma mesa algumas rendas já feitas.
Encantou-se também
com os trabalhos de olaria expostos, e pelas fotos viu como era trabalhado o barro, a sua cozedura e todo o processo até finalizar a peça. E
ainda belos trabalhos de cestaria, em vários objetos expostos.
Foram quase duas horas em que se esqueceu de tudo, menos
do que via e aprendia. Como o Museu tinha uma secção de venda ao público, ela
adquiriu uma miniatura de uma estatueta em olaria, que lhe chamara a atenção, como
recordação daquela visita.

