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25.10.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE VI




Gil escreveu a história daqueles meninos até à idade adulta, e mostrou a uma amiga de outros tempos, agente de alguns grandes nomes na literatura mundial. Não tinha grande esperança de que o manuscrito tivesse muito valor, mas a agente ficou entusiasmada.
"Contrata-me como tua agente, e consigo-te um excelente contrato de exclusividade com uma das melhores editoras mundiais."
Ele aceitou com a condição de utilizar um pseudónimo, e a sua identidade ser absolutamente secreta. Nem nomes, nem fotos, nada. 
E Luna cumpriu o prometido.
O livro foi publicado em simultâneo em Portugal, Espanha, França, Estados Unidos e Brasil, e a primeira edição esgotou em dois dias, talvez fruto de uma boa campanha publicitária da editora, que elevou ao máximo a curiosidade dos leitores, por um escritor que ninguém conhecia. A critica não podia ser mais unânime nos elogios e as edições seguintes em várias línguas, esgotavam-se como pão fresco.
Entusiasmado com o sucesso, e também por pressão da editora, começou a escrever um novo livro desta feita sobre o mundo do futebol. Nele, descreveu os sonhos, os sacrifícios, os treinos diários, as amizades, as intrigas e invejas, as emoções da vitória, o desalento da derrota, as lesões, o medo de não se voltar à mesma forma, quando se sofre uma lesão, o espectro de um fim de carreira muito jovem, sem ter amealhado o suficiente para uma vida digna, pois só uma ínfima parte dos milhões de jogadores em todo o mundo, têm a sorte de se tornarem grandes profissionais pagos a peso de ouro. A grande maioria nunca chega a sair das divisões menores, em clubes pequenos, que não pagam muito, e quando acabam a carreira, não sabem fazer mais nada, pois desde bem pequenos viveram apenas para o sonho de se tornarem um novo Pelé, Eusébio ou Maradona.
E talvez porque não existiam livros sobre o assunto, ou porque existe do público uma grande curiosidade sobre o mundo do futebol, o livro teve um sucesso, ainda maior que o primeiro, esgotando a primeira edição no próprio dia do lançamento. Ninguém a não ser Luna, a sua agente e  o doutor Alcides, o seu advogado, conheciam a sua identidade. Nem mesmo aos irmãos ele tinha contado, embora tivesse oferecido ao irmão um exemplar de cada livro, dizendo-lhe que os lera e gostara.
A ele ainda lhe parecia um sonho, o que se estava a passar. A imprensa já dizia que o autor estava prestes a ultrapassar as vendas de Harry Potter de J. K. Rowling.
A imprensa escrevia, que o autor estava a usar o mistério, como uma arma para vender mais, mas não era esse o caso. Gil cansara da fama. De ser perseguido pelos fotógrafos a toda a hora, de não ter privacidade. Queria que o deixassem sossegado.
E de facto, a pressão dos média desaparecera e ele quase experimentara a doce sensação de ser um cidadão anónimo. Quase, porque havia sempre uma ou outra foto dele, seguida de uma pequena notícia, quando aparecia em algum evento de origem  beneficente, mas era uma coisa momentânea que não o incomodava muito. Esse “estado de graça” terminara, com o circo que a imprensa montara no hospital, no dia do assalto que acabara com a vida de Sara e as múltiplas chamadas que lhe faziam todos os dias a pedir uma entrevista.
Leu e releu o email de Luna. Nele, ela dizia-lhe que um produtor americano queria comprar os direitos do seu primeiro livro para o cinema. Mandava-lhe a cópia da proposta dele e na realidade era excelente.  Mas ele estava indeciso. Por um lado, tinha receio de que o filme deturpasse o verdadeiro sentido do livro, por outro receava ter que aparecer, e não estava preparado para isso.
Não agora. No momento, apenas queria pensar na sua filha, e na luta que era cada novo dia, até ao seu possível nascimento.


Obrigada a todos os que ontem me deixaram mensagens de apoio. Como já expliquei aos que me enviaram mensagens particulares, eu não estou depressiva, nem é a falta de vontade que me tem mantido prostrada, mas uma sucessão de males, que quase todos os anos me atingem no Outono e que este ano talvez pela situação de stress que tenho vivido o ano inteiro vieram todos de enfiada, não me dando tempo a recuperar de um para cair noutro. O último foi uma virose com todos aqueles inconvenientes que vocês conhecem. Tenho tido sempre acompanhamento médico e penso que começo a melhorar, pelo menos já não tenho febre. 
De todo o coração, muito obrigada