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16.4.16

MANEL DA LENHA - PARTE LII

        A filha mais velha do Manuel, à saída do Registo Civil

Manuel foi conversar com o gerente. Temia que ele dissesse que a porteira tinha que viver na Seca por causa de alguma emergência, mas ele disse-lhe que o emprego da mulher não corria risco. O que eles faziam ou onde dormiam fora das horas de serviço não era da sua conta. Os residentes na Seca se precisassem sair ou entrar fora dessas horas tinham chave, e os não residentes não podiam entrar fora das horas de serviço. E foi assim que no início de Abril começaram a habitar uma “casa de gente fina” como ele dizia todo feliz.  
 Entretanto a filha mais velha, tinha a papelada do casamento pronta, tinha alugado casa, mandara fazer o vestido de casamento, ela mesma fizera os cortinados e andava toda feliz. Mas… alegria de pobre nunca é completa. A meio de Abril, morre o irmão João. Foi um golpe terrível para ele. Durante mais de um mês nem o rádio que tanto gostava de ouvir, ligava.
Enquanto isso o país continua a sofrer com a fome, a guerra, e a privação de liberdade para manifestar as suas ideias. A remodelação ministerial do mês anterior, não produzira os resultados esperados e a 17 de Abril, começa em Coimbra, a revolta estudantil, que se manterá activa por vários meses. A 27 desse mês, Salazar faz oitenta anos e está claramente senil. 
Transmitido pela TV, foi o momento em que Neil Amstrong, pôs o pé na lua, quase no final de Julho. 
E no último dia de Julho,  regressa do leste de Angola, o namorado da filha mais velha. Compram os móveis e electrodomésticos, e ele vai viver para a casa que ela alugara, enquanto aguarda o dia do casamento que se pretendia religioso. Porém na Igreja não há vaga, teria que ter sido marcado bem antes, coisa que a jovem não fizera, por desconhecimento, e assim o casamento só poderia realizar-se três meses depois. Ansiosos, resolvem casar só pelo registo.
Casam a 16 de Agosto, no registo civil do Barreiro. A festa simples com a presença de familiares e duas ou três amigas da filha realiza-se em casa. Foi uma festa estranha, pois para a mãe da noiva, e restante família materna, fortemente religiosa, o casamento civil não era considerado casamento. A mulher do Manuel e as irmãs fartaram-se de chorar, nunca ninguém na família tinha casado apenas no registo.
Assim, elas consideravam aquele casamento, uma vergonha e uma imoralidade.