10.3.14

MARIA - II - A SURPRESA


                          notícias da minha saúde
(Acabei de chegar do médico. Isto porque apesar de estar muito melhor, continuo com tosse e falta de ar.
E então vou ter mais 15 dias de antialérgico, " Bilaxten " de spray nasal "Avamys" e ainda uma bomba, "Assieme" E voltar lá daqui a 15 dias se ainda não estiver totalmente bem.)


A Surpresa

A praia fica uns dois metros abaixo do nível da Quinta. Daí que as águas do rio nunca viessem até às oliveiras mesmo nas marés vivas de Agosto, ou quando estava mau tempo no Inverno. O mesmo não se passa do outro lado da azinhaga onde começa a Seca que ali naquele sítio está ao nível do rio.Daí que um pouco mais à frente onde as cassas e armazéns da Seca começam, o arame farpado dê lugar a uma parede de cimento que nós chamávamos muralha.  Mas ali naquele canto, onde hoje apenas se vêm ervas, existia o grande barracão de madeira onde meus irmãos nasceram e onde habitámos durante toda a nossa infância. Por isso ele estava assente em pilares de cimento, com mais de mais de um metro de altura. Para que não acordássemos em dia de marés grandes, dentro de água.

Atravessei a azinhaga e mergulhei os pés na faixa de areia, agora bem pequena, e transportada para lá por camiões da Câmara, já que a areia original da praia, desapareceu toda com o empurrar do rio para o lado de cá pelos aterros da Siderurgia Nacional. Fui caminhando lentamente. As águas de tão calmas pareciam artificiais. O sol estava prestes a desaparecer no horizonte e deixava nelas um rasto avermelhado, como uma estrada de fogo.
Sentei-me na areia entre dois tufos de junco, e perdi-me nas minhas recordações. Lembrei-me daquela vez em que saí de casa para apanhar amoras naquelas silvas do outro lado da cerca, e fiquei presa nelas sem conseguir desenvencilhar-me dos picos que me prenderam a saia. Não me recordo que idade tinha, mas era muito pequenina. Chorei tanto com medo que ninguém me encontrasse. E os meus pais aflitos percorrendo a margem do rio pensando que eu teria ido para lá e quem sabe estaria afogada.

“Vi” o meu irmão, brincando sozinho com a areia, abrindo poços e fazendo construções, e a minha irmã escondendo-se com medo dos GNR, que vinham de vez em quando a cavalo até à Seca, onde se reuniam com a Guarda-fiscal, cujo posto ficava no topo norte da malta das mulheres. “Vi” o grande barracão lá bem no cantinho, encostado à cerca, e o portão que aí havia e que a minha mãe abria todas as manhãs para o pessoal que vinha do Barreiro a pé pela Caldeira do Alemão para trabalhar na Seca. Quando passava a última pessoa, a minha mãe fechava o portão e ia com ela para o trabalho na Seca. À noite saía um pouco mais cedo e vinha na frente para abrir o portão.

Lembrei do quintal enorme que meu pai cultivava, do feijão verde, que nós comíamos cru sempre que alguma vagem nos chamava a atenção, ou quando tínhamos fome e os pais ainda não tinham vindo do trabalho, os tomates as cenouras, e até as cebolas que comíamos com um pouco de sal.

“Vi” o meu pai encostando uma escada de madeira ao barracão, subir ao telhado e colocar lá a bandeira do seu clube, naquele ano em que o Porto foi campeão na década de 50. Era tão raro naquela altura o F.C.P. ganhar alguma coisa.

O sol desaparecera no horizonte, o dia prestava-se para dar lugar à noite, e decidi regressar a casa.

Ao chegar à Quinta quedei-me surpreendida. Na minha frente levantava-se a mulher que me intrigara uma hora antes. E era afinal uma velha conhecida…


Continua

(Direitos reservados)

20 comentários:

António Querido disse...

Olá amiga Elvira!
Espero que esteja melhor, também esse género de maleitas me levaram hoje ao médico de família, passar pela farmácia e trazer um saco cheio de fármacos, mas fez-me bem vir a uma segunda visitar a sua sexta, depois de ler a sua história, já me estou a sentir melhor porque fala em locais que eu bem conheci com os meus vinte aninhos, isto faz-me recordar a minha juventude e lembrar os bons momentos que passei nessas paragens, os maus já esqueci.
Aqui deixo o meu abraço

Luis Eme disse...

memórias das boas...

abraço Elvira

✿ chica disse...

Que lindo te ler e também saber notícias tuas. Tomara fiques logo bem! bjs, chica

Anne Lieri disse...

Que belas e comoventes lembranças nesse conto,Elvira! Desejo suas melhoras! bjs,

Dorli disse...

Oi Elvira,
Lindo conto do teu passado, eu particularmente não penso no passado, apesar de ter sido muito bom, pois tenho que viver o hoje com minhas dores.
Espero que esteja melhor...
Entra pela Google e escreve: Haicai-Poesia(reeditando)- Lua Singular, ali explica direitinho esse tipo de poesia.
Beijos
Lua Singular

Olinda Melo disse...


Desejo-lhe rápidas melhoras, cara Elvira.

Gostei muito do seu texto feito de recordações.

E continuo curiosa. Quem será a mulher, essa velha conhecida?

Abraço.

eduardo maria nunes disse...

Belas recordações,
Seus tempos de menina
Apaixonados corações
Continuam ainda.

Maria a surpresa
Uma velha conhecida
Uma nuvem passageira
Deixa água na terra caída!

Desejo uma boa noite para você amiga Elvira, um abraço.
Eduardo.

lis disse...

Linda descrição desse momento de um passado feliz Elvira
E bonito muito linda a forma de conduzir o texto,
O gancho continua instigante...
Isso é bom rs
abraços Elvira

LUZ disse...

Olá, querida Elvira!

Fico feliz pela sua saúde ir a bom ritmo. Se Deus quiser e Nossa Senhora irá ficar bem. Um broncodilatador, tinha de fazer parte dessa "ementa". Não sei se a bomba de inalação, que refere, tem, também, essa função. Leia a bula, Elvira para saber se sim se não.

Que bonita descrição dos lugares e das suas vivências do passado!
O seu pai, não é? O seu amado pai.

Eu também não gostava nada, quando a minha saia ou vestido, se prendiam nalguma erva, tipo urtiga. Como ia sempre acompanhada pela Tita ou pelo avô João, nada que não tivesse solução.

Bem, então, a tal mulher, era apenas, uma velha conhecida, portanto, pessoa já de certa idade. Deu a volta ao conto, mas é assim que mostra a sua versatilidade literária.

Gosto muito da foto do perfil do blogue. Está com muito bom aspeto e o penteado está todo "fashion".

Um dia muito feliz, e resguarde-se do vento.

Beijinhos para todos, e em especial para a Nita.

Renata Maria disse...

Minha querida:
Espero que esteja bem ou melhor.
Sua narrativa flui como a água de um rio, levando-nos a querer ler o que vem depois. Gosto muito.
Beijos e apareça se puder,
Renata

Luma Rosa disse...

Oi, Elvira!
Espero que esteja melhor da sinusite alérgica! Tome bastante líquido e use soro fisiológico nas narinas para lavá-las. Quanto mais vezes, melhor!!
Quantas lembranças!!
Elvira, ainda não tinha lido esse conto. Ainda bem que está republicando!!
Beijus,

paideleo disse...

Que vaias millorando da saúde !.

Graça Sampaio disse...

Recordações... É bom recordar e rever aqueles que nos deixaram há tempos.

(Até que enfim "encontro" alguém que comia feijão verde cru! Adoro feijão verde cru e todos me chamam maluca...)

Boas melhoras.

Emília Pinto disse...

Fico contente, Elvira que esteja a melhorar e desejo que a recuperação seja rápida para se livrar dessa alergia que incomoda bastante . Sabe o que me preocupava quando ia às amoras? Era que os picos das silvas rasgassem o vestido ou saia; já sabia...era ralhete sério. Beijinhos, amiga e rápidas melhoras!
Emília

Dorli disse...

Oi Elvira
Obrigada pelo carinho
Beijos
Lua Singular

Vitor Chuva disse...

Olá,Elvira!

Viagem a um lugar que já não existe, usando a memória como mapa, na procura das boas recordações.Como que a fazer do passado presente, ainda que só por um momento - e quando assim é sabe tão bem...

E quanto à personagem misteriosa, cá ficamos à espera...

Continuação das melhoras, um abraço e bom resto de semana.
Vitor

Silenciosamente ouvindo... disse...

Minha amiga, o meu marido também
andou muito mal, com problemas
de falta de ar. Fez um Tac aos
pulmões e verificou-se que tinha
um problema nos brônquios. Usa
dois tipos de bomba(dias alternados)
e felizmente está muito melhor.
Desejo que a amiga melhore mesmo,
mas se tal não acontecer peça
para fazer exames.
Bj.
Irene Alves

eduardo maria nunes disse...

Uma agradável surpresa
Chega sempre a tempo de ser bem recebida
Quem pudera dizer adeus à tristeza
Com alegria viver bem na vida!

Sem mágoas, sem dor,
Com tudo o que faz falta para se viver
Com saúde, paz, carinho e amor
E muitas surpresas agradáveis receber!

Obrigado pelas suas visitas,amiga Elvira,desejo-lhe uma boa noite, um abraço
Eduardo.

Duarte disse...

Depois de tanta festa, vou tentar que a minha leitura não se atrase, mas seguindo uma ordem por ti establecida.
De momento já me sinto enganchado.
Desejo que estejas bem
Um grande abraço

Sónia M. disse...

Vim colocar-me a par do desenlace desta história, vou seguir por aqui acima. Ao que vejo, tenho a leitura bastante atrasada.

Cuide-se muito, espero que continue melhorando.

Abraços