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26.6.18

O DIREITO À VERDADE - VIII





-Então, não sabes onde mora?
-Bom o Jorge é um dos viticultores da região demarcada do Dão. Tem uma quinta numa terra ali para os lados de Viseu. Porquê? Não estás a pensar procurá-lo pois não?
- Claro que estou. É meu pai, quero conhecê-lo.
-Tens noção que ele pode não acreditar em ti, e rejeitar-te? Estás quase a fazer vinte e três anos e ele nunca soube que tu existias. Por outro lado, quando o encontrei, estava acompanhado pelo enteado que ele criou como um filho. O menino que era quando ele casou, é hoje um homem de quase trinta anos.
- Não lhe vou bater à porta, e dizer, “Olá boa tarde, eu sou tua filha.” Mas vou tentar vê-lo, saber que tipo de pessoa é. Talvez nem lhe diga que sou sua filha, mas quero conhecê-lo. E se depois resolver que devo dizer-lhe, ele tem como tirar as dúvidas rapidamente. Hoje em dia com o exame de ADN, fica-se logo a saber a verdade. Preciso de arranjar trabalho. Pode ser que tenha mais facilidade lá que em Lisboa. Pelo menos por um tempo. Depois regresso.
-Vejo que estás decidida. Quando partes?
-Para a semana. Logo que tenha tratado de tudo por aqui. Depois ficas-me com a chave do correio e passas por cá, de vez em quando, por causa das faturas?
-Claro. E queres que as pague?
- Não. Mandas-me uma mensagem com os dados para pagar no multibanco.
- Bom, então penso que está tudo dito. Telefona-me antes de ires para que venha buscar as chaves.
Pôs-se de pé, e estendendo os braços acolheu neles a sobrinha. Deu-lhe um beijo na testa e afastando-a um pouco disse fitando-a:
-Cuida de ti, Lena. Lembra-te. Aconteça o que acontecer, estarei sempre aqui para ti.
-Obrigado, tio. Julgo que sabes que gosto muito de ti. Telefonar-te-ei para te contar o que acontecer.
Fechou a porta quando o tio saiu e regressou à sala Guardou cuidadosamente os documentos no envelope, e voltou a colocá-lo na caixa que levou para o seu quarto.
Sobre a cómoda, numa moldura, uma senhora ainda jovem e bonita, sorria-lhe. A jovem pegou na moldura e ficou olhando-a com tristeza durante alguns minutos. Na sua cabeça havia uma interrogação contínua desde que fizera aquela descoberta.
“Como é que foste capaz, de me fazer isto, mãe? Como foste capaz de me roubar o direito a ter um pai?”
Aproximou-se do espelho e olhou-se. Depois olhou o retrato. Não havia dúvida, as duas eram bastante parecidas. O mesmo rosto redondo, os mesmos olhos e cabelos negros.O formato do nariz. Porém ela era bastante mais alta do que a mãe, e o queixo e boca não tinham qualquer semelhança. A sua boca era maior, os lábios mais carnudos. Seriam esses os traços do seu pai? Recolocou a moldura sobre a cómoda.
A casa sem a presença da mãe, parecia-lhe enorme, fria e vazia. Abraçou-se a si mesma, na tentativa de minimizar a solidão e tristeza que sentia. Que não era só pela ausência física da mãe, mas pela mágoa que lhe causara descobrir, que a mulher que ela considerava cheia de garra, uma mãe coragem, a quem sempre adorou, era afinal uma santa com pés de barro, uma mulher capaz de por vingança, sonegar à própria filha o direito a conhecer o pai.


Amigos, entre hoje e amanhã, sairão três partes da história, ou seja mais duas para além desta. Dia 28 é um dia muito especial, é a festa de anos do filhote, dia 29 tenho cá a neta, e depois mete-se o fim de semana que desejo que gozem em paz, pelo que o capítulo XI só sairá segunda feira.

15 comentários:

chica disse...

Ela está certa! Tinha que ir ter com o pai.Saber dele, vê-lo... Que bom que foi comunicado enquanto ele tá vivo!
Adorando! beijos, chica

Cidália Ferreira disse...

Sempre pronta para ler as novidades!! Helena faz bem, oxalá não se arrependa...Tudo indica que não!! :) Amei!

Beijos e um excelente dia!

Larissa Santos disse...

Então está mesmo decidida. Faz muito bem. Acho que ainda vai ser útil ao Pai. :))Bom este capitulo. Venham os outros ;))

O meu olhar triste, reflecte no coração

Bjos
Votos de um óptima Terça-Feira

Edum@nes disse...

Helena faz muito bem em procurar o seu pai. Se ele for um pai verdadeiro, penso que ficará muito contente em conhecer a filha que lhe foi escondida pela mãe que o não deveria ter feito!

Tenha uma boa tarde amiga Elvira.
Um abraço.

Janita disse...

Não querendo ser mais papista que o Papa, quer-me cá parecer que ainda vai ficar tudo em família...é cá um palpite!!!

:)

Os olhares da Gracinha! disse...

Como está decidida ... vamos aguardar!bj

Teresa Isabel Silva disse...

Muitos parabéns ao teu filhote!

Bjxxx
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aluap disse...

O pai deve ser boa pessoa e é de louvar ela (filha) querer mudar-se para uma região cada vez mais abandonada.
Estou a gostar muito deste conto, agora ainda mais porque mete um viticultor da região demarcada do Dão (a minha terra faz parte da Região Demarcada dos Vinhos do Dão e da Região Demarcada do Queijo da Serra).
Quanto ao resto, cheira-me que ainda vamos falar muito do enteado.
Abraço, cont. boa semana.

Gaja Maria disse...

Se fosse eu também quereria conhecer o meu pai. Logo se vê como vai correr :)
Boa noite Elvira

Kique disse...

Só tem que fazer a viagem para conhecer o pai
Bjs

Hoje em Caminhos Percorridos - BRUNINH@

Tintinaine disse...

A história mete vinho do Dão! Cada vez estou a gostar mais!

Ailime disse...

Boa noite Elvira,
Estou a gostar muito do desenrolar da história.
Creio que o pai não a rejeitará e o enteado, quem sabe, se não virá a ser um noivo para Helena:))?
Beijinhos,
Ailime

Cantinho da Gaiata disse...

Lendo tudo de seguida como gosto.
Acredito que vá à procura do Pai, tem esse direito.
Bjs

Smareis disse...

Espero que ela não se decepcione ao conhecer ao pai. Talvez a mãe escondeu a verdade do pai para poupa-lá mais tarde.
Bjs!

Lúcia Silva Poetisa do Sertão disse...

Retomando, depois de uma ausência ocasionada por excesso de atividades profissionais, para retomar essa bela história.
Beijos carinhosos!