23.6.18

SANTOS POPULARES. S. JOÃO



Estamos em Junho, o mês dos dias enormes, do começo do Verão, dos Santos Populares.  Este ano com uma novidade, que vem de quatro em quatro anos. O Campeonato do Mundo de futebol, ou como dizem nossos amigos do outro lado do oceano A  Copa do Mundo.
Mas deixemos o futebol para quem o entende, e vamos lá falar do S. João que hoje se comemora um pouco por todo o país, com maior intensidade no Porto e em Braga, que o têm por padroeiro.
 A verdade é que os maiores festejos - excepto os religiosos - ocorrem hoje, dia 23, véspera do dia do Santo. Há uns sessenta anos atrás, não existia TV, embora ela tivesse chegado a Portugal, em mil novecentos e cinquenta e sete, só uma escassa minoria possuía a caixinha mágica caixinha mágica, que iria alterar costumes e tradições. E para falar verdade, nem sentíamos na altura que fizesse muita falta. Nas noites quentes de Verão, o povo sentava-se à porta de casa, olhando as estrelas, sonhando com um futuro melhor para os catraios que brincavam na rua, saltando ao eixo, jogando à macaca, ou correndo atrás de uma bola feita de trapos, ou de bexiga de porco.
Pelos santos populares, na Seca da Azinheira, o pessoal residente, juntava-se no início da rua das "casas novas". Era assim que nós chamávamos ao grupo de casas que existiam na Seca e onde habitavam os empregados de escritório, os encarregados, os electricistas e os ferreiros. Nós vivíamos a uns trezentos metros, num barracão de madeira isolado, mas um dos eletricistas era irmão do meu pai, e tinha dois filhos um pouco mais velhos que eu, daí que no Verão, quando o pai não aproveitava a noite para cavar ou regar o quintal, íamos para as "casas novas" brincar com os primos e as outras crianças aí residentes, enquanto os pais se entretinham em conversas sobre a vida e os seus problemas. 
No S. João, o meu pai fazia todos os anos um enorme balão de papel colorido.  
Lembro-me que levavam umas tochas feitas com desperdícios, embebidas em petróleo, que enquanto ardiam mantinham os balões no ar. Quando se apagavam o balão começava a perder o ar quente que o mantinha lá em cima e acabava por cair atraído pela gravidade.
 Os mais velhos faziam uma fogueira no meio da rua, e sentados junto ao muro, do quintal da casa mais próxima, contavam histórias, enquanto davam um olhinho pelos mais novos. E nós, crianças corríamos atrás dos grandes besouros que sempre apareciam nesta altura do ano. Fazíamos rodas à volta da fogueira e quando ela ficava mais fraca, obtínhamos permissão dos pais para a saltar. Convivíamos. 
Todos se conheciam, todos se ajudavam. No dia seguinte cumprimentavam-se, comentavam a noite anterior, e acabavam com um "No São Pedro lá estaremos". 
Eu tenho saudades desse tempo. Hoje as pessoas juntam-se às centenas, às vezes milhares, todas no mesmo espaço, em concertos, e no futebol, saltam, gritam, mas não se conhecem, e quando o evento acaba, são de novo desconhecidas. Estão juntas e simultaneamente estão sozinhas. Estão ligados ao mundo, através dos seus telemóveis e das redes sociais, mas não sabem o nome de quem têm ao lado. Não há convívio. É como se as pessoas se tivessem transformados em ilhas. Podem estar distantes, ou mesmo ali ao lado, mas não se tocam. Vivem em prédios de vários andares e não conhecem às vezes nem o vizinho do lado. É urgente que a humanidade pense em ser ponte. Em união.
Bom S. João, e bom fim de semana.

19 comentários:

Roselia Bezerra disse...

Olá, querida amiga Elvira!
Um alegre São João para você...
Condomínios isolam as pessoas e, infelizmente, são coisas da modernidade que afasta.
Seja muito feliz e abençoada!
Bjm fraterno de paz e bem

Roaquim Rosa disse...

Bom dia
Como é bom recordar esses tempos que infelizmente os nossos filhos e netos nunca tiveram a oportunidade de viver . Alguns nem se acreditam que a vida á sessenta anos atrás era mesmo assim .
Amanhã o meu filho faz 39 anos , por isso é sempre um dia especial para ele e claro para mim .
um bom S. João para todos .
JAFR

Janita disse...

Bom São João, Elvira.

(apesar de tudo, esses, foram tempos bons. Dava-se valor às pequenas coisas conquistadas com esforço.)

Abraço

Janita disse...

Parabéns ao Joaquim Rosa e ao seu filho. O meu também faz anos amanhã!! :)

Os olhares da Gracinha! disse...

Festejei o S. João durante 35 anos na folia portuense ... embora hoje não tenha a magia de outros tempos!
Há 6 anos que não o festejo ... por isso fica a lembrança de outras folias!
Gostei de ler e BOM S. João!!!

Tintinaine disse...

Em criança, o meu santo era o S.Tiago. Nunca percebi porquê Ainda hoje não sei) porque festejavam o S.Tiago sendo orago da freguesia o Santo Adrião. Parece-me que só comecei a ouvir falar, ou a ligar aos santos populares, depois de regressar de Moçambique, em 1968.

Larissa Santos disse...

Bom dia. Parabéns a todos. Adorei o texto:))

Bjos
Votos de um óptimo sábado

Rejane Tazza disse...

Que lindo teu texto e tanta verdade: cada vez mais estamos isolados ... Tudo mudou.Festas de antes, hoje devem ser em locais fechados, cercados... Uma pena! Adorei te ler! Ótimo São João pra ti! beijos, chica

Observador disse...

São João é, tal como Santo António e São Pedro, um santo popular muito festejado em Portugal. É conhecido por ser o santo protector dos casados e dos doentes, sendo o santo que baptizou Jesus Cristo.

Boas festas, Elvira.
Um abraço

Rogerio G. V. Pereira disse...

"Todos se conheciam, todos se ajudavam"
E era assim, também no meu bairro
E todos os dias luto para que volte a ser

Por vezes resulta,
tal luta

(Recolhi quase 400 assinaturas...)

Cidália Ferreira disse...

lembro-me tanto nos nossos bailaricos de bairro quando eram os santos populares e o saltar da fogueira. Amei o seu texto. Já nada é igual!!

Especial ... Recordações dum amor profundo. [ Poetizando e Encantando.]

Beijos e um bom fim de semana.

Francisco Manuel Carrajola Oliveira disse...

Ainda tenho a lembrança de saltar as fogueiras dos santos populares, hoje já não é usual.
Um abraço e continuação de boa semana.

Andarilhar
Dedais de Francisco e Idalisa
Livros-Autografados

Francisco Manuel Carrajola Oliveira disse...

Queria dizer, um abraço e bom fim-de-semana.

Ailime disse...

Boa tarde Elvira,
Magnífico texto lembrando tempos antigos e com uma excelente reflexão!
Concordo em absoluto!
Todos nos conhecíamos, ríamos juntos, brincávamos, os pais falavam-se e hoje parece que andamos todos de costas viradas.
Por vezes sofro com isto, que é uma realidade para mais nos grandes centros.
Que saudades tenho da minha infância!
(Agora já temos a TV e a cores para nos deslumbrarmos com o São João do Porto;)!
Beijinhos e feliz São João.
Ailime

esteban lob disse...

Totalmente de acuerdo contigo, Elvira. También creo que te conozco más a ti que al vecino de enfrente.

Cariñoso saludo.

redonda disse...

Gostei muito deste texto
um abraço e bom S. João

maria disse...

Um retrato do passado e um retrato do presente, bem conjugados e que nos leva a reviver,por momentos, o lado quase poético da infância, e mais uma vez, a tomarmos consciência de que ainda há muito para evoluir no campo do relacionamento entre as pessoas em geral e das relações de vizinhança em particular... enquanto não acontece, vamos aproveitando o lado bom das redes sociais, porque em minha opinião, se forem bem (e só para o bem) utilizadas, podem ajudar a criar algumas "pontes" muito positivas, serem uma abertura para o "mundo" e possibilitar amizades e partilhas que de outro modo nunca seriam possíveis, aliás sem este meio de comunicação que estou a utilizar agora,como poderia eu estar a comentar este bonito texto!? Obrigado, beijinho e boa semana!

Rosemildo Sales Furtado disse...

Espero que o teu São João tenha sido muito bom e desejo que o teu São Pedro seja bem melhor.

Abraços,

Furtado

Lucia Silva disse...

O São João do passado era bem mais animado, as crianças brincavam sem medo do perigo e nas comemorações a felicidade de estar junto era partilhada, bem diferente dos tempos atuais que é cada um no seu mundo.
Abraços afetuosos!

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