9.2.16

MANUEL DA LENHA - PARTE IV



Na volta, o Sr. Américo, chamou a Piedade, e perguntou-lhe se deixaria ir o garoto mais novo para a sua casa. Seria companhia para o filho, faria alguns trabalhos não muito pesados e teria cama e comida. A mulher respirou fundo, e ergueu uma prece a Deus. Era menos uma preocupação, menos uma boca com fome. Agora ficava ela e João. A carga tornava-se mais leve.
Os anos seguintes foram para Manuel os mais felizes da sua curta existência. Na casa do patrão não faltava comida. O trabalho fazia-o bem. Era um miúdo franzino, porém tinha força e gostava de estar ali. Para isso contribuía, além da boa comida, os filhos do patrão, especialmente o mais novo, um rapazito pouco mais ou menos da sua idade, com quem se dava muito bem e de quem herdava a roupa e o calçado que lhe iam deixando de servir.
O Arménio era um rapazito esperto, sempre pronto a descobrir uma maneira de não fazer o que o pai queria. Porém era bom estudante e quando ia ter com o Manuel aos pastos, onde este estava com o gado, gostava de ensinar ao amigo o que ia aprendendo. Este que nunca tinha ido à escola, ouvia com avidez e registava tudo o ouvia. Foi assim que aprendeu a ler, e mais tarde a escrever. Gostava tanto do Arménio que prometeu a si mesmo, que se um dia tivesse um filho ele se chamaria assim.
Nos meios pequenos, tudo se sabe, e há sempre uma “alma caridosa”, que gosta de dizer o que não deve. 
Manuel não sabia que era filho de pai incógnito. Mais, ele pensava que o seu pai tinha ido para o Brasil, e nunca mais dera notícias. Era o que ouvia aos irmãos, e nunca lhe passou pela cabeça que o seu pai, não era o mesmo pai dos irmãos.
Mas um dia, andaria o Manuel pelos dez anos, chegou à aldeia, o Armindo, um emigrante que vivia no Brasil. Vinha buscar a mãe que ficara viúva. Ele contou que António, o marido da Piedade, tinha ido trabalhar para uma padaria, lá nos arredores de S. Paulo, tinha casado com a filha do patrão, e já tinha uma “penca” de filhos. Quando Manuel soube, achou que o pai era um “sacana” e ficou muito zangado. Logo, a tal “alma caridosa” se encarregou de lhe dizer que não tinha porque estar assim, afinal o homem não era seu pai, o seu pai era o Alberto da aldeia de Mourel. 


22 comentários:

Luis Coelho disse...

Gostei de ler. A vida ensina-nos muitas coisas e alguns dos nossos amigos encarregam-se de nos enriquecer com os seus conhecimentos.

Isa Sá disse...

A passar para acompanha a história e desejar um bom Carnaval!

Isabel Sá
http://brilhos-da-moda.blogspot.pt

✿ chica disse...

Enredo que nos contagia.Está muito bem engendrado! Gostando! bjs, chica

Marina Fligueira disse...

¡Hola Elvira!!!

Me encantó leer este relato que se asemeja a muchas lejanas realidades. ¡Que bien se te dan estas historias! Es un placer leerlas.

Te dejo mi gratitud y mi estima siempre.
Un abrazo inmenso y feliz carnaval.

Aquí en Pontevedra, llueve a cántaros.

Blog da Gigi disse...

Ótimo dia!!!!!!!!!!!! Beijos

Francisco Manuel Carrajola Oliveira disse...

Um texto muito interessante.
Um abraço.

Anete disse...

A Piedade é uma mulher de fibra... Muitas situações enfrentadas!
Continuarei acompanhando as suas criativas narrações, Elvira...
Abraço nesta 3a feira... Muita paz.

Janita disse...

Sigo com atenção a narrativa.
Afinal, ao Manuel, até foi feita uma revelação que o rapaz tinha todo o direito de saber!
Pena ter sabido pela boca dos de fora.
Um abraço, Elvira.Boa e inspirada semana.

Odete Ferreira disse...

Acabei de ler os 4 capítulos do novo conto "Manel da Lenha".
Estou a gostar; são tempos duros dos quais é bom guardar a memória, registando-os.
Parabéns, amiga :)

Dorli Ramos disse...

Oi Elvira
Vou comentar o capítulo I e depois, amanhã se estiver melhor, uns dois.
Beijos
Minicontista2

aluap Al disse...

Os filhos de pais icógnitos não têm nome do pai, mas não quer dizer que não se saiba quem é o pai; nas aldeias há muitas 'almas' que sabem os nomes, mas às vezes, por medo, respeito ou outra coisa qualquer...não os querem revelar. Não foi o caso e ainda bem, assim o Manuel ficou a saber o nome do pai.
Abraço.

Edumanes disse...

Os rapaz no jogo do pião,
nesse conto bem contado
para comer o Manuel tinha pão
pelo patrão estava sendo ajudado!

Oxalá tenha sorte,
não seja só para inglês ver
tinha pão para comer
como dantes não passava fome?

Tenha uma boa noite amiga Elvira, um abraço,
Eduardo.

Edumanes disse...

Corrijo: Os rapares e não os rapaz!

Maria do Mundo disse...

Amiga, sempre a escrever coisas interessantes. Beijo grande.

Rogerio G. V. Pereira disse...

A verdade, vinda de chofre
dói
mas é preferível a dor à tranquila mentira

isto promete

Elisa Bernardo disse...

Continuando a acompanhar esta bela história.
Beijinhos

Dorli Ramos disse...

Oi Elvira,
É tão bom aprender com os amigos.
Quantas coisas que aprendemos com eles.
Adorei
Beijos
Minicontista2

Maria Teresa de Brum Fheliz Benedito disse...

Muito bom querida Elvira, instiga minha curiosidade.
Um abraço.

Fê blue bird disse...

Uma revelação que decerto chocou o Manuel.
Estou a seguir a história com atenção vou ler a seguinte.
Um beijinho

Zilani Célia disse...

CONTINUANDO.
ABRÇS

http://. zilanicelia.blogspotcom.br/

Portuguesinha disse...

Elvira, pare de espreitar no buraco da fechadura das casas dos outros, sff. rsss.

Rosemildo Sales Furtado disse...

já estava mais do que na hora do garoto saber quem era o pai, assim como do safado reconhecer e amparar o filho. Aguardemos.

Abraços,

Furtado.