19.2.16

MANEL DA LENHA - PARTE X


                                                       O Argus

Nos primeiros dias de Janeiro, Piedade regressa à terra. Na bagagem levava a lembrança da cidade grande, e do imenso mar, que a rodeava.
A safra do bacalhau termina a 23 de Fevereiro, e o pessoal volta à terra, nesse ano com menos dinheiro, que o Inverno foi chuvoso, e quando chovia, não se trabalhava. Naquele tempo as estufas ou seca artificial, ainda não funcionavam, e se chovia não se podia estender o bacalhau na rua. Então o pessoal ficava nas "maltas" sem trabalhar e sem ganhar, mas como é evidente tinham que comer, e lá se iam as migalhas amealhadas. Quando os navios vinham carregados, o trabalho estendia-se por todo o mês de Março e às vezes princípio de Abril.
Quando os navios chegavam, o primeiro trabalho, era fazer a descarga, trazendo o bacalhau para terra. Os navios precisavam ficar vazios, para se proceder à limpeza, e reparação quando necessária.
 Depois eram vistoriados e reparados os dóris, pequenos barcos a remos que na seca, chamávamos de botes, pois naquele tempo, a pesca era feita à linha, do seguinte modo. Quando o navio mãe, chegava aos bancos de bacalhau da Terra Nova ou Gronelândia, fundeava, desciam-se os pequenos botes para o mar, já com um homem dentro, pois a pesca era feita assim, cada bote um homem. E cada homem começava a pescar no seu pequeno bote, com uma linha cheia de anzóis e iscas. Quando o bote ficava cheio, ele remava até ao barco para descarregar e voltava à pesca. Horas e horas seguidas, sem descanso, que havia que aproveitar o tempo quando ele dava, pois de um momento para o outro se levantava a "borrasca" e tinham que regressar ao navio, sob pena de o bote ser engolido pelas ondas que a "borrasca " levantava
Um bote em más condições, era a diferença entre a vida e a morte, nos mares gélidos do norte.
Por isso o trabalho de descarga do navio, era essencial, quanto mais rápido melhor. E a Seca tinha naquela altura quatro navios. O Crioula, que muitos anos mais tarde foi transformado em navio escola, e pertence à Marinha Portuguesa. O Argus, um escuna de quatro mastros, que na década de cinquenta, seria imortalizado por Alan Viliers, o grande escritor e navegador australiano, que fez nele, uma viagem aos bancos de bacalhau,  o Hortense, um lugre de três mastros, e o Gazela, um lugre-patacho de três mastros, por muitos considerado o mais belo barco bacalhoeiro de sempre. A descarga era feita navio, a navio. Só depois que um ficava completamente vazio se passava para outro. E era feita assim.
De manhã uma lancha com algumas mulheres ia para bordo do navio. Lá, se dividiam, umas desciam ao porão, para apanharem o bacalhau, e o mandarem para o convés, onde outras o apanhavam e atiravam para a lancha que o levava até à ponte de madeira, onde outras mulheres o tiravam da lancha e o passavam de mão em mão pelos degraus, até uma "zorra" (1) que quando cheia, era empurrada por carris para terra. Aí era pesada, e de novo empurrada até às grandes câmaras frigoríficas onde era empilhado.
Por vezes este trabalho era feito debaixo de chuva intensa.



1) Zorra, era o nome que dávamos a uma grande caixa metálica com rodas semelhantes às dos comboios, que se deslocava em carris metálicos, empurrada pela força de duas mulheres.

21 comentários:

✿ chica disse...

Interessante além do conto lindo, acompanhar tudo isso , os trabalhos, os nomes, tudo que faz parte da história. Gostando muito! bjs,chica

Rosemildo Sales Furtado disse...

Belo capítulo! Gostei da riqueza de detalhes.

Abraços,

Furtado.

Rogerio G. V. Pereira disse...

Boa discrição de como era, de como faziam...
Mas... e o sentir? O que sentiam essas mulheres, de vida dura e insegura?

Rosemildo Sales Furtado disse...

Fiquei feliz com a tua visita e gentil comentário deixado no nosso Literatura & Companhia Ilimitada.

Abraços,

Furtado.

Portuguesinha disse...

Que linda lição de história sobre a pesca do bacalhau na viragem do século XIX. Tive de ir espreitar esse magnânimo navio bacalhoeiro. Eram embarcações majestosas. Custa a crer para quem vê no canal Nathional Geograpic como é feita a pesca de bacalhau nos dias de hoje, que tenha sido alguma vez possível fazer o mesmo naquele tumultuoso e gelado mar sem nenhuma da tecnologia que agora existe.

Uma vez dei na net com uma imagem antiga de um fotógrafo polaco (?) que na altura da 2ªGG ficou brevemente em Portugal, onde surgiam as mulheres a fazerem a descarga de um navio de pesca. E ele fez uma pequena descrição do que viu. Chamou-me a atenção uma parte em particular, guardei algures para fazer um post mas depois passou. Agora inspirei-me novamente.

Elisa Bernardo disse...

Sempre por aqui.
Um beijinho
elisaumarapariganormal.blogspot.pt

Jaime Portela disse...

Nesse tempo, existia um navio hospital, o "Gil Eanes", que apoiou durante alguns anos (de 1955 a 1963) a frota bacalhoeira na Terra Nova e Gronelândia.
Construído de raiz nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, ao longo de sua existência, serviu ainda como navio-capitania, navio-correio, navio-rebocador e quebra-gelos, assegurando o abastecimento de mantimentos, redes, material de pesca, combustível, água e isco aos barcos de pesca do bacalhau.
Após 1963 passou a efetuar viagens de comércio como navio frigorífico e de passageiros entre as campanhas de pesca, tendo efetuando a sua última viagem à Terra Nova em 1973, ano em que também fez uma viagem diplomática ao Brasil com o então recém-nomeado embaixador de Portugal em Brasília José Hermano Saraiva.
Após esta última viagem perdeu as suas funções, ficando acostado no porto de Lisboa até ser vendido como sucata para abate em 1977.
Diante deste fim inglório para a embarcação, a escassos dias da sua destruição, e graças a um apelo feito por José Hermano Saraiva num dos seus programas, a comunidade vianense mobilizou-se para o resgatar, concebendo um projeto para ser exposto no porto de mar de Viana do Castelo, como tributo ao passado marítimo da cidade, tornando-se numa das suas atrações turísticas.
Desse modo, em 1998 foi reabilitado nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, com o apoio de várias instituições, empresas e cidadãos, e passando a ser gerido pela "Fundação Gil Eannes", criada para esse fim.
Atualmente está ancorado no porto de pesca em Viana do Castelo, tem a função de espaço museológico e Pousada da Juventude.

Tudo isto a propósito deste teu magnífico texto. Espero não ter sido um chato ao trazer aqui o assunto do Gil Eanes, do qual deves ter conhecimento.

Bom fim de semana, querida amiga Elvira.
Beijo.

Duarte disse...

Cada capitulo agrega tensão e faz com que se deseje ver até onde chegas com a tua capacidade na narrativa.
Gosto, uma obra que se não tens inconveniente ficará em lista para divulgar nas minhas Aulas.
Já me dirás.
Um grande abraço, querida amiga

Magia da Inês disse...


✿‿⎠
Além de uma leitura muito agradável, associa muitos conhecimentos e informações... estou amando!

Bom fim de semana!
Beijinhos.
╰✿╯

Edumanes disse...

Eram tempos difíceis, passados no mar entre a vida e a morte. De cuja as embarcações mal apetrechadas, quanto à segurança e conforto das tripulações, que trabalham dia e noite para o seu sustento. Não teriam como hoje têm as modernas embarcações, tecnologia que permitisse desviarem-se do perigo atempadamente!

Bom fim de semana amiga Elvira, um abraço,
Eduardo.

Odete Ferreira disse...

Acompanhando sempre com interesse. Estes detalhes de época conferem à narrativa curiosidade, além de acrescentarem informação que, no meu caso, desconhecia. A par,
admiro a tenacidade de todos os trabalhadores. Vida bem dura!
Bjo, amiga :)

Catarina disse...

Adorei :)

Crocheteando...momentos! disse...

Lembrei do barco Gil Eanes ancorado em Viana!
Vivo cada momento!
Bj amigo

Crocheteando...momentos! disse...

Lembrei do barco Gil Eanes ancorado em Viana!
Vivo cada momento!
Bj amigo

Socorro Melo disse...


Muito bom. É legal saber os detalhes do trabalho, dos navios, das circunstâncias, etc.

A curiosidade vai aumentando, rsrsrs

Grande abraço
Socorro Melo

LopesCa Blog disse...

Bonita história

Mariangela do Lago Vieira disse...

Muito interessante esta história, apesar dos tempos tão difíceis, Elvira.
Uma boa noite amiga.
Abraços,
Mariangela

Renata Maria disse...

Relato muito bem detalhado. Gostei muito, amiga.
Beijo*

Gaja Maria disse...

Estou a aprender imenso com esta história. Obrigada Elvira :)

Zilani Célia disse...

OI ELVIRA!
ALÉM DA HISTÓRIA INTERESSANTE APRENDEMOS MUITA COISA, POIS DÁS UMA AULA DOS COSTUMES PORTUGUESES.
ABRÇS

http://. zilanicelia.blogspotcom.br/

lua singular disse...

Oi Elvira
Adorei sua narrativa cheia de detalhes.
Adoro bacalhau, mas quando chega aqui é muito caro, então, quando passa uma semana passo no Shopping, onde vou ao médico e compro uns 5 quilos.
Beijos
Lua Singular