11.2.16

MANEL DA LENHA - PARTE VI


foto minha
O ano de 1935 foi para Manuel, o ano da sua libertação da aldeia, do conhecer de outras terras, outras gentes, pois foi nesse ano que veio pela primeira vez para o sul, para trabalhar na Seca do Bacalhau. Tinha 17 anos e há três, que pedia à mãe para lhe deixar ir trabalhar para junto dos irmãos. Era um jovem franzino mas de muita “genica”. Brincalhão, sempre com um chiste na ponta da língua, Manuel era a antítese dos seus irmãos.
Os três anos seguintes, foram para Manuel uma nova rotina. Nos fins de Setembro, ia de camioneta até S. Pedro do Sul, e aí apanhava o comboio para Lisboa. Atravessava o Tejo e ia a pé pela Caldeira do Alemão, na margem do rio Coina, até à Azinheira Velha, nos arredores do Barreiro, onde funcionava a Seca de Bacalhau. Aí trabalhavam perto de quatrocentas pessoas. Muitos “ratinhos” como ele. Mas também muitas mulheres dos arredores, especialmente da Baixa da Banheira, Barreiro e Palhais,embora de Palhais, não fossem muitas, pois também lá havia uma seca de bacalhau, embora não tão grande, quanto a da Azinheira. Os “ratinhos” eram os homens e mulheres do norte, e eram assim chamados pelos “camarros”, nome antigo porque eram conhecidos os barreirenses, e que segundo a lenda era atribuído aos pescadores, que utilizavam as terras barrentas do rio para descansar. Cama sobre o barro, camarro. Embora nessa altura, os barreirenses, ou “camarros” fossem uma minoria, pois a maior parte das pessoas a viverem no Barreiro, eram na sua maioria, algarvios e alentejanos, que tinham vindo para o Barreiro atrás de uma vida melhor, e de um emprego nas fábricas da CUF, ou nas fábricas de cortiça do Nicola e do Alemão. E então, a grande maioria das mulheres que trabalhavam na Seca, viviam nas redondezas e eram mulheres ou filhas de homens que trabalhavam nessas fábricas. Os homens que trabalhavam na safra, na Azinheira, vinham do norte do país, onde quase não havia trabalho, a não ser nos campos. Claro que quando os homens eram casados e tinham filhos, a família os acompanhava. Na Seca havia meia dúzia de habitações. Para o Capitão, - o gerente – e para os empregados de escritório, o electricista, o ferreiro, e os capatazes. O resto do pessoal, se dividia por dois enormes edifícios, chamados de "maltas” .Uma “malta" para os homens, outra para as mulheres. A ”malta” era uma espécie de caserna, com uma parte de quartos, cada um com várias camas, uma zona para duches, e um enorme fogão a lenha, que ocupava toda a parte central do edifício, onde em tempo de actividade, havia duas cozinheiras, na malta das mulheres, e dois cozinheiros na malta dos homens, e um enorme refeitório de longas mesas de pedra, e bancos corridos de madeira. Estes fogões e estes refeitórios iguais nas duas “maltas” serviam não só para o pessoal residente durante as “safras”, mas também para o pessoal dos arredores que ali trabalhavam, que levavam a comida em cru numa pequena panela, deixavam no refeitório, e quando chegava a hora das refeições, ela estava pronta e quentinha.





16 comentários:

Pedro Coimbra disse...

Só agora começo a acompanhar a história.
Amanhã estarei cá de novo.

Luis Coelho disse...

Retratos de uma sociedade que conheceu bem de perto.

✿ chica disse...

Detalhes tão bem narrados que nos colocas no cenário e até as maltas mostraste! Lindo! bjs, chica

Blog da Gigi disse...

Abençoado dia!!! Beijos

Mariangela do Lago Vieira disse...

Que ótimo saber de tudo isto. Amei conhecer esta história tão bela.
Um grande abraço, e um feliz dia pra você Elvira!
Mariangela

Edumanes disse...

Uma malta para as mulheres, outra malta para os homens. Era assim nesse tempo, e penso que era correcto. Já nas escolas, devido ao sexo haver separação, é que eu penso que não estava correcto?

Soalheiro ou chuvoso, tenha um bom dia amiga Elvira, um abraço,
Eduardo.

Maria Teresa de Brum Fheliz Benedito disse...

Muito interessante, conhecer um pouco mais de Portugal.
Estou gostando imensamente querida Elvira.
Parabéns pela bela história, um abraço.

Renata Maria disse...

A história é interessantíssima mas, durante o Carnaval, perdi alguns capítulos. Isso não se repetirá.
Beijo*

Fê blue bird disse...

Amiga Elvira, esta sua excelente e cultural narrativa, faz-me lembrar as que a minha mãe me conta, quando em pequena foi trabalhar para a "bordadágua" que na altura era como se chamava os arrozais das lezírias ribatejanas.

beijinho

Elisa Bernardo disse...

Um beijinho Elvira

Odete Ferreira disse...

Gosto imenso de todos estes detalhes da época.
Seguindo, atenta.
Bjinho, Elvira :)

Dorli Ramos disse...

Uma vida sofrida tanto para os homens e mulheres, mas como dizem por aqui eram itinerantes safristas, ou seja, por um determinado tempo, pois viver sem a companhia da mulher e filhos seria muito difícil.
Adorando
Minicontista

aluap Al disse...

Antigamente era usual os beirões deslocarem-se para o sul, a minha avó paterna participou nas ceifas no Alentejo. Inspirada nessas deslocações, nos 'ratinhos' surgiram cantigas populares.
Quando acabei de ler este texto tive a sensação que já o conhecia.
Bom domingo!

Zilani Célia disse...

LENDO AINDA.
http://. zilanicelia.blogspotcom.br/

Portuguesinha disse...

Que bonito. Que bom pedaço da história. A nossa história.

Gosto em particular da referência às migrações laborais. Aflige-me quando noto que as pessoas alimentam rivalidades sem sentido conforme moram em "A" ou "B". Por exemplo quando dizem "os de Lisboa acham que..."

Mas os "de Lisboa" são uma malha de gente que veio de outros lugares! Principalmente do Norte. Então faz-me confusão quando alguém desconhece esse facto e desmerece os do centro. Porque estão a desmerecer um dos seus. E um dos seus que se encheu de coragem e partiu munido de vontade e força de trabalho em busca de uma vida melhor.

Rosemildo Sales Furtado disse...

Lendo, gostando e aguardando o que vem a caminho. Rsrs.

Abraços,

Furtado