16.2.16

MANEL DA LENHA - PARTE IX



                      estação se Santa Apolónia. foto do google
Decidido, mas sem dinheiro para o comboio, resolveu seguir a pé para a terra. Não seria uma viagem rápida, mas também não tinha pressa. Lá, era certamente o primeiro sítio onde iriam procurá-lo. E foi andando, ficando um dia ou dois nas quintas que lhe apareciam no caminho. 
O trabalho do campo não tinha segredos para ele, e assim ganhava algum dinheiro, além de encher a barriga. E foi deste modo que nos primeiros dias de Agosto chegou à aldeia. Se a Piedade ficou surpresa, porque pensava que o filho estava no quartel, Manuel não ficou menos surpreso ao saber que ninguém o tinha ido procurar.
Ele não sabia que na confusão que se vivia na altura, (não esqueçamos que a guerra estava em pleno na Europa, e quase todos os meses partiam soldados portugueses, para as províncias ultramarinas,) ninguém tinha anulado a sua passagem à reserva, mas ainda assim resolveu seguir a sua vida e quando o Ti Alfredo apareceu na aldeia para o engajamento de pessoal para a Seca do Bacalhau, na nova safra que se avizinhava, ele engajou-se de novo.
Nesse ano os navios chegaram com pouco bacalhau. A pesca tinha-se tornado uma actividade duplamente perigosa Se até aí, já o era, dadas as frágeis condições em que os pescadores enfrentavam o mar, a partir daí tinham um novo e não menos perigoso inimigo. Os submarinos alemães.
Portugal era um país neutral, e a nossa frota bacalhoeira, fora totalmente pintada de branco, ostentando o pavilhão português bem à vista, mas ainda assim os pobres pescadores, levavam o dia com o credo na boca.
Por isso nesse ano, o engajamento de pessoal foi menor e se deu primazia aos mais jovens e fortes. Manuel estava entre eles.
No final desse ano, Laurinda, que continuava a viver no Fogueteiro, mandou dinheiro à mãe para ela vir passar o Natal a sua casa. Afinal Piedade, ainda nem conhecia os netos. E convidou também os irmãos, que trabalhavam na Seca da Azinheira. Queria juntar toda a família.
Pela primeira vez na vida, Piedade saiu da aldeia, e veio de comboio para Lisboa. Assim naquele dia 22 de Dezembro, ela saía do comboio em Santa Apolónia, onde já a esperava o genro e ficava abismada com o tamanho da cidade. Mas o que mais lhe custou e a deixou completamente apavorada, foi o cacilheiro. Era Inverno, o mar estava “picado” e Piedade rezou durante todo o tempo que durou a travessia.

17 comentários:

Andre Mansim disse...

Que legal!
Fiquei aqui imaginando coisas.
Os relatos que contou são tão distantes da realidade do Brasil, que eu só posso mesmo ficar imaginando.

Muito bom! A história está caminhando para regiões que podem nos trazer surpresas.

Luis Coelho disse...

Quem mal não faz, mal,não pensa.
O pobre foi caçado nas malhas de uma sociedade cega e prepotente.

Pedro Coimbra disse...

Ainda hoje tenho viagens dessas que fazem rezar no jetfoil para Hong Kong.
Um abraço

✿ chica disse...

Gostando muito, acompanhando e sempre curiosa por mais! bjs, chica

Isa Sá disse...

Acompanhando a história!

Isabel Sá
http://brilhos-da-moda.blogspot.pt

António Querido disse...

Bom dia amiga Elvira! Passei por aqui, não vim a pé, mas sim a navegar!
Tenha uma boa semana e um abraço ao Manel da lenha.

Existe Sempre Um Lugar disse...

Boa tarde, mais uma bela historia cativante.
AG

Mariangela do Lago Vieira disse...

Como é bom vivenciar as suas histórias, Elvira!
Muito interessante!
Vou aguardar mais.
Abração, amiga.
Mariangela

São disse...

Adoro água, mas foi na travessia do Tejo que eu fiquei a saber porque motivo se diz que apanhou um calor quando teve um valente susto.

Beijufas

LopesCa Blog disse...

hehehe e eu adoro andar de cacilheiro :)


Blog LopesCa/Facebook 

Edumanes disse...

A vida continuava, Manuel desertor da tropa, longe da guerra, de certeza o que mais pensava era trabalhar, e junto de sua família ser feliz! Isso é o que se saberá nos próximos capítulos!

Tenha uma boa tarde, amiga Elvira, um abraço,
Eduardo.

Anete disse...

O mundo dá muitas voltas...
Quanta coisa acontecendo na vida da Piedade e sua prole...

Muitas travessias...
Um abraço, Elvira!

Elisa Bernardo disse...

Continuando a acompanhar!
Um beijinho para si Elvira
elisaumarapariganormal.blogspot.com

Rosemildo Sales Furtado disse...

Continuo gostando e aguardando os acontecimentos.

Abraços,

Furtado.

Socorro Melo disse...


Olá, amiga!

Percebi mesmo pontos semelhanças entre as duas histórias:a Seca, o Manuel... Mas, você é uma tão boa contadora de histórias que acaba tornando tudo novo.

Abraço fraterno

Socorro Melo

Renata Maria disse...

Quando leio a sua escrita parece que a vivo.
Muito bom!
Beijo*

Zilani Célia disse...

OI ELVIRA!
LENDO.
ABRÇS

http://. zilanicelia.blogspotcom.br/