7.2.16

MANEL DA LENHA - PARTE II

                                                  Foto do google

Nesse mesmo ano chegou a Portugal, uma visitante que ninguém queria. A Gripe Pneumónica, que rapidamente se espalhou pelo país embora com maior incidência no Ribatejo. Com o país mergulhado numa grave crise económica, grande parte do povo sem emprego, e a esmagadora maioria dos que tinham trabalho, com salários semanais de miséria, é fácil perceber a razão por que a Gripe dizimou mais de 60.000 pessoas. 
No Norte do País, numa pequena aldeia isolada, na base da serra da Arada, no concelho de S. Pedro do Sul, Piedade, levava para casa todos os dias o sustento para os filhos, muitas vezes à custa de não comer ela própria. E rezava todos os dias, pedindo à Nª Senhora de quem era devota, que a tal gripe espanhola, de que o Sr. Abade falara na Missa, não chegasse à aldeia. Temia pelos filhos. Especialmente pelos dois mais novos.  Um, porque devido à doença já era muito frágil, o outro porque ainda era bebé de poucos meses. Mas, também temia pela sua vida.Se ela morresse, o que ia ser dos três catraios, tão pequenos e sem ninguém de família que lhes desse um copo de água que fosse. Felizmente a gripe não passou pela aldeia. Os meses foram passando, e poucos dias depois de ter feito um ano, Manuel começou a andar. 
Ainda não tinha largado o peito, Piedade ainda tinha leite, e embora ele já não fosse tanto quanto no início, sempre era uma maneira de ir mitigando a fome do filho, em dias em que a comida de tão escassa, não matava a fome a nenhum deles.
 Quando a filha fez, sete anos, passou a trabalhar num dos senhores da aldeia, pastoreando as cabras. Era a maneira de fugir à fome, que havia em casa, pois ela era presença constante à sua mesa. E os anos foram passando, na aldeia, onde a vida continuava a sua lenta e monótona marcha de fome e miséria.
E Manuel crescia, magro mas saudável, sempre debaixo da vigilância do irmão, que entretanto se tornara seu padrinho, no baptizado feito pelo Sr. Abade. João, continuava com graves problemas de saúde. 
“Não sei que raio tem o catraio no peito, que fica todo atafegado. Às vezes parece que tem uma panela de água a ferver a cachão no peito”, queixava-se a mãe. Coitada, ela sabia lá o que era asma. Ela, só sabia trabalhar de sol a sol, carregando no corpo a fome.
O tempo continuava a sua marcha, lenta e inexorável,  ano após ano, e chegávamos a meio dos anos vinte, sem que a vida na aldeia melhorasse alguma coisa. Piedade continuava a sua labuta, ora trabalhando no campo, ora lavando roupa no rio. João ia crescendo cada dia mais enfezado, sempre com os seus achaques. Ele cuidava do irmãozito mais novo, já que devido à sua doença, não podia trabalhar.
E Piedade, levava os dias, escondendo dos filhos, as lágrimas, que se tinham tornado companhia constante nos seus dias.

20 comentários:

AC disse...

Elvira,
Já na leitura da parte I fiquei com a sensação de conhecer esta história, de sua autoria. A ser assim o enredo promete, mais a mais quando o contexto se situa num atrasadíssimo Portugal da primeira metade do século XX, onde nas aldeias se vivia quase como na Idade Média.
Continuação duma boa inspiração, Elvira!

Renata Maria disse...

O cenário é dos mais desanimadores para quem já tem tanta pouca sorte na vida, como Piedade, que, no entanto, é guerreira. Acompanho com muito interesse.
Beijo*
Renata

Elisa Bernardo disse...

Sempre a acompanhar com a máxima atenção. Ansiosa pela próxima parte.
Beijinhos
elisaumarapariganormal.blogspot.com

Maria Sem Limites disse...

Quando comecei a ler, temi o pior. Beijinho.

✿ chica disse...

Pobre Piedade e tudo que há de vir passar!Tá lindo! bjs, chica

Isa Sá disse...

Acompanhando a história. Bom fim de semana!

Isabel Sá
http://brilhos-da-moda.blogspot.pt

Edumanes disse...

Nesse tempo, no tempo dos nossos pais e dos pais nossos dos pais, nossos avós, é que em Portugal havia miséria a valer. Hoje as más línguas chamam-lhe república da bananas. Se tivessem vivido nesse tempo que nome lhe chamariam?Como vivia a Piedade, viviam muitos portugueses sem ter uma migalha de pão para dar aos filhos e começavam a trabalhar antes do nascer do sol, até depois do sol se pôr. Isso é que seriam tempos difíceis! Muito diferente do que se passa hoje aqui em Portugal. Tanto se fala em crise, nesse tempo é que havia crise. Penso que em Portugal, toda a gente tem uma casa para morar. Nem todos terão um automóvel, alguns porque não querem, outros porque não precisam e muitos outros têm mais do que um. É caso para dizer, qual crise qual carapuça!

Ninguém está contente,
nem o rico, nem o pobre
para melhor está diferente
não há como havia tanta fome!

Tenha um bom dia de domingo, amiga Elvira, um abraço,
Eduardo.

Blog da Gigi disse...

Bom domingo!!!!!!!!! Beijos

aluap Al disse...

Dantes nas nossas aldeias nasciam muito mais crianças que hoje, mas também havia muita mortalidade infantil, morriam muitos dos bebés por causa de febres muito perigosas. Das maleitas dos miúdos, do que me lembro melhor é do sarampo e da varicela, mas sei que houve muitas outras doenças a ameaçar a saúde das crianças como, por exemplo, a coqueluche, tosse convulsa, a meningite e otites. A asma também lembro-me de ouvir falar.
Eram tempos do catano, Elvira!
Bom domingo.

Francisco Manuel Carrajola Oliveira disse...

Um belo texto estou a gostar.
Um abraço e bom fim de semana.

Luis Coelho disse...

O drama da guerra, da peste e da fome.
Depois havia os que se aproveitavam dos mais fracos explorando-os em trabalhos no campo.
Tempos duros que ouvi o meu pai contar. Ele ficou orfão aos dez anos.

Janita disse...

Vou começar pela parte mais animadora que é o Aniversário da sua netinha Mariana. Passei pelo post, que me passou despercebido na altura, e lá deixei um beijinho para ambas.
Os bolos ressaltavam à vista...!

Esta história do Manuel, que julgo ser o pai da Elvira, até faz doer a alma, pelo tanto que a Piedade sofreu.
Tempos cruéis esses! Quantas famílias tiveram de abandonar a sua terra natal, para procurar trabalho nas indústrias das grandes cidades.
Sei de muitas que o fizeram.
Um forte abraço, Elvira.
Janita

Gaja Maria disse...

Tempos difíceis aqueles, espero que a história tenha uma reviravolta. Beijinho

Rogerio G. V. Pereira disse...

(bem contado!)

Tintinaine disse...

Como já conheço a história até meio, vou ter que ficar á espera dos últimos episódios!

Fê blue bird disse...

Elvira:
Uma vida, tantas vidas, onde a fome e a miséria fez tantas vítimas.
Vou seguindo a história.

Um beijinho e boa semana

Dorli Ramos disse...

Oi Elvira,
A fome sempre esteve nos menos favorecidos, faria necessário que Piedade fosse mais esperta, talvez pela sua ingenuidade, sofrem todos.
Cautela.
Amanhã volto
Beijos
Minicontista2

Maria Teresa de Brum Fheliz Benedito disse...

Que triste vida da Piedade, nada melhora, coitada.
Vamos ver se a vida melhora de alguma forma.
Um abraço e até.

Zilani Célia disse...

OI ELVIRA!
AQUI, E ME ATUALIZANDO COM A LEITURA
ABRÇS

http://. zilanicelia.blogspotcom.br/

Rosemildo Sales Furtado disse...

É Elvira! A coisa anda preta para Piedade. Mas espero que melhore, vamos aguardar.

Abraços,

Furtado.