23.2.16

MANEL DA LENHA - PARTE XIII



O Gazela, por muitos considerado o mais belo navio bacalhoeiro
foto do google



No ano seguinte, começa a adivinhar-se a derrota alemã. A Europa já passara e saíra dos piores momentos da ocupação nazi.
Mas em Portugal as condições de vida eram cada dia mais degradantes. Enquanto o governo exportava para os países em conflito, principalmente para a Alemanha, açúcar, tabaco e volfrâmio, em Portugal havia racionamento para alguns, e fome para a grande maioria.
Os pobres viam-se privados dos bens mais elementares. E quando um despacho Salazarista obrigou à diminuição de salários, a indignação ferveu.
Na Seca do Bacalhau, foi necessário substituir o lenhador, que por demais idoso, já não tinha forças para manusear os pesados troncos de azinheira. O escolhido foi o Manuel, que deixava assim de trabalhar na safra, e passava para o armazém da lenha.
Naquela altura, todos os fogões na seca, eram a lenha. Entre a “malta” dos homens, e a oficina onde se faziam as peças de serralharia, havia um armazém sempre cheio de troncos de azinheira e pinheiro, que chegavam em camiões e eram depois cortados, rachados e transformados em pequenos cavacos, que eram o combustível, dos grandes fogões das “maltas”, mas também dos pequenos fogões de todos os residentes na seca, incluindo os caseiros das duas quintas. O trabalho do Manuel, consistia não só em preparar esses troncos, serrando-os primeiro em  bocados mais pequenos, numa enorme serra de rodear, rachando-os depois em pequenos cavacos, trabalho para o qual usava não só um machado, como também quando os troncos eram mais duros, uma cunha de aço e duas marretas, uma de oito quilos e outra de dezasseis, que ele baptizara de Segunda-feira.
Depois dos troncos transformados em cavacos, havia que transportá-los até ao seu destino em carros de mão.
 Foi nessa altura que ganhou o apelido que o acompanhou o resto da vida, “Manel da Lenha”. E como durante todo o ano havia gente a morar na Seca, o Manel passou a ter trabalho o ano inteiro, e deixou de ir à aldeia.
O nosso Manel, com ordenado certo todas as semanas, e sem a companhia da mãe (Piedade, continuava agarrada à aldeia onde nasceu) tornou-se num homem diferente. Amigo de borga, e de mulheres, gastava tudo o que lhe sobrava, nas "casas de meninas" em Lisboa.

17 comentários:

Pedro Coimbra disse...

Essas alcunhas eram muito engraçadas.
E ouviam-se um pouco por todo o Portugal.

✿ chica disse...

Gostando de acompanhar e sempre mais curio0sa! E esse Manoel deslumbrado anda aprontando,rs bjs, chica

António Querido disse...

É sempre engraçado saber como funcionavam as secas de bacalhau! Passava todos os dias em frente à da Figueira, mas nunca lá entrei, agradava-me o cheirinho a bacalhau!
Foi pena o outro cavaco, não ter ido cumprimentar o Manel da lenha, já que estava habituado a lidar com eles!

Cá vai mais um abraço.

Anete disse...

Olá...
Um trabalho pesado o de Manel... Puxa, gastando o seu dinheiro à toa."Tornou-se num homem diferente. Amigo de borga,..."

Boa 3ª feira. Abraço meu

Renata Maria disse...

Narrativa interessantíssima. Secas de bacalhau, apelidos - alcunhas - e tudo o mais.
Acompanho sempre, Elvira.
Beijo*
Renata

Laura Santos disse...

Li os últimos capítulos, e embora não tenha lido desde o início, estou a gostar. Sobretudo dos pormenores acerca da secado bacalhau, e o modo de vida dessa altura. Para além de uma boa leitura, aprende-se muito.
xx

Tintinaine disse...

Estes navios que por aqui têm desfilado já os conhecia a todos, mas estava longe de imaginar que tinham andado na pesca do bacalhau.
Estamos sempre a aprender algo de novo!

Zé Povinho disse...

A solidão nem sempre é boa conselheira...
Abraço do Zé

Edumanes disse...

Um passado penoso, o qual penso que não deixou saudades a quem nesse tempo viveu e ainda vive. De cuja as raízes do mal ainda não secaram e tentam romper pela terra a todo o momento. Para espreitarem a luz do sol que nos alumia durante o dia. Pois, o perigo continua a espreitar! Ele pode estar mais perto do que longe da gente, sem que a gente disso se aperceba!
Quanto ao Manel da lenha "lenhador", com mais uns trocados foi gozando a vida à sua maneira!

Desejo para você, amiga Elvira, uma boa noite, um abraço,
Eduardo.

lis disse...

OI Elvira
Voltei aos capítulos anteriores porque já é bem minha praia ler contos e os seus são imperdíveis.
A saga do manel é bem interessante e como gosto dessa prosa de bacalhau _ esse peixe que aqui comemos muito em épocas festivas principalmente na Páscoa.
Temos o ano todo mas por ser muito caro, acontece mais em ocasioes. E, aí parece-me ser um alimento de todo dia... tal como os vinhos.
Gostei muito e vou aguardar o que Manel pensa fazer da vida da vidinha desregrada. hehehe
beijinhos Elvira

* estou sentindo muita falta do face,por incrivel que possa parecer.
Além dos joguinhos que me divertiam pra caramba, tinha os amigos que pareciam mais proximos_ parece que estou as escuras _a anos-luz de distância de todos rrsrs
E, pensar que parei por coisa alguma, apenas um certo tédio, que só piorou. rsrs
Vou voltar, Elvira daqui a uns dias volto por lá_ mas aqui é a minha casa principal.rs
abraços

paideleo disse...

Eu tamén botei unha tempada con martelóns de 8 e 12 quilos e sei o que pesan e así admiro ao Manuel da Lenha.
Lin todo o que tiña atrasado do blogue e mirei as fotos da presentación do libro.
Foi un grande día para vostede, nonsí ?.

Portuguesinha disse...

Ah Manel, Manel!
Virou Homem!

O que irá fazer este homem quando engravidar uma mulher qualquer?

Mariangela do Lago Vieira disse...

Oi Elvira boa noite!
Muito interessante, e que vida dura! Mas o Manel gastar o suado dinheirinho à toa...é triste!
Estou atrasada amiga, com minha postagem e com os comentários...Estou com dificuldades em digitar por causa da tendinite.
Um abraço!!
Mariangela

Elisa Bernardo disse...

Continuo a acompanhar:)
O livro já foi entregue agora só preciso de o ir buscar:)
Ansiosa por o ter nas mãos:)
Beijinhos
elisaumarapariganormal.blogspot.pt

Rosemildo Sales Furtado disse...

Como era conhecido por Mané da Lenha, porque não a Casa das Meninas? Rsrs.

Abraços,

Furtado.

Zilani Célia disse...

OH, MANEL DA LENHA, DANADO!

http://. zilanicelia.blogspotcom.br/

lua singular disse...

Ô Mane da lenha danado.
Mas, ninguém é de ferro.kkk
Beijos
Lua Singular
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