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20.10.15

FOLHA EM BRANCO PARTE II






Tudo arrumado, Miguel acendeu um cigarro. A jovem estava a levar mais tempo a acordar do que aquilo que ele previra. Quem seria? À primeira vista, não tinha documentos, pois não trazia nenhuma bolsa, nem se lhe notava na roupa qualquer carteira.
A jovem soltou um gemido e pouco depois abriu os olhos. E que olhos! Grandes, de um quente e aveludado castanho dourado. Na mente de Miguel ficou impressa a imagem que mais tarde iria transpor para a tela. Ele não era um pintor famoso, daqueles cujas obras vão para os museus, mas modéstia à parte considerava-se um bom pintor. Tinha palmilhado meio mundo, e em todos os lugares onde expôs, os seus quadros sempre se venderam bem, e sempre foi disso que ele viveu. Nunca se tinha dedicado a pintar o ser humano. Era um apaixonado da natureza, e  sempre optara por perpetuar as suas maravilhas, mas aquela imagem da jovem, deitada na vegetação o corpo soerguido sobre o cotovelo esquerdo, olhando-o de forma inquiridora, era por demais sugestiva.
Aproximou-se da jovem
-Como se sente?
- Confusa, -respondeu a jovem numa voz melodiosa. – O que faço aqui? Que lugar é este? E quem é o senhor?
Miguel engoliu em seco.“Querem ver que é doida?” – Pensou.
Estendeu-lhe a mão para a ajudar a levantar-se.
- Vamos por partes, - disse calmo. Chamo-me Miguel. E a menina?
- Não sei, - respondeu desconcertada.
Passou a mão, de dedos longos e finos pela testa, como se quisesse lembrar de alguma coisa e por fim murmurou.
- A verdade é que não me lembro. Não me lembro de nada. A minha cabeça está vazia.
Fez-se silêncio. A cabeça da jovem podia estar vazia, mas a de Miguel estava a mil. Quem seria a jovem? Teria sido a comoção do momento que lhe fizera perder a memória? Ou já tinha acontecido antes, e fora o desespero de não saber quem era que a levara a tentar o suicídio? De súbito a jovem quebrou o silêncio, como quem acaba de ter uma ideia.
- Mas você sabe quem eu sou, verdade? Não teria vindo para aqui se não fossemos conhecidos. Vejo que é pintor. Sou sua modelo? 
-Não, - retorquiu Miguel. A menina não veio comigo.
-Como assim?- Interrogou a jovem. Pois se estava aqui dormindo, enquanto pintava.
Apertou a cabeça entre as mãos e desatou a chorar.
-Que se passa comigo? Porque não me lembro de nada? Porquê?- Gritou em desespero.




17.10.15

FOLHA EM BRANCO PARTE I



FOTO MINHA



 O homem que se encontrava por trás de uma tela, perto da falésia, era sem dúvida, além de pintor, um amante da natureza, já que a paisagem ao redor era de cortar a respiração. Era alto e magro, de cabelos compridos, e desalinhados, Vestia umas calças de ganga, que já tinham conhecido melhores dias, e uma camisa de xadrez. A julgar pelas pequenas rugas à volta dos olhos, e pelos fios de prata que iam salpicando o seu cabelo, andaria algures entre os quarenta e os quarenta e cinco anos.
Com vigorosos traços de espátula e cor, ia fazendo surgir na tela, a falésia altiva, com o mar a espraiar-se de mansinho a seus pés, numa suave carícia.
De repente ao levantar os olhos da tela a paisagem tinha-se alterado. Ali perto uma jovem contemplava o mar absorta.
Miguel, assim se chamava o pintor franziu o sobrolho. Tinha escolhido aquele ponto, mais distante da falésia, por ser aquele onde habitualmente os turistas não iam, nas suas incursões, naqueles belos dias de Outono, quando o sol aquece a terra de forma suave, e sem os calores ardentes do Estio.
Sentiu um arrepio. Largou a espátula e foi-se aproximando da jovem, que continuava sem dar pela sua presença. Mais perto percebeu pelo tremor do seu corpo que chorava, e frenético quase correu para ela, agarrando-a precisamente no momento em que decidida, ela se encaminhava para a beira da falésia, numa clara intenção de suicídio.
Contra a resistência da jovem, Miguel aprisionou-a nos seus braços fortes, retirando-a daquele local perigoso.
De repente, a jovem parou de resistir, e o homem sentiu que o seu corpo deslizava entre os seus braços.
Percebeu que tinha desmaiado. Ergueu-a nos seus braços fortes e levou-a até junto de onde se encontrava o seu material de pintura. Aí chegado estendeu-a suavemente no solo, e só então viu bem a mulher. Era muito jovem. Quase uma criança. Franziu o sobrolho numa expressão que lhe era característica sempre que alguma coisa o incomodava. Começou a arrumar o material, enquanto pensava que raio poderia levar uma mulher tão jovem e tão bonita a querer acabar com a vida.  Sim porque a jovem era muito bonita. Um corpo esbelto, assentava numas pernas longas que a julgar pelas calças justas, eram bem torneadas. Um rosto oval, testa alta, nariz pequeno e bem feito, boca pequena de lábios bem delineados, e uma farta cabeleira de cabelos castanhos, levemente ondulados. Os olhos, bom, os olhos, teria que esperar que acordasse para ver a sua cor.




Nota: Começo hoje a publicação de um novo conto, que espero vos venha a agradar tanto quanto os anteriores. Será publicado duas vezes por semana. As aulas na Universidade Sénior já recomeçaram o tempo é mais escasso.



14.10.15

MEMÓRIAS DA MINHA INFÂNCIA


                      Esta é a única foto que tenho da época. Nela se vê, meus pais,e o quintal, cercado de canas para que as galinhas não comessem os legumes. 




Eles eram dois pobres trabalhadores, que viviam num velho barracão. Não tinham dinheiro, nem água, nem luz, mas eram jovens, e em três anos tiveram três filhos, o mais velho dos quais sou eu.
Lembro-me do pequeno quintal, roubado ao mato pelo braço do meu pai. E do poço escorado com tábuas velhas, que um dia ruiu, e obrigou o meu pai a abrir outro de cimento. É que a água do rio estava ali mesmo ao pé da porta, mas era salgada. E o chafariz ficava a mais de 500 metro. E dos móveis feitos pelo meu pai , com as tábuas salgadas, de velhos botes, que já não serviam para a pesca. Lembro-me disso porque no Inverno a roupa lá guardada, sempre ficava húmida.
E lembro-me daquele ano em que, o vento ciclónico arrancou todas as telhas do velho barracão. E de como nessa noite, a chuva ensopou as mantas de trapos que nos cobriam.
Lembro-me ainda da primeira e única boneca que tive.
Era de papelão. Negra. E eu que nunca tinha visto um negro, pensei que estava suja. E fui metê-la ma celha onde a minha mãe tinha a roupa na barrela. A boneca ficou em papas, e para aplacar o meu desgosto, ganhei dois bofetões da minha mãe, zangada com a roupa toda tingida.  Era essa mesma celha, que servia de banheira para nós, na hora do banho.
Ah! memórias da minha infância!...
Como eu ficava contente quando estreava um vestido, (feito quase sempre dos retalhos menos puídos, dos vestidos velhos da minha mãe.)
E o meu pai, que passava os seus tempos livres, sempre a cavar, sempre a semear. Para que nunca nos faltasse na mesa uma sopa.
E as brincadeiras com os meus irmãos.
E os meus 12 anos feitos a trabalhar na fábrica de cortiça, e o armazém da lenha, e a seca do bacalhau, e os livros devorados de noite, à luz do teimoso.
E eu a fazer-me mulher sem ter sido menina, e a revolta a crescer comigo, no desejo de agarrar entre as minhas mãos, a vida que me esperava, e lutar com ela até vencer ou ser vencida.
Ah! Memórias da minha infância!...

9.10.15

SINCERAMENTE


Pendem-me a cabeça, sonhos que ruíram.
A realidade do sonho  existe?

Ardem-me os olhos, de te chorar mundo.
Tenho a boca seca do pó da miséria.

Estremece-me o peito, de angústias cansado;
tenho as mãos em sangue de cavar a dor.

Começo a apedrejar a verdade
que trazia clandestina
em qualquer recanto da minha ilusão.

Sinceramente não gosto desta Verdade!...







5.10.15

ADEUS, MINHA TERRA, MEU PAÍS



                        Adeus, minha terra meu país...



Adeus, minha terra, meu país...
Tu e eu
estamos tão unidos e tão separados
como o Sonho e a Vida.
Um feliz e alegre
a outra tão amarga.
Estamos tão unidos e tão separados
como o Amor e a Guerra.
Um a gerar a Vida
a outra a destruí-la.


Adeus minha terra, meu país...

Quando alguns querem
morre a esperança
e a  terra fica grávida
de fome e miséria.
O amanhecer nunca é belo,
Para quem está cego de desespero.
É por isso. Só por isso
que estando tão unida a ti, parto.
E, antes que rompa o dia,
antes que a flor da coragem,
murche
no meu angustiado peito,
olho para trás, só mais uma vez,
e grito.


Adeus, minha terra, meu país...






2.10.15

REFLECTINDO



No último dia de campanha eleitoral, apetece-me falar de eleições. Não, não venho falar de partidos políticos, nem daquilo que este ou aquele candidato representa. Vivemos todos no mesmo país, sabemos bem como vivemos, e eu não vou passar atestado de burrice a ninguém, que esse é o papel dos políticos, não o meu. Venho falar-vos de que nunca em campanha alguma, eu ouvi tantos amigos e vizinhos dizerem que não vou votar. Espero que não seja o vosso caso, família e amigos. Queria só deixar aqui o mesmo que sempre digo a quem me diz que não vai votar.
A democracia não se fez só para exigirmos os nossos direitos. Ela também tem direitos, que são simultaneamente deveres. Um deles é o dever de irmos às urnas, porque só exercendo-o temos o direito de escolha, e o direito de apoiar ou reclamar de quem no futuro exerce o cargo.
Quando os militares de Abril fizeram a revolução, eles queriam essencialmente duas coisas. O fim da guerra nas colónias, e o sagrado direito de o povo se expressar e escolher quem iria representar no governo os seus direitos.
É uma falta de respeito enorme por quem lutou para nos dar esse direito a abstenção.
Se precisamos de um médico, de um advogado, de um engenheiro, escolhemos um e vamos lá falar com ele. Então se precisamos de um governo ou presidente, porque nos abstemos de ir lá?
O voto é a voz do povo. Algum de vós quer ser mudo? Eu não.

Desejo-vos um bom fim de semana

28.9.15

CARA E COROA



                                                                 Foto da net




Um homem com vários carros
casa na cidade
na serra e na praia.
Dinheiro nos bancos
prédios a render
contas no estrangeiro
e uma fábrica
com duzentos operários.
Todo o mês a clamar
quando tem que pagar
os ordenados.
Que a vida está má
não dá para aumentos.
Mas continua a aumentar
os seus rendimentos.

E duzentos operários
cada dia mais pobres
cujo sustento
é pedaço de pão
esmola do homem
a quem tudo sobra...
E trabalham de dia
e fazem horas à noite...
E o ordenado
não aumenta nunca.
Nem dá p'ra comprar
um par de sapatos
para ao Domingo
à missa levar...


E duzentos homens pobres
de joelhos cansados
e sapatos rotos
ajoelham e rezam.
Olha para nós Senhor
e responde por favor
Foi por esta vida
Que Vieste à terra?
Por esta vida Sofreste
Por esta vida Morreste?
Olha para nós Senhor
que mortos-vivos andamos.



21.9.15

HOJE COMO ONTEM



                                                           Foto de Marcos Santos




Hoje como ontem companheiro
queremos encontrar a verdade
a saída para esta angústia
que grassa
as nossas feridas ainda mal cicatrizadas.

Hoje como ontem companheiro
os homens não são homens.
São brancos, pretos, amarelos
são ricos, remediados e mendigos,
são exploradores ou explorados
são chineses e ciganos
polícias e ladrões
mas não são homens...

Hoje como ontem companheiro
temos que encontrar o caminho
que há lobos esfaimados à nossa volta
esperando implacáveis o momento
de nos destruir.

Mas hoje como ontem companheiro
as nossas mãos unidas hão-de gritar
a nossa força.
Ainda que o medo sele os nossos lábios
ainda que a raiva cegue os nossos olhos
ainda que nos queiram algemar o pensamento
as nossas mãos unidas
ninguém há-de separar.



Este poema foi escrito e publicado numa pequena revista que existia em 1976. Republico-o hoje porque me parece que não evoluímos tanto quanto o  25 de Abril nos fez sonhar. É bonito dizer que somos um país democrático e livre. Mas democracia, sem pão, educação e saúde, é como poço sem água. E liberdade existe, quando somos obrigados a deixar a nossa casa, e o nosso país em busca de um emprego, que nos permita a sobrevivência?

20.9.15

A HISTÓRIA DE UM PAR DE BOTAS... DO ESTADO. PARTE VII


                                              foto da net

 Ao mesmo tempo que mandava um vigia avisar a mulher do Manuel, o Capitão telefonou para o posto no Barreiro, para saber do que era acusado, um homem que levava a vida a trabalhar, e não se metia em escaramuças nem políticas. Foi então informado, de que a ordem viera de Lisboa, com a acusação de que Manuel era um desertor.
 Parece que à época, os mancebos aptos para a tropa, não ficavam livres depois de ela acabar, mas passavam a uma situação de reserva que só terminava aos 45 anos. Manuel fizera 44 em Abril. Ora todos os anos, eram vistos os processos, de todos os homens que cumpriram tropa e estavam nessa idade. E encontraram a caderneta militar do Manuel, que lhe devia ter sido entregue quando da passagem à reserva. Daí a investigarem o tempo de tropa dele foi um passo. E logo descobriram a deserção. E em consequência disso, Manuel estava agora preso e ia ser mandado para Lisboa. Precisamente para o quartel de Caçadores 5 em Campolide, de onde tinha desertado em 1941.
Uma vez no quartel, foi-lhe dito que teria de cumprir os quase dois anos de tropa que lhe faltavam quando desertou. Como porém em Abril de 63, faria 45 anos, e passava à reserva, ficaria na tropa até essa data.
Dá para imaginar o sofrimento do Manuel? Os jovens militares, gozavam com ele, mal acabava a formatura. Não estava em prisão no quartel. Estava na tropa, embora sem licença de saída.
Recebia a visita da mulher no quartel, e mortificava-se com a situação da família, agora sem o seu ordenado, que era o único na casa até à próxima safra, e ainda obrigada a gastar dinheiro em viagens para as visitas. Chorava todos os dias. E tudo por causa de umas malfadadas botas da tropa, que não pudera pagar ao estado.
Trabalhador humilde, sempre pronto a qualquer trabalho, mesmo que nada tivesse a ver com o armazém da lenha, alegre e bem-disposto, apesar de todas as dificuldades, o Manuel granjeara a simpatia, não só de todos na Seca, como do próprio patrão, que já por algumas vezes tinha requisitado o Manuel para tratar do jardim de sua residência.
Boa pessoa, sabendo reconhecer os méritos do Manuel, o patrão deu ordem ao gerente da Seca, o Capitão Aníbal, para manter o ordenado do Manuel enquanto ele estivesse ausente. Não satisfeito com isso, o patrão, usou de toda a sua influência, (e se era influente a família Bensaúde) para retirar o Manuel daquela agonia. E foi por isso que ele, voltou à liberdade no início de Setembro, bem a tempo de dar um beijo à filha no dia dos seus 15 anos.

FIM


Nota: 

Como disse no primeiro episódio, esta história é real.
O Manuel foi o meu pai, e a menina que nasceu depois duma noite de trovoada, sou eu. Tudo o que escrevi sobre a Seca é  (era) real. A Seca foi desactivada em 30 de Dezembro de 1999. Hoje mantém-se aberta apenas para visitas de estudo. Parte do complexo, foi declarado património histórico. Para o restante foi projectado um condomínio de luxo, com campos de ténis, cavalariças e outras "coisitas" que fariam dele único na zona. Prestes a ser aprovado, eis que o projecto da nova ponte Barreiro Seixal, cai precisamente neste local. O condomínio ficou sem efeito, e por causa da crise, a ponte Barreiro Seixal, ficou em "águas de bacalhau".  A antiga Seca, mantém-se aberta apenas a visitas de estudo.