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19.12.19

CONTOS DE NATAL - O NATAL DA MINHA INFÂNCIA



O NATAL DA MINHA INFÂNCIA

Quando eu era menina, meus pais e meus avós, diziam que na noite de Natal, o Menino Jesus, vinha recompensar os meninos bons e trazer presentes. 
Nós vivíamos num velho barracão de madeira, com um salão de onze metros de comprimento, ao fundo do qual havia um fogão a lenha, (uma grelha metálica sobre dois tijolos), e um forno onde minha mãe cozia o pão.
 Pelo Natal quase todos os anos, juntavam-se lá em casa, os meus avós, tios e primos.
Era uma ceia de muita gente com poucas iguarias e muita alegria. Meus avós sempre traziam um quarto de queijo, coisa que não víamos no resto do ano, meu pai apanhava na horta as couves, o tio Zé trazia as batatas, a tia Carolina a aletria. A tia Celeste fazia as filhoses, a minha mãe as rabanadas, e o Bacalhau, comprado pelo meu pai, na Seca, que naquela altura do ano, sempre era vendido aos trabalhadores por um preço mais barato, que nas mercearias.
 Não havia rádio, nem televisão, nem sequer luz elétrica. Mas havia em casa, três candeeiros a petróleo, que naquela noite, ficavam acesos até depois da meia-noite. 
Muito antes do Natal, meu pai apanhava no pinhal perto da nossa casa, muitas pinhas, que secava abria e debulhava. Partia alguns pinhões para comermos e os outros eram para jogarmos, nessa noite em que toda a gente ia para a cama muito tarde. Ele mesmo fazia uma piorra com o Rapa, Tira, Põe e Deixa. Pelas onze horas, tios e primos regressavam às suas casas, e meu pai dizia que tínhamos de ir para a cama. Antes porém, íamos por os tamancos de madeira, que ele mesmo fazia, e que eram o nosso calçado, junto ao fogão, para o Menino Jesus deixar os presentes.
Sapatos só tínhamos um par, e era para a ida à missa, ou ao médico. E nós lá deixávamos os tamanquitos e íamos para a cama na esperança, de que nesse ano, o Menino Jesus deixasse alguma coisa diferente dos figos secos, ou rebuçados dos anos anteriores.
Na minha infância, e no sítio onde vivia, o Pai Natal era desconhecido. Era o Menino Jesus, que em vez de receber prendas no seu aniversário, vinha distribuí-las pelos meninos, que se tinham portado bem durante o ano.
E era sempre a mesma coisa. Nós esperávamos um brinquedo, ou mesmo um vestido novo, mas parece que o Menino Jesus, só tinha mesmo rebuçados e figos secos.
 Quando somos crianças, temos tanto de inocentes como de atrevidos, de modo que quando tinha seis anos, decidi perguntar ao Menino Jesus, porque não nos dava um brinquedo, a nós que não tínhamos sequer uma boneca de trapos. Com algum esforço mantive-me acordada até que ao ouvir um barulho fui espreitar e vi a minha mãe a por os rebuçados nos tamancos.
Revoltada, a pensar que o Menino Jesus não queria saber de nós, chorei até adormecer.

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Elvira Carvalho in Chiado Editora "Natal em Palavras" coletânea de contos de Natal


20.9.15

A HISTÓRIA DE UM PAR DE BOTAS... DO ESTADO. PARTE VII


                                              foto da net

 Ao mesmo tempo que mandava um vigia avisar a mulher do Manuel, o Capitão telefonou para o posto no Barreiro, para saber do que era acusado, um homem que levava a vida a trabalhar, e não se metia em escaramuças nem políticas. Foi então informado, de que a ordem viera de Lisboa, com a acusação de que Manuel era um desertor.
 Parece que à época, os mancebos aptos para a tropa, não ficavam livres depois de ela acabar, mas passavam a uma situação de reserva que só terminava aos 45 anos. Manuel fizera 44 em Abril. Ora todos os anos, eram vistos os processos, de todos os homens que cumpriram tropa e estavam nessa idade. E encontraram a caderneta militar do Manuel, que lhe devia ter sido entregue quando da passagem à reserva. Daí a investigarem o tempo de tropa dele foi um passo. E logo descobriram a deserção. E em consequência disso, Manuel estava agora preso e ia ser mandado para Lisboa. Precisamente para o quartel de Caçadores 5 em Campolide, de onde tinha desertado em 1941.
Uma vez no quartel, foi-lhe dito que teria de cumprir os quase dois anos de tropa que lhe faltavam quando desertou. Como porém em Abril de 63, faria 45 anos, e passava à reserva, ficaria na tropa até essa data.
Dá para imaginar o sofrimento do Manuel? Os jovens militares, gozavam com ele, mal acabava a formatura. Não estava em prisão no quartel. Estava na tropa, embora sem licença de saída.
Recebia a visita da mulher no quartel, e mortificava-se com a situação da família, agora sem o seu ordenado, que era o único na casa até à próxima safra, e ainda obrigada a gastar dinheiro em viagens para as visitas. Chorava todos os dias. E tudo por causa de umas malfadadas botas da tropa, que não pudera pagar ao estado.
Trabalhador humilde, sempre pronto a qualquer trabalho, mesmo que nada tivesse a ver com o armazém da lenha, alegre e bem-disposto, apesar de todas as dificuldades, o Manuel granjeara a simpatia, não só de todos na Seca, como do próprio patrão, que já por algumas vezes tinha requisitado o Manuel para tratar do jardim de sua residência.
Boa pessoa, sabendo reconhecer os méritos do Manuel, o patrão deu ordem ao gerente da Seca, o Capitão Aníbal, para manter o ordenado do Manuel enquanto ele estivesse ausente. Não satisfeito com isso, o patrão, usou de toda a sua influência, (e se era influente a família Bensaúde) para retirar o Manuel daquela agonia. E foi por isso que ele, voltou à liberdade no início de Setembro, bem a tempo de dar um beijo à filha no dia dos seus 15 anos.

FIM


Nota: 

Como disse no primeiro episódio, esta história é real.
O Manuel foi o meu pai, e a menina que nasceu depois duma noite de trovoada, sou eu. Tudo o que escrevi sobre a Seca é  (era) real. A Seca foi desactivada em 30 de Dezembro de 1999. Hoje mantém-se aberta apenas para visitas de estudo. Parte do complexo, foi declarado património histórico. Para o restante foi projectado um condomínio de luxo, com campos de ténis, cavalariças e outras "coisitas" que fariam dele único na zona. Prestes a ser aprovado, eis que o projecto da nova ponte Barreiro Seixal, cai precisamente neste local. O condomínio ficou sem efeito, e por causa da crise, a ponte Barreiro Seixal, ficou em "águas de bacalhau".  A antiga Seca, mantém-se aberta apenas a visitas de estudo. 



15.9.15

A HISTÓRIA DE UM PAR DE BOTAS... DO ESTADO. PARTE VI



                                               foto minha.

Em 62 Manuel continuava a viver no velho barracão de madeira, assente em pilares de cimento, junto ao rio Coina, Era, o lenhador da Seca, o homem que transformava os grossos troncos de azinheira, trazidos do Alentejo, em cavacos, que alimentavam os grandes fogões das maltas dos homens e mulheres. Pois o Manuel, não só cortava e rachava a lenha, como a transportava num carrinho de mão para estes locais, e também para a casa do Capitão, o gerente da Seca, e para as casas dos residentes fixos no local, os empregados de escritório, os electricistas, os vigias e o posto de Guarda Fiscal, que asseguravam o bom funcionamento da Seca durante todo o ano. Manuel era um homem magro, de baixa estatura, mas de uma força extraordinária.
 Causava espanto, a agilidade com que ele manejava uma marreta de 16 quilos, por ele, baptizada de segunda-feira. A mulher do Manuel, era simultaneamente porteira,e trabalhadora da Seca,  já que era ela quem abria o portão, para o pessoal que vindo do Barreiro, encurtava caminho, passando pela caldeira do Alemão, e seguindo junto ao rio, até ao portão de entrada na Seca, que lhe ficava à porta. Quando passavam as últimas pessoas, fechava o portão à chave, e seguia com elas para o trabalho de lavar, salgar, banhar, estender ou enfardar o bacalhau. À tarde saía um pouco mais cedo para ir abrir o portão, por onde o pessoal passava de regresso a casa. Cabia-lhe ainda, a ingrata tarefa de revistar os cabazes que o pessoal trouxera com o almoço, não fora alguém esconder nele algum bacalhau. Na Seca havia outro portão, que servia para os trabalhadores que moravam na Telha, ou vinham de Palhais, ou Santo António. Era a entrada principal por onde passavam os carros.



                                              foto minha

O casal tinha três filhos com pequena diferença de idade e ainda criava um dos irmãos mais novos da mulher que tinha quase a idade da sobrinha mais velha. Dos finais de Março a Setembro, com a inactividade da Seca, a mulher do Manuel não tinha trabalho, e o ordenado dele, não dava para sustentar seis bocas. O pequeno terreno que desbravara ao mato, ajudava com os legumes, e a mercearia ele mandava pôr no rol, que pagava religiosamente quando a próxima safra começava, agora já com a ajuda da filha mais velha, e do cunhado, que já trabalhavam na safra. Estávamos em Maio, num daqueles dias quentes, que mais parecem de Julho, quando à Seca, chegaram dois polícias numa carrinha, em busca do Manuel. Ele estava no trabalho, no armazém da lenha, e lá chegados os polícias deram-lhe voz de prisão, e levaram-no sem sequer poder avisar a família. Entrar algemado na carrinha, foi para o Manuel uma vergonha e dor tão grande, que ele pensou não resistir.

13.9.15

A HISTÓRIA DE UM PAR DE BOTAS BOTAS... DO ESTADO. PARTE V


Mulheres a estenderem bacalhau na Seca da Azinheira. O edifício do lado direito, é a malta dos homens. Foto de Eduardo Martins.



O casarão, como ele lhe chamava, era um enorme barracão assente em pilares de cimento, com 1m de altura, para que a água passasse por baixo nas tempestades de Inverno, ou nas marés vivas de Agosto, pois ficava bem na margem do rio Coina, junto ao portão de acesso à Seca, pelo pessoal do Barreiro, que para encurtar caminho, vinham pela trilha da Caldeira do Alemão. Tinha quatro grandes quartos com portas e chave, mas apenas um tinha janela para o exterior. E um salão de 11 m de comprimento por 4 m de largura. Contrariamente aos quartos, este salão não tinha nenhum forro por baixo do telhado, pelo que não raras vezes pingava lá dentro quando chovia. Na frente duas enormes janelas para o exterior. Viradas para a Seca, cercada a toda a volta por arame farpado. A meio do salão uma grande mesa comprida, e de cada lado um banco corrido de madeira. A mesa era utilizada pelos quatro casais. A um canto do salão, sobre uma base de cimento, dois tijolos, com uma grelha de ferro em cima servia de fogão. A luz era fornecida pelos candeeiros a petróleo, e a água, as mulheres iam  buscá-la ao chafariz da Telha, em bilhas de barro, que transportavam à cabeça, sobre uma rodilha, ou sogra. Entre o barracão e o chafariz uns quinhentos metros bem medidos. 



                                      Candeeiro a petróleo
                                           

Os casais davam-se bem, eram colegas e amigos, gente da mesma terra, que migrara para ali, em busca de trabalho e uma vida melhor. Todos eram vigias, excepto o Manuel que era lenhador, por isso tinham trabalho todo o ano.
A primeira obra do Manuel no casarão, foi a construção de um forno, junto ao fogão, para que as mulheres pudessem cozer pão.
Se por um lado não havia grande privacidade, por outro havia sempre uma mulher disponível para cuidar dos miúdos, dois rapazes do Aires, um casal do António, mais um rapaz do Carlos, e a menina do Manuel. Em Setembro, regressam os bacalhoeiros e recomeça a labuta de mais de 400 pessoas, que na Seca, descarregam o bacalhau e iniciam todo o processo de cura que expliquei noutro conto. É a  festa do reencontro, entre os que partiram para a aldeia, e os que ficaram.
Pouco tempo depois, o António muda-se com a mulher e os filhos para uma casa na Telha. Mais longe do trabalho, mas mais perto da mercearia, da escola, da padaria… E melhor que isso, com electricidade em casa e o chafariz à porta. No Barracão ficou um quarto vago que foi ocupado pelos dois filhos do Aires. No verão, seguinte, o Carlos muda-se com a família para a seca de Alcochete, onde tinha irmãos a trabalhar, e pouco depois, o Aires, muda-se para uma das casas existentes na seca. No “casarão” ficavam agora apenas o Manuel e sua família.


11.9.15

A HISTÓRIA DE UM PAR DE BOTAS... DO ESTADO. PARTE IV


                                                foto minha

                                                      IV

O nosso Manuel foi falar com o Capitão, gerente da Seca, para tentar resolver o seu problema. Como ele trabalhava o ano inteiro e a mulher estava prenhe, ele queria uma casa para viver com ela. O pior é que as casas estavam todas habitadas. Só estava vaga a barraca do Pinheiro Manso.
Ele e a mulher não se importavam de ir viver para lá se o gerente autorizasse. E ele autorizou.
No fim de Março, eles mudaram-se para essa “casa”. Era uma barraca de madeira, com uma espécie de sala, com uma bancada,num canto, e dois quartos. Não tinha electricidade, não tinha água, mas tinha o telhado forrado, o que a tornava mais confortável no Inverno.
Manuel era um homem muito habilidoso. Com uma fita métrica, um martelo, escopro e polaina, cola, que ele fazia, misturando farinha com água, pregos e madeira, ele era capaz de fazer maravilhas. Mas onde ir arranjar a madeira?
Todos os anos, quando os navios chegavam, os botes eram trazidos para terra, para que fossem reparados. Eram trocadas as tábuas que estavam em mau estado, substituídas por novas, e calafetados, para que não apresentassem perigo quando voltassem ao mar. À porta da oficina, amontoavam-se as tábuas velhas, e pequenos pedaços de novas. Manuel conseguiu autorização para utilizar essas tábuas, e com elas fez um armário, para a loiça, uma arca para guardar as roupas, o berço para o filho que estava a caminho, e uma mesa. No ferro velho comprou uma cama e duas cadeiras de ferro, que lixou e  pintou de novo. Comprou ainda um fogão, a petróleo, e o resultado foi  que a casita estava “mobilada”, e pronta a habitar.



                  Fogão a petróleo, mais ou menos igual ao do Manuel
                                                     foto da net


O filho do Manuel chegaria no final de Setembro. Porém no início desse mês, uma daquelas tempestades de Verão, abateu-se sobre a seca.
Na noite do dia dois para três, a trovoada rugia estrondosa como se estivesse por cima das suas cabeças. Ele abraçava a mulher que tremia de medo, e tentava esconder dela o seu próprio pavor, quando um enorme relâmpago fez da noite, dia, e o trovão os ensurdeceu. A mulher, aterrorizada de medo, sentia a criança “aos saltos” e ambos sentiram o cheiro a queimado. Pouco depois a trovoada afastou-se mas eles não mais dormiram. A mulher começou com contracções antes de tempo. Talvez por causa do medo, o certo é que a criança se aprestava para vir ao mundo. Quando pelas sete da manhã, Manuel abriu a porta da “casa” encontrou na sua frente, metade do pinheiro caído, cortado, de alto-a-baixo, pelo raio que o ferira. Tremendo, a pensar no perigo que correram, ele chamou a mulher. Ela no entanto não se levantou e apenas lhe pediu que fosse chamar a parteira. Às 11,20 desse dia, a mulher do Manuel dava à luz, o primeiro dos três filhos, que viria a ter, antes de uma infecção, pós parto que quase a matou e a deixou impossibilitada de ter mais filhos.
No final desse ano, o gerente disse ao Manuel, que ia precisar da barraquita, para a nova porteira. Disse-lhe ainda que ele teria que mudar para o barracão junto ao rio, onde já viviam três casais. Porém o barracão era grande, tinha um quarto vago, e ele e a família podia usufruir dele.

                                               

9.9.15

A HISTÓRIA DE UM PAR DE BOTAS BOTAS... DO ESTADO. PARTE III


O Manuel e sua esposa no dia do casamento.





 Para ir ver a jovem, Manuel tinha que atravessar o rio e na Seca havia sempre um bote e um par de remos disponíveis para o fazer. Mas às vezes o mau tempo fazia perigar as visitas. Como naquele dia, 20 de Janeiro de 1946, noite de chuva forte, e ventos intensos, em que ao regressar com o Aires, que também tinha ido ver a namorada, perderam os remos, e Manuel mergulhou várias vezes, perante o terror do amigo, até os conseguir apanhar e regressarem assim com dificuldade, mas sãos e salvos. O casamento fora marcado para Novembro, e embora faltasse pouco tempo, a Manuel parecia que ele tinha parado. O barquito e os remos, não descansavam um só dia, da travessia entre a Seca da Azinheira e a Seca do Seixal. A par da sua ansiedade, reinava o medo. Manuel tinha que tirar os documentos para se casar, e como era desertor, pensava que podia ser preso em qualquer altura.
Mas os documentos vieram sem problemas e o jovem aquietou o seu coração. 
Finalmente, Novembro chegou, e com ele o tão ansiado dia do casamento. A 9 de Novembro, na Igreja de Santa Cruz, no Barreiro, o Padre Abílio Mendes, casava o Manuel com a sua amada Gravelina.
A partir desse dia, a mulher passou a trabalhar na Seca da Azinheira, e o bote e os remos foram dispensados.
Sem casa, nem dinheiro para a pagar, Manuel vivia na malta dos homens e a mulher na malta das mulheres.



                                           foto minha


A malta, era um enorme edifício que existia na seca, para o pessoal que todos os anos, era recrutado nas aldeias do norte para a safra de bacalhau, que decorria entre Setembro e finais de Março, princípios de Abril. Este pessoal, mesmo sendo constituído muitas vezes, por marido e mulher, não podia, segundo a mentalidade de outrora, viver junto durante todo o tempo da safra. Logo, na seca existiam duas maltas, uma para os homens e outra para as mulheres. As regras eram claras, os casais, podiam fazer as refeições juntos, num ou noutro local, mas antes das onze horas da noite, teriam que estar nas suas respectivas maltas, sob pena de o vigia encerrar as portas e terem que dormir ao relento.
Para dar asas à paixão, os casais procuravam um pinhal que havia na seca, situado numa ribanceira, que criava zonas ocultas aos olhares de quem por ele passava, ou o canavial, que ladeava a vedação da seca, até à Telha.
 Usavam um nome de código que era: "Aviar a caderneta" Consta, que a pessoa que vos está a contar esta história, é filha de um "aviamento de caderneta". Em 47, com o aproximar do final da safra, e com a mulher grávida, Manuel deita contas à vida, sem saber como evitar a ida da mulher para casa da sogra, na Beira Alta.
Quer-a junto de si, mas de Março a Setembro a Seca, não tem trabalho a não ser para os que trabalham na sua manutenção. Logo a mulher não poderá ficar na malta das mulheres, e o que ele ganha, não dá para alugar uma casa.

                                               

4.9.15

A HISTÓRIA DE UM PAR DE BOTAS... DO ESTADO. PARTE II




                                            foto minha.



                                                   II


 Na Azinheira Velha, um local cheio de história, pois lá esteve sediada uma importante  base naval portuguesa, antes e depois dos descobrimentos. O local situado na feitoria da Telha, era abrigado, estava afastado da base naval da Ribeira das Naus, embora funcionasse como complemento desta, mas suficientemente afastado, dos olhares dos espiões de outros países. Acresce a isto o facto da abundante madeira de qualidade, nos arredores, dos sapais do Coina, onde essa madeira era enterrada, num processo de preparação, para a construção das caravelas e de pertencer à vila de Alhos Vedros, onde se refugiou D. João I, depois da morte da rainha, D. Filipa de Lencastre, vítima da Peste Negra que assolava a capital.
Era portanto na Azinheira Velha, que as naus seriam construídas entre o Outono e a Primavera, chegando nesta à Ribeira das naus para acabamento. Ou vice-versa, já que segundo a história, foi na Telha, no séc. XVI, na extinta Igreja de Stº André, que D. Manuel I terá assistido ao lançamento ao Tejo da Armada de Vasco da Gama. Atingida pelo terramoto de 1755 a feitoria foi destruída. Foi pois neste local cheio de história, que em 1891 a família Bensaúde, instalou a Parceria Geral de Pescarias, dedicada à pesca do bacalhau. A tão famosa Seca de Bacalhau, de que tanta vez falo nas minhas histórias.
Em 46, Manuel apaixona-se por uma das irmãs de um grande amigo, o Varandas, homem do norte como ele.
 Certo dia, logo no início do ano, o Varandas convidou o Manuel para ir com ele ao Seixal, onde ele ia visitar a irmã a trabalhar na seca. Para Manuel foi amor à primeira vista, pois ficou perdidamente apaixonado, mal viu a jovem. Ela porém não ficou muito interessada. Primeiro, porque Manuel tinha mais oito anos do que ela, segundo porque ele tinha fama de ser mulherengo, de não se prender a ninguém, e de gastar tudo o que ganhava, com “as meninas” em Lisboa.
Por pressão do irmão, mais velho, que ela respeitava, mais do que por amor, acabou por lhe aceitar namoro. Manuel estava perdidamente apaixonado. Tinha esquecido as idas a Lisboa, e tudo o que isso implicava. Todos os seus tempos livres serviam ao Manuel para ir ver a amada.
Na verdade a Seca da Azinheira, era conhecida por este nome, embora o seu verdadeiro nome, fosse Parceria Geral de Pescarias, e a Sociedade Lisbonense de Pesca de Bacalhau, conhecida por Seca do Picado, situada na Ponta dos Corvos, ficavam em frente uma da outra, apenas separadas pelo rio Coina.




                                  Antiga Seca do Seixal. 
                                  Foto de Hugo Gaito




O meu muito obrigado a todos que ontem contribuíram para que o meu dia fosse mais feliz. Bem Hajam
 






20.12.12

UMA HISTÓRIA DE OUTROS NATAIS


Re-edição
 foto do presépio da Santa Casa da Misericórdia do Barreiro





Aproveito para agradecer ao J. R. Viviani do blogue "Vendedor de Sonhos" que organizou o
 1º  Contos e Prosas
um evento para divulgação de autores no qual tive a honra de participar com um conto sobre violência doméstica que alguns de vós já conheceis. 
A quem quiser e puder passar por lá é só clicar aqui
 

5.11.12

MANUEL OU A SOMBRA DE UM POVO - PARTE XLIX



Construção do Muro de Berlim
Foto do Google



 A proclamação da República Democrática Socialista de Cuba acontece nesse 1º de Maio de 1961. E três dias depois houve nova remodelação do governo português.
Dias depois o astronauta americano, A. B. Shepard efectua o primeiro voo espacial do seu país.
Em meados de Maio foi tornado público um programa comum da oposição elaborado sob a inspiração de Jaime Cortesão e Mário de Azevedo Gomes, para a democratização da República. Da equipa que elaborou o programa faziam parte Mário Soares, José Ribeiro Santos, Fernando Piteira Santos, Ramos Costa, Acácio Gouveia e Rui Cabeçadas entre outros. Na sequência da divulgação do programa, Acácio Gouveia, Mário Soares e Gustavo Soromenho são presos.
O troço da auto-estrada entre Lisboa e Vila Franca foi inaugurado a 28 desse mês. E no mesmo dia rebenta uma bomba na Estação do Cais do Sodré.
 No dia 30, o Benfica sagrou-se Campeão Europeu de Futebol, batendo na final em Berna, o Barcelona por 3-2. O Manuel não gosta do Benfica. Ele é portista desde menino. Mas quando o Benfica ia jogar no estrangeiro, ele torcia pelo Benfica. Costumava dizer que acima dos clubes estava o país e ele apoiaria sempre uma equipa portuguesa ainda que fosse o Cascalheira.
E se o mês começou com a proclamação da República de Cuba termina com a Implantação da República da África do Sul
A nível internacional o facto mais importante do mês de Junho foi a Cimeira de Viena entre os presidentes Khruchtchev e Kennedy a 3 e 4.
Por cá Venâncio Deslandes é nomeado Governador-geral de Angola e Comandante-chefe.
Em Espanha surge a Union de Fuerzas Democráticas, com o PSOE, PNV, e a Izquierda Demócrata Cristiana.
A 22 mais uma remodelação governamental.
No final do mês Salazar discursa em reunião extraordinária da Assembleia Nacional.
No Barracão Manuel está muito contente. Os dois filhos mais novos foram muito bem na escola. O catraio fez o exame da 4ª classe com distinção. Tinha onze anos e conseguira recuperar os anos perdidos no inicio por causa da fala. E a miúda a tirar o Curso Comercial na Escola Alfredo da Silva passara com altas notas.
Por outro lado a mais velha, faria em Setembro 14 anos e já poderia ir trabalhar para a Seca na próxima safra. Era uma ajuda. Depois a gaiata metera na cabeça que logo que fosse trabalhar para a Seca, se matricularia na mesma escola onde a irmã estudava para tirar um curso noturno.
Claro que ele não se importava com isso, até gostava que a gaiata estudasse. Afinal quem a queria ver feliz era a ler ou a escrever. E o diacho da cachopa escrevia coisas que ele até ficava a imaginar onde teria ido ela ido buscar aquilo.
O pior é que ele não acreditava que ela aguentasse. Ele sabia bem como era pesado o trabalho na Seca até para um adulto quanto mais para uma miúda. Depois o trabalho começava às 8 da manhã e terminava às 18 horas. Não dava tempo de acender o lume, aquecer a água para o banho, lavar-se e vestir-se, e ir até à Telha apanhar o autocarro para chegar à escola às 19 horas. Mas ele não queria cortar os sonhos à miúda. E até já tinha dito à mulher que estava disposto a fazer pela filha a última hora de serviço se o patrão aceitasse. Afinal de contas ele largava o trabalho às 17. O miúdo não iria estudar. Se por um lado ele não ganhava o suficiente para o pôr a estudar, por outro o miúdo também não mostrava qualquer interesse pelos estudos. Também não podia ir trabalhar. Ainda não tinha idade para isso.
Em Julho o Senegal e a Indonésia cortam relações com Portugal.
 É assinado acordo de associação entre a CEE e a Grécia.
No primeiro dia de Agosto o pequeno enclave português do forte de S. João Batista de Ajudá, situado na República do Daomé, é atacado e invadido. O representante português incendeia as instalações antes da retirada. 
No dia 4 desse mês de Agosto, nasce aquele que muitos anos mais tarde irá fazer história, ao ser eleito o primeiro presidente negro da história dos Estados Unidos da América.
Por esses dias o PAIGC solidariza-se com o MPLA e proclama a passagem à ação direta. Por essa altura a Dinamarca e o Reino Unido pedem adesão à CEE.
É também nessa altura que nasce o Movimento Nacional Feminino. Movimento de apoio ao esforço de guerra levado a cabo pelo Estado Novo. Os estatutos são aprovados ministerialmente neste dia. Célebre pela instituição dos modelos das madrinhas de guerra e dos aerogramas.
Nesse mesmo mês, na noite de 12 para 13 é erguida uma barreira de arame farpado em Berlim, separando as zonas leste e oeste. Dias depois, mais concretamente a 17 começa a construção do Muro de Berlim.
O governo sueco hesita em aderir ao Mercado Comum, invocando a política de neutralidade sueca.
No dia 25 Jânio Quadros renuncia à Presidência do Brasil, sendo substituído pelo Vice-Presidente João Goulart do PTB. O congresso brasileiro regressa ao parlamentarismo. E o mês chega ao fim com o regresso da URSS às experiências nucleares na atmosfera.


29.10.12

MANUEL OU A SOMBRA DE UM POVO PARTE XLVIII



 Gagarin foto do google

Janeiro de 1961, praticamente inicia-se com a ruptura diplomática entre Cuba e os E.U.
Ainda na primeira quinzena, um referendo em França aprova o processo de autodeterminação na Argélia.
Kennedy toma posse a 20 e três dias depois termina na Bélgica uma greve geral que durava à 33 dias.
Nesse mesmo dia 23 de Janeiro o Capitão Henrique Galvão, à frente de um grupo de militantes do DRIL (Directório Revolucionário Ibérico de Libertação Nacional) toma de assalto o paquete Santa Maria quando este navegava entre Curaçau e Miami e rebaptiza-o de Santa Liberdade. Pretendia dirigir-se a Angola, mas em vez disso acaba por desembarcar doze dias depois no Recife, onde o navio é entregue às autoridades brasileiras que o devolvem ao governo português. Galvão acaba por se entregar às autoridades brasileiras.
Se por um lado o país fervilhava de fervor revolucionário, por outro o medo tomava conta do povo. Por temor da PIDE, mas também por temor de uma guerra civil.
No final do mês os trabalhadores da firma Cotonang na Baixa do Cassange revoltam-se. A repressão é rápida e intensa, utilizando meios terrestres e aéreos. Segundo o MPLA, o saldo foram 10 000 mortos.
Na seca o pessoal anda apreensivo. Os mais antigos temem a guerra, lembram tempos antigos memórias de outras guerras. As mães temem que os seus filhos virem carne para canhão. Fala-se em surdina, que nunca se sabe se o camarada do lado é ”feijão-frade”, nome dado aos informantes da PIDE. As horas correm lentas, sem a alegria das cantorias femininas.
A 4 de Fevereiro, militantes do MPLA assaltam a casa de reclusão de Luanda. Sete baixas nas forças de Segurança. Diz-se que o Movimento Nacional Independente de Humberto Delgado está entre as forças do MPLA.
No dia seguinte, no funeral das vítimas, no cemitério novo de Luanda, há violentos incidentes, dos quais resultam cerca de 3 000 mortos. No dia 10 novo ataque em Luanda, desta vez à cadeia de S. Paulo.
A 12 é assassinado o  congolês Patrice Lumumba
A 23 Libéria promove reunião do Conselho de Segurança da ONU contra Portugal.
Dois dias depois é assinado o contrato para a construção da Ponte sobre o Tejo, e no dia seguinte Hassan II é o novo rei de Marrocos
Quase no final do mês Humberto Delgado no Brasil, faz pela primeira vez um ataque à política colonial do governo.
 A 5 de Março Paul-Henri Spaak abandona o cargo de secretário-geral da NATO, para regressar à actividade política belga, onde assumirá, a partir de 25 de Abril, o cargo de ministro dos estrangeiros
Depois de duas reuniões entre Elbrick, embaixador dos Estados Unidos e Botelho Moniz, Elbrick solicita uma audiência a Salazar.
A 14 vagas terroristas invadem o norte de Angola, sob o comando da UPA. Votação do Conselho de Segurança da ONU. USA e URSS votam contra a posição portuguesa. No dia seguinte a Finlândia associa-se à EFTA.
A imprensa do dia 17 relata os acontecimentos em Angola.
Vasco Lopes Alves Ministro do Ultramar parte para Angola a 23. 
As eleições legislativas da Bélgica acontecem a 26 e o resultado é a descida dos sociais-cristãos e subida dos comunistas e dos nacionalistas flamengos.
A 28 Salazar e Botelho Moniz encetam conversações.
O mês termina com a partida do pessoal do norte, pois a Safra está terminada. Na Seca ficarão como habitualmente o pessoal de manutenção ali residente, o gerente e os militares da guarda-fiscal.
Os primeiros dias de Abril foram muito movimentados a nível do governo, com reuniões, primeiro entre Botelho Moniz e Américo Tomás, depois Tomás e Soares da Fonseca, Ulisses Cortês e Santos Costa. Mais tarde Tomás e Salazar, e por fim Botelho Moniz pede a Tomás a substituição de Salazar.
 A 12 Tomás almoça com o Ministro do Exército, enquanto Kaulza de Arriaga, sem o prévio acordo de Moniz, põe várias unidades militares em regime de prevenção. Novas audiências de Tomás com Salazar, Botelho Moniz e Soares da Fonseca.
Nesse mesmo dia Iuri Gagarine a bordo da Vostok I, entra na história como o primeiro homem no espaço.
No dia seguinte dá-se a movimentação de várias personalidades do regime, lideradas pelo ministro da defesa, Júlio Botelho Moniz, e apoiadas pelo antigo presidente da república, Craveiro Lopes, visando afastar Salazar através de um golpe palaciano. Fala-se no regresso de Craveiro Lopes à presidência, com Marcelo Caetano a chefiar o governo. No dia 13, consuma-se o golpe de Botelho Moniz, com uma reunião na Cova da Moura entre os ilustres amotinados. Entretanto, previamente, Salazar remodelava o governo, assumindo Salazar a pasta da Defesa. Mário Silva, ministro do exército, com Jaime da Fonseca. Novo CEMGFA, Gomes de Araújo. Adriano Moreira assume a pasta do Ultramar. A explicação da remodelação era Angola: andar rapidamente e em força é o objectivo que vai pôr à prova a nossa capacidade de decisão. Esta movimentação ficou conhecida como a Abrilada.
Nesse mesmo dia Adriano Moreira é designado Ministro do Ultramar de Salazar, depois de ter sido subsecretário de Estado da administração ultramarina desde 3 de Março de 1960.
No dia 20 desse mês de Abril um grupo de exilados cubanos apoiados pelos serviços secretos americanos desembarca na Baía dos Porcos. A invasão destinava-se a derrubar Fidel Castro e repor a velha ordem, mas resultou num fracasso.
Nesse dia Manuel fazia 43 anos. Muitos anos de trabalho duro, de luta, de miséria…