Seguidores

Mostrar mensagens com a etiqueta povo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta povo. Mostrar todas as mensagens

12.7.17

ROSA - FINAL

Foto de um grupo de retornados. Em 74, em poucos meses, meio milhão de portugueses regressaram das colónias. Chegavam de barco ou de avião, na sua maioria de "mãos vazias". Fugiam da guerra deixando para trás tudo o que tinham. Esta foto não é minha, (até porque nessa altura eu estava em Luanda) Foi retirada da Internet 

                                       XVI 

Para Rosa tudo era novo e diferente, ela não entendia muito bem o que se passava no País mas o que notava é que o povo estava mais alegre, mais feliz
Por outro lado, João recuperara o antigo emprego, o filho conseguira trabalho na Siderurgia Nacional, a filha mais nova fora trabalhar para a Timex, até o filho doente, estava melhor agora, graças a uma "bomba" que o médico já tinha receitado à muito, mas que ela nunca conseguira dinheiro para comprar. A sua vida estava muito melhor, ela podia enfim descansar um pouco, deixando o trabalho a dias e ficando em casa a cuidar do marido e dos filhos solteiros. Podia também cuidar dos netos, deixando as filhas mais descansadas e mais libertas de despesas. Porém, sobre ela pairava, como uma sombra, o medo pelo filho ainda lá longe, em Angola. Principalmente porque não havendo a PIDE, nem censura, tudo o que se passava em África chegava a Portugal. Rosa sabia que o governo, estava a negociar a independência, mas todos os dias chegavam a Portugal “os retornados” que falavam do medo que sentiam, da guerrilha entre os movimentos de independência, e alguns residentes pró colonialistas.  Falava-se de mortes, do recolher obrigatório, da incapacidade dos militares impedirem os indígenas que os saqueavam. E o seu filho continuava lá em comissão. Por outro lado, os políticos pareciam não se entender, os governos provisórios sucediam-se, e Rosa tinha muito medo que tudo voltasse ao mesmo, ou como diziam alguns, que a seguir à ditadura fascista, se seguiria uma ditadura comunista. O marido, dizia-lhe que isso sim seria um sonho, mas Rosa, que era uma mulher sem instrução, e tudo o que aprendera na vida, ficara-lhe  gravado na memória pelo sofrimento, achava que ditadura nunca seria coisa boa, fosse ela fascista ou comunista. E lembrava-se do que a avó sempre dizia quando ela era pequena e nem bem sabia o sentido das palavras. “Atrás de mim virá, quem bom me fará” Tinha medo. Muito medo de ainda vir a achar que os anos para trás, é que tinham sido bons. Naquele verão, mais de um ano após a revolução, o país parecia caminhar para uma guerra civil, e ela tinha medo do que o futuro lhe podia ainda reservar.  Medo que só perdeu, quando em Novembro de 75, pode enfim abraçar o filho que regressara são e salvo, após a Independência de Angola. E quase no final desse mesmo mês,  a viragem histórica do país, que afastou o espectro da guerra civil.
Agora sim, Rosa era uma mulher feliz.

                                         
 Fim

Maria Elvira Carvalho


29.6.16

MANEL DA LENHA - PARTE XCV




E chegámos ao ano de 1992, que começa como se devem lembrar com Portugal a assumir a presidência da União Europeia. Manuel era um homem do povo. E o povo, inocente e crédulo pensava que com esse facto a vida ia melhorar em Portugal. Tirando o facto de Portugal ter aderido nessa época ao Sistema Monetário Europeu, nada aconteceu de novo. E mesmo disso, o povo só soube a notícia, já que ainda iriam passar uns anos até que a diferença aparecesse nas suas carteiras.
Nesse mesmo ano, o Creoula sofreu mais algumas alterações na zona do meio do navio. Aproveitou-se uma das cobertas de 9 instruendos, para se criar um espaço que funciona como biblioteca e sala de aulas. Quando mais tarde ele teve aberto à visita da população, aproveitando um dia em que a mulher estava estava acompanhada pela empregada, Manuel foi ver o navio e claro veio espantado. Como estava diferente do navio que ele conheceu, e onde tanta vez fez pequenos trabalhos de reparação.
Desde que a mulher adoecera, e já ia fazer 8 anos, Manuel nunca mais saíra de casa, a não ser no dia em que a empregada lá estava. Nesses dias, se o filho tinha de se deslocar a algum lado, vinha buscar o pai e ele ia todo contente, por espairecer um pouco. Mas nunca mais fora à sua terra, ou às Termas em S. Pedro do Sul. Nesse Verão, o filho limpou os pavilhões do aviário e resolveu parar um mês, porque segundo ele, de vez em quando devia-se dar descanso aos mesmos, e ele há anos que não parava.  Como tinha uma carrinha, decidiu que ia levar os pais ao norte. Pediu à irmã, que estava de férias de os acompanhava, pois a mãe ia precisar da sua ajuda para a higiene, já que para onde iam não teria as condições que tinha em casa para se bastar sozinha. Porém, a caminho de Vila Franca, numa descida havia óleo derramado na estrada, o carro derrapou e apesar de todos os esforços do condutor,
o carro acabou por dar uma leve batida. Ninguém na carrinha sofreu nada a não ser a Gravelina, cujo corpo semi-paralisado escorregou, fazendo com que a perna esquerda, sem força, batesse no banco da frente, e partisse a perna. 
Chamada a ambulância trouxe-a para o hospital do Barreiro, acompanhada pela filha, enquanto o resto da família voltava para trás.
Dada a história de AVC da Gravelina, ela ficou no hospital todo o tempo de recuperação.
E em Outubro desse ano, chega a Portugal a TV privada, com a SiC de Francisco Balsemão, tendo como director de programas Emídio Rangel. 
Um mês depois, com poucos dias de Intervalo, Xanana Gusmão é preso em Dili, e a nossa moeda é desvalorizada 
em 5%.




À margem: 
Peço aos amigos, que me visitam, que se puderem (e quiserem claro) passem por AQUI. Muito Obrigada





6.6.16

MANEL DA LENHA - PARTE LXXXIII



Nesse ano o país está a braços com uma grave crise financeira. Diz-se que há mais de cem mil trabalhadores com salários em atraso. 
A filha mais velha do Manuel, para ajudar a economia doméstica, tomava conta de bebés desde há três anos. Uma menina e um menino, que iam crescendo com o agora seu filho. Cuidar de crianças era algo de que gostava, ajudava na economia, e acreditava que era também melhor para o seu bebé, crescer com outras crianças.
Em Junho desse ano, alguns acontecimentos agitaram o país. A prisão de Otelo Saraiva de Carvalho, que o povo se habituara a ver como um herói, e foi-o sem dúvida na revolução de Abril, mas que posteriormente se envolveu num movimento denominado FP25, que  comete várias atrocidades, entre elas o rebentamento de uma bomba em Évora que mata uma idosa e um bebé. É também em Junho que se dá o rebentamento do escândalo D. Branca.
"A banqueira do povo", D. Branca, ou melhor, Maria Branca dos Santos, era uma mulher que oferecia juros  bem mais altos que na banca o que levou a que milhares de portugueses, recorrerem a ela para depositar as suas poupanças. De tal modo que impossibilitada de tratar de tudo sozinha se foi rodeando de colaboradores, que a foram roubando, e um esquema que já de si, não tinha "pernas para andar" muito tempo, acabou rebentando num enorme escândalo financeiro, a que o cunhado mais novo do Manuel escapou, porque três meses antes tinha levantado as suas poupanças, que anteriormente lá aplicara para comprar a casa onde morava, já que o senhorio lhe tinha feito essa proposta.
Nesse mesmo mês, com os jogos olímpicos a decorrerem em Los Angeles, e o Europeu de Futebol a disputar-se em França, Portugal foi impedido de chegar à final com um golo de Platini, nos instantes finais dum prolongamento, a que Portugal obrigara a França, com um empate as dois golos, ficando-se assim pelo terceiro lugar.
E na véspera de S. Pedro, nos Jogos Olímpicos, Carlos Lopes ganha a medalha de ouro na maratona de Los Angeles, e Rosa Mota consegue a medalha de bronze
Um mês de referência para o desporto nacional que no mês anterior tinha visto desaparecer a maior das suas referências em ciclismo. Joaquim Agostinho.
Já aqui foi dito que Manuel era um apaixonado por futebol, pelo "seu" Porto e por Portugal. Mas não só. De uma forma geral, ele não perdia um espectáculo desportivo que fosse transmitido na TV. Daí que esse foi um mês de grandes alegrias para ele. E no mês seguinte passa a ser mais um reformado. Tem 67 anos, e parte com a mulher, para as Termas de S. Pedro do Sul, onde ela vai fazer tratamentos.

20.5.16

MANEL DA LENHA - PARTE LXXIV


                                     Foto do Google. Desconheço o autor..


O dia ia longo. Por todo o país o povo seguia ávido os comunicados que a rádio transmitia, num misto de ansiedade e temor. Ansiavam ouvir que tudo tinha terminado, e o país estava livre do fascismo, e ao mesmo tempo, temiam que as coisas dessem para o torto e despoletasse uma guerra civil. Em Lisboa, contrariamente aos constantes apelos para a população ficar em casa, o povo estava em peso na rua, apoiando e incentivando os militares.  Por serem espectadores atentos,eles sabiam exactamente o que se passava coisa que o resto do país, ouvindo apenas às notícias transmitidas não tinha.
À medida que o povo, vê as Forças do Movimento conquistarem objectivos, começa a sentir-se confiante, e a dirigir-se em massa para a rua António Maria Cardoso, onde se situava a sede da PIDE-DGS. Estes, vendo a sua sede cercada pela população, abrem fogo sobre o povo., tendo efectuado 4 mortos e 45 feridos, que serão socorridos pela Cruz Vermelha, e levados para o Hospital S. José e Hospital Militar.
Os tiros disparados na sede da PIDE-DGS, ouvem-se no Largo do Carmo, onde o capitão Andrade Moura, do Regimento de Cavalaria 3 informado por populares do que se passava, faz deslocar uma viatura blindada, e alguns jeeps para o local. Com grande dificuldade, consegue aproximar-se e monta um cerco à sede da PIDE. Não tem no entanto pessoal suficiente para um assalto às instalações. 
Com tudo a correr como esperado, vivia-se no Posto de Comando um ambiente descontraído, interrompido pelo Capitão Rosado da Luz, que informa que a "guerra ainda não está ganha" e conta a situação na rua António Maria Cardoso.
O Major Otelo, pede ao general Spínola, para convencer o ex-Ministro do Interior, César Moreira Baptista, preso na unidade, para convencer o director da PIDE, Silva Pais a render-se. No telefonema, Silva Pais mostra-se disposto à rendição, caso as Forças Armadas garantam a protecção dos seus agentes.
Enquanto isso, vão-se chamando pelo telefone, os elementos indigitados para a Junta de Salvação Nacional. Foram chegando o General Costa Gomes, o Capitão de Fragata Rosa Coutinho, o Brigadeiro Jaime Silvério Marques, o Coronel Galvão de Melo, Capitão de Mar e Guerra Pinheiro de Azevedo. O General Diogo Neto está em Moçambique.
Perto das vinte e três horas inicia-se uma reunião entre a Junta de Salvação Nacional, e os oficiais do MFA.  Dando corda ao seu projecto de poder pessoal, Spínola afirma que é necessário rever o programa do MFA que anteriormente assinara. Vítor Crespo responde agreste " os blindados e tropas ainda estão na rua, se for preciso continua-se com o golpe".







Volto a lembrar que todos este factos, são objecto de pesquisa, de jornais da época, do arquivo da RTP, e sobretudo da base de dados históricos. Na altura eu estava em Luanda. Lembro também que se introduzo a revolução, nesta espécie de biografia do Manel, é porque entendo que ela mudou por completo a Nação e o povo. E o Manel era apenas uma pequena partícula desse povo sofrido.

17.1.16

AMANHECER PARTE XXXI


foto do google



Seis meses depois, teve a sorte de ser destacado para a Sagres que ia partir em viagem, à volta do mundo, por um ano. Um facto que mudou completamente o seu modo de encarar a vida. Aprendeu o que é viver dias e dias sem avistar terra, ao sabor do humor da natureza, ora num suave embalo, ora numa dança louca que lhe revolvia as entranhas e lhe punha o estômago às voltas, dia após dia a olhar para as mesmas caras, dando as mesmas ordens, executando as mesmas tarefas, numa rotina, da qual não há como escapar, perdidos na imensidão do mar, sob um sol intenso, ou um frio de rachar, sempre ansiando pelo próximo porto. Mas também aprendeu o fascínio que aquela farda tem sobre as mulheres, mesmo que sejam de outros continentes, e com outros costumes. Viu gentes e culturas que em nada se pareciam com as suas, mas que despertaram nele o seu espírito aventureiro e a certeza de um regresso.
E foi assim que após o serviço militar cumprido, partiu à descoberta do mundo. Para se sustentar fez de tudo um pouco. Foi servente de pedreiro, empregado de mesa em cafés e restaurantes, entregador de flores, e até empregado de uma funerária. Em Paris, teve a sorte de ver uma das suas crónicas publicadas, no Le Monde. Depois, conseguiu um lugar de estagiário na redacção desse mesmo jornal. Aproveitou o estágio para se inscrever num curso intensivo de jornalismo, aprimorando e pondo em prática conhecimentos adquiridos na universidade.  Conheceu Sara, uma conterrânea a estudar arte contemporânea, com quem viveu uma conturbada história de amor, que durou pouco mais de um ano. Conturbada, porque Sara pretendia muito mais do que aquilo que ele queria, ou podia dar. O povo diz que gato escaldado de água fria tem medo. A traição de Odete, rasgara-o interiormente. Acreditava que nunca mais iria confiar noutra mulher. E Sara queria uma relação estável e douradora. Um dia despediu-se, comprou um auto caravana e rumou para África. A partir daí passou a trabalhar sempre como jornalista  independente. Mas as suas crónicas e reportagens publicavam-se em vários jornais, um pouco por todo o mundo. Especialmente as que fizera no Iraque, Timor e Myanmar. Vira e vivera situações, que até o diabo temia.
O seu espírito aventureiro, o seu físico, os belos olhos cinzentos, aliados ao seu ar trocista, acicatavam a imaginação feminina. Daí que aventuras amorosas, não lhe faltassem.
Aventuras  que duravam horas ou dias e que não faziam qualquer mossa nos seus sentimentos nem convicções. Sara fora uma excepção, pelo tempo que durou.



2.10.15

REFLECTINDO



No último dia de campanha eleitoral, apetece-me falar de eleições. Não, não venho falar de partidos políticos, nem daquilo que este ou aquele candidato representa. Vivemos todos no mesmo país, sabemos bem como vivemos, e eu não vou passar atestado de burrice a ninguém, que esse é o papel dos políticos, não o meu. Venho falar-vos de que nunca em campanha alguma, eu ouvi tantos amigos e vizinhos dizerem que não vou votar. Espero que não seja o vosso caso, família e amigos. Queria só deixar aqui o mesmo que sempre digo a quem me diz que não vai votar.
A democracia não se fez só para exigirmos os nossos direitos. Ela também tem direitos, que são simultaneamente deveres. Um deles é o dever de irmos às urnas, porque só exercendo-o temos o direito de escolha, e o direito de apoiar ou reclamar de quem no futuro exerce o cargo.
Quando os militares de Abril fizeram a revolução, eles queriam essencialmente duas coisas. O fim da guerra nas colónias, e o sagrado direito de o povo se expressar e escolher quem iria representar no governo os seus direitos.
É uma falta de respeito enorme por quem lutou para nos dar esse direito a abstenção.
Se precisamos de um médico, de um advogado, de um engenheiro, escolhemos um e vamos lá falar com ele. Então se precisamos de um governo ou presidente, porque nos abstemos de ir lá?
O voto é a voz do povo. Algum de vós quer ser mudo? Eu não.

Desejo-vos um bom fim de semana