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27.11.17

MARIA - PARTE I


 RE-EDIÇÃO
                                              foto minha


Regresso ao passado

Foi num fim de tarde de Setembro, quando o Verão caminha já ao encontro do Outono. O dia estivera bonito, um sol radioso, mas já sem aquele calor abrasador do pino do Verão.
Aí pelas seis da tarde, a saudade invadiu-me o peito e aos poucos foi-se instalando, qual erva daninha, alastrando na horta. Saudade dos meus tempos de menina, vivendo à beira-rio, do pôr-do-sol tingindo de vermelho as calmas águas, do cheiro a limo, do bater dos remos dos pescadores.
Eu não sou mulher de ficar remoendo a saudade, quando estou numa situação privilegiada para ir até lá passear um pouco na praia, molhar os pés na água, e quem sabe encetar uma viagem ao passado das minhas recordações e aos meus tempos de menina.
Peguei nas chaves, e num livro. Não porque estivesse a pensar ir ler para a beira-rio, quando o entardecer se apressava, mas porque sempre considerei um livro como um amigo, e ter um amigo por perto sempre foi um amparo para as minhas emoções.
Desci os dois lances de escada, atravessei a estrada, e entrei na quinta que me ia levar à margem do rio Coina, uns metros adiante. Enquanto caminhava pela quinta, que de quinta apenas tem o nome, pois se trata de um descampado de uns quatrocentos  metros ao fundo do qual um pinhal dava inicio à descida acentuada que terminava lá bem na margem do rio, uns trezentos metros adiante.
Desci quase correndo levada pela urgência das recordações.
No fundo a todo o comprimento da quinta, uma fileira de oliveiras que as pessoas utilizavam como sombra, quando no Verão procuravam a praia. Em tempos, aquela quinta era chamada a Quinta do Xavier, e da parte de cima das oliveiras, havia imensas figueiras, com cujos frutos os meus irmãos, e todas as outras crianças pobres do sítio se deliciavam. Porque aquela quinta sempre foi pública. Uma azinhaga servia de caminho para quem descia da Telha para a praia. E no Verão aquela praia ficava tão povoada como a melhor praia da actualidade. A extensa fieira de oliveiras, e as imensas figueiras serviam de sombra para as pessoas acamparem por baixo e fazerem belos piqueniques sob a sua sombra. Claro que isto foi há muitos anos atrás,  antes da Siderurgia Nacional se ter instalado no Seixal, o que empurrou o rio para a Quinta do Xavier e roubou a bela margem de areia da praia. Também o progressivo desenvolvimento do Barreiro, com o consequente aumento de esgotos para o rio, transformou a ótima qualidade de água, em qualquer coisa, imprópria para o banho.
Do outro lado da azinhaga, a cerca de marcos com arame farpado, que delimita a antiga Seca do Bacalhau da Azinheira Velha. Mesmo junto à cerca, ficava o barracão onde vivi a minha meninice, e onde nasceram meus irmãos. Parei ali por momentos, olhando para o passado, ouvindo o som da briga dos meus irmãos, o barulho da corrente do cão, correndo pelo arame, quando ele corria, dum lado ao outro do barracão.
De súbito, voltei ao presente com um leve som, e fiquei surpresa ao notar que não estava sozinha. Ali ao lado debaixo de uma oliveira, sentada no chão, uma mulher que me pareceu ainda jovem, mas que escondia a cara nos joelhos fletidos. Parecia que não tinha dado por mim e como eu também não estava interessada noutra coisa que não aquele regresso ao passado, resolvi afastar-me em direcção à água, não sem antes ter lançado um novo olhar à figura e me ter parecido achar-lhe qualquer coisa de familiar.


Continua

AVISO AOS LEITORES:


Nesta história, tudo o que escrevo na primeira pessoa, é verdade, faz parte da história da minha vida.
A Maria não existe , é a parte de ficção da história. 
O engraçado é que quando publiquei a história, há quase quatro anos, recebi um e-mail de alguém que me perguntava se eu a conhecia, porque me garantia que a sua história era igualzinha à que eu descrevera. Espero que essa pessoa esteja bem.

23.12.16

UMA HISTÓRIA DE NATAL

conto reeditado

Era uma vez um burro. Velho e cansado como todos os burros que viveram  anos e anos, dia após dia, sempre carregando no lombo, pesadas cargas. Agora, no fim da vida, ele só esperava que o seu dono o deixasse morrer em paz. Mas parecia-lhe que não era essa a intenção do seu dono, quando nessa manhã de Inverno o levou para a feira. O burro, que não era tão burro quanto o seu nome dizia, percebeu que o dono, a quem servira toda a vida, se ia desfazer dele, porque achava que não tinha mais préstimo.  E embora ele reconhecesse que até já não tinha forças para grande coisa, doía-lhe a ingratidão do dono. 
Esperaram por mais de três horas na feira. De vez em quando aparecia alguém que parecia interessado no burro, mas ao analisá-lo de perto concluía que era demasiado velho para o que precisavam, e depressa se desinteressavam. 
Um dos que se aproximaram para o ver, dissera mesmo ao dono. "Está velho. Já não tem préstimo. Devia abatê-lo"
O velho burro estremeceu de terror. E pensou que os homens eram animais perigosos. Serviam-se dos outros animais, enquanto eles podiam, executar por si as tarefas mais difíceis, e quando estavam velhos, matavam-nos. Pensou se eles fariam o mesmo aos da sua espécie. Mandariam abatê-los quando estavam velhos?
Ao findar do dia, quando o dono se preparava para fazer o regresso, e o pobre burro, não pensava noutra coisa que não fosse a frase cruel ouvida de manhã, sem conseguir descortinar no seu dono se era ou não isso que ele ia fazer, um homem alto e magro de ar calmo e bondoso aproximou-se do burro e do seu dono.
Examinou-o e perguntou o preço. 
-Muito alto para um burro velho, -disse.
Voltou a examinar o burro. Passou-lhe a mão pelo lombo. O burro estremeceu. Sentiu os calos na mão do homem, e no entanto aquela mão, transmitiu-lhe uma tal doçura, que o pobre do burro não habituado a isso, ficou maravilhado.  Ah! Se ele soubesse rezar, decerto teria rogado ao Deus do homem,  para que ele  o comprasse, de tal forma o desejou. Mas ele era apenas um burro.
-Dou-lhe metade, -disse o homem
O dono regateou. E o homem virou costas decidido a partir. O burro ficou triste. Tão triste, que uma lágrima turvou o seu olhar cansado.  Mas então o dono, perdida já a esperança de melhor preço, chamou o homem.
Este voltou atrás e fez a compra.
O homem pegou o burro pela arreata, e dirigiu-se para casa. Pelo caminho falou como se soubesse que o burro o entendia:
-Estás velho amigo. Vamos a ver se consegues ajudar-nos.  Para te ser sincero, preferia um animal mais novo. Mas não vi nenhum. E ainda que visse, talvez não tivesse dinheiro suficiente para o comprar. Espero que dês conta do recado e nos ajudes na viagem.
A palavra viagem, não agradou ao velho burro, que  já se sentia fraco das patas. Mas entre uma viagem e a morte,  que decerto o esperava na volta para casa do seu antigo dono, a escolha era óbvia. 
Relinchou tentando dar ao novo dono, uma confiança de que ele próprio duvidava.
Nessa noite, foi o burro muito bem tratado, em palavras, e ração, pelo que adormeceu feliz da vida.
Na manhã seguinte, eis que o homem se apresenta com a esposa, e uma carga que lhe põe no lombo, e os três empreendem a tal viagem. De vez em quando, o burro olhava a mulher, que se apresentava em adiantado estado de gravidez, e pensava que ela não ia aguentar muito tempo a caminhada. Em breve teria que a carregar.  Temia não ter forças para isso.
A meio do dia, fizeram uma pausa.  Tiraram-lhe a carga e deixaram-no livre, para que pastasse algumas ervas que por ali espreitavam entre o gelo do inverno, enquanto o casal se sentava sobre um pedaço de rocha e comia alguma coisa. 
Pouco tempo depois, o homem pegou o burro pela arreata e levou-o até junto da mulher que se mostrava visivelmente cansada. O burro percebeu que tinha chegado o momento tão temido. E se ele não fosse capaz de levar a mulher? Que seria do casal, perdido no descampado ermo, em pleno inverno?
O homem ajudou a mulher a montar e pegando na carga até aí transportada pelo burro colocou-a às costas e os três recomeçaram a viagem.
Mal retomaram a marcha, o velho burro abriu ainda mais os seus grandes olhos, espantado. Que milagre era aquele? Porque não sentia qualquer peso no lombo?  Será que a pobre mulher tinha caído? No seu estado? Virou a cabeça, para constatar que ela seguia bem sentada no seu lombo.
Então porque ele não sentia qualquer peso? Seguia sem esforço, caminhando melhor que nos anos da sua juventude. E assim seguiram os três até que à noitinha chegaram à cidade. O burro reconhecia aquela cidade. Várias vezes lá fora com o antigo dono. Até já ficara num estábulo numa daquelas ruas, uma vez que o dono pernoitara na cidade. Por isso, quando depois de percorrerem várias estalagens, não encontraram lugar para pernoitar, e o casal já desanimava,  o burro, ansioso por mostrar a sua gratidão ao casal, tomou o rumo do estábulo que ele conhecia bem.

Maria Elvira Carvalho

Feliz Natal para vós. O meu este ano está cheio de tristeza.Há dois meses perdi o cunhado e hoje partiu a irmã dele, que  não sendo familiar direta é amiga de há mais de 50 anos

20.9.15

A HISTÓRIA DE UM PAR DE BOTAS... DO ESTADO. PARTE VII


                                              foto da net

 Ao mesmo tempo que mandava um vigia avisar a mulher do Manuel, o Capitão telefonou para o posto no Barreiro, para saber do que era acusado, um homem que levava a vida a trabalhar, e não se metia em escaramuças nem políticas. Foi então informado, de que a ordem viera de Lisboa, com a acusação de que Manuel era um desertor.
 Parece que à época, os mancebos aptos para a tropa, não ficavam livres depois de ela acabar, mas passavam a uma situação de reserva que só terminava aos 45 anos. Manuel fizera 44 em Abril. Ora todos os anos, eram vistos os processos, de todos os homens que cumpriram tropa e estavam nessa idade. E encontraram a caderneta militar do Manuel, que lhe devia ter sido entregue quando da passagem à reserva. Daí a investigarem o tempo de tropa dele foi um passo. E logo descobriram a deserção. E em consequência disso, Manuel estava agora preso e ia ser mandado para Lisboa. Precisamente para o quartel de Caçadores 5 em Campolide, de onde tinha desertado em 1941.
Uma vez no quartel, foi-lhe dito que teria de cumprir os quase dois anos de tropa que lhe faltavam quando desertou. Como porém em Abril de 63, faria 45 anos, e passava à reserva, ficaria na tropa até essa data.
Dá para imaginar o sofrimento do Manuel? Os jovens militares, gozavam com ele, mal acabava a formatura. Não estava em prisão no quartel. Estava na tropa, embora sem licença de saída.
Recebia a visita da mulher no quartel, e mortificava-se com a situação da família, agora sem o seu ordenado, que era o único na casa até à próxima safra, e ainda obrigada a gastar dinheiro em viagens para as visitas. Chorava todos os dias. E tudo por causa de umas malfadadas botas da tropa, que não pudera pagar ao estado.
Trabalhador humilde, sempre pronto a qualquer trabalho, mesmo que nada tivesse a ver com o armazém da lenha, alegre e bem-disposto, apesar de todas as dificuldades, o Manuel granjeara a simpatia, não só de todos na Seca, como do próprio patrão, que já por algumas vezes tinha requisitado o Manuel para tratar do jardim de sua residência.
Boa pessoa, sabendo reconhecer os méritos do Manuel, o patrão deu ordem ao gerente da Seca, o Capitão Aníbal, para manter o ordenado do Manuel enquanto ele estivesse ausente. Não satisfeito com isso, o patrão, usou de toda a sua influência, (e se era influente a família Bensaúde) para retirar o Manuel daquela agonia. E foi por isso que ele, voltou à liberdade no início de Setembro, bem a tempo de dar um beijo à filha no dia dos seus 15 anos.

FIM


Nota: 

Como disse no primeiro episódio, esta história é real.
O Manuel foi o meu pai, e a menina que nasceu depois duma noite de trovoada, sou eu. Tudo o que escrevi sobre a Seca é  (era) real. A Seca foi desactivada em 30 de Dezembro de 1999. Hoje mantém-se aberta apenas para visitas de estudo. Parte do complexo, foi declarado património histórico. Para o restante foi projectado um condomínio de luxo, com campos de ténis, cavalariças e outras "coisitas" que fariam dele único na zona. Prestes a ser aprovado, eis que o projecto da nova ponte Barreiro Seixal, cai precisamente neste local. O condomínio ficou sem efeito, e por causa da crise, a ponte Barreiro Seixal, ficou em "águas de bacalhau".  A antiga Seca, mantém-se aberta apenas a visitas de estudo. 



15.9.15

A HISTÓRIA DE UM PAR DE BOTAS... DO ESTADO. PARTE VI



                                               foto minha.

Em 62 Manuel continuava a viver no velho barracão de madeira, assente em pilares de cimento, junto ao rio Coina, Era, o lenhador da Seca, o homem que transformava os grossos troncos de azinheira, trazidos do Alentejo, em cavacos, que alimentavam os grandes fogões das maltas dos homens e mulheres. Pois o Manuel, não só cortava e rachava a lenha, como a transportava num carrinho de mão para estes locais, e também para a casa do Capitão, o gerente da Seca, e para as casas dos residentes fixos no local, os empregados de escritório, os electricistas, os vigias e o posto de Guarda Fiscal, que asseguravam o bom funcionamento da Seca durante todo o ano. Manuel era um homem magro, de baixa estatura, mas de uma força extraordinária.
 Causava espanto, a agilidade com que ele manejava uma marreta de 16 quilos, por ele, baptizada de segunda-feira. A mulher do Manuel, era simultaneamente porteira,e trabalhadora da Seca,  já que era ela quem abria o portão, para o pessoal que vindo do Barreiro, encurtava caminho, passando pela caldeira do Alemão, e seguindo junto ao rio, até ao portão de entrada na Seca, que lhe ficava à porta. Quando passavam as últimas pessoas, fechava o portão à chave, e seguia com elas para o trabalho de lavar, salgar, banhar, estender ou enfardar o bacalhau. À tarde saía um pouco mais cedo para ir abrir o portão, por onde o pessoal passava de regresso a casa. Cabia-lhe ainda, a ingrata tarefa de revistar os cabazes que o pessoal trouxera com o almoço, não fora alguém esconder nele algum bacalhau. Na Seca havia outro portão, que servia para os trabalhadores que moravam na Telha, ou vinham de Palhais, ou Santo António. Era a entrada principal por onde passavam os carros.



                                              foto minha

O casal tinha três filhos com pequena diferença de idade e ainda criava um dos irmãos mais novos da mulher que tinha quase a idade da sobrinha mais velha. Dos finais de Março a Setembro, com a inactividade da Seca, a mulher do Manuel não tinha trabalho, e o ordenado dele, não dava para sustentar seis bocas. O pequeno terreno que desbravara ao mato, ajudava com os legumes, e a mercearia ele mandava pôr no rol, que pagava religiosamente quando a próxima safra começava, agora já com a ajuda da filha mais velha, e do cunhado, que já trabalhavam na safra. Estávamos em Maio, num daqueles dias quentes, que mais parecem de Julho, quando à Seca, chegaram dois polícias numa carrinha, em busca do Manuel. Ele estava no trabalho, no armazém da lenha, e lá chegados os polícias deram-lhe voz de prisão, e levaram-no sem sequer poder avisar a família. Entrar algemado na carrinha, foi para o Manuel uma vergonha e dor tão grande, que ele pensou não resistir.

13.9.15

A HISTÓRIA DE UM PAR DE BOTAS BOTAS... DO ESTADO. PARTE V


Mulheres a estenderem bacalhau na Seca da Azinheira. O edifício do lado direito, é a malta dos homens. Foto de Eduardo Martins.



O casarão, como ele lhe chamava, era um enorme barracão assente em pilares de cimento, com 1m de altura, para que a água passasse por baixo nas tempestades de Inverno, ou nas marés vivas de Agosto, pois ficava bem na margem do rio Coina, junto ao portão de acesso à Seca, pelo pessoal do Barreiro, que para encurtar caminho, vinham pela trilha da Caldeira do Alemão. Tinha quatro grandes quartos com portas e chave, mas apenas um tinha janela para o exterior. E um salão de 11 m de comprimento por 4 m de largura. Contrariamente aos quartos, este salão não tinha nenhum forro por baixo do telhado, pelo que não raras vezes pingava lá dentro quando chovia. Na frente duas enormes janelas para o exterior. Viradas para a Seca, cercada a toda a volta por arame farpado. A meio do salão uma grande mesa comprida, e de cada lado um banco corrido de madeira. A mesa era utilizada pelos quatro casais. A um canto do salão, sobre uma base de cimento, dois tijolos, com uma grelha de ferro em cima servia de fogão. A luz era fornecida pelos candeeiros a petróleo, e a água, as mulheres iam  buscá-la ao chafariz da Telha, em bilhas de barro, que transportavam à cabeça, sobre uma rodilha, ou sogra. Entre o barracão e o chafariz uns quinhentos metros bem medidos. 



                                      Candeeiro a petróleo
                                           

Os casais davam-se bem, eram colegas e amigos, gente da mesma terra, que migrara para ali, em busca de trabalho e uma vida melhor. Todos eram vigias, excepto o Manuel que era lenhador, por isso tinham trabalho todo o ano.
A primeira obra do Manuel no casarão, foi a construção de um forno, junto ao fogão, para que as mulheres pudessem cozer pão.
Se por um lado não havia grande privacidade, por outro havia sempre uma mulher disponível para cuidar dos miúdos, dois rapazes do Aires, um casal do António, mais um rapaz do Carlos, e a menina do Manuel. Em Setembro, regressam os bacalhoeiros e recomeça a labuta de mais de 400 pessoas, que na Seca, descarregam o bacalhau e iniciam todo o processo de cura que expliquei noutro conto. É a  festa do reencontro, entre os que partiram para a aldeia, e os que ficaram.
Pouco tempo depois, o António muda-se com a mulher e os filhos para uma casa na Telha. Mais longe do trabalho, mas mais perto da mercearia, da escola, da padaria… E melhor que isso, com electricidade em casa e o chafariz à porta. No Barracão ficou um quarto vago que foi ocupado pelos dois filhos do Aires. No verão, seguinte, o Carlos muda-se com a família para a seca de Alcochete, onde tinha irmãos a trabalhar, e pouco depois, o Aires, muda-se para uma das casas existentes na seca. No “casarão” ficavam agora apenas o Manuel e sua família.


11.9.15

A HISTÓRIA DE UM PAR DE BOTAS... DO ESTADO. PARTE IV


                                                foto minha

                                                      IV

O nosso Manuel foi falar com o Capitão, gerente da Seca, para tentar resolver o seu problema. Como ele trabalhava o ano inteiro e a mulher estava prenhe, ele queria uma casa para viver com ela. O pior é que as casas estavam todas habitadas. Só estava vaga a barraca do Pinheiro Manso.
Ele e a mulher não se importavam de ir viver para lá se o gerente autorizasse. E ele autorizou.
No fim de Março, eles mudaram-se para essa “casa”. Era uma barraca de madeira, com uma espécie de sala, com uma bancada,num canto, e dois quartos. Não tinha electricidade, não tinha água, mas tinha o telhado forrado, o que a tornava mais confortável no Inverno.
Manuel era um homem muito habilidoso. Com uma fita métrica, um martelo, escopro e polaina, cola, que ele fazia, misturando farinha com água, pregos e madeira, ele era capaz de fazer maravilhas. Mas onde ir arranjar a madeira?
Todos os anos, quando os navios chegavam, os botes eram trazidos para terra, para que fossem reparados. Eram trocadas as tábuas que estavam em mau estado, substituídas por novas, e calafetados, para que não apresentassem perigo quando voltassem ao mar. À porta da oficina, amontoavam-se as tábuas velhas, e pequenos pedaços de novas. Manuel conseguiu autorização para utilizar essas tábuas, e com elas fez um armário, para a loiça, uma arca para guardar as roupas, o berço para o filho que estava a caminho, e uma mesa. No ferro velho comprou uma cama e duas cadeiras de ferro, que lixou e  pintou de novo. Comprou ainda um fogão, a petróleo, e o resultado foi  que a casita estava “mobilada”, e pronta a habitar.



                  Fogão a petróleo, mais ou menos igual ao do Manuel
                                                     foto da net


O filho do Manuel chegaria no final de Setembro. Porém no início desse mês, uma daquelas tempestades de Verão, abateu-se sobre a seca.
Na noite do dia dois para três, a trovoada rugia estrondosa como se estivesse por cima das suas cabeças. Ele abraçava a mulher que tremia de medo, e tentava esconder dela o seu próprio pavor, quando um enorme relâmpago fez da noite, dia, e o trovão os ensurdeceu. A mulher, aterrorizada de medo, sentia a criança “aos saltos” e ambos sentiram o cheiro a queimado. Pouco depois a trovoada afastou-se mas eles não mais dormiram. A mulher começou com contracções antes de tempo. Talvez por causa do medo, o certo é que a criança se aprestava para vir ao mundo. Quando pelas sete da manhã, Manuel abriu a porta da “casa” encontrou na sua frente, metade do pinheiro caído, cortado, de alto-a-baixo, pelo raio que o ferira. Tremendo, a pensar no perigo que correram, ele chamou a mulher. Ela no entanto não se levantou e apenas lhe pediu que fosse chamar a parteira. Às 11,20 desse dia, a mulher do Manuel dava à luz, o primeiro dos três filhos, que viria a ter, antes de uma infecção, pós parto que quase a matou e a deixou impossibilitada de ter mais filhos.
No final desse ano, o gerente disse ao Manuel, que ia precisar da barraquita, para a nova porteira. Disse-lhe ainda que ele teria que mudar para o barracão junto ao rio, onde já viviam três casais. Porém o barracão era grande, tinha um quarto vago, e ele e a família podia usufruir dele.

                                               

9.9.15

A HISTÓRIA DE UM PAR DE BOTAS BOTAS... DO ESTADO. PARTE III


O Manuel e sua esposa no dia do casamento.





 Para ir ver a jovem, Manuel tinha que atravessar o rio e na Seca havia sempre um bote e um par de remos disponíveis para o fazer. Mas às vezes o mau tempo fazia perigar as visitas. Como naquele dia, 20 de Janeiro de 1946, noite de chuva forte, e ventos intensos, em que ao regressar com o Aires, que também tinha ido ver a namorada, perderam os remos, e Manuel mergulhou várias vezes, perante o terror do amigo, até os conseguir apanhar e regressarem assim com dificuldade, mas sãos e salvos. O casamento fora marcado para Novembro, e embora faltasse pouco tempo, a Manuel parecia que ele tinha parado. O barquito e os remos, não descansavam um só dia, da travessia entre a Seca da Azinheira e a Seca do Seixal. A par da sua ansiedade, reinava o medo. Manuel tinha que tirar os documentos para se casar, e como era desertor, pensava que podia ser preso em qualquer altura.
Mas os documentos vieram sem problemas e o jovem aquietou o seu coração. 
Finalmente, Novembro chegou, e com ele o tão ansiado dia do casamento. A 9 de Novembro, na Igreja de Santa Cruz, no Barreiro, o Padre Abílio Mendes, casava o Manuel com a sua amada Gravelina.
A partir desse dia, a mulher passou a trabalhar na Seca da Azinheira, e o bote e os remos foram dispensados.
Sem casa, nem dinheiro para a pagar, Manuel vivia na malta dos homens e a mulher na malta das mulheres.



                                           foto minha


A malta, era um enorme edifício que existia na seca, para o pessoal que todos os anos, era recrutado nas aldeias do norte para a safra de bacalhau, que decorria entre Setembro e finais de Março, princípios de Abril. Este pessoal, mesmo sendo constituído muitas vezes, por marido e mulher, não podia, segundo a mentalidade de outrora, viver junto durante todo o tempo da safra. Logo, na seca existiam duas maltas, uma para os homens e outra para as mulheres. As regras eram claras, os casais, podiam fazer as refeições juntos, num ou noutro local, mas antes das onze horas da noite, teriam que estar nas suas respectivas maltas, sob pena de o vigia encerrar as portas e terem que dormir ao relento.
Para dar asas à paixão, os casais procuravam um pinhal que havia na seca, situado numa ribanceira, que criava zonas ocultas aos olhares de quem por ele passava, ou o canavial, que ladeava a vedação da seca, até à Telha.
 Usavam um nome de código que era: "Aviar a caderneta" Consta, que a pessoa que vos está a contar esta história, é filha de um "aviamento de caderneta". Em 47, com o aproximar do final da safra, e com a mulher grávida, Manuel deita contas à vida, sem saber como evitar a ida da mulher para casa da sogra, na Beira Alta.
Quer-a junto de si, mas de Março a Setembro a Seca, não tem trabalho a não ser para os que trabalham na sua manutenção. Logo a mulher não poderá ficar na malta das mulheres, e o que ele ganha, não dá para alugar uma casa.

                                               

4.9.15

A HISTÓRIA DE UM PAR DE BOTAS... DO ESTADO. PARTE II




                                            foto minha.



                                                   II


 Na Azinheira Velha, um local cheio de história, pois lá esteve sediada uma importante  base naval portuguesa, antes e depois dos descobrimentos. O local situado na feitoria da Telha, era abrigado, estava afastado da base naval da Ribeira das Naus, embora funcionasse como complemento desta, mas suficientemente afastado, dos olhares dos espiões de outros países. Acresce a isto o facto da abundante madeira de qualidade, nos arredores, dos sapais do Coina, onde essa madeira era enterrada, num processo de preparação, para a construção das caravelas e de pertencer à vila de Alhos Vedros, onde se refugiou D. João I, depois da morte da rainha, D. Filipa de Lencastre, vítima da Peste Negra que assolava a capital.
Era portanto na Azinheira Velha, que as naus seriam construídas entre o Outono e a Primavera, chegando nesta à Ribeira das naus para acabamento. Ou vice-versa, já que segundo a história, foi na Telha, no séc. XVI, na extinta Igreja de Stº André, que D. Manuel I terá assistido ao lançamento ao Tejo da Armada de Vasco da Gama. Atingida pelo terramoto de 1755 a feitoria foi destruída. Foi pois neste local cheio de história, que em 1891 a família Bensaúde, instalou a Parceria Geral de Pescarias, dedicada à pesca do bacalhau. A tão famosa Seca de Bacalhau, de que tanta vez falo nas minhas histórias.
Em 46, Manuel apaixona-se por uma das irmãs de um grande amigo, o Varandas, homem do norte como ele.
 Certo dia, logo no início do ano, o Varandas convidou o Manuel para ir com ele ao Seixal, onde ele ia visitar a irmã a trabalhar na seca. Para Manuel foi amor à primeira vista, pois ficou perdidamente apaixonado, mal viu a jovem. Ela porém não ficou muito interessada. Primeiro, porque Manuel tinha mais oito anos do que ela, segundo porque ele tinha fama de ser mulherengo, de não se prender a ninguém, e de gastar tudo o que ganhava, com “as meninas” em Lisboa.
Por pressão do irmão, mais velho, que ela respeitava, mais do que por amor, acabou por lhe aceitar namoro. Manuel estava perdidamente apaixonado. Tinha esquecido as idas a Lisboa, e tudo o que isso implicava. Todos os seus tempos livres serviam ao Manuel para ir ver a amada.
Na verdade a Seca da Azinheira, era conhecida por este nome, embora o seu verdadeiro nome, fosse Parceria Geral de Pescarias, e a Sociedade Lisbonense de Pesca de Bacalhau, conhecida por Seca do Picado, situada na Ponta dos Corvos, ficavam em frente uma da outra, apenas separadas pelo rio Coina.




                                  Antiga Seca do Seixal. 
                                  Foto de Hugo Gaito




O meu muito obrigado a todos que ontem contribuíram para que o meu dia fosse mais feliz. Bem Hajam
 






31.8.15

A HISTÓRIA DE UM PAR DE BOTAS... DO ESTADO.


Ao lado da Igreja, o antigo colégio jesuíta, mais tarde transformado no quartel de B.C.5, e que hoje é ocupado pela Universidade Nova de Lisboa.
Foto  da net.





Aviso aos amigos: Por muito absurda que pareça esta história, é absolutamente real.


                                                        Primeira Parte

No início de 41, Manuel era um jovem de 23 anos e estava prestes a terminar a tropa, e passar à reserva, no Batalhão de Caçadores 5 em Campolide. Nessa altura porém, uma certa manhã, ao levantar-se, deu por falta das botas. Quando ele viera para a tropa, o Sr. Américo, tinha-lhe dito “Manuel, tem cuidado com as tuas coisas no quartel. Anda por lá, filho de muita mãe e de vez em quando, algumas coisas desaparecem. Se te faltar alguma coisa, não te queixes, tira essa mesma coisa a quem te ficar mais perto. Ele tirará a outro e no fim, tudo estará certo”.
Ele ouviu mas nunca lhe tinha faltado nada e aos poucos foi deixando de se preocupar. Naquele dia porém, não tinha botas para a formatura e como tinha acordara depois dos outros, já não podia tirar as botas de ninguém. A dois dias de sair tropa, Manuel, teve que participar a “perda” das botas. E tinha que pagar umas botas novas ao exército.
Como porém ele não tinha dinheiro para pagar as botas, e havia falta de mancebos nos quartéis, por via do “sangramento” para os Açores e Cabo Verde, foi-lhe proposto que ele poderia pagar a dívida ao estado com mais dois anos de tropa, voluntária. Sem outra alternativa, Manuel aceitou.
Meses depois, em Junho, num dia de licença, o Manuel, saiu e depois de várias voltas pela cidade, pensou que estava farto da vida da tropa, e que não estava para continuar mais tempo no quartel.

Decidido, mas sem dinheiro para o comboio, resolveu seguir a pé para a terra. Não seria uma viagem rápida, mas também não tinha pressa. Lá era certamente o primeiro sítio onde iriam procurá-lo. E foi andando, ficando um dia ou dois nas quintas que lhe apareciam no caminho. O trabalho do campo não tinha segredos para ele, e assim ganhava algum dinheiro, além de encher a barriga. E foi deste modo que nos primeiros dias de Agosto chegou à sua aldeia, Carvalhais, no concelho de S. Pedro do Sul. Se a mãe ficou surpresa, porque pensava que o filho estava no quartel, Manuel não ficou menos surpreso ao saber que ninguém o tinha ido procurar. Ele não sabia, que na confusão reinante do período de guerra que se vivia, ninguém dera pela sua falta. E quando o capataz da seca, chegou à aldeia para o engajamento de pessoal para a próxima safra, Manuel integrou-se no grupo.

27.8.15

SER HONESTO É CRIME?





A história que vou contar, passou-se numa pequena aldeia, do concelho de S. Pedro do Sul, nos gloriosos e loucos anos 20. Numa pequena casa tipicamente beirã, daquelas de granito que ficavam por cima da “loja” onde (quem os tinha ) guardava os animais, e os mais pobres guardavam apenas os utensílios de trabalho na terra,  a caruma, e a lenha para o fogo, viviam a Maria e o Manuel, mais os seus cinco filhos. A casa era composta por uma ampla entrada, onde num canto havia uma chaminé, e um pequeno forno de lenha onde a Maria cozia o pão. Não havia fogão, a refeição era cozinhada numa panela de ferro, com três pés que assentava directamente em cima da fogueira, que se acendia ao lado do forno, sobre uma placa metálica, assente em cima das pedras, que formavam o chão. Completava a decoração, uma comprida mesa de madeira e dois bancos corridos, que serviam na hora das refeições.
Além desta “sala”, a casa tinha mais dois quartos. Num dormia o casal, com o filho mais novo, no outro, os quatro filhos mais velhos. Nos quartos, mantas de trapo, sobre enxergas de palha de centeio, serviam de cama, na hora de descansar o corpo. Manuel, o marido trabalhava no campo quando havia trabalho, e quando não batia as portas das redondezas à procura de ferro-velho que depois vendia na Feira Velha, uma feira mensal que se fazia em S. Pedro a cerca de 9 km que o Manuel fazia com o seu burrico que ele baptizou com o nome de Tem Dias. Isto porque segundo ele o burro tinha dias em que era obediente à voz do dono e outros em que empancava e não se mexia por mais que recebesse ordem em contrário. Naquele longínquo ano de 1927 Maria estava de novo grávida. Estávamos no início de Setembro, Manuel não tinha trabalho, e nada havia para comer naquela casa. E se o filho mais velho com 9 anos, já estava a "servir" em Lourosa e já não dava cuidados os outros 4 tinham fome.  Maria pensou que tinha que arranjar comida para os filhos. O marido só chegaria à noite e quem sabe se traria ou não alguma coisa para comerem.  Deitou o bebé numa canastra que pôs à cabeça, pegou no outro pequeno ao colo, e seguida dos outros dois foi em busca de comida. Batia à porta das casas mais abastadas e oferecia algum trabalho em troca de comida para as crianças. Não pedia esmola, tinha vergonha. Mas as pessoas tinham pena das crianças e sempre lhe davam alguma coisa. Naquele dia, numa dobra do caminho deparou com uma carteira. Era uma bela carteira de pele com iniciais gravadas a ouro. A tremer Maria abriu a carteira e viu umas quantas notas. Cada vez mais assustada tirou-as da carteira mirou-as e viu que era 1 nota de mil escudos, 2 notas de 500 escudos 1  de 100, 3 de 50, e 5 de 10.
Uma verdadeira fortuna. Ao metê-las de novo na carteira qualquer coisa caíu no chão e Maria viu que era uma fotografia. Reconheceu o homem. Um doutor de uma aldeia vizinha, homem rico e influente com negócios em Lisboa e Porto. Maria pegou na carteira e foi a casa do tal  doutor. Lá chegada, puxou o sino do portão da herdade e uma "criada"  - naquele tempo chamavam-se assim, veio à porta. Maria disse que tinha achado a carteira e vinha entregá-la. A criada pegou na carteira e foi para dentro. Maria ficou à espera que ela voltasse. Quem sabe lhe daria alguma comida para as crianças. Um palácio daqueles devia ter mesa farta. Porém o tempo foi passando e a criada não voltava. Impaciente e cansada com o peso dos filhos e da barriga, a mulher puxou de novo a sineta do portão. E então a "criada" voltou.
-Entregou a carteira ao seu patrão? Perguntou Maria
- Entreguei - respondeu ela
- E o que ele disse?
-Guardou-a e não disse nada.
-  Por favor diga que eu estou aqui, que tenho as crianças com fome, se me pode dar alguma coisa para elas comerem.
-Espere um pouco que eu vou dizer-lhe.
A mulher virou costas e voltou pouco depois com uma corda.  Com lágrimas nos olhos estendeu-a a Maria dizendo.
- Eu fui falar com o Sr. Dr. e ele disse que era para eu lhe trazer esta corda. E quando eu perguntei o que lhe ia dizer, ele mandou que se enforcasse, porque uma pessoa que tem os filhos com fome, encontra uma fortuna e vai entregá-la, não merece viver. Desculpe, dói-me tanto, mas foi o que ele me disse.
Maria engoli-o as lágrimas, pegou os miúdos e virou costas pensando: 
-Que raio de País é este, onde ser honesto merece pena de morte?


20.12.12

UMA HISTÓRIA DE OUTROS NATAIS


Re-edição
 foto do presépio da Santa Casa da Misericórdia do Barreiro





Aproveito para agradecer ao J. R. Viviani do blogue "Vendedor de Sonhos" que organizou o
 1º  Contos e Prosas
um evento para divulgação de autores no qual tive a honra de participar com um conto sobre violência doméstica que alguns de vós já conheceis. 
A quem quiser e puder passar por lá é só clicar aqui
 

5.11.12

MANUEL OU A SOMBRA DE UM POVO - PARTE XLIX



Construção do Muro de Berlim
Foto do Google



 A proclamação da República Democrática Socialista de Cuba acontece nesse 1º de Maio de 1961. E três dias depois houve nova remodelação do governo português.
Dias depois o astronauta americano, A. B. Shepard efectua o primeiro voo espacial do seu país.
Em meados de Maio foi tornado público um programa comum da oposição elaborado sob a inspiração de Jaime Cortesão e Mário de Azevedo Gomes, para a democratização da República. Da equipa que elaborou o programa faziam parte Mário Soares, José Ribeiro Santos, Fernando Piteira Santos, Ramos Costa, Acácio Gouveia e Rui Cabeçadas entre outros. Na sequência da divulgação do programa, Acácio Gouveia, Mário Soares e Gustavo Soromenho são presos.
O troço da auto-estrada entre Lisboa e Vila Franca foi inaugurado a 28 desse mês. E no mesmo dia rebenta uma bomba na Estação do Cais do Sodré.
 No dia 30, o Benfica sagrou-se Campeão Europeu de Futebol, batendo na final em Berna, o Barcelona por 3-2. O Manuel não gosta do Benfica. Ele é portista desde menino. Mas quando o Benfica ia jogar no estrangeiro, ele torcia pelo Benfica. Costumava dizer que acima dos clubes estava o país e ele apoiaria sempre uma equipa portuguesa ainda que fosse o Cascalheira.
E se o mês começou com a proclamação da República de Cuba termina com a Implantação da República da África do Sul
A nível internacional o facto mais importante do mês de Junho foi a Cimeira de Viena entre os presidentes Khruchtchev e Kennedy a 3 e 4.
Por cá Venâncio Deslandes é nomeado Governador-geral de Angola e Comandante-chefe.
Em Espanha surge a Union de Fuerzas Democráticas, com o PSOE, PNV, e a Izquierda Demócrata Cristiana.
A 22 mais uma remodelação governamental.
No final do mês Salazar discursa em reunião extraordinária da Assembleia Nacional.
No Barracão Manuel está muito contente. Os dois filhos mais novos foram muito bem na escola. O catraio fez o exame da 4ª classe com distinção. Tinha onze anos e conseguira recuperar os anos perdidos no inicio por causa da fala. E a miúda a tirar o Curso Comercial na Escola Alfredo da Silva passara com altas notas.
Por outro lado a mais velha, faria em Setembro 14 anos e já poderia ir trabalhar para a Seca na próxima safra. Era uma ajuda. Depois a gaiata metera na cabeça que logo que fosse trabalhar para a Seca, se matricularia na mesma escola onde a irmã estudava para tirar um curso noturno.
Claro que ele não se importava com isso, até gostava que a gaiata estudasse. Afinal quem a queria ver feliz era a ler ou a escrever. E o diacho da cachopa escrevia coisas que ele até ficava a imaginar onde teria ido ela ido buscar aquilo.
O pior é que ele não acreditava que ela aguentasse. Ele sabia bem como era pesado o trabalho na Seca até para um adulto quanto mais para uma miúda. Depois o trabalho começava às 8 da manhã e terminava às 18 horas. Não dava tempo de acender o lume, aquecer a água para o banho, lavar-se e vestir-se, e ir até à Telha apanhar o autocarro para chegar à escola às 19 horas. Mas ele não queria cortar os sonhos à miúda. E até já tinha dito à mulher que estava disposto a fazer pela filha a última hora de serviço se o patrão aceitasse. Afinal de contas ele largava o trabalho às 17. O miúdo não iria estudar. Se por um lado ele não ganhava o suficiente para o pôr a estudar, por outro o miúdo também não mostrava qualquer interesse pelos estudos. Também não podia ir trabalhar. Ainda não tinha idade para isso.
Em Julho o Senegal e a Indonésia cortam relações com Portugal.
 É assinado acordo de associação entre a CEE e a Grécia.
No primeiro dia de Agosto o pequeno enclave português do forte de S. João Batista de Ajudá, situado na República do Daomé, é atacado e invadido. O representante português incendeia as instalações antes da retirada. 
No dia 4 desse mês de Agosto, nasce aquele que muitos anos mais tarde irá fazer história, ao ser eleito o primeiro presidente negro da história dos Estados Unidos da América.
Por esses dias o PAIGC solidariza-se com o MPLA e proclama a passagem à ação direta. Por essa altura a Dinamarca e o Reino Unido pedem adesão à CEE.
É também nessa altura que nasce o Movimento Nacional Feminino. Movimento de apoio ao esforço de guerra levado a cabo pelo Estado Novo. Os estatutos são aprovados ministerialmente neste dia. Célebre pela instituição dos modelos das madrinhas de guerra e dos aerogramas.
Nesse mesmo mês, na noite de 12 para 13 é erguida uma barreira de arame farpado em Berlim, separando as zonas leste e oeste. Dias depois, mais concretamente a 17 começa a construção do Muro de Berlim.
O governo sueco hesita em aderir ao Mercado Comum, invocando a política de neutralidade sueca.
No dia 25 Jânio Quadros renuncia à Presidência do Brasil, sendo substituído pelo Vice-Presidente João Goulart do PTB. O congresso brasileiro regressa ao parlamentarismo. E o mês chega ao fim com o regresso da URSS às experiências nucleares na atmosfera.