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16.6.16

MANEL DA LENHA - PARTE LXXXIX


                                            Um dos cartazes eleitorais de 1986

Desta vez a recidiva foi mais leve, a Gravelina não chegou a ficar em coma. É medicada, e fica em observação durante 72 horas, findas as quais lhe dão alta. Segundo os médicos terá sido mais a aflição e a emoção do que via na TV, do desastre, que a fez piorar e não propriamente uma recidiva do AVC. É-lhe mudado o anticoagulante e corrigida a medicação e é dada à filha a recomendação de que ela não deve ver certos programas, que a emocionem, ou a enervem. 
Dado o carácter forte dela, e a sua teimosia, será difícil evitá-lo, mas a família tem que tentar.
Em Outubro há eleições que o PSD ganha com maioria relativa, dando origem ao X governo constitucional, liderado por Cavaco Silva, que toma posse a 6 de Novembro. E nas autárquicas de Dezembro, o PSD reforça a sua liderança do país, agora também a nível local, nas autárquicas.
No Natal, o Manuel juntou na sua ceia, não só filhos e netos, como  a cunhada. Nesta altura a Gravelina, já consegue controlar o corpo e manter-se sentada. Também já consegue comer pela sua própria mão, mas não vai à mesa. Não controla ainda o maxilar, por vezes deixa cair a comida na roupa e tem vergonha de comer junto da família. Não há quem a demova. Ela come na sala, num carrinho mesa que o filho lhe fez, para ela comer mais confortável sentada na cama ou no sofá. Para lhe fazer companhia, o marido decide comer com ela na sala.
Dias depois, no início de 86, Portugal e Espanha entram para a Comunidade Europeia. 
Quase no final do mês houve eleições Presidenciais, que pela primeira vez na história recente da democracia, obrigaram a uma segunda  volta. Excluídos Salgado Zenha, e Maria de Lurdes Pintassilgo, o embate final é entre Mário Soares e Freitas do Amaral. 
A segunda volta, será marcada para 16 de Fevereiro,  e Freitas do Amaral leva uma grande vantagem sobre Mário Soares que nas sondagens não ultrapassa os 8% das intenções de voto.  Porém durante a campanha, Mário Soares é agredido na Marinha Grande, e isso criou uma tal indignação ao país que mudou o rumo da história.
Em casa do Manuel, a mulher começa a controlar a urina e pode assim largar as fraldas. Porém ela ainda não consegue andar, é na cadeira de rodas que vai para a sala, ou para a casa de banho, e não o consegue fazer sozinha. A filha compra um bacio alto, mas ela não tem estabilidade para o usar e o mais certo será cair.  Engenhoso como sempre foi, Manuel pega numa cadeira de madeira antiga, pesada e estável, arranca-lhe o assento, colocando-lhe no lugar, uma tampa de de assento sanitário, ficando a parte de baixo, tipo caixa, onde encaixou o bacio. Com esta cadeira ao lado da cama, a Gravelina podia largar as fraldas, o que era muito bom não só para a pele, como para o orçamento da casa, já que as fraldas representavam um gasto considerável. 
Para que ela não corresse o risco de cair, o filho fez uma barra de ferro que colocou ao pé da cama, a fim de que com o braço direito ela compensasse nesse apoio a força e o movimento que não tinha na perna esquerda.

2.10.15

REFLECTINDO



No último dia de campanha eleitoral, apetece-me falar de eleições. Não, não venho falar de partidos políticos, nem daquilo que este ou aquele candidato representa. Vivemos todos no mesmo país, sabemos bem como vivemos, e eu não vou passar atestado de burrice a ninguém, que esse é o papel dos políticos, não o meu. Venho falar-vos de que nunca em campanha alguma, eu ouvi tantos amigos e vizinhos dizerem que não vou votar. Espero que não seja o vosso caso, família e amigos. Queria só deixar aqui o mesmo que sempre digo a quem me diz que não vai votar.
A democracia não se fez só para exigirmos os nossos direitos. Ela também tem direitos, que são simultaneamente deveres. Um deles é o dever de irmos às urnas, porque só exercendo-o temos o direito de escolha, e o direito de apoiar ou reclamar de quem no futuro exerce o cargo.
Quando os militares de Abril fizeram a revolução, eles queriam essencialmente duas coisas. O fim da guerra nas colónias, e o sagrado direito de o povo se expressar e escolher quem iria representar no governo os seus direitos.
É uma falta de respeito enorme por quem lutou para nos dar esse direito a abstenção.
Se precisamos de um médico, de um advogado, de um engenheiro, escolhemos um e vamos lá falar com ele. Então se precisamos de um governo ou presidente, porque nos abstemos de ir lá?
O voto é a voz do povo. Algum de vós quer ser mudo? Eu não.

Desejo-vos um bom fim de semana