20.9.15

A HISTÓRIA DE UM PAR DE BOTAS... DO ESTADO. PARTE VII


                                              foto da net

 Ao mesmo tempo que mandava um vigia avisar a mulher do Manuel, o Capitão telefonou para o posto no Barreiro, para saber do que era acusado, um homem que levava a vida a trabalhar, e não se metia em escaramuças nem políticas. Foi então informado, de que a ordem viera de Lisboa, com a acusação de que Manuel era um desertor.
 Parece que à época, os mancebos aptos para a tropa, não ficavam livres depois de ela acabar, mas passavam a uma situação de reserva que só terminava aos 45 anos. Manuel fizera 44 em Abril. Ora todos os anos, eram vistos os processos, de todos os homens que cumpriram tropa e estavam nessa idade. E encontraram a caderneta militar do Manuel, que lhe devia ter sido entregue quando da passagem à reserva. Daí a investigarem o tempo de tropa dele foi um passo. E logo descobriram a deserção. E em consequência disso, Manuel estava agora preso e ia ser mandado para Lisboa. Precisamente para o quartel de Caçadores 5 em Campolide, de onde tinha desertado em 1941.
Uma vez no quartel, foi-lhe dito que teria de cumprir os quase dois anos de tropa que lhe faltavam quando desertou. Como porém em Abril de 63, faria 45 anos, e passava à reserva, ficaria na tropa até essa data.
Dá para imaginar o sofrimento do Manuel? Os jovens militares, gozavam com ele, mal acabava a formatura. Não estava em prisão no quartel. Estava na tropa, embora sem licença de saída.
Recebia a visita da mulher no quartel, e mortificava-se com a situação da família, agora sem o seu ordenado, que era o único na casa até à próxima safra, e ainda obrigada a gastar dinheiro em viagens para as visitas. Chorava todos os dias. E tudo por causa de umas malfadadas botas da tropa, que não pudera pagar ao estado.
Trabalhador humilde, sempre pronto a qualquer trabalho, mesmo que nada tivesse a ver com o armazém da lenha, alegre e bem-disposto, apesar de todas as dificuldades, o Manuel granjeara a simpatia, não só de todos na Seca, como do próprio patrão, que já por algumas vezes tinha requisitado o Manuel para tratar do jardim de sua residência.
Boa pessoa, sabendo reconhecer os méritos do Manuel, o patrão deu ordem ao gerente da Seca, o Capitão Aníbal, para manter o ordenado do Manuel enquanto ele estivesse ausente. Não satisfeito com isso, o patrão, usou de toda a sua influência, (e se era influente a família Bensaúde) para retirar o Manuel daquela agonia. E foi por isso que ele, voltou à liberdade no início de Setembro, bem a tempo de dar um beijo à filha no dia dos seus 15 anos.

FIM


Nota: 

Como disse no primeiro episódio, esta história é real.
O Manuel foi o meu pai, e a menina que nasceu depois duma noite de trovoada, sou eu. Tudo o que escrevi sobre a Seca é  (era) real. A Seca foi desactivada em 30 de Dezembro de 1999. Hoje mantém-se aberta apenas para visitas de estudo. Parte do complexo, foi declarado património histórico. Para o restante foi projectado um condomínio de luxo, com campos de ténis, cavalariças e outras "coisitas" que fariam dele único na zona. Prestes a ser aprovado, eis que o projecto da nova ponte Barreiro Seixal, cai precisamente neste local. O condomínio ficou sem efeito, e por causa da crise, a ponte Barreiro Seixal, ficou em "águas de bacalhau".  A antiga Seca, mantém-se aberta apenas a visitas de estudo. 



25 comentários:

ONG ALERTA disse...

Por um filho sempre vale a pena ... Bj Lisettw.

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Já tinha escrito o comentário e foi tudo para a seca do Bacalhau...
Vidas tristes e com sabores muito amargos.

Bea Simpson disse...

Obrigada pelo comentario que me permite, ao tempo, contactar cunha escritora da que nada sabía. Lin un bocadinho, o derradeiro post, do seu blog e vejo que escribe muito bem. Cuando ter un pouco de tempo gostaría ler mais desa historia (real) que amosa unha situación coa que também nós, estivemos familiarizados ha tempo. Son admiradora de Pessoa e Eça de Queirós. Gosto de ler en lingua portuquesa, que também é a minha ainda que nao saiba escriber con propiedade. Foi tudo un prazer. Beijinhos.

esteban lob disse...

Impresionante Elvira saber algo más de ti y de tu padre, tras leer una historia tan bellamente novelada.

Abrazo.

Fátima Pereira Stocker disse...

Elvira

No meio da desgraça surgem, por vezes, pessoas de bem que se importam com quem nada tem e de tudo precisa. Felizmente, uma dessas pessoas esteve presente, por um momento na vida de seu pai - e na sua. Obrigada pela partilha.

Silenciosamente ouvindo... disse...

Gostei de saber um pouco mais da amiga.
O que muitas pessoas sofrem nesta vida
por leis estúpidas.
Mas são situações, como a que descreveu,
que demonstra a fibra de que somos feitos.
Bjs.
Irene Alves

Isa Sá disse...

A vida não é nada fácil!

Isabel Sá
http://brilhos-da-moda.blogspot.pt

✿ chica disse...

Que história de vida essa! Gostei de te ler e acompanhar cada capítulo!Escreves muito bem! bjs, tudo de bom,chica

Anete disse...

Elvira, gostei de ler e conhecer mais um pedaço da sua história!
Achei interessante a expressão: "Água de Bacalhau"...

Bom Final de Semana...
O meu abraço...

Dorli Ramos disse...

Oi Elvira,
Todos têm sua história de vida.
Só uma diferença seu pai era trabalhador.
Adorei
Beijos
minicontista

Evanir disse...

Um pensamento surgiu depois de dar uma volta
no tempo.
Aquela volta de cento e oitenta grau que
em dado momento da vida temos que dar uma pausa e pensar.
Eu com certeza tenho o DNA do amor
pulsando no meu coração.
Por isso meu carinho é gratuito e sincero
chego sentir uma saudade que dói mesmo sem conhecer
a amizade além da minha telinha.
A diferença não é o contato fisico,
mas sim aquilo que tenho de mais sublime amar
sem conhecer a cor dos olhos ou da pele .
A religião então ..essa para mim tem somente
um quisito ter fé e acreditar num superior a
tudo com um nome lindo ...Jesus isso me basta.
Um abençoado final de semana.
Eu só vim te dar um abraço é
tudo que posso fazer quando no coração
a saudade vem bater.
Beijos e meu eterno carinho.
Evanir.

Portugalredecouvertes disse...

oh Elvira fiquei feliz e emocionada por ler esse texto que está muito bem escrito e que cativa quem o percorre... são tempos de vida ingratos e pelo meio surgem pessoas com a bondade de Deus e grande desejo de ajudar!
o nascimento da Elvira também foi uma bênção anunciada por um grande estrondo da natureza...
beijinhos e feliz fim de semana
Angela

aluap Al disse...

Boa tarde Elvira, por falta de tempo tenho comentado menos, mas li todos os 'post's!
Já desconfiava que o Manel era o seu pai, não sabia era que a antiga Seca mantém-se aberta a visitas de estudo, o que é até de louvar, pois lá para as minhas bandas tudo o que é edifício propício a figurar nos planos anuais escolares, onde se planificam as visitas de estudo efectuadas pelos alunos das escolas, estão ao abandono.
Pena o resto ter ficado em "água de bacalhau".
Bjos e um bom domingo!

Dorli Ramos disse...

Oi Elvira,

Que vida!
Cada um tem seu destino.
Beijos
Dorli

Janita disse...

Tal como eu deduzi a prisão do Manuel deveu-se a um simples par de botas. Fiquei contente por na vida do Manuel ter feito parte gente boa que sabia reconhecer o valor e honestidade de um homem de carácter.

Ainda bem que a Elvira pode receber o abraço e beijo amigo do seu Pai no dia em que completou 15 Primaveras.
Parabéns e obrigada, por ter partilhado connosco a sua história de vida.

Um abraço amigo!

manuela barroso disse...

Depreende-se , Elvira, que apesar de tudo, chega-se à conclusão que a par de incongruências e factos tão mesquinhos que fazem doer ainda há pessoas que sabem gerir as suas influências a bem do próximo.
Parabéns a este Senhor Manuel, seu pai e à filha da trovoada! :) pela memórias que escreveu como testemunho da História que na verdade aconteceu.
Grata pelas sua palavras
Beijinhos, Elvira!

Pedro Coimbra disse...

Uma homenagem muito bonita ao seu pai.
E uma história que nos prendeu durante todo este tempo.
Boa semana

(Só consegui entrar mesmo pela "porta do cavalo")

Francisco Manuel Carrajola Oliveira disse...

Gostei de ler minha amiga e saber mais um pouco sobre si e bela homenagem.
Um belo texto.
Um abraço e boa semana.

Graça Sampaio disse...

Muito interessante, Elvira!
Ando a ler contos de Maria Judite Carvalho e bem me lembro dos seus contos que aqui escreve enquanto estou a ler aquela excelente escritora.

Gosto!

Beijinhos

Majo disse...

~~~
~ Como sempre, muito bem escrito e descrito.
~ Para mim, esta faceta do bacalhau foi uma surpresa.
~ Não existindo refrigeração, pensava que tudo era feito em alto mar

~~~ Grande abraço. Elvira. ~~~
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

Socorro Melo disse...


Elvira,

Que história linda e tão bem contada da sua família. Imaginei que fosse mesmo você a menininha que havia nascido na noite da trovoada, pois, você já tinha feito um comentário num capítulo anterior que me fez entender isso. Uma história de humildade, de trabalho, de injustiças, mas, também de amizade verdadeira, de uma alma nobre, comoa do patrão.

Parabéns! E conta mais histórias pra gente.

Socorro Melo


Laura Santos disse...

Uma história de vida, dura e fascinante. Muito bem contada!
Estava-se mesmo a ver que o Manuel só poderia ser o seu pai!:-)
Parabéns pelos dotes narrativos!
xx

Rosemildo Sales Furtado disse...

Bela história Elvira! Só espero que não penses que sou cigano por ter acertado no motivo da prisão do seu pai, Sr. Manuel, conforme comentário anterior. Rsrs.

Fiquei feliz com a tua visita e to teu gentil comentário com tão belas palavras deixadas nos nossos Arte & Emoções e Literatura & Companhia Ilimitada, quando da passagem do dia do nosso aniversário, meu e dos meus filhos. Muito obrigado de coração. Quer dizer então, que a senhora tambe é de setembro? Ótimo!

Abraços,

Furtado.

Berço do Mundo disse...

Em primeiro lugar, quero agradecer por me ter deixado o link do final da história, já que não aparecia no meu feed de leitura. As tecnologias têm destas coisas.
Em segundo lugar, quero dar-lhe os parabéns por esta bela história, que nos tocou tanto talvez por a sabermos verdadeira. Felizmente, teve um final feliz!
Por último, agradeço a sua presença sempre tão querida no meu Berço.
Beijinhos e uma linda semana
Ruthia d'O Berço do Mundo

lourdes disse...

Apesar de tudo de mal que aconteceu, o nosso Manuel ainda conseguiu no tempo em que esteve na "tropa/prisão" e para ajudar a passar o tempo e a esquecer o seu azar, aprender coisas que depois nos ensinou.