5.3.16

MANEL DA LENHA - PARTE XXV

                     Os três filhos do Manuel. Foto minha




Quando a safra termina a meados de Março, o Manuel agora com mais tempo livre, e os dias a crescer tem uma ideia fixa. Tem que abrir um poço. E como a ideia não lhe saia da cabeça, e seguindo o método da vara que aprendera na terra, achou que tinha água mesmo à porta do barracão.
Levantava-se cedo, e começava a cavar. E quando chegava do trabalho e até ao sol-pôr pegava na enxada e o buraco estava cada dia mais fundo, perante a aflição da mulher com medo que o terreno desabasse e o marido ficasse lá sepultado. Pensando nisso o Manuel conseguiu que o gerente lhe desse umas tábuas que não serviam para os botes, e construiu uma espécie de caixa quadrada sem fundo que ficou escorando o buraco. Na verdade conseguiu água a menos de 3 metros de profundidade. Era um pouco salobra, mas potável.
Agora já podia plantar umas couves, tomates, alfaces, cebolas, feijão verde… Era uma grande ajuda.
A 19 de Maio, em Baleizão, no Alentejo, uma ceifeira de 26 anos, chamada Catarina Sabino Eufémia, mãe de três filhos, o mais novo dos quais apenas com oito meses, foi assassinada com tiros à queima-roupa, por um oficial da GNR, o tenente Carrajola, durante uma manifestação que reivindicava um aumento salarial de dois escudos por jorna.
O Manuel soube disso dias depois pelo Varandas. Ele conhecia alguém que sabia de tudo o que se passava, e queria apresentá-lo ao cunhado. Manuel recusou dizendo:
"Quando temos cinco pessoas que dependem de nós para comer, não podemos dar-nos ao luxo de pôr arriscar a nossa vida, porque ela não nos pertence." 
Nesse Verão o casal queria cumprir a promessa dos miúdos irem de anjo na procissão. A menina tinha um vestidinho branco que servia, mas havia que lhe comprar o resto, bem como o fato completo para o rapazinho. E no Verão como sabemos só há um ordenado. O dinheiro não chegou para os sapatos. Em Agosto o tempo está quente, então o Manuel resolveu a situação fazendo para os filhos umas sandálias de cartão e tiras de cetim. Primeiro fez umas palmilhas em cartão que forrou com um pedaço de lençol velho. Depois colou uma fita de cetim de cada lado que cruzava no pé e dava um laço no inicio da perna. E no dia 15 de Agosto lá foram as crianças na procissão, e no fim tiraram uma fotografia  com a irmã para ficar de recordação.

17 comentários:

Olinda Melo disse...


Homem engenhoso, o Sr Manuel.
Qual das meninas é a Elvira?
Desejo-lhe um bom fim de semana.
Obrigada pela sua presença no Xaile.
Bj
Olinda

Isa Sá disse...

A passar para acompanha a história e desejar um bom fim de semana!

Isabel Sá
http://brilhos-da-moda.blogspot.pt

Mariazita disse...

Mais três capítulos lidos.
Não tarda muito estou em dia... :)
Continuo adorando.

Bom fim de semana.
Um abraço

MARIAZITA / A CASA DA MARIQUINHAS

✿ chica disse...

Que bom boas notícias pra Manuel e a foto, linda! bjs, chica, adorando ler!

Anete disse...

Gostei muito que a esposa do Manuel ficou bem de saúde.
Novas esperanças pela frente...

Um Bom Sábado, Elvira!
Muita Paz e Alegrias...

Mariangela do lago vieira disse...

Que pessoa boa o Manuel, como se preocupava com a família fazendo tudo o que podia.Isto é benção para a família.
Um abraço, Elvira.
Bom final de semana.
Mariangela

Renata Maria disse...

Enfim, boas notícias. Amei a fotografia. Vc está nela?
Beijo*

Edumanes disse...

Quem viveu o tempo da ditadura,
ainda hoje, arrepiante, a recorda
só de ouvir falar da maneira tão bruta
como Catarina Eufémia foi morta!

Pelos seus direitos lutar,
com justa causa
o ditador, contra ela fez disparar
a arma, sem dó nem alma!

Tenha um bom fim de semana amiga Elvira, um abraço,
Eduardo.

Crocheteando...momentos! disse...

Tenho uma foto parecida!
Era sempre uma festa especial nessa altura...bj

Crocheteando...momentos! disse...

Tenho uma foto parecida!
Era sempre uma festa especial nessa altura...bj

Elisa Bernardo disse...

A passar por aqui para acompanhar.
Beijinhos

Ane disse...

Oi Elvira!Acabando agora de ler vários capítulos... Estou impressionada em imaginar,pelo seu conto,como a vida naquele tempo era difícil.E hoje em dia a gente ainda reclama das coisas...Meu Deus! Aqui nunca passamos por uma guerra,nunca passei fome,me sustento sozinha,tenho muito a agradecer a Deus.
Estou muito interessada em saber o fim desta narrativa.Um abraço!

Zilani Célia disse...

O MANUEL ERA UM HOMEM DE BEM, VIVIA PARA A FAMÍLIA.

http://zilanicelia.blogspot.com.br/

Gaja Maria disse...

Que foto linda, estará a Elvira nela? :)
Manuel era de facto um grande homem

Portuguesinha disse...

E o cetim, em tecido ou em fita, naquele tempo era fácil de encontrar e era barato?

Laura Santos disse...

O Manuel tinha um fundo muito bom. E uma boa referência à Catarina Eufémia.
Suspeito que a Elvira possa ser aquela menina no lado direito da foto. (?)
xx

Rosemildo Sales Furtado disse...

Por sorte o Manuel era habilidoso, o que o ajudava muito.

Abraços,

Furtado.