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30.6.16

MANEL DA LENHA - PARTE XCVI


A mulher do Manuel, recuperou do acidente, mas durante um bom tempo fez fisioterapia para recuperar a relativa mobilidade que tinha antes. 
Passaram-se dois anos, estamos agora em 1995. Logo no mês de Janeiro, o país perde um grande vulto da nossa literatura com a morte de Miguel Torga. O génio que nos encantou com "os contos da Montanha" "Vindima" e "Os Bichos"e de tantas outras obras em prosa ou em verso, não mais voltaria a escrever.
Nessa época já o filho do Manuel, que continua a pensar que o pai leva uma vida de clausura por causa da mulher anda a pensar como fazer para proporcionar ao pai umas horas ou dias de alegria. Ele sabe que não pode arriscar de novo uma viagem com os pais numa carrinha. E depois de muito pensar resolve comprar uma auto caravana a fim de levar os pais a dar um passeio. Se bem o pensou melhor o fez. Depois de a comprar  alterou-a quase completamente. arrancou os sofás  na salinha que à noite se transformavam em cama, e colocou no local uma cama com colchão ortopédico, uma mesa de cabeceira, e uma porta para isolar o quarto e lhes dar privacidade. Desmanchou e ampliou a casa de banho para que a mãe se movimentasse sem problemas, dada a sua pouca mobilidade. Mas como fazer a mãe subir para o veiculo? Então fez uma placa elevatória, que descia até ao chão, colocava a mãe nela e fazia-a subir até à porta. 
Depois de todas estas alterações, já podia sair com os pais. A primeira viagem foi às Termas de S. Pedro do Sul, onde passaram uns dias, até seguirem para Carvalhais, a fim de assistirem às festas de Nossa Senhora das Chãs.
Desde que a mulher sofrera o AVC há quase 11 anos que o Manuel não ia à sua terra e estava radiante. A mulher pelo contrário, apesar de todo o conforto que o filho lhe dera, tentando aproximar o mais possível o espaço na caravana com com a casa deles, ela sentia que não era a mesma coisa, tinha um certo medo em se movimentar. E ia dizendo que para a próxima iam pai e filho sozinhos que ela ficava em casa. Sabendo que se ela não fosse o marido também não iria, ainda que a filha lhe dissesse que podia ir, que ela cuidaria da mãe.
Foram duas semanas que deram nova vida ao Manuel.
E nas eleições de 1 de Outubro António Guterres vence as eleições sucedendo no governo a Cavaco Silva.

29.6.16

MANEL DA LENHA - PARTE XCV




E chegámos ao ano de 1992, que começa como se devem lembrar com Portugal a assumir a presidência da União Europeia. Manuel era um homem do povo. E o povo, inocente e crédulo pensava que com esse facto a vida ia melhorar em Portugal. Tirando o facto de Portugal ter aderido nessa época ao Sistema Monetário Europeu, nada aconteceu de novo. E mesmo disso, o povo só soube a notícia, já que ainda iriam passar uns anos até que a diferença aparecesse nas suas carteiras.
Nesse mesmo ano, o Creoula sofreu mais algumas alterações na zona do meio do navio. Aproveitou-se uma das cobertas de 9 instruendos, para se criar um espaço que funciona como biblioteca e sala de aulas. Quando mais tarde ele teve aberto à visita da população, aproveitando um dia em que a mulher estava estava acompanhada pela empregada, Manuel foi ver o navio e claro veio espantado. Como estava diferente do navio que ele conheceu, e onde tanta vez fez pequenos trabalhos de reparação.
Desde que a mulher adoecera, e já ia fazer 8 anos, Manuel nunca mais saíra de casa, a não ser no dia em que a empregada lá estava. Nesses dias, se o filho tinha de se deslocar a algum lado, vinha buscar o pai e ele ia todo contente, por espairecer um pouco. Mas nunca mais fora à sua terra, ou às Termas em S. Pedro do Sul. Nesse Verão, o filho limpou os pavilhões do aviário e resolveu parar um mês, porque segundo ele, de vez em quando devia-se dar descanso aos mesmos, e ele há anos que não parava.  Como tinha uma carrinha, decidiu que ia levar os pais ao norte. Pediu à irmã, que estava de férias de os acompanhava, pois a mãe ia precisar da sua ajuda para a higiene, já que para onde iam não teria as condições que tinha em casa para se bastar sozinha. Porém, a caminho de Vila Franca, numa descida havia óleo derramado na estrada, o carro derrapou e apesar de todos os esforços do condutor,
o carro acabou por dar uma leve batida. Ninguém na carrinha sofreu nada a não ser a Gravelina, cujo corpo semi-paralisado escorregou, fazendo com que a perna esquerda, sem força, batesse no banco da frente, e partisse a perna. 
Chamada a ambulância trouxe-a para o hospital do Barreiro, acompanhada pela filha, enquanto o resto da família voltava para trás.
Dada a história de AVC da Gravelina, ela ficou no hospital todo o tempo de recuperação.
E em Outubro desse ano, chega a Portugal a TV privada, com a SiC de Francisco Balsemão, tendo como director de programas Emídio Rangel. 
Um mês depois, com poucos dias de Intervalo, Xanana Gusmão é preso em Dili, e a nossa moeda é desvalorizada 
em 5%.




À margem: 
Peço aos amigos, que me visitam, que se puderem (e quiserem claro) passem por AQUI. Muito Obrigada





28.6.16

PARABÉNS A VOCÊ...

Santo António já se acabou, o S. João também já lá vai. E o S. Pedro está-se a acabar. Mas para mim, hoje é dia de festa. O filhote faz 36 anos.  Na semana passada, a netinha, veio dizer como ela queria o bolo para o pai. Um pouco trabalhoso, na prática são dois bolos, de formato diferente. E aí eu disse-lhe; "vamos ver se a avó é capaz" 
Aí, esta manhã, mal se levantou, telefonou-me.  
-Avó, conseguiste fazer o bolo?
-Consegui  
-Eu sabia avó. Consegues sempre. És a maior.
Já lá vão umas horinhas e ainda estou a limpar a baba. Rsrsrs

27.6.16

MANEL DA LENHA - PARTE XCIV



Os  anos seguintes não trouxeram nada de especial à vida do Manuel. A filha empregou-se numa fábrica de cerâmica, a mulher viu ser-lhe cortado o acesso aos tratamentos de reabilitação, pois por uma lei da ministra da saúde, Leonor Beleza, só teriam direito a tratamentos de fisioterapia pelo SNS, os doentes com esperanças de reabilitação total, e segundo o médico, a Gravelina, dificilmente melhoraria mais do que aquilo que tinha melhorado até à data. Daí que ela, movimentava todos os dias, a perna e o braço, nos aparelhos que o marido improvisara, e o resto dos dias passava sentada no sofá em frente da TV.  Como a parte cerebral não tinha sido afectada, dirigia a casa, dizendo ao marido, o que fazer para o almoço e jantar, o que era preciso comprar para casa etc. E assim se passou o último ano da década de 80, que Manuel guardaria na memória, como o ano em que Portugal foi campeão mundial de júniores em futebol, em  Riade em Março.  A  manifestação sindical da Polícia no Terreiro do Paço, em Abril, o Massacre de Tianan
men a 4 de Junho, a queda do avião na  Jamba, com o filho de Mário Soares, em Setembro, a queda do muro de Berlim em Novembro, e a vitória de Jorge Sampaio em Lisboa em Dezembro, foram factos que ele lembraria mais tarde. No ano que se seguiu a vida continuou a sua rotina, e desse ano, o Manuel lembraria, a libertação de Nelson Mandela em Fevereiro, o campeonato de futebol que o "seu" Porto ganhou, e a eleição de Lech Walesa a Presidente da Polónia em Dezembro. Manuel era um homem que gostava muito de ler. Comprava todos os dias o jornal que lia praticamente de ponta a ponta. Por esses dias, eles falavam do passado de trabalhador de Lech Walesa e Manuel admirava-o muito.
O ano de 1991, começa com a campanha eleitoral para as eleições presidenciais, que reelegem Mário Soares. Na casa do Manuel, tudo está na mesma. A mulher levanta-se, faz a sua higiene, toma o pequeno almoço, que ele lhe preparou entretanto, faz os exercícios e vai para a sala assistir pela TV à sua missa.  A doença exacerbou a sua religiosidade. Assim assiste à missa aos domingos e grava essa missa que depois vê durante toda a semana. Enquanto isso, o Manel vai à praça, quando é preciso, e prepara o almoço para os dois. Depois do almoço, ambos se deitam um bocado, depois a Gravelina, faz mais uma hora de exercício, lancha e entretém-se com as telenovelas do dia anterior, (que deixara  a gravar, pois se deita muito cedo), até ao jantar. O Manuel lê o jornal, prepara o jantar, e vê um pouco de TV no quarto. E assim a vida do casal entrou numa rotina diária, que só é quebrada nos dias em que a mulher vem fazer as limpezas, ou quando os filhos os visitam. 

26.6.16

A LINHA QUE DEUS FEZ



Os amigos que me acompanham desde há anos sabem que o Sexta "é o meu blog" o que quer dizer que  não faço publicações de outras pessoas Excepção feita quando homenageio algum grande escritor/a, que sempre publico algo dele/a. Para além disso, apenas abri duas excepções para dois comentários que me foram deixados e que realmente mereciam destaque. Esta explicação, serve para introduzir este vídeo, que não se enquadra em nenhum dos dois itens anteriores, mas que entendi dar-vos a conhecer. 
Há dias encontrei num blog de um amigo, uma melodia de rara beleza. Aqua Luminae. E uma chamada de atenção para o autor C. N. Gil, que além de músico, tem uma excelente voz como podem ouvir através deste vídeo, é escritor, e dono do blogue  OQMDNT. 
Fui até ao You Tube e ouvi várias das suas músicas. E sinceramente pensei que seria egoísta se não partilhasse convosco. Assim se gostarem como eu  (e penso que vão gostar)  e quiserem mais, é só seguirem os links.
Para todos um bom Domingo

25.6.16

PORQUE HOJE É SÁBADO...




                                                OS AMANTES

Quando eles nasceram
uma rosa floriu
o mar serenou
suas mães sorriram.

Quando se encontraram
o sol brilhou
a vida encheu-se de cor
o amor nasceu.

Quando se amaram
o mundo parou
os pássaros cantaram
os jardins floridos
encheram-se
de alegres crianças.

Depois velhinhos
mas nos corações
sempre o mesmo amor
que o tempo não apagou
como incêndio
em dia de vento.

O rosto enrugado
as mãos deformadas
os olhos cansados
procuram-se
minuto a minuto
com o mesmo carinho.

Morreram um dia
e naquela hora
uma nuvem chorou.

Na aldeia esquecida
os sinos dobraram.

24.6.16

ESTAMOS EM JUNHO



Estamos em Junho, o mês dos dias enormes, do começo do Verão, dos Santos Populares. A partir de agora também o mês que pode dar uma grande volta à Europa, e colocá-la no seu verdadeiro rumo de união, e igualdade e fraternidade  entre os mais ricos e os mais pobres, ou deixá-la como está e esperar quanto tempo leva até à saída do próximo, numa debandada geral, até ao fim. Mas isso é outra conversa, e nem eu tenho competência para falar sobre isso. 
Assim sendo, vamos lá falar do S. João que hoje se comemora um pouco por todo o país, com maior intensidade no Porto e em Braga, que o têm por padroeiro.
 A verdade é que os maiores festejos - excepto os religiosos - ocorrem na véspera do dia do Santo. Há uns sessenta anos atrás, não existia TV, embora ela chegasse a Portugal, no ano seguinte, mais de dez anos depois ainda a grande maioria da população portuguesa, não tinha a caixinha mágica, que iria alterar costumes e tradições. Nas noites quentes de Verão, o povo sentava-se à porta de casa, olhando as estrelas, sonhando com um futuro melhor para os catraios que brincavam na rua, saltando ao eixo, jogando à macaca, ou correndo atrás de uma bola feita de trapos, ou de bexiga de porco.
Pelos santos populares, na seca da Azinheira, o pessoal residente, juntava-se no início da rua das "casas novas". Era assim que nós chamávamos ao grupo de casas que existiam na seca e onde habitavam os empregados de escritório, os encarregados, os electricistas e os ferreiros. Nós vivíamos a uns quinhentos metros, num barracão de madeira isolado, mas um dos electricistas era irmão do meu pai, e tinha dois filhos um pouco mais velhos que eu,
daí que no Verão, quando o pai não aproveitava a noite para cavar ou regar o quintal, íamos para as "casas novas" brincar com os primos e as outras crianças aí residentes, enquanto os pais se entretinham em conversas sobre a vida e os seus problemas. 
No S. João, o meu pai fazia todos os anos um enorme balão de papel colorido.  
Lembro-me que levavam umas tochas feitas com desperdícios, embebidas em petróleo, que enquanto ardiam mantinham os balões no ar. Quando se apagavam o balão começava a perder o ar quente que o mantinha lá em cima e acabava por cair atraído pela gravidade.
 Os mais velhos faziam uma fogueira no meio da rua, e sentados junto aos muros  do, quintal da casa mais próxima, contavam histórias, enquanto davam um olhinho pelos mais novos. As crianças corriam atrás dos grandes besouros que sempre apareciam nesta altura do ano. Faziam rodas à volta da fogueira e quando ela ficava mais fraca, obtinham permissão dos pais para a saltar. Conviviam. 
Todos se conheciam, todos se ajudavam. No dia seguinte cumprimentavam-se, comentavam a noite anterior, e acabavam com um "Para  a semana lá estamos". .Eu tenho saudades desse tempo. Hoje as pessoas juntam-se ás centenas, ás vezes milhares, todas no mesmo espaço, brincam saltam, mas não se conhecem, e quando a festa acaba, são de novo desconhecidas. Estão juntas e simultaneamente estão sozinhas. Não há convívio. É como se as pessoas se tivessem transformados em ilhas. Podem estar longe ou mesmo ao lado, mas não se tocam. Vivem em prédios de vários andares e não conhecem às vezes nem o vizinho do lado. É urgente que a humanidade pense em ser ponte.  Em união.
Bom S. João, e bom fim de semana.

23.6.16

MANEL DA LENHA - PARTE XCIII


                                                      Foto do jornal Público

Aflitos  sem saber mais onde procurar, dirigiram-se à polícia.
O agente que os atendeu perguntou se ele não teria ido para a praia. Estávamos em Maio, e o dia tinha estado muito quente. Os pais não acreditavam. O garoto nunca fora a lado nenhum sozinho. A mãe, levava-o à escola, e ia buscá-lo. O agente tomou nota do caso, depois de perguntar os sítios que a criança costumava frequentar. Iam tomar providências. Mandaram os pais para casa, o garoto podia ter chegado entretanto.  O casal dirigiu-se a casa, e no caminho encontraram um grupo de gaiatos, mais velhos do que o seu filho, que vinham da praia. E entre eles, lá vinha o Pedro. Os outros miúdos mais velhos, eram da 4ª Classe, saíram mais cedo e desafiaram o Pedro para ir com eles para a praia. E aproveitando uma distracção da contínua, que acorrera a levantar do chão, uma chorosa criança  mais pequena, o Pedro saiu e foi para a praia com eles. 
Escusado será dizer que esteve de castigo mais de uma semana. Pais, avô e padrinhos nunca mais iriam esquecer a aflição daquela tarde.  
Por esses dias, aparece nas bancas um novo semanário. O Independente com direcção de Miguel Esteves Cardoso e Paulo Portas.
A 25 de Agosto, nova tragédia atinge o País, desta vez no coração de Lisboa. O fogo devora o Chiado, em labaredas tão grandes que são visíveis na outra margem do Tejo.  Prédios e lojas, tudo fica reduzido a cinzas. Dois mortos e mais de quarenta feridos, além de vários prédios históricos destruídos, é o rescaldo do incêndio, que os lisboetas jamais esquecerão.
A reabilitação da zona, levaria cerca de 10 anos, mas as centenas de pessoas que perderam os seus empregos, e viram as suas vidas caírem no desespero, nunca foram ressarcidas.
Em Setembro começam os jogos olímpicos de Seul, que os portugueses seguiram na esperança de que a Rosa Mota trouxesse a medalha de ouro para Portugal. E ela não nos desiludiu. 
No dia em que Portugal comemora a implantação da República, um plebiscito no Chile, derrota Pinochet, e é o princípio do fim do ditador.
E a 14 desse mesmo mês, PS e PSD chegam a acordo para a revisão da Constituição.
Pouco antes do Natal, a família dispensa a empregada, que acompanhara a Gravelina nos últimos anos. Ela já faz a sua higiene sozinha, veste-se e calça-se. O marido faz as refeições, e para  a limpeza da casa, tem a mulher a dias que vem dois dias por semana. E se for necessário alguma coisa, os filhos dão uma ajuda. A despesa é muito grande, as reformas curtas, e se bem que é o filho quem paga o ordenado da empregada, eles não querem continuar a sobrecarregá-lo com esse encargo.  


22.6.16

MANEL DA LENHA - PARTE XCII


                                        O Pedro, numa foto da época


Nesse ano de 1988, A Gravelina começou a fazer os tratamentos numa clínica no Alto Seixalinho.  Fazia séries de 20 tratamentos, seguidas de 15 dias de descanso. Vinha uma ambulância buscá-la para os tratamentos às duas horas, e trazia-a de volta no fim por volta das cinco. Ela ia recuperando a confiança, já movia bem a perna esquerda. Bom, mover bem é exagero, pois a perna arrastava um bocado, e não conseguia calçar um sapato normal, pois o pé entortava e ela não conseguia andar, problema que se resolveu com o uso de umas pantufas-bota, em tecido, que se adaptavam ao pé quando ele entortava, e não lhe criavam maior desequilíbrio.
 Passados os tempos mais difíceis, o Manuel sentia-se agora mais confiante para ir com o filho sempre que este o ia buscar a casa, já que tendo um aviário se deslocava muitas vezes para entrega de encomendas, ou para ir buscar rações para as aves.
Em Maio desse ano, toda a família apanhou um grande susto com o neto do Manel.
O miúdo frequentava a escola primária , estava na 2ª classe, ia fazer 8 anos em Junho. A mãe levava-o todos os dias ao portão da escola de manhã e ia buscá-lo à tarde. Naquele dia porém o gaiato não saiu com os coleguinhas. Preocupada a mãe perguntou por ele, mas os miúdos disseram-lhe que a professora saíra mais cedo para ir ao médico, eles tinham sido distribuídos por outras salas, não tinham visto mais o Pedro. Em desespero a auxiliar, (naquele tempo chamava-se contínua,) procurou por todas as salas, mas ninguém tinha visto o gaiato. Até que uma das professoras, disse que uma turma da 4ª classe tinha saído uma hora antes. Seria o caso de o miúdo sair nessa altura? Mas como foi possível se a continua sempre estava ao portão, e jurava que apenas tinham saído os mais velhos que já era habitual irem sozinhos para casa? Desesperada, a filha foi a casa, perguntou aos vizinhos se tinham visto a criança, passou pelo café dos padrinhos do filho, onde ele gostava de estar, mas eles também não o tinham visto. Imaginando que poderia ter ido para casa dos avós, foi a casa da mãe, ver se o filho tinha ido para lá, já que ele e o avô se entretinham muito com várias brincadeiras. Mas ninguém o tinha visto.  Era como se a criança se tivesse evaporado.
Nessa altura, chegou o genro do Manuel, depois de mais um dia de trabalho e não encontrando nem a mulher nem o filho em casa, pensou que estavam na casa do sogro, e dirigiu-se para lá.
Encontrou a família numa aflição, exceptuando a Gravelina, a quem tiveram o cuidado de esconder o que se passava.
Entretanto, tinha chegado a hora da empregada se ir embora, pelo que o Manuel ficou com a mulher, enquanto a filha e o genro, batiam toda a localidade, chegando até ao Hospital do Barreiro, à procura do filho. 

21.6.16

MANEL DA LENHA - PARTE XCI






No final de Setembro, o neto do Manuel entra na escola oficial, e a  19 de Outubro, num desastre de avião, morre Samora Machel. o presidente de Moçambique. No resto do ano não aconteceu nada que tivesse muita importância para o Manuel, cuja mulher continuava a fazer fisioterapia diária, mas que aparentemente não adiantava muito.  E chegou de novo o Natal, a festa em família teve também a presença dos compadres, sogros da segunda filha, mas a Gravelina continuou a comer na sala com o marido e a não ir à mesa.
E o ano chegou ao fim e como sempre outro lhe sucedeu, sem que a Gravelina mostrasse melhoras que se vissem.A 23 de Fevereiro de 1987, morre um grande cantor, da música de intervenção, Zeca Afonso,  de quem o Manuel era um admirador. No início de Abril a Assembleia da República, aprova uma moção de censura ao governo de Cavaco Silva, e no dia 28 do mesmo mês, Mário Soares, dissolve a Assembleia e marca eleições antecipadas.
Quase um mês depois, a 27 de Maio o Futebol Clube do Porto, sagrou-se Campeão Europeu de Futebol, em Viena. Uma grande alegria para o Manuel, cuja vida nos últimos tempos, não tinha razões para alegrias. 
No dia 1 de Junho desse mesmo ano, o Creoula era oficialmente entregue ao Ministério de Defesa Nacional, mediante despacho, adquirindo o estatuto  de Unidade Auxiliar da Marinha. O antigo porão,fora redimensionado,  dando origem à zona que se estende da casa das máquinas, à coberta de praças, foram instalados camarotes e câmara dos sargentos, a enfermaria foi alargada, criou-se um refeitório, ampliaram-se as instalações sanitárias, mudara-se o lastro da embarcação.
Recebia a classificação de "navio de treino de mar", que ainda mantém, iniciando assim uma nova etapa da sua história pessoal de navegação à vela. 
Em Julho as eleições legislativas dão um vitória estrondosa ao PSD que viria a formar governo em Agosto, com maioria absoluta e Cavaco Silva como primeiro ministro.
Em Outubro, a Gravelina, dá os primeiros passos. Apoiada na terapeuta, vai do quarto à sala. A terapeuta manda comprar uma bengala com base em tripé a fim de que apoiando-se nela possa recomeçar a andar. O filho vai comprar a bengala, e nos próximos dias a terapeuta, dedica-se a que a Gravelina, aprenda a controlar o esforço sobre a bengala e ganhe confiança. 
A casa onde viviam, abria directa para uma sala quadrada, onde existiam seis portas, dando cada uma para uma divisão da casa, a saber, de um lado, a cozinha, dois quartos de dormir,  e uma casa de banho.  Na outra parede em frente, a sala de estar e a casa de jantar.  O quarto onde o casal dormia, era o que ficava ao lado da casa de banho. A Gravelina aprendeu a seguir "colada" à parede, do quarto à sala, de modo que o braço direito, que levava a bengala, (o esquerdo continuava morto) fosse sempre encostado à parede. Na volta para o quarto ia pela parede do outro lado para que sentisse igualmente o braço junto à parede. Assim ela sentia-se mais confiante. De outro modo o medo era maior que ela e não dava um passo. 
A 8 de  Dezembro, quando em Portugal se comemora o dia da Padroeira, os E.U. e a U:R:S:S. assinam em Washington, o primeiro tratado de desarmamento da história, eliminando os misseis de alcance intermédio estacionados na Europa, os famosos SS20 e os Pershing II
E antes do ano acabar, a terapeuta que tinha acompanhado a Gravelina, dá por findos os seus tratamentos ao domicílio, devendo a doente a partir daí dirigir-se à clínica para continuar os tratamentos. 
Acabara de fazer 3 anos que os médicos a tinham mandado para casa, para morrer junto dos seus, pois a sua vida estava por horas.