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27.6.16

MANEL DA LENHA - PARTE XCIV



Os  anos seguintes não trouxeram nada de especial à vida do Manuel. A filha empregou-se numa fábrica de cerâmica, a mulher viu ser-lhe cortado o acesso aos tratamentos de reabilitação, pois por uma lei da ministra da saúde, Leonor Beleza, só teriam direito a tratamentos de fisioterapia pelo SNS, os doentes com esperanças de reabilitação total, e segundo o médico, a Gravelina, dificilmente melhoraria mais do que aquilo que tinha melhorado até à data. Daí que ela, movimentava todos os dias, a perna e o braço, nos aparelhos que o marido improvisara, e o resto dos dias passava sentada no sofá em frente da TV.  Como a parte cerebral não tinha sido afectada, dirigia a casa, dizendo ao marido, o que fazer para o almoço e jantar, o que era preciso comprar para casa etc. E assim se passou o último ano da década de 80, que Manuel guardaria na memória, como o ano em que Portugal foi campeão mundial de júniores em futebol, em  Riade em Março.  A  manifestação sindical da Polícia no Terreiro do Paço, em Abril, o Massacre de Tianan
men a 4 de Junho, a queda do avião na  Jamba, com o filho de Mário Soares, em Setembro, a queda do muro de Berlim em Novembro, e a vitória de Jorge Sampaio em Lisboa em Dezembro, foram factos que ele lembraria mais tarde. No ano que se seguiu a vida continuou a sua rotina, e desse ano, o Manuel lembraria, a libertação de Nelson Mandela em Fevereiro, o campeonato de futebol que o "seu" Porto ganhou, e a eleição de Lech Walesa a Presidente da Polónia em Dezembro. Manuel era um homem que gostava muito de ler. Comprava todos os dias o jornal que lia praticamente de ponta a ponta. Por esses dias, eles falavam do passado de trabalhador de Lech Walesa e Manuel admirava-o muito.
O ano de 1991, começa com a campanha eleitoral para as eleições presidenciais, que reelegem Mário Soares. Na casa do Manuel, tudo está na mesma. A mulher levanta-se, faz a sua higiene, toma o pequeno almoço, que ele lhe preparou entretanto, faz os exercícios e vai para a sala assistir pela TV à sua missa.  A doença exacerbou a sua religiosidade. Assim assiste à missa aos domingos e grava essa missa que depois vê durante toda a semana. Enquanto isso, o Manel vai à praça, quando é preciso, e prepara o almoço para os dois. Depois do almoço, ambos se deitam um bocado, depois a Gravelina, faz mais uma hora de exercício, lancha e entretém-se com as telenovelas do dia anterior, (que deixara  a gravar, pois se deita muito cedo), até ao jantar. O Manuel lê o jornal, prepara o jantar, e vê um pouco de TV no quarto. E assim a vida do casal entrou numa rotina diária, que só é quebrada nos dias em que a mulher vem fazer as limpezas, ou quando os filhos os visitam.