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27.5.16

MANEL DA LENHA - PARTE LXXIX



            Jardim Constantino, um espaço verde entre a casa e o trabalho do casal



 Abandonado, o casarão junto ao rio, onde o Manuel passara uma boa parte da sua vida, e onde vira nascer dois dos seus filhos, foi demolido. O gerente, temia, que os arames farpados que separavam a seca, da azinhaga fossem cortados e o casarão ocupado.
Depois, o portão junto ao casarão estava selado, o pessoal na seca, que já não chegava aos cem trabalhadores, (antes da mecanização, chegaram a ultrapassar os quatrocentos) era quase só o que vinha do norte, e os poucos trabalhadores dos arredores, entravam pelo outro portão, do qual a Gravelina era a porteira.
Para o Manuel, foi como se lhe arrancassem um pedaço da alma. Há quase nove anos que lá não vivia. Mas ele continuava a cultivar o terreno, e o casarão com todas as suas memórias era sua companhia diária, enquanto cavava, regava ou sachava.
A vida do Manuel era agora muito diferente. Tinha os filhos "arrumados" ( o rapaz continuava solteiro, mas alugara uma casa ali pertinho e vivia independente) fazia o seu vinho todos os anos, com a ajuda dos cunhados que ajudara a criar, e dos genros, na pisa da uva, e até fazia uns passeios de vez em quando, de comboio, que o filho como empregado da CP, tinha direito a umas quantas viagens por ano. 
Um ano depois, a filha do meio arranjou casa em Lisboa, na Alexandre Braga, ali mesmo ao pé do emprego, já que o casal trabalhava na Pascoal de Melo. 
Era muito bom para eles, que assim deixavam de ter que madrugar e de pagar transportes, uma economia de tempo e dinheiro, de relevo.
Para o Manuel e mulher, foi uma tristeza, pois era o afastamento da neta, que agora estava numa fase de gracinhas que os trazia enfeitiçados.
Para a mais velha também foi muito doloroso. A rapariga, que apesar de tudo o que já tinha feito, continuava estéril, dedicara-se à sobrinha, como se fosse sua filha. Porém a vida é mesmo assim, a família tinha que se concentrar no que era melhor para eles, e conformar-se. Depois Lisboa, não é o fim do mundo, fica ali logo do outro lado do rio.


26.5.16

MANEL DA LENHA - PARTE LXXVIII

       O Manuel e mulher, segurando a vela no baptizado da neta, ao colo da mãe


Nessa altura, a filha mais velha, trabalhava de novo na Seca do Bacalhau. A jovem que antes de ir para Angola, trabalhava na secretaria da Escola D. Fernando II em Sintra, e que durante os dois anos em que estivera em Luanda trabalhara como sabemos na secretaria do Colégio Marista, não conseguiu quando voltou a integração na escola. A prioridade de empregos era para os retornados, e ela não era retornada. Depois também havia o pormenor dos estudos. Ela tinha a prática de quase cinco anos de emprego em secretarias escolares. Sabia tudo sobre o trabalho, mas não tinha estudos. Havia entre os desempregados gente com toda a espécie de estudos, de modo que a jovem regressou ao trabalho na seca do Bacalhau onde fez a safra. Com menos esforço do que em outros tempos, (o trabalho estava muito mais mecanizado), mas também com muito menos alegria, pois havia menos gente, e  sobretudo gente mais velha. As jovens que em outros tempos trabalharam com ela, ou tinham arranjado outros empregos, ou tinham casado e dedicavam-se aos filhos e à lide doméstica.
Terminada que foi a safra, a jovem ficou em casa.
Depois das eleições para a Assembleia constituinte a 25 de Abril, realizaram-se a 27 de Junho as eleições para a Presidência da República, nas quais seria eleito Presidente o General Ramalho Eanes.
Naquele tempo, ir votar era uma alegria. O povo tinha bem presente o que tinham sido os anos do regime anterior e novos e velhos toda a gente ia exercer o seu dever de cidadania com vontade de que a democracia ainda bebé, ganhasse força e tivesse "pernas para andar"
 Em Julho o marido foi para o Algarve patrulhar as praias, e a jovem foi com ele. O marido era natural de Lagos tinha lá a família, e foi para lá que eles foram. 
O Manuel tinha um sonho desde há muitos anos. Havia de ir um ano às festas da Senhora da Agonia, em Viana do Castelo. Desde menino, ainda lá na aldeia, já ouvia falar nelas, mas a vida nunca lhe proporcionou ensejo para realizar esse sonho.E foi assim que aproveitando as férias, a que passou a ter direito depois do 25 de Abril, foi em Agosto desse ano às ditas festas. E foi lá que receberam o telegrama contando que eram avós de uma menina, e que mãe e filha estavam bem. 
Terminada a época balnear, o genro do Manuel regressa à base no Alfeite, e o casal retoma a vida ali perto da casa paterna onde a filha vai a toda a hora encantada com a sobrinha.
Dias depois do baptizado da menina, da qual os avós foram os orgulhosos padrinhos, a mãe da bebé perguntou à irmã mais velha:

-Queres tomar conta da menina, quando eu regressar ao trabalho?
-Claro que sim, - respondeu de imediato o coração pulando de alegria.
- É claro que te vou pagar.
- Não precisas. Não fico com ela por dinheiro.
- Eu sei. Mas a outra pessoa eu ia pagar, por isso vou saber quanto é que estão a levar, e o que pagaria a outra, é o que te pagarei. E ainda fico a ganhar, pois estou mais descansada, deixando-a contigo, que se a deixasse com uma estranha.
E foi assim que a menina passou dentro em pouco a ser cuidada pela tia. A jovem vivia encantada com a bebé. Sempre adorara crianças e o facto de não poder ter filhos, fez com que se agarrasse ainda mais à sobrinha.
Os navios retornaram,  a safra foi-se fazendo, agora com uma ou outra greve pelo meio, os tempos  eram outros, o povo já não admitia certas prepotências.

25.5.16

MANEL DA LENHA - PARTE LXXVII

           As duas filhas do Manuel, na última foto antes da saída para a Igreja em 1975


Em Julho, numa nova carta, a filha dizia que o pedido do marido tinha sido deferido, e por isso já não saía da Marinha. O Manuel suspirou de alívio, pois começavam a chegar os navios carregados de gente , anteriormente residente nas colónias e que fugiam da guerra civil que se avizinhava, com os vários partidos de libertação a lutarem todos pelo mesmo objectivo. A cadeira do poder, pós independência.
O resto do ano e os primeiros meses do seguinte, foram de grande preocupação para o Manuel e mulher. Por um lado, tinham a filha mais nova, entusiasmada com os preparativos do casamento, que se realizaria logo que a irmã chegasse. É que em princípio a filha ficará a viver lá em casa após o casamento, e é preciso fazer algumas alterações, porque uma coisa é um casal a viver com os filhos numa casa  e outra bem diferente, são dois casais a viver na mesma casa, mesmo esta sendo bastante espaçosa como a que eles habitavam.
Por outro, todos os dias os retornados traziam novas de histórias de horror e guerra, muitos chegavam apenas com a roupa que tinham vestida, tal a pressa com que fugiram, apenas interessados em salvar a vida. 
As cartas da filha, iam chegando regularmente, mas  se havia um atraso, já eles ficavam numa aflição.
A falar verdade, eles só ficaram descansados, quando em Março de 75, foram ao aeroporto e viram a filha e o genro, saírem do Boeing  707, recém chegado de Angola.
Poucos dias mais tarde, a família está toda reunida para assistir ao casamento da segunda filha do Manuel, que se realizará em Lisboa.
Entretanto a filha mais velha já alugou casa, por sinal a poucos metros da casa paterna. 
Finalmente o casal, tem os filhos todos perto, e pode viver agora um pouco mais descansado.
Quase no final de 75, a filha mais nova anuncia que está grávida. O Manuel e a mulher ficam radiantes com a notícia do primeiro neto. Agora eles já sabem que a filha mais velha, tem mantido ao longo dos seis anos de casada uma luta árdua contra a esterilidade, sem sucesso até à data.


24.5.16

MANEL DA LENHA - PARTE LXXVI


                         1º de Maio de 1974. Imagem de arquivo da RTP


Enquanto em Portugal se vivem tempos de euforia, e também de alguns excessos que sempre acontecem nos processos revolucionários, a filha e o genro do Manel, têm um outro problema. É que o jovem como atrás se disse tinha metido um requerimento à Marinha para sair após a comissão, e na actual conjuntura política, a Marinha era o emprego certo que tinha e a saída era uma incógnita que talvez se transformasse num grande erro a prejudicar todo o futuro do casal. Analisados todos os prós e contras, o jovem faz novo requerimento à Marinha a solicitar, a continuação. Informa, que anteriormente requisitara a saída por não estar de acordo com  a política do governo vigente, mas dado que a revolução tinha deposto o mesmo, tinha desaparecido o motivo que lhe fizera pedira a baixa, e pedia por isso que essa petição fosse anulada.
Posto isto, só lhe restava rezar, para que o pedido fosse aceite. Ele sabia, que em democracia, Portugal não podia continuar a colonizar outros povos. E com a independência, decerto a maioria do povo a viver em África regressaria ao "puto",  (era assim que em África designavam Portugal).
O país não ia ter emprego para tanta gente. E ele teria 32 anos, 11 dos quais na Marinha.
Isto mesmo, contava a filha, numa carta que o Manel recebeu no último dia do mês de Abril.
No dia seguinte, era o 1º de Maio. O primeiro depois da queda do Governo. Milhões de Portugueses vieram para as ruas por todo o país. Ninguém queria ficar em casa, nesse dia tão importante para os trabalhadores, o primeiro que se vivia em Liberdade. Ao som do grito de guerra, "O povo unido, jamais será vencido" empunhando a bandeira nacional, bandeiras partidárias ou slogans políticos, o povo desfilou pelas ruas de Norte a Sul do País. Mas não só. Também nas colónias o 1º de Maio foi festejado, com a exigência da libertação dos presos políticos. 
Na verdade, a ordem de libertação dos presos políticos, uma das primeiras medidas da Junta, foi apenas para a Metrópole. Só no 1º de Maio, com a substituição do governador de Cabo Verde pelo Comandante-Chefe Comodoro Pedro Fragoso Matos, nomeado Encarregado do Governo, foram libertados os presos políticos do Tarrafal

23.5.16

MANEL DA LENHA - PARTE LXXV

                                   A rendição da PIDE-DGS. Foto de Alfredo Cunha

 Finalmente a Junta de Salvação Nacional foi aprovada, tendo como Presidente da República, o General Spínola. Esta decisão ia contra o que o MFA, tinha decidido anteriormente, pois quando delinearam o golpe, escolheram para Presidente o General Costa Gomes.
Perto da meia-noite, são aprovados, os primeiros decretos lei, embora só no dia seguinte perto das nove e meia, a Marinha, apoiada por uma força do Regimento de Cavalaria 3, tenha obtido a rendição de Silva Pais, o dirigente da PIDE-DGS.
Talvez tenha sido o dia mais longo, da história de Portugal, mas fora apesar disso um dia de extrema felicidade para o povo, pois a revolução tinha vencido o regime totalitário e repressivo que vigorava há quase 50 anos, sem deixar que os opositores se organizassem, e dividissem o país dando origem a uma guerra civil.   
Apesar dos quatro mortos na noite anterior pela sinistra polícia política, o povo estava em festa por todo o país. Exigia-se o fim das guerras nas colónias, embora ninguém soubesse muito bem como iria acabar.
Para o Movimento das Forças Armadas e Junta de Salvação Nacional ia começar agora um novo trabalho, por ventura mais árduo do que a preparação da revolução.
No dia seguinte Sexta-feira, Manuel foi chamado ao escritório, e foi-lhe comunicado que a filha ia telefonar dentro de minutos, por isso era para ele aguardar ali pelo telefonema. O pobre do Manuel ficou a tremer. Que se passaria para a filha telefonar de Luanda? Teria acontecido alguma coisa com o marido? Não teve muito tempo para conjecturas, pois logo de seguida a filha telefonou.
Disse que estavam bem, não podia estar muito tempo ao telefone, as chamadas eram muito caras, queria saber se estavam todos bem, e se a revolução era séria, se o regime tinha mesmo caído.
Ele confirmou e logo de seguida a filha despediu-se mandando um abraço para a família e desligou.
Quando ele saiu do escritório, já a mulher estava a chegar, esbaforida com medo de alguma má notícia. É que na Seca, sempre se utilizou o sistema de chamar o trabalhador ao escritório, por um altifalante. Faziam-no uma vez e repetiam-no mais duas vezes. De modo que todos os trabalhadores ouviam, e quase sempre quando tal acontecia, as notícias não eram boas.
O Manuel contou à mulher o que se passava, e ambos retomaram o seu trabalho.

20.5.16

MANEL DA LENHA - PARTE LXXIV


                                     Foto do Google. Desconheço o autor..


O dia ia longo. Por todo o país o povo seguia ávido os comunicados que a rádio transmitia, num misto de ansiedade e temor. Ansiavam ouvir que tudo tinha terminado, e o país estava livre do fascismo, e ao mesmo tempo, temiam que as coisas dessem para o torto e despoletasse uma guerra civil. Em Lisboa, contrariamente aos constantes apelos para a população ficar em casa, o povo estava em peso na rua, apoiando e incentivando os militares.  Por serem espectadores atentos,eles sabiam exactamente o que se passava coisa que o resto do país, ouvindo apenas às notícias transmitidas não tinha.
À medida que o povo, vê as Forças do Movimento conquistarem objectivos, começa a sentir-se confiante, e a dirigir-se em massa para a rua António Maria Cardoso, onde se situava a sede da PIDE-DGS. Estes, vendo a sua sede cercada pela população, abrem fogo sobre o povo., tendo efectuado 4 mortos e 45 feridos, que serão socorridos pela Cruz Vermelha, e levados para o Hospital S. José e Hospital Militar.
Os tiros disparados na sede da PIDE-DGS, ouvem-se no Largo do Carmo, onde o capitão Andrade Moura, do Regimento de Cavalaria 3 informado por populares do que se passava, faz deslocar uma viatura blindada, e alguns jeeps para o local. Com grande dificuldade, consegue aproximar-se e monta um cerco à sede da PIDE. Não tem no entanto pessoal suficiente para um assalto às instalações. 
Com tudo a correr como esperado, vivia-se no Posto de Comando um ambiente descontraído, interrompido pelo Capitão Rosado da Luz, que informa que a "guerra ainda não está ganha" e conta a situação na rua António Maria Cardoso.
O Major Otelo, pede ao general Spínola, para convencer o ex-Ministro do Interior, César Moreira Baptista, preso na unidade, para convencer o director da PIDE, Silva Pais a render-se. No telefonema, Silva Pais mostra-se disposto à rendição, caso as Forças Armadas garantam a protecção dos seus agentes.
Enquanto isso, vão-se chamando pelo telefone, os elementos indigitados para a Junta de Salvação Nacional. Foram chegando o General Costa Gomes, o Capitão de Fragata Rosa Coutinho, o Brigadeiro Jaime Silvério Marques, o Coronel Galvão de Melo, Capitão de Mar e Guerra Pinheiro de Azevedo. O General Diogo Neto está em Moçambique.
Perto das vinte e três horas inicia-se uma reunião entre a Junta de Salvação Nacional, e os oficiais do MFA.  Dando corda ao seu projecto de poder pessoal, Spínola afirma que é necessário rever o programa do MFA que anteriormente assinara. Vítor Crespo responde agreste " os blindados e tropas ainda estão na rua, se for preciso continua-se com o golpe".







Volto a lembrar que todos este factos, são objecto de pesquisa, de jornais da época, do arquivo da RTP, e sobretudo da base de dados históricos. Na altura eu estava em Luanda. Lembro também que se introduzo a revolução, nesta espécie de biografia do Manel, é porque entendo que ela mudou por completo a Nação e o povo. E o Manel era apenas uma pequena partícula desse povo sofrido.

19.5.16

MANEL DA LENHA - PARTE LXXIII

Fotos da Chaimite BULA que transportou Marcelo Caetano após a rendição. Foto daqui

Seis e meia da tarde, chega a Lisboa, o Agrupamento do Norte, e dirigem-se ao RAL 1.
Contactam com o Capitão Rosário Simões que acabava de convencer o Coronel Frazão a aderir ao Movimento. Encontram aí também a força da Escola Prática de Infantaria. Seguem para a Manutenção Militar no Beato, onde as viaturas militares reabastecem,sendo distribuídas rações de combate para dois dias. 
Cerca das 19 horas, o Capitão Rui Rodrigues, recebe ordem para se deslocar com uma força, formada pelo RAP 3 do  Agrupamento do Norte, ao Comando da Região Aérea de Monsanto, e prender o Ministro do Exército, o Ministro da Defesa e o Ministro da Marinha, que aí se tinham refugiado. Estas entidades foram depois  conduzidas ao Posto de Comando na Pontinha.
Meia hora mais tarde, no Largo do Carmo, a abarrotar de população entusiasmada, o Capitão Salgueiro Maia, teme que a operação da retirada dos membros do governo acabe numa onda de violência, que os obrigue a abrir fogo, e a provocar uma chacina. Ordena que a Bula, uma Chaimite, encoste à porta de armas, e nela entram Marcelo Caetano, Rui Patrício e César Moreira Baptista, acompanhados de outros membros do Governo que acabava de se render.
A auto metralhadora avança devagar por entre a multidão dirigindo-se para o posto de comando na Pontinha.
Cerca das vinte horas, a força comandada por Costa Correia, chega ao Ministério da Marinha no Terreiro do Paço, sendo informado pelo chefe do Estado Maior da Armada, de que já tinha sido comunicado oficialmente a adesão da Marinha ao Movimento.
Às vinte e trinta, Spínola chega ao posto de comando com os membros de governo presos. Cumprimenta Otelo e os restantes oficiais dizendo: "Senhores oficiais , devo informá-los que acabo de assumir o poder no Quartel do Carmo. Agora vamos ao trabalho".



Recordo que todos este factos, são objecto de pesquisa, de jornais da época, do arquivo da RTP, e sobretudo da base de dados históricos. Na altura eu estava em Luanda. Lembro também que se introduzo a revolução, nesta espécie de biografia do Manel, é porque entendo que ela mudou por completo a Nação e o povo. E o Manel era apenas uma pequena partícula desse povo sofrido.







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18.5.16

MANEL DA LENHA - PARTE LXXII

Foto do Regimento de Lanceiros 2. em 1980. Desconheço o autor da mesma.

Pelas 16 horas, o capitão-mar-guerra Pinheiro de Azevedo, comandante da Força de Fuzileiros do Continente, nomeia o capitão tenente Costa Correia para comandar uma força constituída por um Destacamento de Fuzileiros Especiais e uma Companhia de Fuzileiros . A força deveria dirigir-se ao Ministério da Marinha e obter a declaração formal de adesão da Marinha por parte do Chefe de Estado-maior da Armada. 
Enquanto isso, o Dr. Nuno Távora e o Dr. Feytor Pinto são recebidos pelo ainda Presidente do Conselho Marcelo Caetano, informam-no da disponibilidade do General Spínola, para aceitar a sua rendição e assumir o poder. Marcelo que se encontrava acompanhado pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros, e o seu Adjunto Militar Coutinho Lanhoso, decide pela sua rendição desabafando"assim o poder não cai na rua"
É redigida pelo Comandante Lanhoso a seguinte mensagem.  "O Presidente do Conselho está pronto a entregar o Governo ao General António de Spínola, e espera-o, para tal fim, no Quartel do Carmo" 
Enquanto Nuno Távora e Feytor Pinto se dirigem com a missiva a casa do General Spínola, Salgueiro Maia,  dirige-se ao Quartel do Carmo onde dialoga com o Comandante da unidade e outros oficiais verificando que a intenção era de rendição. Salgueiro Maia pede para falar com o Prof. Marcelo Caetano. E é recebido por ele. A conversa decorreu a sós e com grande dignidade. Nela o Prof. Caetano solicitou que um Oficial General fosse receber a transmissão de poderes para que o governo não caísse na rua, confirmando a sua rendição. 
Entretanto o General Spínola recebe os dois mensageiros, lê a missiva, mas diz não reconhecer a letra do Presidente. O telefone toca. É  Marcelo Caetano, que confessa a 
sua derrota ao estar cercado por uma força de blindados e por uma multidão ululante. Afirma que ao render-se o queria fazer perante alguém que pudesse garantir a ordem pública. Não desejaria render-se a um capitão. Pede a Spínola para vir assumir o poder. Spínola afirma que nada tem a ver com o Movimento. Marcelo Caetano mais uma vez lhe pede para vir quanto antes. 
Depois desta conversa, o general Spínola, liga para o Posto de Comando e fala com o Major Otelo. Pede para ser mandatado para receber a rendição do Presidente do Conselho, Marcelo Caetano. Spínola é mandatado para receber a rendição, e é informado que os dirigentes do regime, serão conduzidos ao Funchal por um DC 6 da Força Aérea.
Depois dirige-se ao Quartel do Carmo, aceita a rendição de Marcelo e informa-o que seguirá em avião militar para o Funchal.
A essa mesma hora, a Escola Prática de artilharia, sob o comando do Capitão Mira Monteiro, consegue a rendição do Regimento de Lanceiros 2.
Um pouco mais tarde, a Escola Prática de Infantaria, liberta os restantes oficiais presos no RAL 1 por terem participado no 16 de Março. 




Relembro que todos este factos, são objecto de pesquisa, de jornais da época, do arquivo da RTP, e sobretudo da base de dados históricos.

17.5.16

MANEL DA LENHA - PARTE LXXI


                               Foto de Alfredo  Cunha
Pouco depois das 13 horas, o Rádio Clube Português começa a transmitir aos microfones as ordens do Comando do Regime, que se mostra desorientado e fica ainda mais desmoralizado por ter sido interceptado o seu sinal.
O povo está na rua, segue com entusiasmo tudo o que se passa, apercebe-se da tentativa de cerco e a informação chega rápida aos militares, e daí ao Posto de Comandos, que dá ordem ao Regimento de Cavalaria 3 de Estremoz , que se encontrava a caminho da Trafaria para libertar os militares ali presos em consequência do 16 de Março,  para inverter a marcha e ir para o Largo do Carmo, a fim de apoiar a retaguarda da Escola Prática de Cavalaria.
Com este reforço, as forças do regime desmobilizam, seguindo alguns para os respectivos quartéis, enquanto outros se colocam às ordens do capitão Andrade Moura, aderindo ao Movimento. 
Às duas e meia, o Radio Clube Português, difunde um comunicado, em que noticia os objectivos já conquistados e informa do cerco no Quartel do Carmo a Marcelo Caetano e outros membros do governo ali refugiados.
Enquanto isso, via rádio, Otelo contacta Salgueiro Maia. Diz que a GNR tenta ganhar tempo, pelo que é preciso forçar a rendição. A prisão de Marcelo desmobilizaria as forças que ainda se mantêm fieis ao governo.Diz para forçar os portões da GNR ou por encosto de blindado, ou por rajadas de metralhadora. Salgueiro Maia mostra alguma reticência em abrir fogo e Otelo manda-lhe por estafeta, a seguinte mensagem
"Com o megafone tenta entrar em comunicação e fazer um aviso-ultimato para a rendição. Eu já ameacei o coronel Ferrari, mas ele parece não ter acreditado. Com auto metralhadoras rebenta as fechaduras do portão para verem que é a sério. Julgo que não reagirão. Felicidades. Um abraço. 
Otelo"
Salgueiro Maia, concede um prazo de dez minutos, para a rendição do Quartel do Carmo, findo o qual abrirá fogo. 
Enquanto no Carmo, se espera por uma resposta ao ultimato de Salgueiro Maia, é dada a ordem à Escola Prática de Cavalaria, estacionada no Cristo-Rei para se dirigir à Trafaria e libertar os 11 oficiais, ali presos pela tentativa de golpe a 16 de Março.
Esgotado o tempo dado por Salgueiro Maia, sem que a rendição fosse efectivada, este deu ordem ao Tenente Santos Silva para com as metralhadoras da sua Chaimite,  abrir fogo sobre a parte superior da frontaria do quartel. São disparadas várias rajadas estoirando vidraças da frontaria do edifício. 
Isto teve um efeito arrasador sobre o animo das forças leais ao governo. Marcelo Caetano já sabe que no Regimento de Lanceiros 2, apenas o comandante e 2º comandante, estão com ele. Todos os restantes oficiais e praças assumiam posições hostis ao regime.
Ainda assim não surge a almejada rendição. Salgueiro Maia, envia o coronel Abrantes da Silva para negociar a rendição, mas este é feito refém.
Suspeitando que as suas forças possam ser atacadas por um heli canhão, Salgueiro Maia prepara-se para utilizar armas pesadas, e ordena a colocação de um blindado em posição de tiro.
Os motores arrancam, e a população civil procura abrigos. Inicia-se a contagem, mas ao chegar a dois, surgem junto do Capitão Salgueiro Maia conduzidos pelo Tenente Assunção dois civis que se apresentam como o Dr. Pedro Feytor Pinto (Director dos Serviços de Informação) e Dr. Nuno Távora, secretário do Dr. Pedro Pinto (Secretário de Estado da Informação e Turismo) que portadores de uma credencial do General. Spínola pretendendo dialogar com o Prof. Marcelo Caetano. É autorizada a sua entrada no quartel. 



Relembro que todos este factos, são objecto de pesquisa, de jornais da época, do arquivo da RTP, e sobretudo da base de dados históricos.


16.5.16

MANUEL DA LENHA - PARTE LXX

                           Foto de Alfredo Cunha


Quando o Manuel e a mulher chegaram ao trabalho, já na seca, se sabia que estava a decorrer um golpe de estado em Lisboa. Cabe aqui recordar que a seca, pertencia à família Bensaúde com sede em Lisboa, logo era normal a sede contactar o escritório da mesma, todas as manhãs. O gerente, comentou com o empregado, que por sua vez comentou com o encarregado, e em pouco tempo o pessoal já todo sabia, e torcia para que tudo desse certo, mas não se atreviam a manifestar-se, com receio de que as coisas dessem para o torto, e pudessem sofrer as consequências. 
Também o filho foi posto ao corrente logo que chegou ao trabalho, na CP.  Quem não sabia de nada era a filha, que embora de rádio ligado, não obtinha mais do que música e os tais apelos à calma, que de vez em quando eram transmitidos.
Naquele tempo, não se tinham ainda inventado os telemóveis, e em casa do Manuel nem sequer havia telefone. Se houvesse, talvez o namorado da rapariga, lhe contasse que estava no Terreiro do Paço e lhe dissesse o que se estava a pensar.
Às onze e meia, já com as forças do governo neutralizadas, e os ministros e chefes militares, refugiados no quartel do Carmo com Marcelo Caetano, ou em Lanceiros 2 , chega do comando de operações a ordem para sair, uma coluna para o Largo do Carmo, a fim de obter a rendição do Presidente do Conselho, e outra coluna irá sitiar o quartel general da Legião Portuguesa, mantendo-se o resto dos militares, em posição no Banco de Portugal e Rádio Marconi.  Um quarto de hora depois, Salgueiro Maia desloca-se com a coluna da Escola Prática de Cavalaria, para o Largo do Carmo. As restantes unidades, sob o comando de Jaime Neves, irão sitiar o quartel general da Legião Portuguesa, que se rende sem grande resistência.
Mais ou menos à mesma hora, o Rádio Clube Português, lê um comunicado em que se informa que o Movimento domina de norte a sul do país, e que em breve chegará a libertação.
Só então a filha do Manuel percebe o que se passa. E pensa que se não tivesse ficado em casa, talvez pudesse ver "in loco" o que se passava.
Às 13 horas, Salgueiro Maia está já no Largo do Carmo, quando o comando do regime dá ordens às forças que ainda se mantinham fiéis o cercarem. Assim a desfalcada Cavalaria 7, toma posições no Largo de Camões, forças da GNR ocupam o Largo da Misericórdia,e Rua Nova da Trindade. Uma força da polícia de choque ocupa o Largo do Chiado.   




Relembro que todos este factos, são objecto de pesquisa, de jornais da época, do arquivo da RTP, e sobretudo da base de dados históricos.