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8.10.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE XXI







Se Ricardo reparou nos sorrisinhos trocados pelos filhos e no seu ar de conspiração durante o jantar, não o deixou transparecer. Na verdade o dia tinha sido complicado, estava cansado, E verificar que os filhos pareciam felizes no primeiro dia em que regressara ao trabalho depois daquelas férias, era menos uma preocupação.
Na véspera, aproveitara um momento em que todos estavam no jardim, para falar com Antónia. Pensara pedir-lhe para entrar imediatamente em contacto com Francisco se observasse algum comportamento menos correto da parte de Clara para com as crianças durante a sua ausência.
No entanto, por alguma intrínseca razão do seu subconsciente  não o fez. E acabou apenas por lhe pedir que ajudasse a senhora, como toda a vida o ajudara a ele.
-Não se apoquente. Cuide de si, que é quem vai estar em perigo – respondera-lhe ela. – Não consigo entender, acabaram com a guerra nas colónias, e agora andam por países estrangeiros, metidos em guerras alheias. Ainda um dia gostava que me explicassem a lógica disso.  
Ricardo poderia explicar-lhe que Portugal era parte integrante da NATO,e que por isso as suas forças militares poderiam ir para qualquer parte do mundo,  poderia recitar-lhe o hino pelo qual se regiam e que tinha sempre na memória.

Iremos até onde a Pátria for
E seja em paz
Ou na guerra
Que este clamor
Vibre imortal.
De mar em mar,
De serra em serra:
Portugal! Portugal! Portugal!

Mas será que ela ia entender? 
Alheia aos seus pensamentos, Antónia continuou:
-Mas enfim, vá descansado que por aqui, vai correr tudo bem. O senhor não podia ter encontrado ninguém melhor para cuidar dos meninos. A senhora tem no peito, um coração amoroso, e a alma nos olhos. E os seus olhos dizem que ela os ama. Não tem com que se preocupar.
Mas era evidente que ele se preocupava. Já fizera um novo testamento. Porque quando se vai para uma missão, sabe-se como e quando se vai, não se sabe como se volta. Nem sequer se há volta. O que Clara lhe dissera naquele dia, calara fundo no seu peito. E fizera-o repensar toda a sua vida.
De tal maneira, que estava a pensar seriamente pedir a passagem à reserva no fim daquela missão.
Recordou-se do juramento que fizera, quando ingressara no exército

 «Juro, como português e como militar, guardar e fazer guardar a Constituição e as leis da República, servir as Forças Armadas e cumprir os deveres militares. Juro defender a minha Pátria e estar sempre pronto a lutar pela sua liberdade e independência, mesmo com o sacrifício da própria vida.»

Ele interiorizara-o e em todos aqueles anos cumprira-o com orgulho. Mas agora outros valores se levantavam. A sua obrigação já não era apenas com a Pátria, mas também com os filhos.
Sempre gostara muito de escrever. E ao longo dos anos fora enchendo blocos e blocos com as suas vivências, com as coisas que fora observando ao longo da vida, não só em Portugal, como nos países por onde andara. Quem sabe ele tinha material para um grande romance, e podia enfim cumprir o seu sonho de menino?
Na quarta-feira, o ambiente na casa estava pesado. Todos sabiam que Ricardo partiria no dia seguinte. Antónia fungava pelos cantos escondendo as lágrimas, para não afligir mais as crianças, já de si tristes com a eminente partida do pai. Alfredo ocultava no trabalho a preocupação. De um modo ou de outro, todos amavam Ricardo, e se sentiam tristes e preocupados com a sua eminente partida. Até Tiago, com a desculpa de ter que rever a matéria, que o ano escolar estava a começar, se fechara no seu quarto.
E Clara? Que sentia a jovem, que tinha aceitado um casamento que ela mesma rotulara de maluco, com um perfeito desconhecido? Que sentimento albergava agora, depois daquela semana e meia de convivência, pelo seu "marido"?