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17.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE XXIV




Chegaram a casa a meio da tarde, depois de uma paragem na Nazaré onde almoçaram uma deliciosa caldeirada. Não trocaram mais do que meia dúzia de palavras, no resto da viagem. O agradável convívio da tarde e noite de sábado, por certo ficara lá em Aveiro, já que agora se estudavam como dois antagonistas. Odete não conseguia perceber como João fora capaz de a trair. Como fora capaz de abraçar Inês, de se deitar com ela, depois de tudo o que tinham vivido em conjunto. E ficava furiosa consigo, por continuar a sentir-se atraída por ele, e por ter a certeza de que apesar do doloroso espinho que trazia no coração, o marido continuava a ser rei e senhor dentro dele. Tinha absoluta consciência de que teria sido sua, se ele o tivesse tentado na noite anterior. E essa consciência, deixava-a furiosa. Que tipo de mulher era ela afinal? Onde estava a sua dignidade?
Por seu lado, João sentia-se impotente, perante a indiferença da mulher. Não conseguia compreender como ela fora capaz de o abandonar, quando ele se entregou de corpo e alma a ela e ao amor que os unia. Tal como um condenado, conta os dias que faltam para a sua libertação, ele contou um a um todos os que passaram desde que ela se fora. Noite após noite, na solidão do seu leito, contabilizou, mais um dia que acabava sem saber dela. E foram muitos. Mil trezentos e  oitenta e sete dias exatos. Em tempos, pensou contratar um detetive. Desistiu, por pensar que seria indigno violar a privacidade da esposa.
- Finalmente em casa. Sei que deves estar ansiosa por ir ver a tua mãe, mas aconselho-te a tomares um banho e descansares um pouco. Está demasiado calor. Será melhor até para ela que descanse nestas horas de maior calor. O ideal será ires depois da hora do lanche. E eu acompanho-te.
Sentiu de novo vontade de o provocar.
- Porquê? Acaso pensas que me acoberto nas visitas à minha mãe para me encontrar com alguém?
Contraiu-se a expressão masculina. Cerrou os punhos e meteu as mãos nos bolsos das calças, para não ceder à tentação de lhe agarrar num braço e o apertar, como fizera no carro.
-Estás a ser perversa, e não te conhecia essa faceta,- disse com raiva. – Sempre tive um certo carinho pelos teus pais, e penso que dei sobejas provas disso. É natural que me preocupe com a tua mãe e queira ver como está.
- Desculpa. A gravidade da sua doença, e a minha vida atual, afetaram o meu discernimento.
Ele não respondeu. Virou-lhe as costas e dirigiu-se ao escritório. À entrada, voltou-se e disse quase sem expressão.
-No nosso quarto, estão todas as tuas coisas, roupas, calçado, tudo o que tinhas quando partiste.  Fisicamente não mudaste muito, por isso se precisares vai até lá e serve-te. Vou ficar por aqui uma meia hora, - disse fechando a porta atrás de si.
Ficou perplexa. Que homem guarda durante anos as coisas da sua esposa, depois de a ter traído?





9.8.13

ENCONTRO INESPERADO




 Aconteceu numa tarde de Julho. O calor apertava e toda a gente procurava o parque na margem do Vouga, pejado de seculares e frondosas árvores, sob cuja sombra, o ar era muito mais ameno.
Os bancos de madeira, pintados de vermelho vivo, lembravam manchas sangrentas, no meio de tanto verde.
Naquela tarde porém estavam tão cheios que quase não se lhes via a cor.
Procurando um lugar, cheguei a um pequeno terraço que se erguia sobre as águas, e sob a ponte de aço que atravessa o rio. É um terraço que lembra uma pequena sala, com três bancos dispostos em forma de U.
O banco central estava de frente para o rio, mesmo por baixo da ponte, e era ocupado por um homem e uma mulher. Os dois na lateral estavam vazios. Ocupei o da direita e quase em simultâneo um casal de meia-idade ocupou o da esquerda. Conhecia-os e por isso cumprimentei-os. E voltei a minha atenção para o casal desconhecido.
O meu lado detetivesco pôs-se a examiná-los e a fazer cogitações.
. Pareceu-me ver um ar de contrariedade no rosto masculino.
A mulher fazia renda, e parecia completamente absorvida pelo movimento da agulha.
Teria perto de quarenta anos, morena, de cabelo escuro, e vestia uma saia justa castanha, que só não lhe mostrava os joelhos, porque em cima destes repousava a renda que fazia. Uma tira larga, decerto para colcha ou toalha. Completava o traje, um camiseiro branco, que parecia saído do anúncio de um qualquer detergente.
O homem, parecia mais velho. Devia beirar os cinquenta, também moreno, cabelo castanho, tinha um ar simpático, vestia calça cinza, e camisa creme. Lançou-me um breve olhar, e voltou a interessar-se, pelos três filhotes de andorinha, que no ninho por baixo da ponte, piavam desalmadamente.
A mulher continuava a olhar o movimento das agulhas como se estivesse hipnotizada.
Estariam amuados?
Comecei a imaginar, uma briga, talvez por ciúmes, o homem além do ar simpático, tinha também um ar de malandreco. Imaginei o homem mirando alguma jovem bonita, quem sabe até a jovem da farmácia que tinha os mais lindos olhos azuis que algum dia presenciei, e a mulher sentindo-se humilhada, escondia na renda o seu desencanto.
Pouco depois, a andorinha mãe, passou veloz, num voo rasante junto à cabeça do homem, sentado no outro banco lateral. Assustado disse um palavrão, enquanto a mulher soltava uma sonora gargalhada. E logo disse:
-Que queres está apressada. Os filhotes estão com fome...
-E já falta um. Ontem eram quatro, hoje são só três. Um deve ter caído ao rio - disse o homem do banco da frente.
A mulher nem levantou os olhos, continuando a sua luta com a agulha de renda.
Então o homem levantou-se e foi embora.
A mulher levantou os olhos da renda, suspirou e sorriu para nós.
Aí percebi. Afinal todas as minhas conjecturas, não passavam mesmo de imaginação. Provavelmente o homem estaria a incomodar a mulher.
Pouco tempo depois um outro homem aproximou-se, e dando as boas tardes, beijou a mulher, que sorriu feliz.  Percebi a sua aflição anterior. Deduzi pela indumentária demasiado quente para o calor que estava, que o homem vinha do tratamento nas Termas, e que a mulher estava ali à espera que ele terminasse o tratamento, quando o homem com ar simpático e malandro a descobrira. A nossa presença, fez com que se sentisse frustrado e fosse embora, evitando assim um encontro desagradável.
E senti-me feliz...

Elvira Carvalho