Chegaram a casa a meio da tarde, depois de uma paragem na Nazaré onde almoçaram uma deliciosa caldeirada. Não trocaram mais do que meia dúzia de palavras, no resto da viagem. O agradável convívio da tarde e noite de sábado, por certo ficara lá em Aveiro, já que agora se estudavam como dois antagonistas. Odete não conseguia perceber como João fora capaz de a trair. Como fora capaz de abraçar Inês, de se deitar com ela, depois de tudo o que tinham vivido em conjunto. E ficava furiosa consigo, por continuar a sentir-se atraída por ele, e por ter a certeza de que apesar do doloroso espinho que trazia no coração, o marido continuava a ser rei e senhor dentro dele. Tinha absoluta consciência de que teria sido sua, se ele o tivesse tentado na noite anterior. E essa consciência, deixava-a furiosa. Que tipo de mulher era ela afinal? Onde estava a sua dignidade?
Por seu lado, João sentia-se
impotente, perante a indiferença da mulher. Não conseguia compreender como ela fora capaz
de o abandonar, quando ele se entregou de corpo e alma a ela e ao amor que os
unia. Tal como um condenado, conta os dias que faltam para a sua libertação,
ele contou um a um todos os que passaram desde que ela se fora. Noite após
noite, na solidão do seu leito, contabilizou, mais um dia que acabava sem saber
dela. E foram muitos. Mil trezentos e oitenta e sete dias exatos. Em tempos, pensou contratar um detetive. Desistiu, por pensar que seria indigno violar a privacidade da esposa.
- Finalmente em casa. Sei que
deves estar ansiosa por ir ver a tua mãe, mas aconselho-te a tomares um banho e
descansares um pouco. Está demasiado calor. Será melhor até para ela que
descanse nestas horas de maior calor. O ideal será ires depois da hora do
lanche. E eu acompanho-te.
Sentiu de novo vontade de o
provocar.
- Porquê? Acaso pensas que me
acoberto nas visitas à minha mãe para me encontrar com alguém?
Contraiu-se a expressão
masculina. Cerrou os punhos e meteu as mãos nos bolsos das calças, para não
ceder à tentação de lhe agarrar num braço e o apertar, como fizera no carro.
-Estás a ser perversa, e não te
conhecia essa faceta,- disse com raiva. – Sempre tive um certo carinho pelos
teus pais, e penso que dei sobejas provas disso. É natural que me preocupe com
a tua mãe e queira ver como está.
- Desculpa. A gravidade da sua
doença, e a minha vida atual, afetaram o meu discernimento.
Ele não respondeu. Virou-lhe as
costas e dirigiu-se ao escritório. À entrada, voltou-se e disse quase sem
expressão.
-No nosso quarto, estão todas as
tuas coisas, roupas, calçado, tudo o que tinhas quando partiste. Fisicamente não mudaste muito, por isso se
precisares vai até lá e serve-te. Vou ficar por aqui uma meia hora, - disse
fechando a porta atrás de si.
Ficou perplexa. Que homem guarda
durante anos as coisas da sua esposa, depois de a ter traído?
