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A casa do Pinheiro Manso, tinha agora luz eléctrica, pois o anterior morador fizera uma puxada dum poste eléctrico que passava ali ao lado, e isso deixava o Manuel e a mulher mais descansados com os filhos, do que se ainda
fosse como noutros tempos a candeeiros a petróleo ou a velas. Assim depois do
jantar, ele ou a mulher acompanhavam os filhos até à casa a uns cinquenta
metros da casa da porteira, e depois de verificarem que estava tudo bem,
dirigiam-se à casinha da porteira, onde pernoitavam. O barracão junto ao rio, ficou vazio, se exceptuarmos as ferramentas agrícolas que o Manuel necessitava para o quintal. Pois ele continuava a cavar,
semear e colher o quintal. Por medo de que sabendo que ali já não havia moradores, os gatunos fossem de noite assaltar as
capoeiras, mudaram-se os animais para umas capoeiras junto à nova casa, que
anteriormente tinham sido usadas pelo Bernardino, o caseiro, que residia mesmo
em frente da casa da porteira, e até o porquinho veio para um chiqueiro ao lado
do chiqueiro do caseiro. A filha mais velha continuava a trabalhar no
laboratório, mas vivia agora com os pais, pois o futuro sogro tinha voltado a
casar e os filhos não aceitaram uma tão rápida substituição da mãe. Assim o
rapaz, mandara à namorada algum dinheiro para que alugasse uma casa na zona, e
tratasse dos papéis para o casamento, que ele chegaria em finais de Julho,
teria dois meses de licença e queria passa-los já casado, e na sua casa pois
não queria ver o pai. Por isso, a rapariga vinha agora todos os dias para casa,
a fim de dar andamento às coisas para o casamento que se avizinhava.
No dia 24 de Fevereiro, foi o Festival da
Canção, que Simone de Oliveira haveria de vencer com a Desfolhada. Naquele tempo o Festival era muito publicitado, era mesmo considerado o evento do ano e toda a gente queria vê-lo. Os filhos do
Manuel foram com o pai, assistir ao festival na TV do "Galitos" na Telha.
Porém a letra da canção, do saudoso Ary dos Santos, desagradou a muita gente. Era uma letra mais que arrojada para a época. De tal
modo que no dia seguinte, não se comentavam fatos nem adereços, nem outros intervenientes, mas tão-somente
a letra da canção vencedora. Na época não era fácil aceitar que alguém cantasse
“Quem faz um filho, fá-lo por gosto”
14 comentários:
Tempos difíceis...
Roubar galinhas era sinónimo de pobreza...
Ary dos Santos foi uma lufada de ar fresco que a censura deixou passar por incompetência dos censores, que eram pouco cultos... mas a sociedade em geral e os jornalistas em particular eram muito conservadores.
Mais um magnífico capítulo. Continuo a gostar.
Bom resto de semana, querida amiga Elvira.
Beijo.
Lendo os seus últimos posts e acompanhando as novidades...
A frase da música e interessante e imagino o "choque" na ocasião...
Uma boa tarde por aí... Bj
Então será que alguém faz um filho sem ser por gosto? Como se costuma dizer, era um atraso de vida, ou se calhar preconceitos da sociedade, que não se podia expressar livremente, por causa do regime!
Tenha uma boa boa amiga Elvira, um abraço,
Eduardo.
Nessa época o festival da canção era o assunto do ano. Hoje em dia já não é o mesmo.
Abraço, Elvira
Dia 24 de Fevereiro!
No dia do meu 25º aniversário
que melhor prenda me poderia dar Ary?
Beleza de postagem Elvira!Uma boa noite!
Abraços,
Mariangela
As letras de músicas que, passando o crivo da censura, se tornavam autênticos manifestos políticos.
Bfds
Acompanhado a historia.
Bom fim de semana!
Isabel Sá
http://brilhos-da-moda.blogspot.pt
E é com muito gosto que continuo a passar por este cantinho, cheio de histórias e partilhas.
Tudo de bom.
A letra da Desfolhada foi polémica? Que fantástico. Quando era pequena, o Festival da Canção ainda era um acontecimento relevante. Agora... já não me lembro do último a que assisti.
Beijinho amiga Elvira, votos de um lindo fim-de-semana (apesar da chuva)
Ruthia d'O Berço do Mundo
Pois é o país parava na altura do Festival da Canção, neste ano foi realmente bastante polémico, as mentalidades ainda eram tacanhas e consideravam um insulto a magnifica letra do Ary dos Santos poeta que infelizmente nos deixou muito cedo.
Um abraço e bom fim de semana.
Quantas recordações aqui descritas que nos transportam ao nosso tempo de juventude de sonhos e de encantos!
Uma escrita sempre agradável.
Aqui se também se roubavam galinhas. Gostei muito do texto.
Beijo*
Só o Ary dos Santos para escrever uma letra daquelas, que nada tem de especial, mas para a época com tanto obscurantismo, teria de causar confusão.
xx
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