23.4.16

MANEL DA LENHA - PARTE LX


Pessoal estendendo bacalhau com os carrinhos de mão. Em baixo os carros grande que vieram substituir os carrinhos de mão. Com os quais apenas 4 pessoas estendiam uma mesa inteira,
Eram transportados por tractor, até ao início das mesas, e só dentro do espaço delas, eram empurrados pelas pessoas que estendiam ou recolhiam o bacalhau. Cliquem nas fotos para ampliar

Poucos dias depois da partida do genro, rebentam três bombas em instalações militares  em Lisboa.
O mundo está em ebulição.  Por todo o lado há uma enorme sede de Paz, Democracia e Justiça.
E foi essa mesma sede, que no Chile, levou Salvador Allende  ao poder, nesse mês de Março.
Manuel não acredita em nada que venha do governo. Ele continua a escutar outras notícias, mas cala-se.  Já viu desaparecerem alguns conhecidos seus. Tem um filho, um genro, e um sobrinho militares. Tem receio que uma imprudência da sua parte, os possa afectar. E assim quando se sente mais revoltado, pega na enxada e vai para o terreno. E a cada cavadela, despeja a revolta que sente.
Depois, a mulher anda outra vez toda chorosa, com a partida da filha mais velha. 
Na Seca a safra chega ao fim. Triste, o pessoal despede-se sem saber se regressará em Outubro. Fala-se que o patrão vai comprar duas modernas máquinas de lavar bacalhau. Diz-se que cada máquina terá duas mulheres, e que essas quatro mulheres lavarão em oito horas o mesmo bacalhau que cinquenta lavavam pelo processo tradicional nas tinas. Também se diz que ele vai comprar um pequeno tractor e carros grandes para serem atrelados ao tractor. Cada carro colherá uma mesa inteira de bacalhau. Tanto como dez mulheres com os pequenos carros de mão. Se for verdade, eles sabem que das actuais quatrocentas pessoas, nem metade serão chamadas à safra seguinte. É o progresso a impor-se.
Manuel não tem o seu emprego em risco. E a mulher também não, já que será, sempre precisa, uma porteira na Seca.
Mas custa-lhe pelos amigos. Ainda que o trabalho fosse mal pago, era uma forma de ganharem algum dinheiro em metade do ano, pois a maioria deles não têm nada de seu e nas aldeias onde vivem, o trabalho é praticamente nulo. 

22 comentários:

Luis Eme disse...

Não venho cá muitas vezes, mas quando venho aproveito para ler uma série de episódios desta importamte autobiografia, em que a Elvira mistura a sua vida com a vidinha do nosso país, com uma componente histórica rigorosa e importante.

Abraço e Feliz Abril em Festa.

Isa Sá disse...

A passar para acompanhar a história e desejar um bom fim de semana!


Isabel Sá
http://brilhos-da-moda.blogspot.pt

✿ chica disse...

Interessantes as fotos e explicações ...

E o medo, a insegurança fizeram Manuel pra gastar sua raiva contra a política cavar, cavar... Aqui no Brasil estamos precisando fazer "escavações",rs... Gostando sempre de te acompanhar e já estamos no LX!! bjs, chica

Mariangela do lago vieira disse...

Como foi triste esta situação vivida pelo país. O Manuel foi sábio em ficar calado.
E a seca sedendo lugar ao progresso...
e para os que depende desse pingado, será difícil!
Muito bom este episódio.
Abraços, e um ótimo dia amiga!
Mariangela

Mariangela do lago vieira disse...

Como foi triste esta situação vivida pelo país. O Manuel foi sábio em ficar calado.
E a seca sedendo lugar ao progresso...
e para os que depende desse pingado, será difícil!
Muito bom este episódio.
Abraços, e um ótimo dia amiga!
Mariangela

Edumanes disse...

Nesse tempo, os alentejanos, descontentes com regime às perguntas que lhes eram feitas, respondiam a cantar! Para despistarem a PIDE, do caminho, pelo qual eles pretendiam seguir até à liberdade!
Enquanto que o Manuel da lenha pegava na enxada, para ver se conseguia em cada cavadela espantar a revolta que, certamente, sentia, talvez, devido à situação
que se vivia, sem se saber como serio o futuro? As máquinas está provado, que aliviam o esforço humano, mas, todavia, causam desemprego, porque uma máquina que faz o trabalho de 20 ou 30 pessoas, só precisa duma pessoa para a manobrar, as restantes fica sem trabalho e sem trabalho não recebem salário, e sem dinheiro não se compra é que se precisa para a alimentação, de quem precisa de ser alimentado!

Tenha um bom fim de semana, prolongado, amiga Elvira, um abraço,
Eduardo.

Camila e Carol disse...

Ótimo post :) lindo final de semana pra ti :)
Beijokas da Camila e Carol
já tem post novo no blog
Vamos Papear 

Silenciosamente ouvindo... disse...

Amiga descreve tão bem certas situações vividas realmente
por pessoas. Desde sempre o homem cria máquinas para substituir
o trabalho manual do homem e da mulher.
Repare em certos supermercados já colocaram máquinas para ser o
próprio cliente a passar os produtos e pagar. Um dia só haverá
dessas máquinas. Eu recuso-me a utilizá-las, mesmo que fique
mtº. tempo à espera.
Desejo que esteja bem.
Bom fim de semana, com o 25 de Abril(distante, mas ainda
no m/coração, apesar de tudo...)
Bjs.
Irene Alves

Ane disse...

OI Elvira!Vim atualizar a leitura dos capitulos... Hoje em dia deve estar bem diferente todo este processo que era feito com o bacalhau,mas gostaria de ter visto como era antigamente.Em todos os setores as máquinas estão substituindo o trabalho humano,embora isso tenha vantagens,há desemprego também.Mas pelo jeito,em todo tempo,a gente sofre com governos ruins e se revolta com as coisas erradas que ver acontecendo...Um abraço!

Gaja Maria disse...

Uma grande lição da nossa história Elvira. Eu moro na Província e nessa altura era criança, desconhecia como era a vida noutros lugares. Estou a adorar saber tudo isto. Beijinho

Andre Mansim disse...

Belo capítulo Elvira!

A história do Manoel confunde-se com a história de Portugal, e você deveria ser historiadora.

Muito bom!!!

Rogerio G. V. Pereira disse...

Revolta
Tivesse eu enxada
e terra
onde enterra-la
para depois
colher-lhe a safra

Carmem Grinheiro disse...

Olá, querida Elvira.
Às vezes falamos, porque queremos dizer algo, e dizemos, de facto, mas sempre a achar que não são as palavras exactas, aquelas que o momento ou a circunstância pedem. Leio, imagino-me de enxada na mão a enterrar na terra minha própria revolta, onde os ouvidos alheios não a possam ouvir. Imagino-me a ver meu posto de trabalho ocupado por uma evolução dita boa, que ainda hoje se impõe e pergunto-me se será, de facto, tão boa, pois que o bom era a carrada de gente, células da humanidade, terem trabalho para subsistir. E... não encontro palavras que colmatem tanta dor de vida.

* Você sabe, tão bem!, descrever ao pormenor uma vida, fruto das suas memórias e, decerto também há-de se valer das memórias que o pai e mãe lhe passaram.
Um bj amg

Blog da Gigi disse...

Lindo dia!!!!!!!!! Beijos

São disse...

Muito bom lembrar a dura realidade do antes de Abril 1974...


Bom domingo e excelente 25 de Abril !

Abraços

aluap Al disse...

Foi assim em muitos lugares, muitas ferramentas de trabalho deram lugar a máquinas que passaram a fazer o trabalho que antes tinha de ser feito por meia dúzia de mulheres ou mais.
As nossas terras estão seguramente cheias de pessoas com memórias destas, só que poucos falam delas. Ainda bem que existem os blogues para exprimir as mágoas, as misérias e a revolta daquela guerra.
Parabéns Elvira por todos estes textos, assim os netos de hoje, amanhã terão ideia de como foi a vida dos seus avós para contar aos filhos.
Bom feriado!

Renata Maria disse...

Tudo bem explicadinho, em composição com as fotos. Amei! beijo*

esteban lob disse...

Veo Elvira que los tentáculos de tus historias abarcan la totalidad del mundo y que mi Chile, no escapa a tus menciones.

Abrazo.

LopesCa Blog disse...

A seguir a história ;)

Anete disse...

Mais um capítulo bem escrito e com fatos que nos trazem reflexões e lições...
Gosto de saber dos detalhes dos trabalhadores...
Um grande abraço...
Vamos adiante...

Odete Ferreira disse...

Continuando a ler com muito interesse esta saga familiar, entrosada com as componentes sócio-políticas de cada fase.
Por tal, fico grata.
Bjo, amiga :)

Dorli Ramos disse...

Oi Elvira,
Que vida sem esperança essa. Não deve ser fácil perder o pouco que pode ter.
Beijos
Minicontista2