11.4.16

MANEL DA LENHA.- PARTE XLVI


Esta era a casa da porteira, A janela é o quarto, a outra janelinha redonda é a casa de banho e a porta dá acesso à cozinha. Foto minha.


Nos dias que se seguiram os jornais contaram como puderam a tragédia. E digo que contaram como puderam porque as chuvas não explicam tanta morte, e tanta gente desalojada. Certo que a chuva foi muita, dizem que casos destes só acontecem uma vez a cada 500 anos. Mas a miséria em que vivia grande parte da população, muitos em barracas situadas perto de ribeiros, matou tanto ou mais que a chuva. Porém,  isso os jornais não podiam noticiar, que a censura  cortava tudo o que pudesse pôr em questão o governo . 
No laboratório onde a filha trabalhava, tinha várias colegas de Odivelas, uma das zonas mais afectadas. Algumas perderam tudo o que tinham. Em todo o país, mobilizaram-se as pessoas na aquisição do mais essencial para socorro das vitimas que sobreviveram à catástrofe. Na Seca, juntaram-se cobertores, lençóis e  outras roupas de agasalho que foram enviadas para lá. Apesar de  serem pobres, todos contribuiriam com o que puderam.
No final do ano a porteira do portão principal da Seca, morreu. O Gerente da Seca, propôs que ao Manuel que a sua mulher, fosse a nova porteira.  Isso queria dizer que a Gravelina passava a trabalhar o ano inteiro, não apenas durante os meses da safra. Por outro lado deixava de trabalhar na Seca, já que aquele portão tinha movimento o dia inteiro. Porém a casa da porteira, era muito pequena, tinha apenas um quarto, uma cozinha, e casa de banho, pequena, apenas com um lavatório, e uma sanita. Ainda assim melhor que no barracão, onde não havia nada, e Manuel tivera que fazer uma casinha de madeira ao largo da casa para os alívios fisiológicos.
Havia também um telefone, para comunicar com o escritório, sempre que alguém sem ser trabalhador queria entrar. Ora se por um lado a proposta era boa, por outro, o facto da casa ser tão pequena e ele ter três filhos tornava inviável a aceitação. 
Então o Manuel propôs ao gerente, a possibilidade de continuar a viver no velho barracão, mesmo com a mulher porteira no outro portão.
Ele aceitou, e assim a Gravelina, ia logo de manhã para o outro portão, fazia lá o almoço e almoçavam lá, depois à noite, fechava o portão e ia dormir junto da família.
Por essa altura, Manuel sabe que um sobrinho da  mulher 
acaba de embarcar para Angola. Mais um para a maldita guerra.

13 comentários:

✿ chica disse...

Tristes águas que tudo levam e triste tempo onde a repressão era grande... Mais um pra guerra agora? Linda a foto da casa! bjs, chica

António Querido disse...

A imagem desta humilde casinha, faz-me lembrar a minha aldeia há 50 anos atrás, agora os ingleses reformados, holandeses e alguns descendentes de proprietários antigos vão-lhe lavando a cara, mas mantendo a estética antiga!

O domingo na Figueira está como o tempo de março, duas horas de sol, outras duas de chuva e vento! BOM DOMINGO, com o meu abraço.

Mariazita disse...

A cada episódio que leio cresce o interesse mas também a mágoa por ver tanto sofrimento e dificuldades.
Amiga, que exemplo de vida, a do seu pai!
É de louvar. E merece ser contada, para memória futura.
Espero que, posteriormente, passe também para livro. E, já sabe, QUERO UM EXEMPLAR. Fica desde já encomendado, para não acontecer como da outra vez... :)

Bom final de Domingo
Um abraço
MARIAZITA / A CASA DA MARIQUINHAS

José Lopes disse...

As desgraças não eram para ser noticiadas em toda a sua extensão, era assim que as coisas funcionavam por causa da censura imposta pelo regime.
Cumps

Ane disse...

Oi Elvira!Eu demoro mas sempre apareço. Acabei de ler todos os capitulos que não tinha lido.Fico impressionada com a história de sua familia,com o sofrimento,as dificuldades daquela época,governos tiranos que massacram a população...e sempre comparando com a vida de hoje,com as facilidades que temos hoje em todas áreas...Estou adorando ler!Um abraço!

aluap Al disse...

A imagem da casa também me atira para as casinhas da minha aldeia e para uma altura que as famílias eram mais numerosas.
O meu avô paterno, no páteo da casa, também fez uma casinha em madeira para as necessidades fisiológicas.
Abraço e boa semana.

Renata Maria disse...

Nunca sei se fico alegre ou triste com a história do seu pai. Digo "alegre" porque, mesmo com todos os infortúnios, tudo se ajeita.
Amiga, narrativa interessantíssima.
Beijo*

Pedro Coimbra disse...

Tragédias que tinham que ser abafadas :(
Boa semana

Isa Sá disse...

A passar por cá para acompanha a historia e desejar uma ótima semana!

Isabel Sá
http://brilhos-da-moda.blogspot.pt

Mariangela do lago vieira disse...

Que linda história amiga. Manuel foi um grande herói, e sua história não poderia ser esquecida.
Um grande abraço, boa semana!
Mariangela

Laura Santos disse...

Antes de mais, gostei muito da casa, humilde mas muito bonita!
E continua a maldita guerra!...
xx

Rosemildo Sales Furtado disse...

"Alívios Fisiológicos" Gostei da expressão e continuo gostando da história.

Obrigado pelas visitas e amáveis comentários deixados nos nossos espaços. espero que estejas melhor.

Abraços,

Furtado.

Evanir disse...

Com certeza perdi muito das suas postagens devido
esse afastamento para tratamento mais sempre que poço corro para visitar as amigas querida.
Linda postagem a vida dos nossos pais sempre tem momentos tristes amiga.
Um beijo carinhoso.
Evanir.