3.4.14

MARIA - XI - MEDO DO FUTURO






 Medo do futuro


Um silêncio pesado incomodativo instalou-se entre nós. Maria parecia perdida sabe-se lá em que labirintos do seu passado. E eu não me atrevia a dizer nada. A história que acabava de ouvir era difícil de escutar, quanto mais de viver. Levantei-me e preparei um café para as duas.
-Obrigada – disse pegando na chávena. Depois continuou. Levei nesta vida pouco mais de um ano. Entretanto continuava as consultas de psiquiatria, começava a fazer o desmame de alguns medicamentos e tinha perdido peso. Encontrava-me muito melhor, a minha roupa de antigamente já me servia, começava de novo a ganhar gosto pela vida. Um dia telefonei à “Nani” e perguntei-lhe quem tinha as chaves da casa da minha mãe. Era tempo de ir ao encontro do passado. Era uma gaveta que continuava desarrumada na memória e precisava arrumá-la antes de dar novo rumo à minha vida. Ela disse que as chaves estavam com o tio Carlos e eu fui buscá-las.
Não sabe como sofri quando entrei lá em casa. Fui sozinha. Percorri cada canto com lágrimas nos olhos e um aperto no coração. Senti pena por “ela” e por mim. Tudo podia ter sido tão diferente. Depois tomei uma resolução. Vendi a casa e comprei um pequeno apartamento para mim. Queria recomeçar a minha vida num lugar que não me trouxesse lembranças. Comprei poucos móveis, só o indispensável e comprei um computador. Há tempos que não mexia num, que não ia à internet. E era uma companhia. Como tinha algum dinheiro, resolvi procurar um novo emprego, qualquer coisa onde me sentisse mais realizada.
Comecei a passar horas no “PC” em chats de conversação fazendo amizades virtuais. Não sei se sabe mas a “Net” é um mundo que nos vicia tanto ou mais que qualquer droga. Mas é um mundo ilusório. Em breve tinha dezenas de amigos e alguns deles começaram a insistir para nos conhecermos. O desejo de sair da solidão em que me metera após o último internamento fez com que fosse  cedendo a vários encontros. Encontrei gente muito boa e verdadeiros trastes. Nada que a vida real não tenha. Mas quando olhamos o nosso interlocutor no olho, é mais difícil enganarem-nos. Encontrei “amigos”que só queriam favores sexuais, outros que só queriam vigarizar-me. Mas também encontrei bons amigos e amigas, dispostos a ajudar sem nada pedir em troca.
Um desses arranjou-me emprego numa imobiliária, outro conseguiu numa oficina de um amigo um carrinho em segunda mão em óptimo estado.
Agora estou bem. Tenho alguém que jura que me ama e quer casar comigo. O Américo tem 48 anos, é viúvo e não tem filhos. Parece ser um bom homem, é trabalhador, e não sabe mais o que fazer para me agradar, mas apesar de gostar da sua companhia, eu não sinto aquela emoção, aquele tremelicar de pernas que sentimos quando a pessoa que amamos se aproxima. Por isso tirei uns dias de férias e vim em busca do meu passado. Para pôr a cabeça em ordem e deixar o coração vir à superfície.  A solidão pesa-me. Mas e se aceito casar e depois continuo “sozinha”? Se não consigo corresponder ao seu amor? Não me sinto capaz de suportar um casamento assim. Não depois de ter experimentado uma história de amor como a que vivi com o Artur. E não pense que eu gostaria de voltar para o Artur. Actualmente somos amigos, ele já me perdoou, encontrou outra pessoa e está feliz. Aliás hoje quando o vejo, já não sinto nada daquela emoção que me abrasava quando casámos.   O que acha que devo fazer?

Continua


(direitos reservados)

14 comentários:

eduardo maria nunes disse...

Creio eu que há muita gente como a Maria a ter medo do futuro. No caso dela que se deixou dominar pelos vícios, os quais lhe têm Infernizado a vida, portanto, é caso para ter algum receio. No entanto, é preciso tentar e enfrentar o futuro e não se deixar ficar pela dúvida!

Um bom dia para você, amiga Elvira, um abraço.
Eduardo.

São disse...

O medo paralisa... mas temos que não nos lançarmos de cabeça

Tudo é complicado na vida!

Boa tarde, linda

António Jesus Batalha disse...

Ao passar pela net encontrei seu blog, estive a ver e ler alguma postagens é um bom blog, daqueles que gostamos de visitar, e ficar mais um pouco.
Eu também tenho um blog, Peregrino E servo, se desejar fazer uma visita.
Ficarei radiante se desejar fazer parte dos meus amigos virtuais, saiba que sempre retribuo seguido também o seu blog. Deixo os meus cumprimentos e saudações.
Sou António Batalha.

LUZ disse...

Olá, estimada Elvira!

Espero que esteja, francamente, bem, tal como o seu marido e a Nita.

Pois é, a vida dá tantas voltas, mas, por vezes, é preciso ter alguma arte para lhe trocarmos as voltas, também a ela.

A Internet vicia, pois, e aqui, encontra-se "produto chinês", da mais baixa/reles qualidade, ou qualidade Louis Vitton (não sei se é assim, que se escreve), mas com muita aparência, fanfarronice, na maior parte dos casos.

Bem, vejamos então, se vai ser desta que ela encontra, não o amor perfeito, porque esse é MUITO DIFÍCIL de encontrar, mas a estabilidade física e anímica.

Beijos e abraços para todos.

PS: já manhã, é sexta. Como vai essa imaginação? Sofá e jornal combinam.

lis disse...

Oi Elvira
Não deve ser fácil pra ninguém conviver com as lembranças de uma mãe de quem não acompanhou nos fim da vida e teve uma convivência tão desastrosa.E se não tiver forças entrega-se a bebida e nada mais caminha com harmonia com os outros e consigo mesma,
As coisas simples tornam-se tão confusas quando deixamos nos enredar nas teias da desarmonia.
Tomara a Maria consiga a felicidade calma, de preferencia com o pé no chão e um novo amor,
Uma boa trama Elvira,estou gostando e leio sempre os capítulos anteriores,ok?
um abraço grande

Luma Rosa disse...

Oi, Elvira!
Quem passa por tanta angústia é normal que tenha pensamentos negativos com relação à vida, mas por outro lado, por ter saído de tantas situações desesperadoras, isso pode tornar a pessoa mais forte. Viver um dia após o outro de forma bem vivida é uma maneira de garantir um futuro bom. O que deve fazer? Não casar por casar e continuar a terapia! :D
Bom fim de semana!!
Beijus,

ONG ALERTA disse...

Sempre precisamos arriscar....a vida é assim.
Beijo Lisette

RENATA MARIA PARREIRA CORDEIRO disse...

Maria é muito corajosa. Bom vc tova na Net como vício, pois pode tornar-se mesmo. E Maria a se encontrar com amigos virtuais...
Aguardo ansiosa.
Beijos, querida,
Renata

Vitor Chuva disse...

Olá, Elvira!

A vida da Maria tem tanto de drama como de odisseia, das quais até ao momento tem saído vencedora.
E agora chega a parte mais difícil para a sua amiga e confidente: o ser conselheira de quem não sabe muito bem o que fazer com a vida...

Bom fim de semana e um abraço
Vitor

Nita Oliveira disse...

Gostei de ter passado por aqui. Vou ficar.
Bom fim de semana,
Beijo.
Ana

Nita Oliveira disse...

Gostei de ter passado por aqui. Vou ficar.
Bom fim de semana,
Beijo.
Ana

Pérola disse...

Nunca saberemos o futuro ou as consequências de qualquer decisão.

Mesmo com o tal tremelique nem sempre as coisas correm bem.

Deixa que a tua intuição e coração te guiem, mas pensa um pouco.

Beijinhos

Duarte disse...

Isto volta a animar-se. Vamos a ver se é desta que a vida se refaz. Quem não arrisca não pisca. Mas as bofetadas que nos dá a vida também ensinam.
Aquele abraço amigo

Olinda Melo disse...


Uma pergunta de resposta difícil. Nestas coisas só a própria pessoa pode tomar decisões.

O que virá a seguir?

Bj

Olinda