15.3.14

MARIA - IV - A MÃE DA MARIA




 A mãe da Maria

Naquela noite custei a adormecer. O reencontro com Maria trouxe à tona sentimentos que na azáfama diária a gente até esquece. Em tempos houve entre nós uma grande amizade e uma certa cumplicidade. Eu via em Maria a filha que o destino não me quisera dar. Ela via em mim… bom, sei lá o que na verdade ela via em mim. Talvez uma irmã mais velha, talvez a mãe que ela gostaria de ter, talvez tão só uma amiga muito especial a quem se confiam segredos que são só nossos.
Elisa, a mãe de Maria era a única rapariga dos sete filhos que seus pais tiveram. A última quando a sua mãe já desesperava com tanto rapaz. Nascera por um “descuido” do pai, porque a verdade é que na aldeia se dizia que sete filhos rapazes, o mais velho ou o mais novo seria lobisomem, e a pobre da avó de Maria, levou os nove meses até ao parto a pedir a Deus que fosse uma menina. Fez até uma promessa de ir a Fátima a pé se obtivesse essa graça. Por isso quando Elisa nasceu foi uma alegria e um alívio sem tamanho.
A menina cresceu sempre cercada dos cuidados dos irmãos que a tratavam como se ela fosse uma joia preciosa e a protegiam de tudo e todos como se o simples aproximar de alguém lhe pudesse roubar o brilho. Nunca foi brincar com outras crianças a não ser no pátio da escola e sempre debaixo do olhar protector de um dos irmãos. Já adolescente, não saía de casa, onde a mãe a ensinava a costurar, e a fazer lindos panos de renda que haviam de ser para o seu enxoval. Aos poucos os irmãos foram deixando a aldeia rumo à capital em busca de uma vida diferente. Elisa também sonhava com esse dia, mas como deixar a aldeia? Os pais não deixavam, era o que faltava uma mulher solta no mundo. Só se fosse casada. Porém os rapazes escasseavam na aldeia. Não foram apenas os seus irmãos que foram em busca de nova vida. Quase todos os rapazes jovens o fizeram. Alguns foram até para o Brasil. De modo que Elisa foi ficando em casa dos pais e as esperanças de uma vida diferente iam-se desvanecendo com o passar dos anos.
Um dia, o pai de Elisa sofreu uma trombose e em poucas horas morreu. A mulher enlouqueceu. Os vizinhos diziam que fora do desgosto, os filhos também acreditavam nisso, mas a filha sabia bem que há largos meses vinha notando atitudes na mãe que denotavam a caminhada rumo à demência. A morte do marido fez com que a caminhada fosse mais rápida, e aquilo que até aí só a filha notara, passou a ser visto por toda a aldeia.
Elisa cuidou da mãe até ao último momento. Se antes da morte do pai ela não podia sair nem ter amizades porque lhe era proibido, depois ainda que o quisesse, também não o conseguiria. As pessoas olhavam-na com desconfiança e murmuravam entre dentes.
“Coitada, vai acabar louca também”
Depois do funeral da mãe, Elisa arrumou as suas poucas roupas numa maleta e veio com os irmãos para Lisboa. Tinha 29 anos de uma vida de repressão e clausura e nenhuma experiência de vida.
Quando dois meses depois o irmão lhe disse que um amigo queria casar com ela e que ela devia aproveitar, pois em breve envelheceria e já não teria oportunidade de arranjar marido, Elisa aceitou correndo, ansiosa por conhecer uma vida diferente por ter a sua casa, a sua vida.
Alberto, era um homem bom, trabalhador, que a amou e lhe deu uma vida como ela nunca teve.
Ensinou-lhe a tirar partido da sua beleza, ensinando-lhe como se vestir para realçar o seu corpo delgado mas bem proporcionado. Levou-a a um salão, onde lhe cortaram a trança, fazendo-lhe um corte que a rejuvenesceu e lhe tirou aquele ar provinciano que ostentava quando casou. Também lhe ensinaram como usar um batom e uma sombra para realçar a boca e os olhos que já de si eram muito bonitos.
Em pouco tempo nada restava da Elisa que a aldeia conhecera. Pelo menos na aparência.
Alberto gostava de sair com a mulher que exibia aos amigos com orgulho, e a quem fazia todas as vontades, especialmente quando Elisa lhe disse que ia ser mãe.
Porém Alberto não chegou a ver esse bebé nascer. Morreu uma tarde de Julho quando regressava do trabalho, colhido por um comboio na passagem de nível sem guarda.
Elisa julgou enlouquecer de dor e raiva. Dor porque aprendera a amar o marido, e raiva contra o destino que parecia não querer que ela fosse feliz.



Continua


(direitos reservados)


À margem.  Como este conto já está escrito na totalidade, as postagens sairão de 3 em 3 dias.  Entretanto eu continuo com altos e baixos, com dias que parece que já estou boa e outros em que parece que voltei ao início. Vamos a ver no que isto acaba 

11 comentários:

Vitor Chuva disse...

Olá, Elvira!

Vida sofrida,a dos personagens desta história muito bem contada; e que até mete mete um lobisomem, aquela personagem mítica muito própria das povoações mais "atrasadas".

Boa saúde!

Um abraço
Vitor

Dorli disse...

Oi Elvira,
Eu estou acompanhando a vida de Maria desde o início, é só ver meus comentários e a parte de hoje foi muito triste no final, mas esperemos o próximo capítulo.
Beijos
Lua Singular

Evanir disse...

Nessa minha visita gostaria
de dizer tantas coisas.
Dizer o porque dessa minha ausência
que tanto me faz sofrer.
Quisera poder falar tudo que vai na minha alma
e no meu coração.
O tempo é cruel e voa diante dos nossos olhos
marcando cada dia a mais absoluta saudade.
È por sentir saudades que estou aqui
para desejar um abençoado e feliz final de semana.
E dizer que você é muito importante para mim
sua amizade traz alegria para o meu coração.
Desejo um abençoado final de semana.
Beijos no coração.
Evanir.

eduardo maria nunes disse...

Era só o que faltava. Uma rapariga, solteira, sozinha ir para Lisboa. Como o tempo e com tempo tanta coisa mudou. A propósito disso, lá da minha aldeia foi uma rapara, solteira, sozinha servir para Lisboa.
Algum tempo depois regressou, de calças, não de vestido. Que eu me lembre nunca ninguém lá tinha visto, uma mulher de calça vestidas como que fosse um homem.
Foi uma festa para a garotada e não só. Como tudo era tão atrasado nas aldeias do interior do país.
Era tudo o que o Salazar mais queria!...
Bom fim de semana para você amiga Elvira, um abraço.
Eduardo.

São disse...

A foto é um mimo...

Bom serão, linda

Nilson Barcelli disse...

O final deste capítulo é trágico, mas a vida é assim mesmo. Uns nascem enquanto outros morrem...
Estou a gostar do teu conto. Não me lembro de o ter lido.
Espero que melhores da saúde e que fiques bem rapidamente.
Elvira, tem um bom domingo e uma boa semana.
Beijo.

Dorli disse...

Oi Elvira, demorei para comentar, deu piripaque no computador.
Eu nunca morei no campo, morei em uma metrópole e moro em uma pequena cidade do interior.
Beijos
Lua Singular

Renata Maria disse...

Um final triste, porém plausível; uma narrativa muito fluida e agradável.
Fiquei apreensiva com seus altos e baixos, espero que sare logo.
Beijos,
Renata

Anne Lieri disse...

Muito lindo seu conto e me comoveu a história de Maria, como tantas pelo nosso Brasil! Aguardo os novos capítulos! bjs,

Luma Rosa disse...

Oi, Elvira!
O conto está indo muito bem e espero que você também esteja bem, sem altos e baixos.
A vida pode ser injusta, mas sempre existe um motivo para que tudo aconteça. Alguma boa experiência temos de tirar, pois senão, de que adianta viver.
Aguardando os próximos capítulos!
Boa semana!
Beijus,

Olinda Melo disse...


Muito sofrimento e ainda a vida não tinha começado...a morte do pai, a demência do mãe o falecimento o marido.

Como será daqui para a frente?

Bj

Olinda