21.2.14

A ESPERANÇA DOS OLHOS VERDES - FINAL




 Foto DAQUI


 - Sente-se mal, senhor?
Era a mulher jovem que vira ao entrar. A outra também se aproximou. Olhou para ele, olhou para a morta e soltou uma exclamação abafada.
- Santo Deus!
Havia tal espanto na sua voz que a jovem olhou. O homem também o fez. E o que viu encheu a sua alma de espanto. Os olhos da Esperança, tinham voltado a ser castanhos, tal como ele os recordava. Um castanho quente e doce, a que nem a frieza da morte retirava encanto. Assustado, fugiu dali como se fosse perseguido, enquanto a jovem cerrava suavemente os olhos da defunta, dizendo:
- O Chico! Só podia ser o Chico! Meu Deus por que não me ocorreu logo?


                                                    ***********




- Ciiiincoooo caaartassss, deeezzzzz toooostõeeees!       

Quedei-me surpreendida ao ouvir aquele pregão numa voz masculina. Procurei, com o olhar, o dono da voz e deparei com o Chico que, de cartas na mão, andava de um lado para o outro apregoando:
- Ciiiiincoooo caaartassss, deeezzzzz toooostõeees!       

Durante os dias que se seguiram ao funeral da "Esperança dos olhos verdes”, e aproveitando o resto das minhas férias, tinha conseguido saber que o Chico tinha voltado do Brasil, viúvo e muito rico. Vinha com a intenção de se fazer perdoar e viver enfim um amor que tinha ficado perdido no passado. Devo acrescentar que me foi fácil descobrir isto. Bastou seguir o Chico no próprio dia do funeral e apresentar-me como amiga da Esperança. Como tinha sido vista por ele, em casa dela, não foram difíceis as confidências.
Mas então que história era aquela? Porque estava ali a vender cartas no Terreiro do Paço, junto à gare fluvial da travessia Lisboa /Barreiro? E que roupas eram aquelas tão simples e semelhantes aos outros vendedores?
Correndo o risco de chegar atrasada ao emprego, interroguei-o. Ele então contou-me, que os remorsos não o deixavam em paz, depois de saber da sofrida espera da amada.
Assim resolvera doar em nome da falecida a sua fortuna para instituições de caridade.
E, agora ,ali estava no sítio onde ela vivera e fazendo o que ela fizera. Procedendo assim,sentia-se mais perto da mulher a quem tanto amara e que desgraçara por ambição.
- Talvez, quem sabe, seja mais fácil obter o seu perdão e viver este amor numa outra dimensão.
Apertei-lhe o braço, tentando dar-lhe algum consolo e afastei-me, acompanhada pelo pregão tão conhecido:
- Ciiiincoooo caaartassss, deeezzzzz toooostõeees!       

Fim

Maria Elvira Carvalho

15 comentários:

Graça Sampaio disse...

Hummmm! Não acredito! preferia que o final se tivesse ficado pela mudança de cor dos olhos da Esperança...

Mas foi um belo «suspense»...

Beijinhos

São disse...

O conto foi bem montado, com é hábito.

Como sou mázinha, o desgraçado morreria fulminado!!

Qual doação de fortuna, um tipo desses nunca o faria, menina, não se iluda...

Beijinhos com amizade. rrss

eduardo maria nunes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
eduardo maria nunes disse...

Deixou, para trás, um amor perdido.
Foi para o Brasil, atrás das ambições
Para o recuperar voltou arrependido
O Chico, das cinco cartas, dez tostões.

Por dinheiro se destroem vidas
Há quem mate por dinheiro
Por dinheiro, se perdem vidas.

O Chico perdeu a "Esperança dos olhos verdes", dos seus olhos muitas lágrimas
terão ficado na terra caídas!

Bom fim de semana para você amiga Elvira, um abraço
Eduardo

rosa-branca disse...

Nem sempre os finais são felizes. Gostei muito do conto. Quem tudo quer tudo perde...Bom fim de semana e beijos com carinho

Olinda Melo disse...


Cara Elvira

Lamento a morte da sua tia. Apresento-lhe os meus pêsames.

O conto não teve um final feliz, mas é o retrato do que acontece, muitas vezes, na vida. Conheci uma rapariga cujo o namorado fui para os Estados Unidos, com a ajuda monetária dela, para depois se casarem por procuração e ir ter com ele. O que aconteceu foi que ele chegou lá, nunca mais deu notícias e depois ela veio a saber que se tinha casado por lá. Ela deixou o trabalho em Lisboa, foi para a terra, ainda é viva, mas tem vivido com grandes problemas de depressão.

Vê-se que o Chico também não foi feliz com a mulher que ele escolheu e a ganância não lhe serviu de nada.

A Esperança coitada é foi mesmo infeliz. O acto dele, ao doar a fortuna foi apenas para descargo de consciência.

Bjs

Olinda

Fátima Pereira Stocker disse...

Elvira

Um coração bom como o seu tinha de permitir a redenção a quem errou.

Quem nunca pecou...

Beijos

Emília Pinto e Hermínia Lopes disse...

Não esperava um final feliz, mas também não estava à espera que o Chico impusesse a si mesmo um castigo tão grande, mas...cada consciência faz aquilo que acha melhor para tentar acalmar os remorsos; é que estes muitas vezes também matam. Belo conto, Elvira, como sempre. Cá fico à espera de mais um. Um bom fim de semana, amiga! O sol hoje já deu o ar de sua graça, embora timidamente. Beijinhos
Emília

Vitor Chuva disse...

Olá, Elvira!

O final tem tanto de inesperado como de dramático, a lembrar o romance "crime e castigo".
E de tão bem construída que está, fico na dúvida se a mesma terá um fundo de verdade, ou mero fruto de criadora imaginação.
Seja ela uma coisa ou outra, os meus parabéns!
Um abraço
Vitor

Maria Teresa Fheliz Benedito disse...

"Quem tudo quer nada tem", já diz o ditado.
Belo conto, triste conto, gostei.
Sinto muito pela perda dos seus links, mas feliz por ter me reencontrado.
Um abraço querida Elvira.

LUZ disse...

Olá, estimada Elvira!

Então, os olhos da Esperança sempre voltaram a ser castanhos, ao "pressentir" a presença do Chico.

Gostei muito da ação dele, no final do seu conto.

Bom domingo.

Beijos para todos, com estima.

lis disse...

Oi Elvira
O amor quando apaixonante não consegue superar a perda com facilidade,
E pior o remorso o não perdoar-se deixa cicatrizes na alma que não se apaga,
Eis o resultado...
Bom final Elvira
és mestra dos contos, beijinhos pra ti,

Vieira Calado disse...

Olá, como está?
Obrigado pelo seu comentário, no Merdock.
Olhe, em Faro, no Liceu onde eu andava, fomos obrigados a ir para as aulas, dada a insensibilidade (e cretinice) do reitor, pois a grande maioria dos alunos ficou a aula inteira a olhar a neve, pela janela, e não ouviu nada do que o professor disse...
Bjssss

Duarte disse...

Prometia, e prometeu.
Excelente remate final, bem trabalhado.
Como analisas os comportamentos humanos. Gostei.
Posso imprimir e dar a ler aos meus alunos?
Aquele abraço amigo.

Luma Rosa disse...

Oi, Elvira!
Enfim, Esperança conquistou a sua paz e Chico o seu inferno! O que não haveria de acontecer, se o amor fosse colocado em primeiro lugar!!
Justo final!!
Beijus,