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- Sente-se mal, senhor?
Era a mulher jovem que vira ao entrar. A outra também se aproximou. Olhou
para ele, olhou para a morta e soltou uma exclamação abafada.
- Santo Deus!
Havia tal espanto na sua voz que a jovem olhou. O homem também o fez. E o
que viu encheu a sua alma de espanto. Os olhos da Esperança, tinham voltado a
ser castanhos, tal como ele os recordava. Um castanho quente e doce, a que nem a frieza
da morte retirava encanto. Assustado, fugiu dali como se fosse perseguido,
enquanto a jovem cerrava suavemente os olhos da defunta, dizendo:
- O Chico! Só podia ser o Chico! Meu Deus por que não me ocorreu logo?
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- Ciiiincoooo caaartassss, deeezzzzz
toooostõeeees!
Quedei-me surpreendida ao ouvir aquele pregão numa voz masculina. Procurei,
com o olhar, o dono da voz e deparei com o Chico que, de cartas na mão, andava
de um lado para o outro apregoando:
- Ciiiiincoooo caaartassss, deeezzzzz
toooostõeees!
Durante os dias que se seguiram ao funeral da "Esperança dos olhos
verdes”, e aproveitando o resto das minhas férias, tinha conseguido saber que o
Chico tinha voltado do Brasil, viúvo e muito rico. Vinha com a intenção de se
fazer perdoar e viver enfim um amor que tinha ficado perdido no passado. Devo
acrescentar que me foi fácil descobrir isto. Bastou seguir o Chico no próprio
dia do funeral e apresentar-me como amiga da Esperança. Como tinha sido vista
por ele, em casa dela, não foram difíceis as confidências.
Mas então que história era aquela? Porque estava ali a vender cartas no
Terreiro do Paço, junto à gare fluvial da travessia Lisboa /Barreiro? E que
roupas eram aquelas tão simples e semelhantes aos outros vendedores?
Correndo o risco de chegar atrasada ao emprego, interroguei-o. Ele então
contou-me, que os remorsos não o deixavam em paz, depois de saber da sofrida
espera da amada.
Assim resolvera doar em nome da falecida a sua fortuna para instituições de
caridade.
E, agora ,ali estava no sítio onde ela vivera e fazendo o que ela fizera.
Procedendo assim,sentia-se mais perto da mulher a quem tanto amara e que
desgraçara por ambição.
- Talvez, quem sabe, seja mais fácil obter o seu perdão e viver este amor
numa outra dimensão.
Apertei-lhe o braço, tentando dar-lhe algum consolo e afastei-me,
acompanhada pelo pregão tão conhecido:
- Ciiiincoooo caaartassss, deeezzzzz
toooostõeees!
Fim
Maria Elvira Carvalho
