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18.9.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE III



Quando entraram em casa, cada um carregando uma criança a dormir, Ricardo disse para a sua esposa:
-Vem. Vamos levá-los para o quarto. Antónia se encarregará de despi-los e deitá-los. Tem cuidado ao subires a escada, não pises o vestido. Seria perigoso para ti e para a menina.
Ela subiu os degraus com estremo cuidado, uma mão segurando a criança, outra levantando o vestido.
Uma vez lá em cima, ele abriu uma porta, e entrando deitou o menino numa cama de ferro pintada de azul. No lado oposto, havia uma cama igual pintada de rosa, onde Clara deitou a menina com todo o cuidado.
Logo de seguida Antónia entrou no quarto e Ricardo estendeu-lhe a mão, num convite mudo para abandonarem o local.
No corredor, ele abriu uma porta, dizendo.
-Aqui será o teu quarto. Tem uma porta que comunica com o quarto das crianças, para que possas ir rapidamente até elas, se te chamarem de noite. Essa porta do lado esquerdo, é o quarto do teu irmão. Espero que esteja tudo a vosso gosto, mas se quiseres mudar alguma coisa, tens carta-branca para o fazer.
Ela queria perguntar onde era o quarto dele, mas não se atreveu. Porém como se ele adivinhasse a pergunta que não foi feita, disse:
- O meu quarto é a porta a seguir, do lado direito, e também comunica com o quarto das crianças. Se algum dia precisares de mim, é só abrires a porta de comunicação que sempre fica apenas encostada. Pedi à Antónia para arrumar as vossas coisas nos respetivos quartos. Durante a semana, poderemos ir buscar o que ainda não veio, para que possas entregar a casa ao senhorio. Mais tarde estarei na biblioteca. Se quiseres podes ir até lá e conversaremos um pouco. Se não apareceres compreenderei que estás cansada e foste dormir, - disse afastando-se.
Ela acendeu a luz e entrou no quarto fechando a porta atrás de si.
O quarto era espaçoso. Na parede contrária à porta de entrada, havia uma grande e larga porta de vidro que dava para um terraço. Ocupando toda a parede do lado esquerdo um enorme roupeiro ao meio do qual se encontrava a porta de comunicação com o quarto das crianças. Na parede do lado direito um toucador e uma porta. “Será que os quartos comunicam todos entre si?” Foi até lá e depois de bater e não ouvir nenhuma resposta deu a volta à maçaneta, pensando que provavelmente iria entrar no quarto do irmão mas tratava-se da sua casa de banho.
No centro do quarto, como rainha absoluta do espaço, a enorme cama de casal.
Com uma certa dificuldade, conseguiu desapertar o vestido de noiva, que colocou o mais direito possível em cima de uma cadeira para mandar depois para a lavandaria. Descalçou-se, e entrou na casa de banho. Livrou-se da roupa interior, soltou o cabelo e meteu-se debaixo do chuveiro.
O duche revigorou-lhe os músculos tensos, e sentiu-se muito melhor.
Fechou a torneira e enrolando uma toalha à volta do corpo, pegou no secador e durante alguns minutos dedicou-se a secar a sua farta cabeleira. Depois enfiou um roupão e dirigiu-se ao quarto. Tirou do armário um par de calças de ganga, e um top de seda azul que pôs em cima da cama. Escolheu um conjunto de cuequinha e sutiã de algodão branco, e com ele na mão voltou à casa de banho. Depois de o vestir, olhou-se ao espelho. Fez uma careta. Não era um conjunto sensual mas era cómodo. E depois, o que lhe interessava a roupa interior?  Ninguém ia ver se o que ela vestia era de seda ou algodão.
Arrumou a casa de banho e voltou ao quarto onde vestiu a roupa anteriormente escolhida.
Procurou no armário umas sabrinas, escovou o cabelo e prendeu-o num rabo-de-cavalo. Abriu a porta de comunicação, verificou que as crianças continuavam a dormir, aconchegou-lhes a roupa, e voltou ao seu quarto.
Finalmente apagou a luz e saiu.


Nota. Parece que esta história não começou de forma muito convencional.  O que será que se vai passar agora? Alguns de vós pensam que a jovem fez um casamento de conveniência por causa da carreira. Mas será que assim foi? E se não tiver sido um casamento?  



25.1.14

ESPERANÇA DOS OLHOS VERDES - PARTE III




                                                    Antigo fogão a petróleo


Deixei a frase incompleta e afastei-me. Tinha ficado pensativa. Eu não acreditava em bruxedos mas convenhamos que isto de uma pessoa ter olhos castanhos que viram verdes não era, de todo, normal.ª)  Com certeza que a velha já não se lembrava bem dos olhos da outra. A idade faz muitas confusões. O melhor era não pensar mais nisso.
Mas a verdade é que aquela mulher me intrigou desde a primeira vez que a vi. 
E como sempre me apaixonaram os mistérios, resolvi soltar o detetive que habitava um recanto da minha imaginação, e lá fui até à Prior do Crato.
Perguntei a várias pessoas se a conheciam. Ninguém sabia quem era. Comecei a pensar que a velha mulher dos amendoins sabia do que falava quando disse que ninguém lhe conhecia a morada. Quase a desistir, um garotito que jogava à bola, disse-me que a conhecia e indicou-me a casa.
Respirei fundo e, sem pensar, dirigi-me para lá. Bati. Uma mulher dos seus quarenta anos veio abrir. Pensei que o garoto me tinha enganado. E como o melhor remédio para o saber era perguntar-lhe, assim o fiz.
-Desculpe, mas disseram-me que morava aqui uma senhora que vende cartas - foi a primeira coisa que me veio à cabeça e confesso que não era uma ideia famosa, já que podia comprar cartas em qualquer papelaria.
– Decerto me enganaram - acrescentei ao ver que a mulher não parecia nem um pouco desconfiada.
- Ah! É aqui mesmo. É a Ti`Esperança. Mas ela está tão doente, coitadinha... Entre, entre, - convidou.
Entrei. A casa era muito pobre. Uma pequena saleta sem janela para a rua, mas com três portas. Uma dava para a rua, era aquela que eu acabara de transpôr. A outra dava para um pequeno cubículo onde se via um fogão a petróleo, e uma pia. A terceira dava para o quarto. Entre as portas uma mesa e dois bancos arrumados por baixo dela. No quarto,  sobre uma velha cama de ferro desconjuntada, com um puído lençol de linho, que já devia ter servido várias gerações, estava a enferma. Morta? Não fossem os seus olhos, eu diria que estava morta. Senti um arrepio….


ª)  Não esquecer que esta história aconteceu, nos anos 50 do século passado. Hoje com as lentes de contacto, não direi que é banal, mas qualquer um pode ter os olhos da cor que mais gostar.