25.1.14

ESPERANÇA DOS OLHOS VERDES - PARTE III




                                                    Antigo fogão a petróleo


Deixei a frase incompleta e afastei-me. Tinha ficado pensativa. Eu não acreditava em bruxedos mas convenhamos que isto de uma pessoa ter olhos castanhos que viram verdes não era, de todo, normal.ª)  Com certeza que a velha já não se lembrava bem dos olhos da outra. A idade faz muitas confusões. O melhor era não pensar mais nisso.
Mas a verdade é que aquela mulher me intrigou desde a primeira vez que a vi. 
E como sempre me apaixonaram os mistérios, resolvi soltar o detetive que habitava um recanto da minha imaginação, e lá fui até à Prior do Crato.
Perguntei a várias pessoas se a conheciam. Ninguém sabia quem era. Comecei a pensar que a velha mulher dos amendoins sabia do que falava quando disse que ninguém lhe conhecia a morada. Quase a desistir, um garotito que jogava à bola, disse-me que a conhecia e indicou-me a casa.
Respirei fundo e, sem pensar, dirigi-me para lá. Bati. Uma mulher dos seus quarenta anos veio abrir. Pensei que o garoto me tinha enganado. E como o melhor remédio para o saber era perguntar-lhe, assim o fiz.
-Desculpe, mas disseram-me que morava aqui uma senhora que vende cartas - foi a primeira coisa que me veio à cabeça e confesso que não era uma ideia famosa, já que podia comprar cartas em qualquer papelaria.
– Decerto me enganaram - acrescentei ao ver que a mulher não parecia nem um pouco desconfiada.
- Ah! É aqui mesmo. É a Ti`Esperança. Mas ela está tão doente, coitadinha... Entre, entre, - convidou.
Entrei. A casa era muito pobre. Uma pequena saleta sem janela para a rua, mas com três portas. Uma dava para a rua, era aquela que eu acabara de transpôr. A outra dava para um pequeno cubículo onde se via um fogão a petróleo, e uma pia. A terceira dava para o quarto. Entre as portas uma mesa e dois bancos arrumados por baixo dela. No quarto,  sobre uma velha cama de ferro desconjuntada, com um puído lençol de linho, que já devia ter servido várias gerações, estava a enferma. Morta? Não fossem os seus olhos, eu diria que estava morta. Senti um arrepio….


ª)  Não esquecer que esta história aconteceu, nos anos 50 do século passado. Hoje com as lentes de contacto, não direi que é banal, mas qualquer um pode ter os olhos da cor que mais gostar.

19 comentários:

Maria disse...

Adorei o texto e a imagem levou-me em viagem à minha infância e à casa da minha avó onde se cozinhava ainda com um fogareiro assim...saudades!

Beijinhos
Maria

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Outros tempos onde o dinheiro era caro demais e a pobreza era o selo colectivo.
Aqui na aldeia nem se sabia nos anos cinquenta o que era um fogão de petróleo.
Agora os nossos jovens nem sabem como isso foi bom nem para que serviu...

Bom fim de semana

José María Souza Costa disse...

Olá, tudo bem ?
Hoje é feriado na Cidade de São Paulo - Brasil. Uma cidade onde tudo é longe, e tudo é perto, ao mesmo tempo. Ainda assim, uma selva de pedra, acolhedora e agradável, ao olhar poético.
É com este espírito, que lhe saúdo, desejando, um fim de semana muito bom.
Abraços.

aflores disse...

Agora lembrei-me da minha mãe...
Tinha uns olhos azuis como nunca vi, e cozinhava numa "máquina" igual a essa da foto.

Tudo de bom.

:)


rosa-branca disse...

Bem amiga, a história promete e as pulgas por aqui são tantas que não dou conta delas... Adorei e fico à espera de mais. Beijos com carinho

Kalinka disse...

Amiga
Começo por agradecer essa imagem que me transportou à minha infância em África!

Poderei dizer:

Há um resto de esperança
em minha alma
que se dissolve em cada madrugada.

Há um resto de mim em toda a parte
Que nunca pude ser inteiramente.

OBRIGADO.
Beijinho da Tulipa

LUZ disse...

Olá, estimada Elvira!

Como estão?

A curiosidade natural é uma forma de interesse, que todos deveríamos ter.
Então, lá deu com a casa da tia Esperança, que estava muito doente, e talvez os seus olhos já estivessem cinzentos.

Agora, queremos saber a continuação. Sei que tem imaginação e vai dar volta à história.

Bom domingo.

Beijos, com estima.

eduardo maria nunes disse...

Olhos verdes, castanhos ficaram!
Coisas do outro mundo se calhar
Os meus castanhos nunca mudaram
Todavia, não tenciono contrariar!

Venho aqui bom fim de semana
a amiga Elvira desejar, um abraço
Eduardo,

Maria Rodrigues disse...

Minha amiga ainda hoje tenho de recordação dos meus avôs, um fogão igual a esse. Gostei da história, quanto aos olhos castanhos virarem verdes aconteceu com o meu marido, em criança tinha os olhos completamente castanhos e ao longo da vida eles foram mudando, hoje não são bem verdes mas também não são totalmente castanhos, mistérios da natureza ...
Peço desculpa da minha ausência mas a minha mãe continua no hospital e têm sido dias dificeis, logo que possivel voltarei às minhas visitas habituais.
Obrigado amiga pela sua presença no meu cantinho.
Beijinhos
Maria

Fátima Pereira Stocker disse...

Elvira

Faz aqui a descrição de um casebre. Já era tempo de se acabar com a indignidade na habitação humana, mas parece que não é assim. Infelizmente, a sua descrição permanece actual.

Beijos

Vitor Chuva disse...

Olá,Elvira!

Lembro-me bem desses fogões a petróleo, mais práticos que o lume feito ao borralho; e também recordo que por vezes deitavam um cheirinho menos agradável...

E enquanto a historia ganha contornos de miséria, adensa-se o mistério...enquanto cá ficamos à espera.
Um abraço e boa semana.
Vitor

Luis Eme disse...

mais uma bela história de outros tempos, Elvira.

boa semana

abraço

Luma Rosa disse...

Oi, Elvira!
Estou bastante curiosa para saber qual o mistério que preserva essa história!!
:)
Beijus,

Emília Pinto e Hermínia Lopes disse...

Ainda sou do tempo em que vi muitos desses fogareiros a petróleo e em alguns casos já era um luxo, pois a maioria só tinha o borralho. Casebres, então eram muitos na minha aldeia; hoje quando lá vou vejo os filhos desses muito pobres com bonitas casas; parece uma cidade, a aldeia onde nasci. Felizmente que esses casebres deram lugar a pequenas " mansões,", embora muitos, coitados já estejam a desfazer-se delas por o desemprego lhes bateu à porta e os bancos não perdoam. E cá fico à espera da continuação do conto; também estou muito curiosa. Beijinhos, Elvira e um bom início de semana
Emília

Mariazita disse...

Como ainda não tinha cá voltado, apesar de o ter prometido... :) estive a ler esta interessante história desde o princípio.
Claro que prende muito a atenção e suscita enorme curiosidade...
Como é que uns olhos castanhos se tornam verdes???
Acontecendo isso nos anos 50, é, de facto, estranho.
Aguardemos com calma pois acredito que a amiga terá a resposta para nos dar.

Tenha uma excelente semana.
Um abraço

manuela barroso disse...

O seu estilo narrativo prende sempre com a vivacidade que imprime à história.
Como tudo vai mudando e em faz assim tanto tempo embora hoje ainda a vida comece a fazer pensar nos tempos que pensávamos não voltassem
Obrigada Elvira pela suas palavras. Venha quando pode. Sei porque me acontece o mesmo. Mas os amigos ficam, não estão de passagem
Beijinho grande

esteban lob disse...

¡Año 50 del siglo pasado!

Para muchos, es tiempo muy lejano.
Para mi ni tanto. Tenía entonces 14 años de edad.

São disse...

Em casa havia um fogão assim, que também servia de aquecedor...

Fiquemos, então,esperando o resto...

Quanto à cor que cada um pode ter através das lentes de contacto, tenho um episódio muito cómico, rrrssss

Nom final de semana

Duarte disse...

Na minha casa também existiu um fogão de petróleo, como evoluiu tudo!
A tua obra vai avançando e eu cada dia mais intrigado… mas isto vai levar uma reviravolta!...
Na aula de quinta passada estivemos a ler um capitulo mais de Rosa. Estão todos muito interessados. Tens que vir até cá para que te conheçam… seria bom!
Um grande abraço