Antigo fogão a petróleo
Deixei a frase incompleta e afastei-me. Tinha ficado pensativa. Eu não
acreditava em bruxedos mas convenhamos que isto de uma pessoa ter olhos castanhos
que viram verdes não era, de todo, normal.ª) Com certeza que a velha já não se
lembrava bem dos olhos da outra. A idade faz muitas confusões. O melhor era não
pensar mais nisso.
Mas a verdade é que aquela mulher me intrigou desde a primeira vez que a
vi.
E como sempre me apaixonaram os mistérios, resolvi soltar o detetive que habitava um recanto da minha imaginação, e lá
fui até à Prior do Crato.
Perguntei a várias pessoas se a conheciam. Ninguém sabia quem era. Comecei
a pensar que a velha mulher dos amendoins sabia do que falava quando disse que
ninguém lhe conhecia a morada. Quase a desistir, um garotito que jogava à bola,
disse-me que a conhecia e indicou-me a casa.
Respirei fundo e, sem pensar, dirigi-me para lá. Bati. Uma mulher dos seus
quarenta anos veio abrir. Pensei que o garoto me tinha enganado. E como o
melhor remédio para o saber era perguntar-lhe, assim o fiz.
-Desculpe, mas disseram-me que morava aqui uma senhora que vende cartas -
foi a primeira coisa que me veio à cabeça e confesso que não era uma ideia
famosa, já que podia comprar cartas em qualquer papelaria.
– Decerto me enganaram - acrescentei ao ver que a mulher não parecia nem um
pouco desconfiada.
- Ah! É aqui mesmo. É a Ti`Esperança. Mas ela está tão doente,
coitadinha... Entre, entre, - convidou.
Entrei. A casa era muito pobre. Uma pequena saleta sem janela para a rua, mas com três portas. Uma dava para a rua, era aquela que eu acabara de transpôr. A outra dava para um pequeno cubículo onde se via um fogão a petróleo, e uma pia. A terceira dava para o quarto. Entre as portas uma mesa e dois bancos arrumados por baixo dela. No quarto, sobre uma velha cama
de ferro desconjuntada, com um puído lençol de linho, que já devia ter servido
várias gerações, estava a enferma. Morta? Não fossem os seus olhos, eu diria
que estava morta. Senti um arrepio….
ª) Não esquecer que esta
história aconteceu, nos anos 50 do século passado. Hoje com as lentes de contacto, não direi que
é banal, mas qualquer um pode ter os olhos da cor que mais gostar.
