4.1.18

AMÁLIA

Amália, engoliu as lágrimas, afivelou a máscara de mulher feliz, e saiu para a rua. O dia estava lindo, o sol aquecia o corpo e era como um balsamo para o seu coração.
Era ainda uma mulher muito bonita apesar de já não ser muito jovem.  Tinha uma farta cabeleira negra, uns doces olhos castanhos, e uma boca bem desenhada. Alta, magra mas bem proporcionada. E era sobretudo uma excelente atriz, embora nunca tivesse subido num palco. Porque ninguém diria, ao vê-la caminhar pela rua, pisando com segurança, saudando com um sorriso um ou outro conhecido, ou brincando com as colegas no emprego que não era uma mulher feliz.
Oriunda de uma família pobre, Amália estudara até ao final do secundário com grande sacrifício dos pais. Impensável entrar para a Universidade, naquela época, a vida era muito difícil e embora ela tivesse sonhado com mais, viu-se obrigada a procurar emprego. Pouco tempo depois, conheceu aquele que viria a ser o pai dos seus filhos.
Alexandre, parecia ser um bom rapaz, era alegre, e a sua boa disposição encantou-a. Namoraram e casaram num domingo de Maio.
Ainda nem bem terminaram os primeiros seis meses, de casamento, e Amália já se dava conta de que o marido não era aquilo que ela imaginara. Saía após o jantar, com um “até já, vou ali ao café “, mas raramente voltava antes da meia-noite, uma hora. Amália arrumava a cozinha, preparava os almoços para o dia seguinte, as roupas e finalmente caía cansada na cama, já que no dia seguinte tinha que se levantar cedo. Quando o marido chegava, raramente vinha “sozinho”. A acompanhá-lo vinha um insuportável hálito a álcool. Amália fingia que dormia, para não iniciar uma discussão altas horas da noite. Na manhã seguinte, quando lhe chamava a atenção, ele era agressivo, dizia que ela era maluca, que estava a insinuar que ele era bêbado e que bêbado tinha ela o juízo. Por essa altura Amália soube que estava grávida. 
Quando contou ao marido ele ficou muito feliz e durante três ou quatro dias não saiu de casa à noite. Renovaram-se as esperanças da jovem. Porém, como sol de Inverno, durou pouco, nem deu para que as esperanças da mulher ganhassem raízes.
Quando Amália desabafou com a mãe, esta que fora criada no conceito de obediência ao marido, disse-lhe:
- Tem paciência filha. Ele é bom marido, isso é o álcool. E depois a tua avó sempre dizia: “quem se obriga a amar, obriga-se a padecer”.
Foi nessa altura que a jovem, afivelou a máscara de mulher feliz e enveredou pela carreira de atriz no palco da vida.
O filho nasceu, foi uma enorme alegria para ela, mas nem o nascimento do filho trouxe um novo comportamento ao marido. Cada dia bebia mais, cada dia estava mais agressivo. Não que lhe batesse, diga-se em honra da verdade que isso nunca fez. Mas os gritos, os nomes que lhe chamava, e até as coisas que partia, era tão mau ou pior do que as agressões físicas.
Quando o filho tinha três anos, depois de uma violenta briga, Amália tomou a decisão de se separar do marido. Nessa altura o divórcio ainda não tinha chegado a Portugal.
O marido caiu de joelhos, implorou perdão, disse que daí para a frente ia ser diferente, que nunca mais iam brigar, prometeu o mundo e a lua, como se costuma dizer.
Pensando no filho, ela decidiu dar mais uma oportunidade ao casamento.
 Alexandre levou uns dois meses sem sair depois do jantar. Estava muito mais calmo, parecia um homem diferente, muito embora algumas vezes parecia que já tinha bebido um pouco, quando chegava do trabalho, mas enfim não seria grande coisa, já que ele se mostrava controlado. Por essa época Amália engravidou de novo.
Uma malfadada infeção na garganta, uns medicamentos que tomou, que possivelmente anularam o efeito da pílula. Porque ela jurava que a tomara sem falha. Pouco depois o marido voltou a sair à noite e a chegar a casa, não bêbado, mas como se dizia antigamente “atravessado” Quando vinha bêbado, caía na cama, às vezes até vestido e dormia. Quando vinha “atravessado” implicava com tudo, dava pontapés nas coisas, dizia palavrões. O tempo corria, o segundo filho de Amélia, nasceu era uma menina linda que fez o encanto do irmãozinho.
No dia em que a menina fez um ano, o marido fez um escarcéu com ela numa loja de roupas infantis, que a deixou indignada e envergonhada. Era a primeira vez que o fazia em público, e Amália saiu da loja sem compras e a chorar.
Em casa, pensou seriamente na vida e chegou à conclusão de que para se separar do marido só se fosse para casa dos pais, pois o seu ordenado, não chegava para pagar uma casa, e por comida na mesa para ela e os filhos. Sem falar que havia que pagar à ama dos filhos, ou não poderia trabalhar.
Pensando nisso pegou nos filhos, disse ao marido que ia visitar os pais, e foi sondá-los. Porém não encontrou apoio da parte deles. A mãe voltou com a tal máxima de “quem se obriga a amar, obriga-se a padecer”, o pai disse que não lhe arranjara marido, fora escolha dela, por isso era ela que tinha que resolver o problema, “ que entre marido e mulher ele não metia colher”
Voltou para casa, e no dia seguinte antes do marido ir para o trabalho, pôs os pontos nos is.
 Ela estava farta daquela vida. Ou ele deixava a bebida ou ela deixava de ser sua mulher. A escolha era dele. E como sempre que ela ameaçava separar-se, o marido implorou, fez promessas, teve o desplante de dizer que bebia para perder o medo de a perder, pois não saberia viver sem ela. Amália, percebeu que ele era doente, e teve pena dele, dela e dos filhos. Dele, porque não reconhecia que era doente e precisava de ajuda, dela porque era jovem e tinha pela frente um futuro de sofrimento, e dos filhos que amavam o pai e não tinham culpa de nada. Mas quando o marido voltou a beber, Amália comprou um divã e instalou-se no quarto da filha. E nunca mais foi mulher de Alexandre embora vivam na mesma casa. Quando os filhos casaram, ela podia enfim pedir o divórcio. Mas nessa altura Alexandre estava muito doente, e nem ela teria coragem de o abandonar, nem os filhos, iam compreender que o fizesse nessa altura, depois de uma vida inteira de sofrimento.
Passaram-se quatro anos. Alexandre conseguiu superar a doença, já não bebe, mas está mentalmente muito envelhecido, quem sabe se efeito do álcool bebido sem regra, durante tantos anos. Ela sofre, porque nada é mais triste do que ver, dia a dia, a degradação mental de uma pessoa.
Hoje, Amália põe toda a sua felicidade e enlevo nos dois netinhos que os filhos já lhe deram. 
E no emprego que apesar da crise, mantém. O futuro… quem poderá saber o futuro? Há muito que ela vive um dia de cada vez.

Fim

Maria Elvira Carvalho


Nota. Às voltas com uma virose, que me deixou de rastos peço desculpa pela ausência

18 comentários:

Lucia Silva disse...

Belo conto, cheio de sofrimento, mas, infelizmente, é a realidade de quem casa com quem é alcoólatra.
Desejo-lhe melhoras dessa virose.
Abraços carinhosos!

© Piedade Araújo Sol disse...

belo conto, embora triste e sofrido.
quantas Amálias andem por aí, que nem sequer suspeitamos.
bom ano
beijinhos
:)

Edumanes disse...

Não nos engana a idade,
prega-nos cada uma partida
as suas melhoras e boa tarde
desejo para você amiga Elvira!

Um abraço.

Anete disse...

Um novo conto bastante realista e sofrido. Há tantas histórias na vida assim...
A bebida é um vício terrível e há mulheres que anulam a sua vida de uma maneira questionante.
Melhoras para ti, Elvira!
Beijos e boas inspirações...

Tintinaine disse...

A outra era cabeluda, esta não é melhor, daqui em diante só pode melhorar.
Essa da virose é conversa de médico moderno, no meu tempo não havia disso, por conseguinte, não sei que conselho lhe dê.
As melhoras.

Rui disse...

Olá Elvira . :)... Finalmente de regresso, para acompanhar os seus belos contos ! :)
Só espero que essa virose passe rapidamente e a deixe em paz ! :))

O conto,... quantas e quantas mulheres se poderão rever nele ?!... embora creia que neste momento esta situação não atinja as dimensões de antigamente em que isso era uma constante !
Também hoje a mulher já se sente mais emancipada, mais independente (em geral), havendo no entanto ainda muitas situações em que isso não acontece ! :(

Um grande abraço :)

Kique disse...

Parabéns pelo conto.
Um chazinho de cebola e amanhã é outro dia.
Bjs
Kique
https://caminhos-percorridos2017.blogspot.pt/?m=0

noname disse...

Rápidas melhoras.
Beijinho

Gaja Maria disse...

Ninguém merece viver uma vida inteira num sofrimento assim, infelizmente há tanto disso... Até nos dias de hoje :(

Rogerio G. V. Pereira disse...

Beber em si
não é mau
O pior, pior
é o mau vinho
e a cirrose
O pior, pior
é que dá volta à cabeça

Bebo, bebo pouco
para que nada de mal (nos) aconteça

Boa?

Cantinho da Gaiata disse...

Antes de mais as melhoras amiga Elvira.
Mas um conto que embora seja triste é a realidade ainda nos nossos tempos.
Todas as relações deviam ser de felicidade e não de tristeza.
Bj no coração.

Pedro Coimbra disse...

O álcool deu cabo da vida a muitos portugueses.
Que achavam que homem que é homem tem que beber.
E muito, de preferência.
Bfds, as melhoras

Roaquim Rosa disse...

bom dia
o que muitas mulheres sofriam e ainda sofrem , e o pior são os filhos que por vezes ao assistirem á violência dos pais se tornam também violentos.
desejo-lhe as melhoras.
JAFR

Mar Arável disse...

... e já é tanto

lagartinha disse...

Muito mais eficaz este conto, do que inúmeras notícias de violência física. Essa, vê-se, mas, uma vida assim, deve ser terrível!
A Elvira tem uma enorme capacidade de, nos seus contos, nos despertar empatia.
Ainda bem que numa sexta-feira, apanhei um Sexta-feira que continua actual.
Um excelente 2018, cheio de saúde e bem estar a todos os níveis.
Beijinhos e até breve

A Nossa Travessa disse...

Querida Elvirinhamiga

Que pena que tenhas acabado com o "folhetim". Mas outro de certeza se seguirá...

Qjs + Feliz Natal + Excelente Ano Novo + óptimo da de Reis! Di sempre teu amigo
Henrique, o Leãozão


tenho forçosamente de te explicar o motivo da minha longa ausência: Tive uma recaída da bipolar durante quase um ano e começada em Goa! tenho um irão com um cancro em fase terminal! Eu próprio Há cindo dias baixei ao Hospital de Santa Maria com uma pneumonia agravada. Resultado. estive lá oito dias até que me deram alta. Arreporra que é demais

Olinda Melo disse...


Vida triste que se prolongou no tempo. Talvez,
histórias que se repetem vezes sem conta na
vida real. Muitas vezes falta a coragem em
devido tempo. Depois, parece já não haver
solução.

Bj

Olinda

Olinda Melo disse...


Desejo-lhe boas melhoras.

Abraço

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