14.12.16

O PRESENTE DE NATAL ESPECIAL



Faz todo o bem que puderes, usando todos os meios que puderes,
de todas as formas que puderes…durante o maior tempo que puderes.
John W. Desley


Através da montra da drogaria onde ambos trabalhávamos como assistentes de gerência, conseguia ver que Lamar aguardava ansiosamente a minha chegada. Tínhamos acordado no mês de novembro anterior que ele trabalharia no dia de Natal e eu no dia de Ano Novo.
O tempo que fazia era típico de Memphis nesta altura do ano. Lamar e eu tínhamos sempre esperanças de ver um Natal branco, mas este estava a desenrolar-se exatamente como os dos últimos vinte anos: frio, enevoado, sem um único floco de neve à vista.
Quando me apressei a entrar no calor da loja, Lamar pareceu aliviado.
— O dia foi difícil? — perguntei.
Gesticulando na direção da caixa central, resmungou:
— Ontem chegámos a ter filas de quinze pessoas. Nunca tinha visto tanta gente a tentar comprar pilhas e películas fotográficas ao mesmo tempo. Suponho que é uma das alegrias de trabalhar no dia de Natal.
— O que queres que faça hoje? — perguntei.
— Acho que o movimento vai acalmar por volta das seis da tarde. A noite a seguir ao Natal é sempre muito parada. Talvez pudesses pôr em ordem toda a secção de brinquedos.
E, dito isto, inclinou-se para pegar num animal de peluche.
Aquele pequeno cão de peluche tinha-se tornado a nossa mascote. Parecia que estávamos sempre a apanhá-lo do chão. Cinco, talvez dez vezes por dia. Nunca tinha sido um brinquedo bonito e agora era-o ainda menos: o pelo longo e felpudo tinha-se tornado emaranhado e sujo, por causa da poeira do chão e da sujidade das mãos das crianças que lhe tinham pegado, enquanto as mães aviavam as receitas. O brinquedo já tinha baixado de preço muitas vezes, sem sucesso. Naquele mundo de bonecos brilhantes e mágicos, um pequeno cão de pelo sujo não era um brinquedo de eleição. No entanto, todos os miúdos de Memphis devem ter apertado aquele cachorrinho pelo menos uma vez naquele Natal.
A tarde passou-se rapidamente entre devoluções, trocas e vendas de decorações de Natal (com 50 por cento de desconto). Contudo, às seis horas, tal como Lamar tinha previsto, o negócio diminuiu e fui trabalhar para a secção dos brinquedos. O primeiro brinquedo que me veio parar à mão foi, evidentemente, aquele cãozinho peludo de orelhas cabisbaixas. Comecei por pô-lo no lixo e retirá-lo do inventário, mas mudei de ideias e coloquei-o de novo na prateleira. Por razões sentimentais, suponho. De repente, uma voz interrompeu as minhas divagações.
— Desculpe, é o gerente?
Virei-me e vi uma mulher jovem e franzina com um rapazinho de cinco anos junto dela.
— Sou assistente da gerência — disse. — Em que posso ajudá-la?
A mulher baixou os olhos por um momento, depois levantou o queixo e disse num tom de voz áspero:
— O meu filho não teve Natal. Tinha esperanças de que agora tivessem alguma coisa com desconto, algo que eu pudesse pagar.
Confesso que encarava com cinismo os ocasionais pedidos de moedas dos sem-abrigo, mas a voz dela continha um tal misto de sinceridade e mágoa por ser obrigada a fazer aquela pergunta que eu disse:
— Estou agora mesmo a remarcar os brinquedos com o desconto. O que procura?
O rosto da mulher iluminou-se, como se tivesse finalmente encontrado alguém disposto a ouvi-la:
— Não tenho muito dinheiro, mas gostaria de comprar ao meu filho algo de especial.
O rapaz ficou feliz ao ouvir as palavras da mãe. Dirigindo-me a ele, pedi:
— Pega no brinquedo que mais gostarias de ter neste Natal, está bem?
O menino olhou para a mãe, que acenou em concordância. Esperei, curioso por ver qual dos brinquedos mais populares daquela quadra ele iria escolher. Talvez um carro de corridas ou uma bola de basquetebol. Porém, em vez disso, dirigiu-se ao cão velho e peludo e apertou-o com força. Fiz de conta que estava a afastar o cabelo da frente dos olhos, enquanto limpava uma lágrima.
— Quanto custa aquele cão? — perguntou a mãe, abrindo o fecho de um pequeno porta-moedas preto.
— Não custa nada — disse eu. — Até me faz um grande favor se o levar.
— Mas eu quero pagar a prenda de Natal do meu filho — insistiu ela.
— É um dólar — disse eu.
Tirou da carteira uma nota amarrotada e estendeu-ma. Depois virou-se para o filho e disse:
— Agora podes levar o cãozinho para casa. É teu.
Uma vez mais, disfarcei a minha comoção, enquanto o rapazinho sorria, extático. A mãe sorriu também e murmurou um silencioso “Obrigada”, enquanto saíam da loja.
Através da janela, vi-os embrenhar-se na noite que começava a cair em Memphis. Ainda não se via um único floco de neve, mas, quando voltei para o corredor dos brinquedos, percebi que tinha acabado de viver um Natal branco.
Harrison Kelly


14 comentários:

Roaquim Rosa disse...

bom dia
mais um lindo conto, nada melhor para começar o dia.
obrigado
JAFR

Isa Sá disse...

Um pensamento para refletir e por em prática...fazer o bem nunca é demais..

Isabel Sá
Brilhos da Moda

Tintinaine disse...

Espectacular conto de Natal!!!
Encheu-me as medidas!!!

Os olhares da Gracinha! disse...

O conto é lindo!
O pensamento brilhante!
O olhar ternurento...bj

Bell disse...

Gostei amiga!!

bjokas =)

Majo Dutra disse...

Muito interessante, Elvira.
Mereceu este destaque.
Abraço afetuoso.
~~~~~~~~

Edumanes disse...

Mãe e filho sorriam de contentes,
nas mãos com um cãozinho brinquedo
com olhos, de alegria, reluzentes
enquanto a neve branqueava o arvoredo!

Tenha uma boa tarde amiga Elvira, um abraço,
Eduardo.

António Querido disse...

Bonito e emocionante, quantos meninos andam por aí olhando para as montras à procura do seu brinquedo de Natal, as mães olham para o porta-moedas, mas não têm moedas suficientes para os comprar, enquanto outros rezam para que as guerras terminem e ainda outros...

O meu abraço.

Prata da casa disse...

Um maravilhoso conto de natal. Adorei!
Bjn
Márcia

O meu pensamento viaja disse...

Gostei muito!
Beijinhos

Pedro Coimbra disse...

Isto é o que se chama oferecer um amigo.
Um abraço

Odete Ferreira disse...

Assim é que é Natal!
😁💓

maria disse...

Muito bonito!

Duarte disse...

E tão especial, o momento o justifica: são as coisas que tem o Natal.
Cá em casa desejamos, e queremos, que continues bem e para isso aqui vai um grande abraço de amizade.
Boas entradas para um magnifico 2017