22.12.16

UM PRESENTE INESPERADO


Chovera toda a noite. As ruas eram autênticas ribeiras, arrastando na enxurrada toda a espécie de detritos. Os carros passando a alta velocidade espalhavam, indiferentes, água suja sobre os transeuntes, molhando-os, sujando-os.
    O Tonito seguia também naquela onda humana, sem destino. Tinha-se escapulido da barraca, onde vivia. Os pais tinham saído cedo para o trabalho, ainda ele dormia, os irmãos ficaram por lá brincando, chapinhando na lama que rodeava a barraca. Ele desceu à cidade, onde tudo o deslumbrava. Todo aquele movimento irregular, caótico, frenético. Os automóveis em correrias loucas, as gentes apressadas nos seus afazeres. E lá seguia pequenino, entre a multidão, numa cidade impávida, indiferente, cruel mesmo. Passava em frente às pastelarias, olhava para as montras recheadas de doçuras, ele comera de manhã um bocado de pão duro e bebera um copo de água. Vinha-lhe o aroma agradável dos bolos, o seu pequeno estômago doía-lhe com fome! Chovia agora mansamente, uma chuva gelada, levando uma cidade onde se cruzavam o fausto, a vaidade, o ter tudo, os embrulhos enfeitados das prendas, com a dor a melancolia, o sofrimento, o ter nada e no meio uma criança triste e com fome!
    Mas o Tonito gostava era de ver as lojas dos brinquedos. Lá estavam os carros de corrida, o comboio, os bonecos, enfim todo um mundo maravilhoso que ele vivia, esborrachando o nariz sujo contra a montra. Lá dentro ia grande azáfama nas compras de Natal. E os carros de corrida, o comboio, os bonecos eram embrulhados em papeis bonitos para irem fazer a alegria de outros meninos. Uma lágrima descia, marcando-lhe um sulco na sujidade da carita. Eis que os seus olhos reparam num menino, que de lá dentro o olhava. Desviou-se envergonhado. Não gostava que o vissem chorar. E afastou-se devagar, pensando nos meninos que tinham Natal, guloseimas e carros de corrida para brincar. Ele nada tinha, além da fome e a ânsia de ser feliz e viver como os outros. Pensou no Natal, no Menino Jesus, que diziam que era amigo das crianças a quem dá tudo. Por que é que a ele o Jesus Pequenino do presépio nada dava?
De repente, uma mãozinha tocou-lhe no ombro.
    Voltou-se assustado. Era o menino da loja que lhe metia na mão um embrulho bonito. À frente a mãe, carregada de embrulhos, fazia de conta que nada via. Abriu-o e deslumbrado viu um carro de corridas, encarnado, brilhante, como os olhos do menino que lá ao longe lhe acenava. Ficou um momento sem saber o que fazer, mas depois largou a correr, mostrando bem alto a sua prenda de Natal.
    Parara de chover. O sol tentava romper as nuvens escuras, lançando um raio de luz brilhante e quente sobre o Tonito, que ria feliz, numa carita sulcada pelas lágrimas.


DAQUI


A TODOS OS QUE POR AQUI PASSEM DESEJO UM SANTO E FELIZ NATAL. A PARTIR DE HOJE,  AS POSTAGENS SAIRÃO PORQUE ESTÃO PROGRAMADAS, MAS NÃO VISITAREI NINGUÉM POIS NÃO LEVO COMPUTADOR.

12 comentários:

luisa disse...

Um bonito conto de natal, Elvira.
Boas Festas também para si. :)

Francisco Manuel Carrajola Oliveira disse...

Um belo conto e aproveito para renovar os votos de um Santo e Feliz Natal.
Andarilhar

Luis Eme disse...

O Natal cheira a felicidade, pelo menos para os mais pequenos, Elvira. :)

Feliz Natal e um 2017 cheio de inspiração, amor e saúde.

Mariazita disse...

Um conto comovente que nos faz ter esperança, apesar de tudo, num mundo melhor.

Festas Natalícias muito felizes, com Alegria, Paz e Amor.

Continuação de boa semana.
Beijinhos
MARIAZITA / A CASA DA MARIQUINHAS

Prata da casa disse...

Um belo conto de Natal.
Bjn
Márcia

Graça Sampaio disse...

Bonita história de amor, Elvira. Daquelas que já não há... Mas em que queremos muito acreditar para consolo das nossas almas.

Bom Natal, amiga!!

Jaime Portela disse...

E há tantas crianças sem Natal...
Uma história comovente, que nos faz pensar.
O meus votos de um FELIZ NATAL e de um BOM ANO NOVO, querida amiga Elvira.
E boas férias.
Beijo.

Roaquim Rosa disse...

mais uma linda historia de natal.
todos os anos eu me lembro do mesmo
NATAL É EM DEZEMBRO
MAS EM MAIO PODE SER
NATAL É EM SETEMBRO
É QUANDO O HOMEN QUIZER
NATAL É SEMPRE O FRUTO
QUE HÁ NO VENTRE DA MULHER
O NATAL SÓ PODE SER
MELHOR DO QUE ATÉ AQUI
QUANDO CONSEGUIRES FAZER
MAIS PELOS OUTROS QUE POR TI

JAFR

Odete Ferreira disse...

Um conto que nos sacode a tranquilidade de quem pode ter um natal...
Uma quadra harmoniosa e a esperança sempre presente para 2017, são os meus votos.
Não sei até quando poderei estar presente nas tuas postagens. O nosso menino está para chegar a qualquer momento.
Bjo, amiga

Isa Sá disse...

Boas féria e um Feliz Natal!

Isabel Sá
Brilhos da Moda

Tintinaine disse...

Feliz do Tonito que teve a visita do menino e a correspondente prendinha! É assim o Natal!

Edumanes disse...

Não estou enganado,
recebeu de presente
um carro encarnado
Tonito ficou contente!

Continuação de boas festas amiga Elvira, um abraço,
Eduardo.