23.12.16

UMA HISTÓRIA DE NATAL

conto reeditado

Era uma vez um burro. Velho e cansado como todos os burros que viveram  anos e anos, dia após dia, sempre carregando no lombo, pesadas cargas. Agora, no fim da vida, ele só esperava que o seu dono o deixasse morrer em paz. Mas parecia-lhe que não era essa a intenção do seu dono, quando nessa manhã de Inverno o levou para a feira. O burro, que não era tão burro quanto o seu nome dizia, percebeu que o dono, a quem servira toda a vida, se ia desfazer dele, porque achava que não tinha mais préstimo.  E embora ele reconhecesse que até já não tinha forças para grande coisa, doía-lhe a ingratidão do dono. 
Esperaram por mais de três horas na feira. De vez em quando aparecia alguém que parecia interessado no burro, mas ao analisá-lo de perto concluía que era demasiado velho para o que precisavam, e depressa se desinteressavam. 
Um dos que se aproximaram para o ver, dissera mesmo ao dono. "Está velho. Já não tem préstimo. Devia abatê-lo"
O velho burro estremeceu de terror. E pensou que os homens eram animais perigosos. Serviam-se dos outros animais, enquanto eles podiam, executar por si as tarefas mais difíceis, e quando estavam velhos, matavam-nos. Pensou se eles fariam o mesmo aos da sua espécie. Mandariam abatê-los quando estavam velhos?
Ao findar do dia, quando o dono se preparava para fazer o regresso, e o pobre burro, não pensava noutra coisa que não fosse a frase cruel ouvida de manhã, sem conseguir descortinar no seu dono se era ou não isso que ele ia fazer, um homem alto e magro de ar calmo e bondoso aproximou-se do burro e do seu dono.
Examinou-o e perguntou o preço. 
-Muito alto para um burro velho, -disse.
Voltou a examinar o burro. Passou-lhe a mão pelo lombo. O burro estremeceu. Sentiu os calos na mão do homem, e no entanto aquela mão, transmitiu-lhe uma tal doçura, que o pobre do burro não habituado a isso, ficou maravilhado.  Ah! Se ele soubesse rezar, decerto teria rogado ao Deus do homem,  para que ele  o comprasse, de tal forma o desejou. Mas ele era apenas um burro.
-Dou-lhe metade, -disse o homem
O dono regateou. E o homem virou costas decidido a partir. O burro ficou triste. Tão triste, que uma lágrima turvou o seu olhar cansado.  Mas então o dono, perdida já a esperança de melhor preço, chamou o homem.
Este voltou atrás e fez a compra.
O homem pegou o burro pela arreata, e dirigiu-se para casa. Pelo caminho falou como se soubesse que o burro o entendia:
-Estás velho amigo. Vamos a ver se consegues ajudar-nos.  Para te ser sincero, preferia um animal mais novo. Mas não vi nenhum. E ainda que visse, talvez não tivesse dinheiro suficiente para o comprar. Espero que dês conta do recado e nos ajudes na viagem.
A palavra viagem, não agradou ao velho burro, que  já se sentia fraco das patas. Mas entre uma viagem e a morte,  que decerto o esperava na volta para casa do seu antigo dono, a escolha era óbvia. 
Relinchou tentando dar ao novo dono, uma confiança de que ele próprio duvidava.
Nessa noite, foi o burro muito bem tratado, em palavras, e ração, pelo que adormeceu feliz da vida.
Na manhã seguinte, eis que o homem se apresenta com a esposa, e uma carga que lhe põe no lombo, e os três empreendem a tal viagem. De vez em quando, o burro olhava a mulher, que se apresentava em adiantado estado de gravidez, e pensava que ela não ia aguentar muito tempo a caminhada. Em breve teria que a carregar.  Temia não ter forças para isso.
A meio do dia, fizeram uma pausa.  Tiraram-lhe a carga e deixaram-no livre, para que pastasse algumas ervas que por ali espreitavam entre o gelo do inverno, enquanto o casal se sentava sobre um pedaço de rocha e comia alguma coisa. 
Pouco tempo depois, o homem pegou o burro pela arreata e levou-o até junto da mulher que se mostrava visivelmente cansada. O burro percebeu que tinha chegado o momento tão temido. E se ele não fosse capaz de levar a mulher? Que seria do casal, perdido no descampado ermo, em pleno inverno?
O homem ajudou a mulher a montar e pegando na carga até aí transportada pelo burro colocou-a às costas e os três recomeçaram a viagem.
Mal retomaram a marcha, o velho burro abriu ainda mais os seus grandes olhos, espantado. Que milagre era aquele? Porque não sentia qualquer peso no lombo?  Será que a pobre mulher tinha caído? No seu estado? Virou a cabeça, para constatar que ela seguia bem sentada no seu lombo.
Então porque ele não sentia qualquer peso? Seguia sem esforço, caminhando melhor que nos anos da sua juventude. E assim seguiram os três até que à noitinha chegaram à cidade. O burro reconhecia aquela cidade. Várias vezes lá fora com o antigo dono. Até já ficara num estábulo numa daquelas ruas, uma vez que o dono pernoitara na cidade. Por isso, quando depois de percorrerem várias estalagens, não encontraram lugar para pernoitar, e o casal já desanimava,  o burro, ansioso por mostrar a sua gratidão ao casal, tomou o rumo do estábulo que ele conhecia bem.

Maria Elvira Carvalho

Feliz Natal para vós. O meu este ano está cheio de tristeza.Há dois meses perdi o cunhado e hoje partiu a irmã dele, que  não sendo familiar direta é amiga de há mais de 50 anos

13 comentários:

Tintinaine disse...

São os milagres de Natal!
Acho que já tinha lido, mas gostei de relembrar!

Rui Pires - Olhar d'Ouro disse...

🎄🎅FELIZ NATAL🎄🎅

Ana S. disse...

Feliz Natal Elvira. O meu também não vai ser lá essas coisas mas há piores...
Âbraço!

Roaquim Rosa disse...

Boa noite
li há muito pouco tempo uma historia um pouco parecida com esta que tinha por titulo " O PRESENTE DE ASINUS " . era muito mais cumprida mas basicamente a ideia era a mesma.
UM FELIZ NATAL PARA TODOS
JAFR

Lilá(s) disse...

As luzes cada vez mais brilham nas ruas...
Que este Natal a maior luz brilhe dentro de cada coração.
Desejo-te um Natal cheio Paz e Alegria , Saúde e Amor
Bjs

rosa-branca disse...

Amiga Elvira, é sempre agradável de ler. Adorei. Querida amiga, passei, para lhe desejar um Natal muito Feliz, com muita saúde, paz e muito amor, junto de quem mais ama. Beijos muito carinho

AC disse...

Um belo conto, Elvira!
Feliz Natal, para ti e para os teus, recheado de esperança e saúde, muuuita saúde!

José Lopes disse...

Uma breve passagem para desejar um Feliz Natal, dentro do possível, com saúde e em boa companhia.
Cumps

Bia Hain disse...

Olá, Elvira, gostei muito do conto, embora tenha ficado triste com as perdas recentes! Que seu coração tenha conforto e muita luz nesse Natal! Sinta-se abraçada, viu?

Olinda Melo disse...


Cara Elvira

Muito obrigada pelos seus cuidados. Na verdade, fui fazer uma viagem de quase 20 dias. Entretanto, postei uma imagem, da net por ainda não ter editado as fotos, perguntando por onde teria eu andado. A pergunta ainda está em aberto ... :)

Os meus pêsames pelo desaparecimento dos seus familiares. Eu também perdi agora uma prima muito querida.

Desejo-lhe um Natal abençoado com muita saúde.

Beijinhos

Olinda

redonda disse...

Feliz Natal!
um beijinho
Gábi

Prata da casa disse...

Adorei o conto Elvira.
Lamento a sua perda. Que o próximo ano seja mais suave e alegre.
Bj
Márcia

Magia da Inês disse...

✧ه° ·.

Que o menino Jesus faça morada no seu coração
em todos os dias de 2017!

FELIZ NATAL!!!
FELIZ ANO NOVO!!!